Símbolos-A

A

Dicionário de Símbolos Letra A

Dicionário de Símbolos Letra A

 

ABELHA
Inumeráveis, organizadas, laboriosas, disciplinadas, infatigáveis, as abelhas não seriam diferentes das formigas, como elas símbolos das massas submetidas à inexorabilidade do destino – homem ou deus – que as acorrenta, se, além disso, não tivessem asas e canto, e não sublimassem em mel= imortal o frágil perfume das flores. É quanto basta para conferir um alto alcance espiritual, juntamente com o temporal, ao seu simbolismo. Operárias da colmeia”, esta casa tão barulhenta que mais naturalmente se compara a um alegre atelier do que a uma fábrica sombria, as abelhas asseguram a perenidade da espécie; mas também, quando tomadas individualmente, como animadoras do universo entre a terra e o céu, podem simbolizar o princípio vital, materializar a alma. É este seu duplo aspecto – colectivo e individual, temporal e espiritual – que constitui a riqueza do seu complexo simbolismo, onde quer que seja testemunhado. Ao comentar Provérbios, 6, 8: Vai observar a abelha e aprende como ela é laboriosa, São Clemente de Alexandria acrescenta: Porque a abelha liba as flores dum prado inteiro para com elas fabricar um só mel (Stromata, 1). Imitai a prudência das abelhas, recomenda Teolepto de Filadélfia, e cita-as como exemplo na vida espiritual das comunidades monásticas.

Para os nosairitas, heresiarcas muçulmanos da Síria, Ali, leão de Alá, é o príncipe das abelhas, as quais, segundo algumas versões, seriam os anjos e, segundo outras, os crentes: os verdadeiros crentes parecem-se com as abelhas, que escolhem para si as melhores flores (HUAN, 62).

Na linguagem metafórica dos dervixes Bektachi, a abelha representa o dcrvixe, e o mel é a divina realidade (o Hak) que ele procura (BIRD, 255). Do mesmo modo, em certos textos da Índia, a abelha representa o espírito que embriaga com o pólen do conhecimento.

Personagem de fábula para os Sudaneses e para os habitantes do arco do Níger, ela já era um símbolo da realeza na Caldeia, muito antes de ser glorificada pelo Primeiro Império francês. Este simbolismo real ou imperial é solar, como o atesta o antigo Egipto, por um lado associando-o ao raio, por outro afirmando que a abelha teria nascido das lágrimas de Rá, o deus solar, ao caírem sobre a terra.

Símbolo da alma, a abelha é por vezes identificada com Deméter na religião grega, onde pode representar a alma descida aos infernos; ou então, pelo contrário, materializa a alma a sair do corpo. Encontramo-la em Caxemira e em Bengala, e em numerosas tradições índias da América do Sul, bem como na Ásia central e na Sibéria. Por último, Platão afirma que as almas dos homens sóbrios reencarnam sob a forma de abelha. Representação da alma e do verbo – em hebraico, o nome da abelha, Dbure, vem da raiz Dbr, palavra – é normal que a abelha desempenhe também um papel iniciático e litúrgico, Em Elêusis e Éfeso, as sacerdotisas são chamadas abelhas. Virgílio exaltou as suas virtudes.

Encontramo-las representadas nos túmulos, como sinais de sobrevivência no além-morte, pois a abelha torna-se símbolo de ressurreição. A estação do Inverno (três meses), durante a qual parece desaparecer, pois não sai da sua colmeia, é comparada ao tempo (três dias) durante o qual o corpo de Cristo fica invisível, após a sua morte, antes de reaparecer ressuscitado.

A abelha simboliza ainda a eloquência, a poesia e a inteligência. A lenda sobre Píndaro e Platão (umas abelhas teriam pousado nos lábios de ambos ainda no berço) repete-se em relação a Ambrósio de Milão; as abelhas roçam-lhe os lábios e penetram na sua boca. A ideia de Virgílio, segundo a qual as abelhas contêm uma parcela da Inteligência divina, continuava viva entre os cristãos da Idade Média. Reencontramos aqui o valor simbólico do zumbido, verdadeiro canto da abelha. Um sacramentário gelasiano faz alusão às qualidades extraordinárias das abelhas que sugam o pólen das flores roçando- as sem lhes tirar o viço. Elas não dão à luz; graças ao trabalho dos seus lábios tornam-se mães; assim também Cristo procede da boca do Pai.

Por causa do seu mel e do seu ferrão, a abelha é considerada o emblema de Cristo: por um lado, a sua doçura e a sua misericórdia, por outro, o exercício da sua justiça como Cristo-juiz. Os autores da Idade Média evocam frequentemente esta figura; para Bcrnardo de Claraval, simboliza o Espírito Santo. Os Celtas recobravam as forças com um vinho com mel e com hidromel. A abelha, cujo mel era utilizado para fazer o hidromel ou licor da imortalidade, era objecto, na Irlanda, duma estreita vigilância legal. Um texto jurídico gaélico medieval diz que a nobreza das abelhas vem do paraíso e foi por causa do pecado do homem que elas saíram de lá; Deus derramou a sua graça sobre elas e é por causa disso que não se pode celebrar a missa sem a cera*. Apesar de se tratar dum texto tardio e de inspiração cristã, confirma uma tradição muito antiga em que o vocabulário apresenta ainda traços (o termo galês cwyraidd, de cwyr, cera, significa perfeito, concluído, e o irlandês moderno céir-bheach, literalmente cera de abelha, designa também a perfeição). O simbolismo da abelha evoca, pois, entre os Celtas como noutros lugares, as noções de sabedoria e de imortalidade da alma (CHAB, 857s.; REVC, 47, 164-165).

O conjunto de características extraídas de todas as tradições culturais denota que a abelha aparece por toda a parte dotada essencialmente de uma natureza ígnea, um ser de fogo. Representa as sacerdotisas do Templo, as Pitonisas, as almas puras dos iniciados, o Espírito, a Palavra; purifica pelo fogo e nutre com o mel”; queima com o seu ferrão e ilumina com o seu brilho. No plano social, simboliza o senhor da ordem e da prosperidade, rei ou imperador, bem como o entusiasmo bélico e a coragem. Aparenta-se aos heróis civilizadores que estabelecem a harmonia pela sabedoria e pelo gládio.

ABELHA-PEDREIRA (ver Vespão)

ABETARDA
Grande ave pernalta que se encontra frequentemente acompanhada de duas ou três fêmeas. Simboliza, em África, a família poligâmica. Nunca se afastando da terra, nem se elevando nos ares, a abetarda significa, na sabedoria popular, a criança que não sai do colo de sua mãe, que nunca se torna maior, nem mesmo adulto. Por outro lado, não é facilmente surpreendida pelos caçadores, que têm o costume de dizer: Eu sou uma abetarda, eu, já que ninguém me apanha. Ave fabulosa que despreza o caçador de quem escapa.

Nocturnamente, simboliza o mundo temporal. As cristas de penas finas do macho não passam de adornos efémeros; o mundo parece-se com esta ave que se mantém num pé só, que bate as asas e que é impossível apanhar. Diurnamente, evoca a captura impossível, pela qual os homens lutam entre si, ferindo-se e acabando por se matar uns aos outros: É melhor, diz a sabedoria fula, partir sem pesar desta terra que rola e esmaga os que abetardaquerem dominá-la (RAMK, 14,62).

A abetarda é representada, na África, por uma pegada de pássaro, simples (ver do lado direito imagem 1), ou dupla (imagem 2). A abetarda seria o símbolo, no casamento, da união das almas e da fecundidade, da descida das almas à matéria. Se se conseguir ler a marca da abetarda na cinza espalhada em volta do leito dum defunto, é porque a alma, por fim liberta, empreendeu o seu voo. As duas shin abraçadas da abetarda sublinham o seu papel de intermediário entre a terra e o céu; representam também a árvore*, igualmente desabrochada no mundo de cima pelas suas folhas, e no mundo de baixo pelas suas raizes. Por último, esta ave migradora pode simbolizar a aventura da alma humana (SERR,74-76).

ABISMO
Abismo, tanto em grego como em latim, designa aquilo que é sem funda, o mundo das profundezas ou das alturas indefinidas. Nos textos apócrifos, simboliza globalmente os estados informais da existência. Aplica-se também quer ao caos tenebroso das origens quer às trevas infernais dos últimos dias. No plano psicológico, igualmente, corresponde tanto à indeterminação da infância quanto à indiferenciação do fim, decomposição da pessoa. Mas pode também indicar a integração suprema na união mística. A vertical já não se contenta com afundar-se, eleva-se: há um abismo das alturas como há das profundezas; um abismo de felicidade e de luz, como também de infelicidade e trevas. Mas o sentido de elevação apareceu posteriormente ao de descida. Na tradição suméria, a morada do senhor do mundo flutua sobre o abismo: O Senhor do abismo, o  simboliza globalmente os estados informais da existência. Aplica-se também quer ao caos tenebroso das origens quer às trevas infernais dos últimos dias. No plano psicológico, igualmente, corresponde tanto à indeterminação da infância quanto à indiferenciação do fim, decomposição da pessoa. Mas pode também indicar a integração suprema na união mística. A vertical já não se contenta com afundar-se, eleva-se: há um abismo das alturas como há das profundezas; um abismo de felicidade e de luz, como também de infelicidade e trevas. Mas o sentido de elevação apareceu posteriormente ao de descida.

Na tradição suméria, a morada do senhor do mundo flutua sobre o abismo: O Senhor do abismo:

O Senhor do abismo, o mestre, Enki,
Enki, o senhor que decide sobre os destinos …
Instalou para sempre um templo sobre
o abismo.
…Ó templo, cujo recinto encerra o abismo

(SOUN,97).

Para os Acádíos, é Tiamat quem coloca os monstros à entrada do abismo:

A mãe Abismo que forma todas as coisas
Fez, além disso, armas irresistíveis:
Deu à luz serpentes monstruosas,
De dentes afiados, de mandíbulas
impiedosas

(SOUN, 136).

Também na Bíblia o abismo será por vezes concebido como um monstro *, o Leviatã*

Porém, no Salmo 104, o abismo é comparado a uma veste que envolve a Terra, ao passo que Javé é vestido de luz como de um manto.

O abismo intervém em todas as cosmogonias, como génese e termo da evolução universal. Este último, tal como os monstros mitológicos, devora os seres para depois os vomitar transformados.

As profundezas abissais evocam o país dos mortos e, portanto, o culto da Grande Mãe Ctnoniana. E, sem dúvida, sobre esta antiga base cultural que se apoia C. G. Jung quando liga o simbolismo do abismo ao arquétipo maternal, imagem da mãe” amante e terrível. Nos sonhos”, fascinante e medonho, o abismo evocará o imenso epoderoso inconsciente; aparecerá como um convite para explorar as profundezas da alma, para a libertar dos fantasmas ou soltar-lhe as amarras.

ABLUÇÃO
Na Ilíada (1, 450), lavar as mãos é um gesto de purificação ritual. Como em todas as religiões, procede- se a tais abluçõcs antes dos sacrifícios. As abluções rituais são um símbolo de purificação através da água*. Etimologicamente: limpam-nos da lama que nos cobre.

No Evangelho, lavar as mãos, para Pilatos, será declarar-se e tornar-se, pensa ele, puro de toda a mano cha e responsabilidade, numa decisão jurídica duvidosa e com as suas consequências terríveis. Um gesto destes simboliza uma recusa de responsabilidades mas não a legitima.

Nos hinos homéricos, surge a ideia de que a ablução não é suficiente para lavar a consciência das faltas morais; a pureza de alma é uma coisa muito diferente da limpeza da pele; esta é apenas o símbolo daquela: quanto ao malvado, nem todo o Oceano apagaria as manchas da sua alma.

Nos textos irlandeses faz-se frequentemente menção de um rei ou soberano que se vai lavar de manhã a uma fonte ou a uma nascente. Estas abluções estão ligadas ao exercício da função de soberano, e é possível que dependam do simbolismo geral da fonte* (CELT, 15,328).

Com as abluções são assimiladas as virtudes da fonte: as diversas propriedades das águas comunicam- -se àquele que as utiliza; elas purificam, estimulam, curam, fecundam. A ablução é um meio de o homem se apropriar da força invisível das águas.

ABÓBADA
Símbolo do céu. As abóbadas dos templos, dos mausoléus, das grandes mesquitas, dos baptistérios, das salas funerárias, das cúpulas, são muitas vezes cravejadas ou ornadas de imagens celestes, anjos, astros, aves, carros solares, etc. Estas decorações entram em composição com o resto do edifício para representar tudo o que é celeste no conjunto cósmico. Repousam, quase sempre, numa base quadrada. Esta aliança das linhas curvas do cimo e das rectas da base simboliza a união do céu e da terra.

Abóbada da Capela Sistina, uma das mais famosas

Abóbada da Capela Sistina, uma das mais famosas

ABÓBORA (Cabaça*)
Belo exemplo da ambivalêncía dos símbolos: se estas familiares cucurbitáceas são associadas por nós à estupidez, as suas sementes são, em certas sociedades africanas, eonsumidas como símbolo da inteligência: realmente a abóbora é aquilo que fica quando as sementes são tiradas… Se temos também tendência para fazer com as cabaças ornamentos inúteis, esta é uma perspectiva que nunca escapa aos Chineses: Serei uma cabaça que terá de ficar pendurada sem que ninguém a coma?, pode ler-se no Luan-yu. O Extremo Oriente oferece-nos, no entanto, sobre este tema, uma gama de símbolos muito rica.

A abóbora, por causa das suas inúmeras pevides, é, com o mesmo direito e pela mesma razão que a cidra, a laranja, a melancia, um símbolo da abundância e da fecundidade. A maioria das populações do norte do Laos e os do resto do país nasceu de abóboras saídas do rebento axial do mundo. Mas, autênticas cornucôpias, as abóboras celestes dos Táis continham não só todas as espécies humanas, como também todas as variedades de arroz, bem como os manuais das ciências secretas, Fonte da vida, a abóbora é também o símbolo da regeneração, e é por isso que para os Taoístas ela é um símbolo e um alimento de imortalidade. Foi graças a uma abóbora que o antepassado mítico dos Chineses, Pan-ku (ou Fu-hi e Niu-Kua) foi salvo do dilúvio. Aliás, pode ser até que o próprio Pan-ku tenha sido uma abóbora. As abóboras crescem nas ilhas dos Imortais, mas elas permitem também alcançá- las, ou ascender ao céu. Compreende-se, pois, porque é que as sementes de abóbora são consumidas, como alimento de imortalidade, no equinócio da Primavera, que é a época da renovação, do início da preeminência do yang. E por que motivo as cabaças são colocadas sobre os portais de entrada das lojas das sociedades secretas: sinal de regeneração espiritual, de acesso à morada da imortalidade.

As abóboras maravilhosas encontram-se também nas grutas, mas elas próprias são grutas e, por conseguinte, partilham do seu simbolismo cósmico: o Céu em forma de abóbora, espontaneamente descoberto pelo Sábio no interior de si mesmo, é a cavernas do coração. O microcosmos em forma de abóbora é também a dupla esfera, ou os dois cones opostos pelo vértice, formas do cadinho dos alquimistase do monte Kuan-luan: todos são, em suma, cabaças; e o cadinho é, tal como a cabaça, o recipiente que contém o Elixir da Vida. Note-se ainda que, na China antiga, o rito da bebida comunial efectuava-se, durante os festins nupciais, com a ajuda de duas metades de cabaça, representando com toda a evidência as duas metades diferenciadas da unidade primeira. Na língua vietnamita, a cabaça serve para designar a forma da Terra. Em compensação, é difícil justificar a ideia de longevidade associada à abóbora, para lá das razões invocadas anteriormente, ainda que a perenidade da cabaça seca pareça ser uma explicação suficiente (CADV, FRAL, KALL).

ABÓBORA-MENINA (ver Abóbora)

ABRAÃO
Patriarca bíblico vindo da Mesopotâmia, na terra de Canaã, no reinado de Hamurábí, no início do segundo milénio antes de Cristo, por volta de 1850. Habitante de Ur, na Caldeia, recebeu de Deus a ordem para abandonar a sua pátria e partir para um país desconhecido de que Deus lhe iria indicando a direcção. Quando Abraão chegou a Canaã, Deus disse-lhe que aquele era o lugar destinado a ele e à sua descendência. De acordo com a tradição bíblica, Deus fora buscá-lo a uma região pollteísta para fazer dele o guardião da revelação e do culto monoteísta. Todo o universo conhecido caíra na idolatria. Harã e Canaã não escapavam à perversão geral. Mas Abraão estabelecer-se-ia ali como estrangeiro e a pureza da sua fé seria preservada dos contactos com os costumes e as crenças dos indígenas; devia até opor-se a eles, para preservar a unidade da família e dos servidores do Patriarca. Esta tornar-se-ia uma das constantes da história de Israel: uma perpétua reacção contra o meio corruptor. Este aspecto de estrangeiro no seu próprio país salvaguardaria a sua vocação sagrada.

Abraão simboliza o homem escolhido por Deus para preservar o repositório sagrado da fé; o homem abençoado por Deus, que lhe prodiga as promessas de uma descendência numerosa e de imensas riquezas; o homem que é predestinado a um papel universal, como um novo Adão e como o antepassado do Messias; o seu nome significará, segundo uma etimologia popular: pai da multidão. Mas, sobretudo, Abraão será o símbolo do homem de fé. Apenas com a palavra de Deus, partiu para um país que não conhecia; com a promessa de Deus, aquele que não tinha filhos e cuja mulher era estéril tomou-se o pai duma inumerável descendência; quando Deus lhe pediu que sacrificasse o seu único filho, como que em contradição com as suas promessas, Abraão dispunha-se a obedecer quando um anjo deteve o seu braço. São Paulo resumiu numa fórmula surpreendente a força desta fé: contra spem in spem credidit; que se poderia traduzir por: por uma aventura sem esperança, ele foi buscar a esperança à sua fé; ou ainda: quando já não tinha qualquer esperança, a sua fé deu-lhe a esperança; ou, em resumo: contra toda a expectativa, ele acreditou na esperança.

Do facto de ser o antepassado reconhecido pelas três religiões monoteístas, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, Abraão é também o símbolo do elo espiritual que une Judeus, Cristãos e Muçulmanos: a irmandade de Abraão.

No plano psicológico, Abraão simboliza também a necessidade do desenraizamento do meio habitual, familiar, social, profissional, para se realizar uma vocação sem paralelo e se alargar uma influência para além dos limites comuns. O gosto pela aventura e pelo risco caracteriza todos os grandes destinos. A fé em Deus é capaz de mover as montanhas. A sabedoria de Abraão inspirou-lhe a loucura (ver louco*) de ser o aventureiro de Deus.

ABRACADABRA
Esta fórmula foi utilizada durante toda a Idade Média. Era suficiente trazer em volta do pescoço esta espécie defilactério, escrito na disposição triangular que se vê aqui, para conjurar diversas doenças e curar a febre (PLAD).

ABRACADABRA
ABRACADABR
ABRACADAB
ABRACADA
ABRACAD
ABRACA
ABRAC
ABRA
ABR
AB

A Esta palavra viria do hebraico abreg ad hâbra, que significa: lança o teu raio até à morte. Em hebraico, compõe-se de nove letras. A disposição da letra alef na linha esquerda do triângulo desempenha um papel mágico pela sua presença nove vezes repetida (MARA, 48).

A disposição das letras em triângulo invertido dirige para a base as energias do alto que o talismã pretende captar. Esta figura tem, portanto, de ser vista em três dimensões: ela representa, então, um funil no qual as letras mágicas, correndo enviesadas do cimo alargado para o fundo afunilado, formam as linhas de força de um poderoso turbilhão; ai das forças do mal que ele tragar: desaparecerão para sempre, para fora do mundo diurno em direcção ao abismo de onde nada volta a sair.

A fórmula Abracadabra responde, neste espírito, às mesmas preocupações que levaram à invenção de amuletos*, talismãs ou pentáculos*. Todas estas fórmulas, das quais o Abracadabra é apenas um exemplo, se apoiam num simbolismo muito antigo. Não se fizeram até aproximações com um dos nomes de Mitra, o deus solar, sacrificador e salvador?

Tal como os amuletos*, os talismãs e os pentáculos*, procuram dar ao homem um sentimento de protecção, pondo-o em harmonia com as leis misteriosas que regem o mundo e em relação com os poderes superiores.

ABSINTO
Ao designar toda a ausência de doçura, esta planta aromática simboliza a dor, principalmente sob a forma de amargura, e em particular a dor que é provocada pela ausência.

Mas já entre os Gregos ela servia para perfumar os vinhos, e entre os Latinos, para matar a sede dos atletas. A poção era considerada um tónico.

No texto do Apocalipse, Absinto seria o nome dado a um astro flamejante como uma tocha, que simbolizava, historicamente, o rei da Babilónia que devastaria Israel e, profeticamente, Satã: …E o terceiro anjo t0cou… e caiu do céu uima grande estrela, ardendo como uma tocha; caiu sobre a terça parte dos rios e das fontes. O nome da estrela era «Absinto», Uma terça parte das águas transformou-se em absinto e morreram muitos homens, devido às águas, porque se tornaram amargas… (Apocalipse, 8,10-12).

Segundo as interpretações de exegetas cristãos, a queda da estrela Absinto seria um desses cataclismos cósmicos que serão prelúdio do Grande Dia de Deus, isto é, do fim do mundo e do Juízo Final. Esta estrela caída atormentará os habitantes da Terra com uma amargura mortal. O que há aqui de singular é que estes tormentos e estes mortos provirão das águas que se tornaram amargas. Se fizermos intervir aqui o simbolismo geral da água*, fonte primordial da vida, inclinar-nos-emos a interpretar este absinto como sendo uma calamidade que cai do céu e corrompe as próprias fontes da vida. Poder-se-à pensar em Hiroxima, ou numa explosão nuclear, que deixaria as águas mortalmente radiactivas, ou então em nitratos infiltrados nos lençóis freáticos pelo abuso de insecticidas na agricultura.

Ao nível da interioridade, e de um ponto de vista psicanalítico, talvez se possa dizer que o absinto simboliza uma perversão da pulsão genésica, uma corrupção das fontes, das águas que se tornaram amargas.

ABSTINÊNCIA
Na tradição cristã, a esta ideia de purificação pela renúncia em consumir sangue acrescenta-se a de penitência e expiação. O sangue, símbolo dos impulsos carnais, é considerado como a principal fonte do pecado; a expiação consistirá, por isso, em abster-se de beber dessa fonte, em renunciar ao pecado na sua própria origem. A vida concentrar-se-à apenas nas fontes espirituais, nas relações com o divino, o não manifesto. A abstinência, no seu duplo aspecto purificador e expiatório aparece como uma via para a inferioridade. Assim, a tradição cristã encontra-se com a tradição oriental. Entre os Japoneses, é um método de purificação que permite adquirir uma pureza positiva, evitando as fontes de poluição. E mais aos sacerdotes que aos leigos que pertence praticar este método, que consiste na observância de certas interdições: proteger-se de todo o contacto com a morte, a doença e o luto; devem também ficar em casa, longe do barulho, da dança, dos cantos, em suma, afastados de todas as actividades exteriores susceptíveis de gerar qualquer mácula. Todas estas práticas simbolizam a oposição entre o não-manifesto e a manifestação, e também a procura do não-manifesto através da concentração.

ABUTRE
O abutre-real, comedor de entranhas, é um símbolo de morte entre os Maias (METS). Mas, por se alimentar de carne podre e de imundícies, pode igualmente ser considerado como um agente regenerador das torças vitais, que estão contidas na decomposição orgânica e nos resíduos de toda a espécie, ou, melhor dizendo, como um purificador, um mago que garante o ciclo da renovação, transmutando a morte em nova vida. É isto que explica o facto de, no simbolismo cosmológico, ele ser igualmente associado aos signos de água (é o caso do calendário maia), c reger as preciosas tempestades da estação seca, garantindo assim a renovação da vegetação e tomando-se, por este facto, uma divindade da abundância. São vistos em grande número, hirtos e escuros, nas ilhas lamacentas dos grandes rios, como o Mekong, diante de cidades e de aldeias.

Estas mesmas razões associam-no ao fogo celeste, simultaneamente purificador e fecundante. Em numerosos ritos dos Indios da América do Sul, o abutre é o primeiro possuidor do fogo, que um demiurgo lhe rouba, geralmente com a ajuda do sapo (METT, LEVC). Na África Negra, entre os Bambaras, este mesmo simbolismo é levado às suas últimas consequências, no plano místico, com a classe dos iniciados abutre(CAl-IB). O abutre do Koré é o iniciado, morto para a vida profana, e que acaba de penetrar na sabedoria divina, purificado, queimado pelas provas iniciáticas. Nas saídas da confraria, aparece como um palhaço e, principalmente, como uma criança, porque realmente acaba de nascer, ou, melhor, de renascer, mas no domínio transcendental de Deus, cuja sabedoria reveste, aos olhos do profano, as aparências da loucura e da inocência. E, como uma criança, arrasta- se pelo chão e devora tudo o que encontra, incluindo até os seus próprios excrementos*: triunfou sobre a morte terrestre e tem o poder de transmutar a podridão em ouro filosofa!. Diz-se que ele é o mais rico dos seres, pois só ele conhece o ouro verdadeiro. É celebrado numa oração que diz que se a parte de cima e a parte de baixo do alimento forem iguais, é a verdade. Por último, na analogia estabelccida entre as classes de iniciados e os graus da hierarquia social, corresponde à mulher sempre parturiente. É também, portanto, tanto na Africa como na América, um símbolo de fertilidade e de abundância, em todos os planos da riqueza: vital, material e espiritual.

Em Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci (Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci), Sigmund Freud fez do abutre uma metamorfose da mãe. A deusa-abutre egípcia, Nekhbet, era, segundo as crenças populares, a protectora dos nascimentos.

O abutre é por vezes identificado com Ísis, nos Textos das Pirâmides. As palavras misteriosas de Ísis, que conferem a vida, devem ser conhecidas pelos defuntos. A posse da oração do abutre ser-te-á benéfica na região dos mil campos. É na noite, nas trevas; na morte, que a deusa-abutre revivifica a alma, que ressuscitará na madrugada: O abutre (a mãe) concebeu na noite, no teu chifre (ver corno*), oh, vaca prenhe (texto explicado entrada Ísis*). O abutre também é representado em cima duma cesta ou açafate*, simbolizando, desta forma, a germinação na matriz. O abutre representa muitas vezes, na arte egípcia, o poder das Mães celestes. Absorve os cadáveres e dá-lhes de novo a vida, simbolizando o ciclo da morte e da vida numa perpétua transmutação. Um admirável relevo de Ísis decora o templo de Filas, representando a deusa sentada no seu trono, de perfil, com a cabeça envolta, como um capacete, pelas asas caídas de um grande pássaro, de onde se destacam uma cabeça e uma cauda de abutre, capacete este encimado por um globo lunar enquadrado, como uma lira, por dois chifres de vaca; a deusa, de peito nu, oferece um seio descoberto, farto, como para o aleitamento: rara acumulação de símbolos femininos, personificação do processo biológico no universo, uma das mais belas imagens do eterno feminino.

O abutre é, ainda, nas tradições greco-romanas, uma ave adivinatória. Era uma das aves consagradas a ApoIo, porque o seu voo, tal como o do cisne, do milhafre e do corvo, é um presságio. Remo vê seis abutres e Rómulo vê doze, quando, um estabelecido no Palatino e o outro no Aventino, interrogam o céu para saber onde construir a cidade: Roma será edificada no lugar em que os presságios se mostrarem mais favoráveis.

ACÁCIA
A arca da aliança é feita de madeira de acácia chapeada a ouro (Êxodo, 37,1-4). A coroa de espinhos de Cristo teria sido entrançada com espinhos de acácia. Por fim, no ritual maçónico, um ramo de acácia é colocado sobre o manto do recipiendiário, para recordar aquele que foi plantado no túmulo de Hirão*. Estas tradições demonstram que, no pensamento judaico-cristão, este arbusto de madeira dura, quase imputrescível, de terríveis espinhos e flores cor de leite e sangue, é um símbolo solar de renascimento e imortalidade. «É preciso saber morrer para nascer para a imortalidade», resumia Gérard de Nerval, em Voyage en Orient, evocando o mito da morte de Hirão. E Guénon sublinha que os raios da coroa de espinhos são os de um sol.

O símbolo da acácia está, portanto, unido à ideia de iniciação e de conhecimento das coisas secretas. É o que também se pode induzir de uma lenda bambara que coloca a acácia na origem do zumbidor*. Quando o primeiro ferreiro”, ainda criança, estava a talhar uma máscara, uma lasca de madeira de acácia soltou- -se e saltou para longe, produzindo um som semelhante ao rugido de um leão. A criança chamou dois dos seus companheiros, pegou no fragmento de madeira. fez um buraco numa das suas extremidades, enfiou um cordel e pôs-se a girá-lo (SERR, 121). Esta lenda africana faz lembrar uma prática védica ainda hoje em vigor: num disco de acácia faz-se um orificio no meio; enfia- se neste orificio um pau de madeira de figueira, fazendo-o girar rapidamente e produzindo, pelo efeito da fricção, o fogo sagrado que servirá para o sacrificio. A acácia representa aqui o princípio feminino, o pau o princípio masculino. Encontra-se a mesma analogia na Índia, onde a concha sacrificial (sruk) atribuída a Brahma é feita de madeira de acácia (GRAR, GUED, GUES, MALA). Por toda a parte se pode ver, portanto, a acácia ligada a valores religiosos, como uma espécie de suporte do divino, no seu aspecto solar e triunfante.

AÇAFRÃO
Segundo Gilbert de Horland (t 1172) o açafrão, brilhante e cor de ouro, está relacionado com a sabedoria. É a cor das vestes dos monges budistas.

ACANTO
O simbolismo da folha de acanto, muito utilizada nas decorações antigas e medievais, deriva, essencialmente, dos espinhos desta planta. Segundo uma lenda narrada por Vitrúvio, o escultor Calímaco, no fim do século V a. C., ter-se-ia inspirado, para adornar um capitel, num ramo de folhas de aeanto caídas sobre o túmulo de uma menina. Podemos reter desta lenda que, pelo menos na sua origem, o acanto era sobretudo utilizado para indicar que as provações da vida e da morte, simbolizadas pelos espinhos da planta, tinham sido vencidas. O acanto adornava os capitéis coríntios, os carros fúnebres, as vestes dos grandes homens, porque os arquitectos, os defuntos e os heróis tinham triunfado sobre as dificuldades das suas missões. Como de tudo o que tem espinhos, fez-se também do acanto o símbolo da terra virgem, da virgindade, que significa também uma uma outra espécie de triunfo. Quem estiver adornado com esta folha venceu a maldição bíblica: O solo produzirá para ti espinhos e cardos [Génesis, 3, 18), no sentido de que a provação vencida se transformou em glória.

AÇOFEIFEIRA (ver Jujubeira)

ACORDADO
Símbolo de um estado iniciático que o indivíduo atravessa. Sabe-se que o esquema de todos os rituais iniciáticos compreende uma morte, seguida de uma viagem ao país dos espíritos e de um renascimento. Por esta razão, os Iniciados das Sociedades mágicas do Kassai (Congo Central) recebem o título de Mutabala, isto é, Acordados (FOUC). Buda significa «o Acordado».

ACROBATA
O acrobata, o saltimbanco, o palhaço e o malabarista tiveram em todas as civilizações um lugar muito importante. Em Moscovo, no cemitério dos homens célebres, encontra-se o túmulo de mármore de um palhaço ao lado dos túmulos de dançarinas, escritores, filósofos e homens de Estado do antigo e do novo regime. Os acrobatas, muitas vezes evocados na literatura e nas artes olásticas, não pertencem a uma simbólica muito definida; podemos, no entanto, observar que correspondem a um dos temas mais constantes da imaginária e dos sonhos. humanos. Talvez o seu significado seja o da alegre liberdade dos que se libertaram das condições comuns (ver cabeça para baixo, de*).

Esta inversão da ordem estabelecida, das posições habituais, das convenções sociais – de que as proezas acrobáticas nos dão muitos exemplos – não corresponde necessariamente a uma fase regressiva da evolução individual ou colectiva. Se revelam na verdade uma situação crítica, é para indicar logo a seguir a solução, que só se pode encontrar através do movimento. O acrobata surge, assim, como o símbolo do equilíbrio crítico, baseado no não conformismo e no movimento. É, neste sentido, factor de progresso.

Podemos fazer uma aproximação entre alguns exercícios acrobáticos e alguns gestos rituais e figuras orquésticas que, pelo desafio que colocam às leis naturais, remetem o homem para as mãos do próprio Deus, ou lhe atribuem uma virtuosidade sobre-humana. Acrobatas ou dançarinos pedem a esta libertação da gravidade geral, levada ao extremo das possibilidades humanas, que os entregue à força única de Deus: é como se essa força actuasse neles, para eles, por eles, a fim de que os seus gestos se identificassem com os da divindade criadora e testemunhassem a sua presença. A propósito das danças sagradas do Egipto antigo, Henri Wild escreveu: Os saltos repetidos deviam ir-se acentuando e acelerando, como no Zikr moderno, que talvez não seja mais do que uma sobrevivência da antiga encantação dançada. Tanto naquele como neste, o exercício tem como finalidade destruir momentaneamente a individualidade naquele que a ele se entrega e produzir nele um estado de exaltação extática que permite à divindade incorporar-se nele (SOUD, 67). Do mesmo modo, no Camboja, só a desarticulação é que permite à dançarina evadir-se dos gestos humanos e realizar as evoluções míticas. Cotovelo para fora, mão revirada, pernas na posição de levantar voo, não se trata já de acrobacia gratuita, mas sim de imitação de seres sobrenaturais (SOUD, 365), (ver elrcum- -ambulaçãe”), O ponto extremo desta busca da identificação com o dcus por meio da dança acrobática encontramo-lo no Bali e em Java nas danças das meninas sang hyang dedari, que ficam em estado de transe, com todo o corpo possuído por uma ninfa celeste que, depois de lhes terem mantido a cabeça sobre uma taça onde arde o incenso, cujo espesso fumo as adormece em dois ou três minutos, executam as figuras acrobáticas com os olhos fechados, num estado sonambúlico (SOUD, 391). Os dançarinos vodus, depois dos exercícios e das fumigações preparatórias do transe, peneiram cinzas quentes por cima da cabeça e saltam sobre as brasas ardentes, sem sentirem a menor queimadura. A acrobacia simboliza o levantar voo em direcção a uma condição sobre-humana; é o êxtase do corpo. Caminhando sobre as mãos, de cabeça para baixo e os pés para cima, o acrobata evoca a figura do Dependurado, arcano XII do jogo do Tarot. É, portanto, o símbolo, altamente iniciático e complexo, da inversão dos valores.

ADÃO
Quaisquer que sejam as tradições e as exegeses – que muitos livros não chegariam para resumir -, Adão simboliza o primeiro homem e a imagem de Deus. Primeiro significa muito mais, no caso de Adão, do que prioridade no tempo. Adão é o primeiro na ordem da natureza, é o ponto culminante da criação terrestre, o ser supremo em humanidade. Primeiro não significa, portanto, neste caso, primitivo. A palavra não evoca em nada o pitecantropo, que marcaria uma etapa na evolução ascendente de uma espécie. Mais ainda, é primeiro no sentido em que é responsável por toda a linhagem que dele descende. A sua primazia é de ordem moral, natural e ontológica: Adão é o mais homem dos homens. O símbolo transporta-nos a um nível de consideração totalmente diferente do da história. Além disso, é feito à imagem de Deus. Do ponto de vista simbólico, podemos entender esta expressão no sentido de que Adão é feito à imagem de Deus do mesmo modo que uma obra-prima é feita à imagem do artista que a realizou. Mas em que aspecto esta obra- prima seria mais particularmente feita à imagem do seu Criador, se não por aquilo que Deucalião também não conseguir fazer, pela aparição do espírito _ criação, pela animação da matéria? É esta realidade do espírito – à imagem de Deus, mas diferente de Deus – que Adão simboliza. Daí derivam outras inovações no universo: a consciência, a razão, a liberdade, a responsabilidade, a autonomia, todos privilégios do espírito, mas de um espírito encarnado e, portanto, somente à imagem de Deus, e não idêntico a Deus. Foi por ter querido identificar-se com Deus que Adão se tomou também o primeiro a errar, com todas as consequências que esta primazia no pecado acarreta para a sua descendência. O primeiro, numa ordem, é sempre, de certa forma, a causa de tudo o que dele deriva nessa ordem. Adão simboliza o pecado orlgíaal, a perversão do espírito, o uso absurdo da liberdade, a recusa de qualquer dependência. Ora, esta recusa da dependência em relação ao Criador não pode conduzir senão à morte, dado que esta dependência é a própria condição da vida. Em todas as tradições, o homem que tenta tornar-se igual a Deus é punido com uma sanção fulminante. Porém, segundo a doutrina cristã, eis que aparece um outro Adão, Jesus Cristo, o segundo Adão na ordem cronológica, mas também ele primeiro, no sentido místico do termo, e, se assim se pode dizer, mais verdadeiramente primeiro que o primeiro Adão; primo prior, segundo a história; porque ele é o mais homem dos homens, numa escala superior, primeiro na ordem da natureza e na ordem da graça, estas duas ordens alcançando nele a sua perfeição suprema. Ele é ainda mais do que a aparição do espírito na criação, ele é a encarnação do Verbo: a própria Palavra de Deus feita homem, o homem divinizado. Já não é imagem, é realidade. Assim, nele o pecado é impossível; o segundo Adão vem conceder a graça, a santidade e a vida eterna, da qual o acto do primeiro Adão havia privado a humanidade. O segundo Adão simboliza, pois, tudo quanto havia de positivo no primeiro, elevando- o ao divino absoluto; simboliza a antítese” de quanto ele teve de negativo, substituindo a certeza da morte pela da ressurreição. São Paulo enalteceu esta antítese em várias passagens: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão é um espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro, é sim o natural; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do Céu. (I Corlntios 15,45-50; Romanos 5, 12-17). Existe uma estreita relação entre o primeiro Adão e o Cristo- Novo Adão. Assim, a lenda dirá que Adão morre numa sexta-feira, no dia 14 de Nlsan, à 9.” hora, prefigurando desta forma a morte de Cristo. Reencontraremos na arte o crânio de Adão aos pés da cruz de Cristo. De acordo com a lenda, Adão, quando estava prestes a morrer, pede ao se}! filho Seth para ir ao Paraíso, a fim de colher da Arvore da Vida um dos frutos da imortalidade. O anjo encarregado da guarda do Paraíso recusa-se a dar-lhe um fruto, mas oferece- lhe três sementes. Da boca de Adão morto, uma árvore crescerá dessas três sementes; será mais tarde a árvore da Cruz. Para captarmos o simbolismo das ligações entre Adão e Cristo, podemos evocar ainda o diálogo com Adão no Paraíso (26) de Dante. As tradições judaicas, com influências iranianas e neo-platónicas, especularam muito sobre o simbolismo dos primeiros capítulos do Génesis. Adão significa o homem terrestre criado por Deus com a terra (em hebraico: ‘adamah: terra trabalhada; segundo uma outra hipótese: terra dos homens). Ele é animado pelo sopro de Deus. Antes desta animação, segundo a Cabala, ele é chamado Golem=. O barro finíssimo utilizado por Deus é – segundo o pensamento judaico – tomado do centro da terra, no monte Síão, considerado o umbigo do mundo. Esta terra representa o mundo na sua totalidade. O Talmude descreve as doze primeiras horas do primeiro dia (ou período) de Adão: 1. a terra é acumulada; 2. o barro transforma-se em Golem; 3. os seus membros distendem-se; 4. a alma é-lhe insuflada por Deus; 5. Adão põe-se de pé; 6. Adão dá nome aos seres vivos; 7. é-lhe dada Eva; 8. Adão e Eva unem-se e procriam: de dois tornam-se quatro; 9. interdição contra Adão; 10. desobediência de Adão e Eva; 11. sentença proferida contra eles; 12. Adão e Eva são expulsos do Paraíso. Cada hora corresponde a uma fase simbólica da existência. A Agada não se atém estritamente ao texto bíblico; ou melhor, tenta compensar a contradição entre 40 I Aerólito os dois textos do Génesis 1,27 e 2,21, que afirmam, por um lado, uma criação simultânea do homem e da mulher e, por outro, apresentam uma criação de Adão anterior à de Eva (Eva nascida duma costela de Adão). Segundo a Agada, a mulher criada simultaneamente com Adão teria sido Lilith*. Adão e Lilith não se entendem; Caim e Abel disputam a posse de Lilith. Então, Deus reduziu a pó o primeiro homem e a primeira mulher (SCHK, 181-184). Depois, recriou primeiro o homem, e o homem subdivide-se em macho e fêmea. Segundo o primeiro texto da Criação no Génesis, Adão aparece com um aspecto bissexual; segundo alguns autores, ele é hermafrodita. No Midrasch Bereshit Raba, diz-se que deus criou Adão ao mesmo tempo macho e fêmea. Um sentido idêntico é apresentado na Cabala, que fala também de Deus sob o duplo aspecto de rei e rainha. Em Platão vemos o homem descrito como um ser esférico que gira como uma roda: foi também, na sua origem, hermafrodita. O homem original, na sua forma mais pura, é chamado Adão Kadmon (SCHK, 122). Este Adão Kadmon é o símbolo do Deus vivo no homem. É o mundo do homem interior, que não pode ser descoberto senão através da contemplação, o primeiro homem, por antonomásia, aquele que é, por excelência, à imagem de Deus. Mas esta interpretação da Cabala não é a dos exegetas cristãos que vêem neste termo unicamente o primeiro homem histórico. Na tradição cabalística, Adão seria também uma sintese do universo criado: ele é naturalmente tirado do centro e umbigo da Terra (monte Sião), mas todos os elementos estão reunidos na sua criação. Deus reúne de toda a parte o pó a partir do qual Adão iria ser feito, tal como o exprimem as etimologias da palavra Adão, que a explicam quer como abreviação dos seus elementos quer como nomes dos quatro pontos cardeais de que ele éfeito (SCHR, 181). Lipsius, eitado por Scholem (SCHK, 184), veria em Adão: a personificação mitológica da terra; ele seria o eterno símbolo, a marca e o monumento do amor de Deus e da Terra. Os elementos telúrico e pneumático actuariam juntos em Adão e nos seus descendentes (SCHK, 185). Adão é também o símbolo do primeiro homem, das origens humanas, segundo outras tradições. O homem primordial é representado na Gália pelo Dlspater (a palavra é latina e não celta), do qual todos os Gauleses se dizem descendentes. Há na Irlanda, como em muitos outros países, muitos homens primordiais, ou ancestrais mítieos, em princípio, um para cada uma das raças que invadiram a Irlanda (o país conheceu cinco vagas de invasões, de acordo com os anais do Lebor Gabala ou Livro das Conquistas). Os dois principais parecem ter sito Tuam mac Cairill, que passou pelos sucessivos estados de javali, falcão e salmão, e o poeta Fintan, grande juiz deste mundo, quanto à sabedoria. Ele foi, sem dúvida, o único homem (justo) que sobreviveu ao dilúvio. Para cada grande época histórica existe um homem primordial que desempenha o papel de um novo Adão. Na análise de Jung, Adão simboliza o homem cósmico, fonte de todas as energias psíquicas e, na maioria das vezes, sob a forma do velho sábio, corresponde ao arquétipo do pai e do ancestral: é a imagem do ancião, de insondável sabedoria, fruto de uma longa e dolorosa experiência Nos sonhos, pode tomar a figura de um profeta, de um papa, de um sábio, de um filósofo, de um patriarca, de um peregrino. O aparecimento do velho sábio simboliza a necessidade de integrar em si a sabedoria tradicional ou, ainda, de actualizar uma sabedoria latente. Seguindo as ideias de Jung, o segundo Adão, cuja cruz se ergue sobre o túmulo do primeiro Adão, como se pode ver em muitas obras de arte, simbolizaria o advento de uma nova humanidade sobre as cinzas da antiga. Este segundo Adão, Cristo, simbolizaria o em si, ou a perfeita realização de todas as virtualidades do homem. Mas este símbolo fascinante de um Adão herói-crucificado-ressuscitado-salvador é como uma carga energética, imanente, que incita a uma transfiguração interior. O mistério de Jesus surge inteiramente nesta necessidade que cada um encontra em si de crucificar a sua parte mais preciosa. de mortificá- la, de escarnecê-la (de reduzi- la a cinzas) e, graças a esta crucificação, de receber a graça da salvação … É por isso que o coração do homem está incessantemente ensanguentado e luminoso, sofredor e glorioso, morto e ressuscitado (BECM, 342). O psicanalista poderá ver nestas três fases os símbolos da progressão do homem na via da individuação: a indistinção numa colectividade, a separação do eu que se afirma na sua personalidade virtual, a realização desta personalidade pela integração de todas as suas forças numa unidade sintética e dinâmica.

AERÓLITO
Considerado como uma teofania, uma manifestação c uma mensagem do céu. É como uma centelha do fogo celeste, um grão de divindade caído sobre a Terra. Segundo as crenças primitivas, os astros eram, com efeito, divindades; as parcelas que deles se soltavam eram como sementes. O aerólito desempenha uma missão análoga à do anjo: pôr em comunicação o céu e a terra. O aerólito é o símbolo de uma vida superior que se faz lembrar ao homem como uma vocação ou que com ele se comunica.

AFRODITE
Deusa da mais sedutora beleza, cujo culto, de origem asiática, é celebrado em numerosos santuários da Grécia, e principalmente na ilha de Citera. Filha do esperma de Urano (o Céu) derramado no mar, depois da castração do Céu pelo seu filho Cronos (daí a lenda do nascimento de Afrodite, surgindo da espuma do mar); esposa de Hefesto, o Coxo, que ela ridiculariza em várias ocasiões, simboliza as forças irreprimíveis da fecundídade, não nos seus frutos, mas sim no desejo apaixonado que ateia entre os vivos. Por isso é muitas vezes representada no meio de feras que a escoltam, como neste hino homérico, onde o autor em primeiro lugar evoca o seu poder sobre os deuses, depois sobre os animais: Ela perturba a razão até do próprio Zeus, que ama o raio, ele, o maior dos deuses …; mesmo este espírito tão sábio, ela engana quando quer… Alcançou a Ida das mil fontes, a montanha- mãe das feras: atrás dela puseram-se a caminhar, lisonjeando-a, os lobos cinzentos, os leões de pêlo fulvo, os ursos e as panteras velozes, insaciáveis de crias de corça. Ao vê-los, ela regozijou-se de todo o coração e atiçou o desejo nas suas entranhas; então foram todos acasalar ao mesmo tempo nq sombra dos pequenos vales (HYMN, 36-38, 68-74). E o amor sob a forma física, o desejo e o prazer dos sentidos; não é ainda o amor ao nivel especificamente humano. Ao nivel mais elevado do psiquismo humano, onde o amor se completa na união com a alma, cujo símbolo é a esposa de Zeus, Hera, o símbolo Afrodite exprimirá a perversão sexual, porque o acto defecundação só é procurado em função da primazia do gozo a que a natureza oprende. A necessidade natural exerce-se, então, perversamente (DIES, 166). No entanto, poderíamos perguntar se a interpretação deste símbolo não terá de evoluir, na sequência das investigações modernas sobre os valores propriamente humanos da sexualidade. Mesmo nos meios religiosos, de uma ~moralidade exigente, a questão é estudada para se saber se o único fim da sexualidade é a fecundidade, se não será possível humanizar o acto sexual independentemente da procriação. O mito de Afrodite poderia permanecer durante algum tempo ainda como a imagem de uma perversão, a perversão da alegria de viver e das forças vitais, não mais por a vontade de transmitir a vida estar ausente do acto de amor, mas por o próprio amor não estar humanizado: permaneceria no nineI animal, digno daquelas feras quecompõem o cortejo da deusa. Entretanto, no termo de uma tal evolução, Afrodite poderia aparecer como a deusa que sublima o amor selvagem, integrando-o numa vida verdadeiramente humana.

AGRICULTURA
Nalguns textos irlandeses, diz-se que os deuses são artistas e quc os não-deuses são agricultores. Seria por isso evidente o carácter aristocrático c guerreiro da civilização celta, que teria deixado às populações inferiores, conquistadas ou submissas, o cuidado das funções produtoras (ver castas”). Os Irlandeses da Idade Média mediam a riqueza, não em culturas, mas em gado. O pastor, e não o lavrador, tinha todas as honras. A agricultura tem como emblemas as cornueópias, um arado ou uma enxada ao pé de um arbusto; como divindade, uma Ceres coroada de espigas; como rcgulador, a roda do Zodíaco. A agricultura simboliza a união dos quatro elementos, cujo casamento condiciona a fecundidade: a terra e o ar, a água e o calor. Os cultos agrários são inumeráveis, estão entre os mais primitivos e são muito ricos em símbolos. Mas a agricultura parece ter tido sempre, na hierarquia social, uma categoria inferior, ao passo que o pastor, o nómada, tinha a dignidade do guerreiro. Corresponde ao ventre”.

ÁGUA
As significações simbólicas da água podem reduzir- se a três temas dominantes: fonte dc vida, meio de purificação, centro de regenerescêncía, Estes três temas encontram-se nas tradições mais antigas e formam as combinações imaginárias mais dispares, ao mesmo tempo que mais coerentes. As águas, massa indiferenciada, representam a infinidade dos possiveis, contêm todo o virtual, o informal, o germe dos germes, todas as promessas de desenvolvimento, mas também todas as ameaças de reabsorção. Mergulhar nas águas, para delas emergir sem se dissolver totalmente, salvo por uma morte simbólica, é regressar às fontes, reabastecer-se num imenso reservatório de energia e dele beber uma força nova: fase passageira de regressão e de desintegração, condicionando uma fase progressiva de reintegração e de regenerescência (ver banho”, baptismo”, inicíação=).

O Rig Veda exalta as Águas que trazem vida, força e pureza, tanto no plano espiritual como no corporal.

Vós, Águas, que reconfortais,
trazei-nos a força,
a grandeza, a alegria, a visão!
…Soberanas das maravilhas,
regentes. dos povos, as Águas!
…vós, Águas, dai a sua plenitude ao remédio,
a fim de que seja uma couraça para o meu corpo,
que assim eu veja por muito tempo o sol!
… Vós, Águas, levai daqui isto, este pecado, qualquer que ele seja, que eu cometi,
esta injustiça que fiz, a quem quer que seja,
este falso juramento que proferi.

(A partir da tradução francesa de Jean Varenne, VEDV, 137)

As variações das diferentes culturas sobre estes temas essenciais ajudar-nos-ão a apreender e a aprofundar melhor, sobre um fundo quase idêntico, as dimensões e os matizes desta simbologia da água. Na Ásia, a água é a forma substancial da manifestação, a origem da vida e o elemento da regeneração corporal e espiritual, o sim bolo da fertilidade e da pureza, da sabedoria, da graça e da virtude. Fluida, a sua tendência é para a dissolução; mas, homogénea, é também símbolo da coesão, da coagulação. Como tal, poderia corresponder à sattva, mas como escorre para baixo, para o abismo, a sua tendência é tamas; como se estende na horizontal, a sua tendência é também rajas. A água é a matéria-prima, a Pakriti: Tudo era água, dizem os textos hindus; as vastas águas não tinham margens …, diz um texto taoísta. Brahmanda, o Ovo do mundo, é chocado na superfície das Aguas. De igual modo, o Sopro ou Espírito de Deus, no Génesis, pairava sobre as Águas. A água é Wou-kí, dizem os Chineses, o Sem-Topo, o caos, a indistinção primeira. As Águas, representando a totalidade das possibilidades de manifestação, dividem-se em Águas superiores, que correspondem às possibilidades informais, e em Águas inferiores, que correspondem às possibilidades formais; dualidade que o Livro de Enoch traduzirá em termos de oposição sexual, e que a iconografia representa frequentemente como uma dupla espiral. As águas inferiores estão, dizem, encerradas num templo de Lhassa, dedicado ao rei dos naga; as possibilidades informais são representadas na India pelas Apsaras'” (de Ap, água). A noção de águas primordiais, de oceano das origens, é quase universal. Encontramo-la até na Polínésia, e a maior parte dos povos austro-asíátícos coloca na água o poder cósmico. A ela junta-se muitas vezes o mito do animal mergulhador, como o javali hindu que traz um pouco de terra à superficie, embrião dado à luz da manifestação formal. Origem e veículo de toda a vida: a seiva é água e, nalgumas alegorias tântricas, a água representa prana, o sopro vital. No plano corporal, e por ser também um dom do céu, a água é um símbolo universal de fecundidade e de fertilidade. A água do céu faz o arrozal, dizem os montanheses do Vietname do Sul, aliás muito sensíveis à função regeneradora da água, que para eles é um medicamento e poção de imortalidade. Mais concretamente, a água é o instrumento da purificação ritual: do islão ao Japão, passando pelos ritos dos antigos Iu-ehuel taoístas (mestres da água consagrada), sem esquecer a aspersão de água benta dos Cristãos, a ablução” desempenha um papel essencial. Na India e no sueste asiático, a ablução das estátuas santas e dos fiéis (particularmente no dia de Ano Novo) é ao mesmo tempo purificação e regeneração. A natureza da água leva-a à pureza, escreve Wen-tse. A água é, ensina Lao- Tse, o emblema da suprema Virtude (Tao, capo 8). E, ainda, o símbolo da sabedoria taoísta, porque não tem contestações; é livre e sem prisões .• deixa-se deslizar segundo a pendente do terreno. E a medida, pois o vinho forte deve ser misturado com água, mesmo que este vinho seja o do conhecimento. A água, oposta ao fogo, é yin. Corresponde ao norte, ao frio, ao solstício de Inverno, aos rins, à eor negra, ao trígrama k’an, que é o abissal. Mas, de outra forma, a água estâ ligada ao raio, que é fogo. Ora, se a redução à Agua dos alquimistas chineses pode muito bem ser considerada como um retorno à primordialidade, ao estado embrionário, diz-se também que esta água é fogo, e que as abluções herméticas devem ser entendidas como purificações pelo fogo. Na alquimia interna dos Chineses, o banho e a lavagem muito bem poderiam ser também operações de natureza ígnea. O mercúrio alquímico, que é água, é por vezes qualificado como água ignea. Anotemos ainda que a água ritual das iniciações tibetanas é o símbolo dos votos, dos compromissos assumidos pelo postulante. Para regressar enfim ao simples encanto- das aparências, citemos a bela fórmula de Victor Segalen: O meu amante tem as virtudes da água: um sorriso claro, gestos fluidos, uma voz pura que canta gota a gota (Stêles). (BENA, CORT, DAMS, DAVL, PHIL, GOVM, GRIE, GRIF, HUMU, JILH, LIOT, MUTT, SAIR, SCHG, SOUN.)

É também sob a forma de símbolos que se exprime uma oração védica às Águas, prece que deve ser entendida como relacionada com todos os níveis da existências, física e mental, que as Águas conseguem vivificar:

Ó ricas Águas,
pois que reinais sobre a opulência,
e alimentais a vontade propícia e a imortalidade,
e sois as soberanas da riqueza que se faz acompanhar de uma boa prosperidade,
dignai-vos, Saravasti, dar o vigor juvenil àquele que canta. . (Asvalayana Strantasutra, 4. 13. VEDV, 270)

Nas tradições judaica e cristã, a água simboliza em primeiro lugar a origem da criação. O mem (M) hebraieo simboliza a água sensível: é a mãe e matriz. Fonte de todas as coisas, manifesta o transcendente e, por isso, deve ser considerada como uma hierofania. No entanto a água, como aliás todos os símbolos, pode ser vista em dois planos rigorosamente opostos, mas de nenhuma forma irredutíveis, e esta ambivalência coloca-se a todos os níveis. A água é fonte de vida e fonte de morte, criadora e destruidora. Na Bíblia, os poços” no deserto, as fontes” que se oferecem aos nómadas são outros tantos lugares de alegria e espanto. Junto das fontes e dos poços realizam- se encontros essenciais; enquanto lugares sagrados, os pontos de água desempenham um papel incomparável. Junto deles, o amor nasce e os casamentos começam. A marcha dos Hebreus e a caminhada de todos os homens durante o seu peregrinar terrestre estão intimamente ligadas ao contacto exterior ou interior com a água, que se toma um centro de paz e de luz, oásis. A Palestina é uma terra de torrentes e de fontes. Jerusalém é regada pelas mansas águas de Siloé. Os rios* são agentes de fertilização de origem divina, as chuvas” e o orvalho trazem a sua fecundidade e manifestam a benevolência de Deus. Sem a água, o nómada seria imediatamente condenado à morte e queimado pelo sol palestiniano; assim, a água que ele encontra no caminho é comparável ao maná: mata-lhe a sede e alimenta-o. Como a água é objecto de súplica, por isso é pedida através da oração. Deus escuta o grito do seu servo, e por isso lhe envia os aguaceiros e faz com que encontre os poços e as fontes. A hospitalidade exige que seja oferecida uma água fresca ao visitante, e que os seus pés sejam lavados, para assegurar a paz do seu repouso. Todo o Antigo Testamento celebra a magníficência da água. O Novo Testamento receberá esta herança e saberá utilizá-la. Javé é comparado a uma chuva de Primavera (Oseias, 6, 3), ao orvalho que faz crescer as flores (Id., 14, 6), às águas frescas que descem das montanhas, à torrente que sacia. O justo é semelhante à árvore plantada à beira de águas correntes (Números, 24, 6); a água aparece, então, como um signo de bênção. Mas temos de reconhecer nela justamente a origem divina. Assim, e segundo Jeremias (2, 13), o povo de Israel, na sua infidelidade, desprezando Javé, esquecendo as suas promessas e deixando de considerá- lo como a fonte de água viva, quis cavar as suas próprias cisternas. Estas, gretadas, não conservavam a água. Jeremias, verberando a atitude do povo perante Deus, fonte de água viva, lamenta-se dizendo: Eles pão do seu próprio país um deserto (18, 16). As alianças estrangeiras são comparadas às águas do Nilo e do Eufrates (lI, 18).A alma busca o seu Deus como o cervo sedento busca a presença da igua viva (Salmos, 42,2-3). A alma aparece assim como uma terra seca e sedenta, orientada para a água; espera a manifestação de Deus como a terra resseca anseia poder ser saciada pelas chuvas (Deuteronómio, 32, 2). É este simbolismo, vindo das bases mais antigas do mundo mediterrâneo, que fornecerá ao poeta Federico García Lorca a propria trama da sua tragédia Yerma, a mulher estéril por falta de homem, como estéril (yermo) é o deserto, por falta de chuva. É muito natural que os Orienta tenham visto a água em primeiro lugar como um signo e um símbolo de bênção: não é ela que permite a vida? Quando Isaías profetiza uma era nova, diz: brotará água no tle3erto… o país da sede transformar-se-à em fontes (lsaías, 35,6-7). O vidente do Apocalipse não fala de hma diferente: O Cordeiro … conduzi-Ios-á àsfontes tias águas da vida (Apoc., 7, 17). A água é dada por Javé à terra, mas trata-se de uma 6gua mais misteriosa: da água que provém da Sabe- _ria, que presidiu, na altura da criação, à formação tias águas (Job, 28, 25-26; Provérbios, 3, 20; 8, 22, 24, 28-29; Eclesiástico, I, 2-4). No coração do sábio RSide a água; ele é semelhante a um poço e a uma ilnte (Provérbios, 20, 5; Eclesiástico, 21, 13), e as suas palavras têm o poder da torrente (Provérbios, 18, 4). Quanto ao homem privado de sabedoria, o seu co- DlÇão é comparável a um vaso rachado que deixa escapar o conhecimento (Eclesiástico, 21, 14). Ben Sira compara a Tora (a Lei) à Sabedoria, porque a Tora esparge uma água de Sabedoria, Os Padres da J&reja consideram o Espírito Santo como o autor do dom da sabedoria que ele derrama nos corações sequiosos. As teologias da Idade Média apresentam este tema dando-lhe um sentido idêntico. Assim, para Hugues de Saint- Victor, a Sabedoria possui as suas águas, a alma é lavada pelas águas tia Sabedoria. A água torna-se símbolo da vida espiritual e do Espírito, oferecidos por Deus e frequentemente recusados pelos homens. Jesus retoma este simbolismo no seu diálogo com • Samaritana: Quem beber da água que eu lhe der joIIfais terá sede … a água que eu lhe der tornar-se-à aele uma nascente de água ajorrar para a vida eterna lJoão, 4, especialmente o vcrsículo 14). Antes de mais nada, a água, símbolo de vida no Antigo Testamento, tomou-se símbolo do Espírito no” Novo Testamento (Apocalipse, 21). Jesus Cristo revela-se como Senhor da água viva i Samaritana (João, 4, 10). Ele é a fonte; Se alguém Iem sede venha a mim e beba (Id., 7, 37-38). Como do rochedo de Moisés, a água jorra do seu seio e, na cruz, a lança fará correr água e sangue do seu peito aberto. É do Pai que vem a água viva, que comunica pela humanidade de Cristo ou, também, pelo dom do Espírito Santo, o qual, segundo o texto de um hino do Pentecostes, é fons vivus (fonte de água viva), ignis caritas (fogo de amor), Altissimi donum Dei (dom do Altíssimo). Santo Atanásio concretiza o sentido desta doutrina, dizendo: O Pai sendo a fonte; o Filho é chamado rio, e diz-se que nós bebemos o Espírito (Ad Serapionem, 1, 19). A água reveste-se, portanto, de um sentido de eternidade; quem bebe desta água viva participa desde já da vida eterna (João, 4, 13-14). A água viva, a água ~a vida apresenta-se como um símbolo cosmogónico. E pelo facto de purificar, curar e rejuvenescer que ela nos introduz no eterno. Segundo Gregório de Nice, os poços conservam uma água estagnada. Mas o poço do Esposo é um poço de águas vivas. Tem a profundidade do poço e a nobreza do rio, o que não deixa de ter relação com o texto de Lorca citado mais acima. Segundo Tertuliano, o Espírito divino escolheu a água entre os diversos elementos; é para ela que vão as suas preferências, porque ela surge, desde a sua origem, como uma matéria perfeita, fecunda e simples, totalmente transparente (De baptismo, 3). A água possui, por si mesma, uma virtude purificadora e, por esta razão, é também considerada sagrada. Daí o seu uso nas abluções rituais; pela sua virtude, a água apaga todas as faltas e todas as máculas. A água do baptismo, sozinha, lava os pecados, e só é conferida uma vez porque faz aceder a um outro estado: o do homem novo. A rejeição do homem velho, ou melhor, a morte de um momento da história, pode comparar-se a um desaparecimento, a uma destruição: uma época é aniquilada, uma outra se levanta. A água, que possui uma virtude purificadora, exerce também um poder soteriológico. A imersão é regeneradora, provoca um renascimento, no sentido em que ela é ao mesmo tempo morte e vida. A água apaga a história, porque restabelece o ser num estado novo. Pode comparar-se a imersão à deposição de Cristo no sepulcro: ressuscita, depois da descida às entranhas da terra. A água é símbolo de regeneração: a água baptismal conduz explicitamente a um novo nascimento (João, 3, 3-7), é iniciadora. O Pastor de Hermas fala, dos que desceram à água mortos e subiram vivos. E o símbolismo da água viva, dafonte de juventude. O que tenho em mim, diz Inácio de Teóforo (segundo Calisto), é a água que actua efala. Recorde- -se que a água de Castália, em Delfos, dava inspiração a Pítia, A água da vida é a Graça divina. Os cultos são propositadamente concentrados ao pé de nascentes. Qualquer lugar de peregrinação comporta a sua nascente de água e a sua fonte. A água pode curar por causa das suas virtudes específicas. Ao longo dos séculos, a Igreja alçou-se várias vezes contra o culto prestado às águas; a devoção popular considerou sempre o valor sagrado e sacralizante das águas. Mas os desvios pagãos e o retorno das superstições eram sempre uma ameaça: a magia espreita o sagrado para o perverter na imaginação dos homens. Se as águas precedem a criação, é bem evidente que se mantêm presentes para a recriação. Ao homem novo corresponde o surgimento de um outro mundo. Nalguns casos – e já o dissemos no princípio deste artigo -, a água pode fazer obra de morte.

As grandes águas anunciam, na Bíblia, as provações. O desencadeamento das águas é o símbolo das grandes calamidades.

…Os raios partirão como setas bem dirigidas, os quais serão desferidos das nuvens, como de um arco bem distendido, sobre o seu alvo.
Será arremessada uma violenta saraivada da catapulta das nuvens; a água do mar enfurecer-se-á contra eles, e os rios arrastá-los-ão impetuosamente.
O sopro do Omnipotente levantar-se-à contra eles e dispersá-los-á como um furacão … (Sabedoria, 5, 21-23)

A água pode devastar e engolir, os tomados destroem as vinhas em flor. Assim, a água pode comportar um poder maléfico. Neste caso, castiga os pecadores, mas não atinge os justos, que nada têm a temer das grandes águas. As águas da morte são apenas para os pecadores, e transformam-se em águas de vida para os justos. Tal como o fogo, também a água pode servir de ordálio. Os objectos nela lançados julgam- -se, mas a água não julga. Símbolo da dualidade do alto e do baixo: água da chuva-água dos mares. A primeira é pura, a segunda é salgada. Símbolo de vida: pura, é criadora e purificadora (Ezequiel, 36, 25); amarga, produz a maldição (Números, 5, 18). Os rios podem ser correntes benéficas, ou dar abrigo a monstros. As águas agitadas significam o mal, a desordem. Os malvados são comparados ao mar agitado … (Isaias, 57, 20). Salvai-me, ó Deus, porque as águas quase me submergem. Estou-me afundando no abismo profundo, onde não há ponto de apoio… (Salmos, 69, 1-2). As águas calmas significam a paz e a ordem (Salmos, 23, 2). No folclore judaico, a separação feita por Deus, no momento da criação, das águas superiores e das águas inferiores designa a partilha das águas masculinas e das águas femininas, que simbolizam a segurança e a insegurança, o masculino e o feminino, ligando-se, como já se disse, a um símbolismo universal. As águas amargas do Oceano designam a amargura do coração. O homem – dirá Richard de Saint- Victor – deve passar pelas águas amargas, quando toma consciência da sua própria miséria, e esta santa amargura transformar-se-á em alegria (De statu interiorls hominis, 1, lO, P. L., 196, 124). Nas tradições do Islão, a água simboliza também inúmeras realidades.

O Alcorão designa a água-benta que cai do céu como um dos signos divinos. Os Jardins* do Paraíso têm regatos de águas vivas e fontes (Alcorão, 2, 25; 88, 12, etc.). O próprio homem foi criado de uma água derramada (Alcorão, 86, 6).

Deus! Foi ele quem criou o céu e a terra,
e que fez descer do céu uma água
graças à qual faz com que brotem os frutos
para a vossa subsistência.
(Alcorão, 14,32; 2, 164)

As obras dos incrédulos são consideradas como água por quem tem sede; mas isso não passa de uma miragem. Elas parecem-se com as águas tenebrosas dum mar profundo, que vagas sucessivas vêm cobrir (Alcorão, 24, 39-40). A vida presente é comparada à água que o vento dispersa (Alcorão, 18, 45). No seu comentário dos Fosus, de Ibn al-‘ Arabi, Rumi identifica a água sobre a qual se encontra o Trono divino (Alcorão, 11, 9) com o Sopro do Deus Misericordioso. Falando da Teofania eterna, Rumi diz que o mar se cobriu de espuma e, a cada floco de espuma, alguma coisa tomava forma, alguma coisa tomava corpo (Diwân). Jili simboliza o universo com o gelo, de que a água é a substância. A água é aqui a matéria-prima. Num sentido mais metafisico, Rumi simboliza O Fundamenti divino do universo com um oceano, do qual a Água é a Essência divina. Ela preenche toda a criação e as vagas são as criaturas. Por outro lado, a água simboliza a pureza e é utilizada como meio de purificação. A oração ritual muçulmana çalat só pode ser validamente cumprida quando o orante se põe em estado de pureza ritual através das suas abluções, cujas modalidades são objecto de regras minuciosas.

Enfim, a água simboliza a vida: a água da vida, que se descobre nas trevas, e que regenera. O peixe* lançado na confluência de dois mares, na Sura da Caverna (Alcorão, 18, v. 61, 63), ressuscita quando é mergulhado na água. Este simbolismo faz parte de um tema iniciático: o banho na Fonte da Imortalidade. Este tema retoma constantemente na tradição mística islâmica, especialmente no Irão. Nas lendas sobre Alexandre, este parte à procura da Fonte da Vida, acompanhado pelo seu cozinheiro Andras, quem, um dia, lavando um peixe salgado numa fonte, o vê revi ver e obtém, por sua vez, a imortalidade. Esta fonte fica situada no país das Trevas (sem dúvida próximo do simbolismo do inconsciente, de natureza feminina e yín). Em todas as outras tradições do mundo, a água desempenha igualmente um papel primordial que se articula em torno dos três temas já definidos, mas com uma insistência particular sobre as origens. De um ponto de vista cosmogónico, a água cobre dois complexos simbólicos antitéticos que não devemos confundir: a água descendente e celeste, a Chuva, é um sérnen uraniano que vem fecundar a terra; portanto, masculina e associada ao fogo do céu: é a água a que apela Lorca em Yerma. Por outro lado, a água primeira, a água nascente da terra e da branca aurora, é feminina: a terra é aqui associada à Lua, como um símbolo de fecundidade cumprida, terra grávida, de onde a água sai para que, descncadeada a fecundação, a germinação se faça. Tanto num caso como no outro, o símbolo da água contém o do sangue”. Mas não se trata já do mesmo sangue, porque o sangue esconde, igualmente, um símbolo duplo: o sangue celeste, associado ao sol e ao fogo; o sangue mestrual, associado à Terra e à Lua. Através destas duas oposições aprecia-se a dualidade fundamental luz-trevas.

Entre os Astecas, o sangue humano, necessário à regeneração periódica do sol, chama-se chalchivatl, água preciosa, isto é, o jade verde (SOUM), o que remete perfeitamente para a complementaridade das cores vermelho* e verde”: a água é o equivalente simbólico do sangue vermelho, força interna do verde, porque a água transporta em si o germe da vida, que corresponde ao vermelho, que faz renascer ciclicamente a terra verde depois da morte hibernal. A água, sémen divino, de cor verde também, fecunda a terra para dar os Heróis, os Gémeos, na cosmogonia dos Dogons (GRIE). Estes gémeos vêm ao mundo, homens até aos rins e serpentes daí para baixo. São de cor verde (GRIE). Mas o símbolo da água, força vital fecundante, vai mais longe ainda no pensamento dos Dogons e dos seus vizinhos, os Bambaras. Porque a água – ou o sémen divino – é também a luz, a palavra, o verbo gerador, cujo principal avatar mítico é a espiral* de cobre vermelho. Entretanto, água e palavra não se fazem acto e manifestação, arrastando consigo a criação do mundo, senão sob a forma de palavra húmida, à qual se opõe uma metade gémca, que se mantém fora do ciclo da vida manifestada, e a que os Dogons e os Bambaras chamam água seca e palavra seca. Água seca e palavra seca exprimem o pensamento, isto é, a potencialidade, tanto no plano humano como no plano divino. Toda a água era seca, antes de se formar o ovo cósmico, no interior do qual nasceu o princípio da humidade, base da géncse do mundo. Mas o Deus supremo uraniano, Amma, quando criou o seu duplo, Nommo, Deus de água húmida, guia e princípio da vida manifestada, conservou em relação a ele, nos céus superiores, fora dos limites que ele deu ao universo, a metade dessas águas primeiras, que permanecem como águas secas. Do mesmo modo, a palavra não expressa, o pensamento, é chamada palavra seca, que tem apenas um valor potencial, não pode gerar. No microcosmos humano, ela é a réplica do pensamento primordial, a primeira palavra que foi roubada a Amma pelo génio Yurugu, antes do aparecimento dos homens actuais. Para D. Zahan (ZAHD) esta palavra primeira, palavra indiferenciada, sem consciência de si, corresponde ao inconsciente: é a palavra do sonho, aquela da qual os humanos não são senhores. O chacal*, ou a raposa pálida, avatar de Yurugu, tendo roubado a primeira palavra, possui então a chave do inconsciente, do invisível e, por conseguinte, do futuro, que não é senão o componente temporal do invisível. É por isso que o mais importante sistema divinatório dos Dogons se baseia na interrogação deste animal. É interessante ver que o Yurugu é igualmente associado ao fogo ctoniano e à Lua, que são universalmente símbolos do inconsciente (PAUC, ZAHD, GAND). A divisão fundamental de todos os fenômenos em duas categorias, regidas pelos símbolos antagónicos da água e do fogo, do húmido e do seco, encontra uma notável ilustração nas práticas funerárias dos Asteeas. Por outro lado, os factos mostram igualmente a analogia desta dualidade simbólica com a noção do casal original Terra-Céu: todos os que morriam afogados ou fulminados pelo raio, os leprosos, os gotosos, os htdrôpicos, em suma, todos os que os deuses da água e da chuva haviam, por assim dizer, distinguido, retirando- os do mundo, eram enterrados. Todos os outros mortos eram incinerados (SOUA, 231). Estas relações da água e do fogo encontram-se também nos ritos funerários dos Celtas. A água lustrai, que os druidas empregavam para expulsar os malefícios, era a água na qual se apagava um tição ardente da fogueira dos sacrificios. Quando havia um morto numa casa, punha-se à porta um grande vaso cheio de água lustral, trazida de uma casa onde não houvesse um morto. Todos os que vinham àquela casa enlutada aspergiam-se com a água ao sair (COLD, 226). Em todos os textos irlandeses, a água é um elemento submetido aos druidas, que têm o poder de ligar e desligar. Os maus druidas do rei Cormac ligaram também as águas do Munster, para submeter os seus habitantes pela sede, e foi o druida Mog Ruith que os desligou. O afogamento é o castigo aplicado a um poeta culpado de adultério. Mas a água é também, e sobretudo, pelo seu valor lustral, um símbolo de pureza passiva. É um meio e um lugar de revelação para os poetas que fazem com ela encantamentos para obter profecias. Segundo Estrabão, os druidas afirmavam que no fim do mundo reinariam apenas a água e o fogo (elementos primordiais) (LERD, 74-76). Entre os Germanos, são as águas, correndo pela primeira vez na Primavera à superfieie dos gelos eternos, que são a origem ancestral de toda a vida, dado que, vivificadas pelo ar do Sul, elas se juntam para formar um corpo vivo, o do primeiro gigante Ymir, do qual procedem os outros gigantes, os homens e, em certa medida, os próprios deuses. A água-plasma, feminina, a água doce, a água lacustre, a água estagnada, e a água do oceano, escumante, fecundante, masculina, são cuidadosamente diferenciadas na Teogonia de Hesíodo: a terra engendra, em primeiro lugar, sem ter prazer com isso, Ponto, o mar estéril. Depois, unindo-se ao seu filho Úrano, ela gera o oceano de abismos sem fim: A Terra gerou o mar infecundo de furiosas tumefações, Vaga, sem ajuda do terno amor. Mas, em seguida, dos abraços do Céu, ela gerou Oceano de turbilhões profundos (Hesíodo, Teogonia, 130-135). A água estéril e a água fecundante, a distinção é ligada por Hesíodo à intervenção do amor. A água estagnada, plasma da terra de onde nasce a vida, aparece também em numerosos mitos da criação. Segundo algumas tradições turcas da Ásia central, a água é a mãe do cavalo. Na cosmogonia babilónica, no começo de tudo, quando não havia ainda nem céu nem terra, apenas lima matéria indiferenciada se estendia desde toda a eternidade, as águas primordiais. Da sua massa desprenderam-se dois princípios elementares, Apsu e Tiamat … Apsu, considerado como uma divindade masculina, representa a massa de água doce sobre a qual a terra flutua.: Quanto a Tiamat, não é outra coisa senão o mar, o abismo de água salgada donde saem todas as criaturas (SOUN, 119).

Igualmente, a imagem mais frequente da criação nas mitologias egípcias é uma crista de limo a emergir primordiais, este foi o berço do Sol na primeira manhã (POSO, 67, 154). A valorização feminina, sensual e maternal da água, foi magnificamente cantada pelos poetas românticos alemães. E a água do lago, nocturna, lunar e leitosa, onde a libido desperta; A água, esta filha primogénita, nascida da fusão aérea, não pode renegar a sua origem voluptuosa e, na terra, ela mostra-se com uma celeste omnipotência como o elemento do amor e da união … Não foi em vão que os sábios antigos procuraram nela a origem das coisas … e todas as nossas sensações agradáveis não são mais, afinal, do que formas diferentes do escoamento em nós dos movimentos desta água original que existe em nós. O próprio sono mais não é do que o fluxo deste invisível mar universal, e o despertar é o começo do seu refluxo (Novalis, NOVO, 77). E o poeta conclui: só os poetas deveriam ocupar-se dos líquidos. Dos símbolos antigos da água como fonte de fecundação da Terra e dos seus habitantes podemos passar para os símbolos analíticos da água como fonte de fecundação da alma: a ribeira, o rio e o mar representam o curso da existência humana e as flutuações dos desejos e dos sentimentos. Como para a terra”, temos que distinguir na simbólica das águas a superfície e as profundezas. A navegação” ou a viagem errática dos heróis na superfície significa que estão expostos aos perigos da vida, o que o mito simboliza pelos monstros que surgem das profundezas. A região submarina torna-se assim símbolo do subconsciente. A perversão está igualmente representada pela água misturada com a terra (desejo terrestre) ou estagnada, que perdeu a sua propriedade purificadora: o lodo, a lama, o pântano”. A água gelada, o gelo, exprime a estagnação no seu mais alto grau, a falta de calor da alma, a ausência do sentimento vivificante e criador que é o amor: a água gelada representa a completa estagnação psíquica, a alma morta (DIES, 38-39). A água é o símbolo das energias inconscientes, dos poderes informes da alma, das motivações secretas e desconhecidas. Ocorre muitas vezes nos sonhos estarmos sentados à beira da água a pescar”. A água, símbolo do espírito ainda inconsciente, encerra os conteúdos da alma que o pescador se esforça por trazer à superfície e que deverão alimentá-lo. O peixe é um animal psíquico … (AEPR, 151, 195). Gaston Bachelard escreveu subtis variações sobre as águas claras, as águas primaveris, as águas correntes, as águas amorosas, as águas profundas, dormentes, mortas, compostas, suaves, violentas, a água mestre da linguagem, etc., que são outras tantas facetas deste símbolo cintilante (BACE). Mais frémito que espelho … ao mesmo tempo pausa e carícia, passagem de um arco líquido sobre um concerto de espuma (Paul Claudel). Um inquérito dirigido por Julcs Gritti, em 1976, para o Centre de recherches SUl’ L’informatlon et la communicatlon (CRIC), e destinado a preparar uma campanha para a depuração e regeneração da água, revelou a persistência da simbologia da água entre os habitantes das cidades e aldeias. A água poluida infunde horror, como porcaria, imundície, doença, morte: a poluição é o cancro da água. Todos encaram a água. como sendo o elemento vital primordial: fonte de vida … sem água não há vida … tão necessária como o so/… resumo da vida… As mulheres com mais de 25 anos, e sobretudo as mães, sentem uma relação particular entre a mulher e a água. O autor do inquérito conclui: lima vez mais constatamos que símbolos fundamentais … persistem no coração e no imaginário humanos, na mentalidade colectiva. Uma civilização técnica e industrial, pelas carências e poluições que suscita, pode avivar a necessidade, a angústia e o apetite de signos que falem.

ÁGUIA
Rainha das aves, encarnação, substituto ou mensageiro da mais alta divindade uraniana e do fogo celeste, o sol, que só ela ousa fixar sem queimar os olhos. Símbolo tão importante que não há narrativa ou imagem, histórica ou mítica, tanto na nossa civilização como em todas as outras, em que a águia não acompanhe, ou mesmo represente, os maiores deuses e os maiores heróis: é o atributo de Zeus (Júpiter) e de Cristo, o emblema imperial de César e de Napoleão, e, tanto na pradaria americana como na Sibéria, no Japão, na China ou na África, xamãs, sacerdotes e adivinhos, bem como reis e chefes guerreiros tomam os seus atributos para partilharem dos seus poderes. A águia é também o símbolo primitivo e colectivo do pai e de todas as figuras da paternidade. Mas esta universalidade de uma imagem nada retira à riqueza e à complexidade do símbolo por ela subentendido. Procuraremos desenvolvê-lo por aproximações de exemplos extraídos de fontes diferentes. Rainha das aves*: a águia coroa o simbolismo geral das aves, que é o dos estados espirituais superiores e, portanto, dos anjos”, como a tradição bíblica o testemunha frequentemente: Os quatro tinham uma face de águia. As suas asas estendiam-se para o alto; cada U1l1 tinha duas asas que se tocavam e duas asas que lhe cobriam o corpo; e seguiam para onde o espírito os levava … (Ezequiel, 1, 10). Estas imagens são uma expressão da transcendência: nada se parece com ela, mesmo multiplicando os atributos mais nobres da águia. E no Apocalipse (4, 7-8): …E o quarto animal era semelhante a uma águia em pleno voo … O Pseudo-Dlonísio Areopagita explica assim a representação do anjo pela águia: A figura da águia indica a realeza, a tendência para as alturas, o ‘voo rápido, a agilidade, a prontidão, a engenhos idade para descobrir os alimentos fortificantes, o vigor de um olhar lançado livremente, directamente e sem rodeios para a contemplação dos raios que a generosidade do Sol teárquico multiplica (PSEO, 242). A águia fixando o Sol é também o símbolo da percepção directa da luz intelcctiva. A águia olha sem temor o sol bem de frente, escreve Angelus Silesius, e til, o esplendor eterno, se o teu coração for puro. Simbolo da contemplação, por isso se faz a atribuição da águia a S: João e ao seu Evangelho. Identificada com Cristo nalgumas obras de arte da Idade Média, exprime ao mesmo tempo a sua ascensão e a sua realeza. Esta segunda interpretação é uma transposição do símbolo romano do Império, símbolo que será também o do Santo-Império medieval. Os Salmos, por Mimo, fazem dela um símbolo de regeneração espiri- •••• como a fénix”, Ave solar: a águia é o substituto do sol na mitoloaia asiática e norte-asiática (ELIT, 122); acontece a ..ama coisa nas mitologias amerindias, e particular- .ade entre os Índios da pradaria. Compreende-se facilmente que a pena da águia e o apito feito de osso • Aguia sejam indispensáveis a quem tem de enfren- _ a prova da dança que olha o sol. Existe a mesma iim1ificação entre os Astecas, e também no Japão: o Kami, cujo mensageiro ou suporte é uma águia denominada águia do sol. Na sua representação do universo, os Índios Zuni .C-IIeIocam a águia com o sol no quinto ponto cardeal, é o Zénite” (sendo o sexto o Nadir, e o sétimo, o Ccutro, lugar do homem) (CAZD, 256- 257). Trata-se • colocá-Ia no eixo do mundo, aproximando-se assim lia crença dos Gregos, para quem as águias, partindo • extremo do mundo, se detinham na vertical do ônlIIe de Delfos: percorriam assim a trajectória do Sol, • nascer ao zénite, que coincide com o eixo do ..-do. Ao ocupar também o lugar da divindade sulftDla uraniana, a águia é, tanto no panteão índio como jIom de Zeus, considerada senhora do raio e do trovão. As suas asas estendidas, comenta Alexander, evoc: m:t as linhas recortadas do relâmpago”, bem como 115 da cruz”, Alexander vê nas duas imagens da águia- -idâmpago e da águia-cruz os símbolos de duas civilizaç( les: a dos caçadores e a dos agricultores. Segundo ale autor, a águia, divindade uraniana, expressão do Pássaro-Trovão, está na origem do emblema principal às civilizações de caçadores nómadas, guerreiros e ClDllquistadores; tal como a cruz (a eruz foliácea do México, que estiliza o rebento do milho dicotile- MIoeo) é o principal emblema das civilizações agrárias. Na origem das culturas índias, uma encarna o Norte, o frio e a polaridade masculina; a outra é característica do Sul, vermelho, húmido e quente, com a piliIridade feminina. Não devemos esquecer aqui, em fimção do referido anteriormente, que Norte e Zénite, Sul e Nadir estão relacionados entre si como diante e Kima, detrás e abaixo. Porém, com o passar do tempo, ao juntarem-se as duas civilizações, estes dois símbolos, originariamente antagónicos, sobrepõem-se e confundem-se: é singular que a cruz deforma geométrica simples, do tipo romano, se lenha tornado no fim, mesmo para os Peles-vermelhas das planícies, o símbolo do falcão * ou da águia de asas estendidas, bem como o da dicotiledónea do pé de milho brotando da terra e isto de J»ma autóctone e sem qualquer influência europeia … De uma forma geral, o Pássaro-Trovão – águia de Ashur e de Zeus -, à medida que o tempo passa e que as culturas se misturam, toma-se também Senhor da Fertilidade e da Terra, simbolizada pela Cruz (ALEC, 120). Poder-se-ia dizer que, no casamento destas duas etapas culturais, forças uranianas e ctonianas acabam por ficar equilibradas? O estudo da iconografia feudal no Ocidente tenderia a confirmar esta hipótese, ao aproximar ou confrontar frequentemente a águia e o leão”, O mesmo se pode dizer se evocarmos os Astecas, entre os quais duas grandes confrarias guerreiras eram a dos cavaleiros-águias e a dos cavaleiros-jaguares (MYTF, 193). Ainda entre os Astecas, o coraçã,? dos guerreiros sacrificados serve de alimento para a Aguia solar. Eram chamados os homens da águia. O valor simbólico dos guerreiros caídos em combate e o dos homens sacrificados à Águia solar é o mesmo: alimentam o sol e acompanham-no no seu percurso . Esta associação simbólica da águia e do jaguar encontra- se outra vez na descrição do trono solene do imperador ‘asteca: sentava-se sobre uma plumagem de águia, apoiando-se numa pele de jaguar (SOUA). Poderíamos citar grande quantidade de outros exemplos da associação Águia-Jaguar entre os Índios das duas Américas. Uma outra expressão da dualidade céu-terra aparece com a oposição águia-serpente, mencionada nos Vedas: com o pássaro mítico Garuda, que é, originariamente, uma águia. Pássaro solar, brilhante como o fogo, montada de Vixnu – que é, ele próprio, de natureza solar -, Garuda é nagari, inimigo das serpentes, ou nagantaka, destruidor de serpentes. A dualidade da águia e da serpente significa universalmente a dualidade do Céu e da Terra, ou a luta do anjo contra o demónio. No Camboja, Garuda é o emblema dos soberanos de raça solar; Naga é o emblema dos soberanos de raça lunar. Garuda é também a Palavra alada, o triplo Veda, um símbolo do Verbo, aquilo que a águia é também na iconografia cristã. Garuda é, ainda, símbolo de força, de coragem, de penetração; o mesmo que a águia é, em virtude da acuidade da sua visão (CORM, DANA, HEHS, HERS,. MALA). Dotada desta força solar e uraniana que se toma evidente com a potência do seu voo, 2. águia toma-se com toda a naturalidade a ave-tutelar, o iniciador, e o psicopompo, conduzindo a alma do xamã através dos espaços invisíveis. As tradições americanas e asiáticas interpenetram-se e reforçam-se aqui continuamente, pelo menos no que se refere à utilização idêntica da pena da águia nas práticas xamânicas dos dois continentes. Assim, na Sibéria, o xamã dança durante muito tempo, cai no chão inconsciente e a sua alma é transportada ao céu numa barca puxada por águias (ELIC, 315); ao passo que entre os Pavitsos, Índios da América do Norte, quando um bastão, com uma pena de águia obtida por um xamã na sua extremidade, é colocado sobre a cabeça de um doente, o mal é levado como o xamã pela águia nos seus voos mágicos. Na mesma área cultural, uma crença fundamental defende que uma águia deve estar pousada no alto da árvore cósmica para velar, como um remédio para todos os males que os seus ramos contêm (KRAM, 266; ELIC, 247). Iniciadora e psicopompa é também a grande águia que salva o herói Toshtük do mundo de baixo para o elevar ao mundo do alto; só ela é capaz de voar de um mundo para o outro. Por duas vezes ela engole o herói moribundo para lhe refazer o corpo no seu ventre, antes de o restituir à luz do dia. São igualmente imagens iniciáticas que revelam um poder de regeneração por absorção. A águia faz parte, numa narrativa apócrifa galesa, dos Anciãos do mundo; este testo corresponde à narrativa irlandesa de Tuan Mac Cairill e a uma passagem do Mabinogi de Kulhwch e Olwen; a águia é um desses animais primordiais iniciadores, tal como o são conhece mais nenhuma aparição sua na mitologia celta, excepto a metamorfose de Llew em águia, no momento em que acaba de ser morto pelo amante de sua mulher adúltera, Blodeuwedd, no Mabinogi de Math; mas aparece muitas vezes na numismátíca gaulesa. Na Irlanda, o seu papel parece ter sido desempenhado pelo falcão” (CHAB, 71-91; LOTM, 206-207). V~ltamos a en~~ntrar a imagem arquetípica do Pai a~so~lada à do Inicladore do Psicopompo neste mito slberlll?o. ~~do por .uno Harva, e que faz da águia o herói eivilizador, PaI dos Camãs: o Altíssimo envia a Águia em socorro dos homens, atormentados pelos maus espíritos que lhe trazem doenças e a morte; mas os homens não compreendem a linguagem do mensageiro; Deus diz-lhe para dar ao homens o dom de xamanizar; a águia torna a descer e engravida uma mulher; esta dá à luz o primeiro xamã (HARA, 318). . T~m?é~? tradição ocidental dá poderes excepc~ onaIs a águia, que a colocam acima das contingên- ~Ias terrenas .. Deste modo, embora ela não seja Imortal, pOSSUium poder de rejuvenescimento. Expõe- se ao sol e, quando a sua plumagem fica inflamada, mergulha numa água pura e reencontra assim uma nova juventude. Pode comparar-se isto com a iniciação e a alquimia, que compreendem a passagem pelo fogo e pela água. A sua vista penetrante faz dela um ser clarividente ao mesmo tempo que um psicopompo. Ela é vista, em plena cristandade, como transportando a alma dos mortos sobre as suas asas a fim de a fazer regressar até Deus, Um voo a descer significa a descida da luz sobre a terra, . Os místicos d~ Id~de Média insistem com frequên- CIa no tema da águia para evocar a visão de Deus; comparam a oração às asas da áauia elevando-se em direcção à luz. ‘” De vidente, transforma-se facilmente em augural e adivinatória. Na Antiguidade mediterrânica a arte augural interpreta o voo das águias para captar as vontades divinas; A águ~a romana, tal como o corvo germano- celta, e essenctalmente a mensageira da vontade do alto (DURS, 134). Rei das aves, diz Píndaro, a águia dorme sobre o ceptro de Zeus, cujas vontades dá a conhecer aos homens. Quando Príamo vai pedir a Aquiles que lhe entregue o cadáver de Heitor, faz uma libação a Zeus: En~ia-me a tua ave, veloz mensageira, a ave que te é mais cara de entre todas e que possui a força suprema. Surge do lado direito, lançando-se sobre a cidade e, ao vê-lo, todos se alegram, e neles o coração se desfaz de alegria. (Iliada, 24, 308-321.). A águia voan~o da esquerda é, pelo contrário, de mau augúrio, e aqui encontramos mais uma vez a simboloaia da direita” e da esquerda. ‘” Augural, mas muitas vezes confundida, como se vil;’ n~ caso da Irlanda, com outras aves de rapina, principalmente o falcão·, a águia aparece também assim na tradição iraniana. Já na época dos Medas e dos Persas ela simbolizava a vitória. Segundo Xenofonte (Ciropedia lI, 4), quando os exércitos de Ciro (5.60-529 a. C.) vieram em apoio do rei dos Mcdas, Ciaxaro, em guerra contra os Assírios, uma águia sobrevoou os exércitos iranianos, e isso foi interpretado como um feliz presságio. Até Esquilo (Persas, 205 s.) pensou que a derrota dos Persas perante os Gregos fora anunciada a Atossa quando este viu em sonhos uma águia a perseguir um falcão. J:Ieródoto (Ill, 76) narra que no momento em que Dano e os sete notáveis do Irão hesitavam em marchar contra o palácio de Gaumata, rei usurpador da Pérsia este~ viram sete casais de falcões a perseguir doi~ casais de abutres e a arrancar-lhes as penas: isto foi considerado como um bom augúrio para o êxito do seus desígnios e partiram ao assalto do palácio. O estandarte do Irão aqueménida tinha uma águia dourada de asas estendidas e pousada na ponta duma lança (Ciropedia VII, 1), que pretendia simbolizar o poderio e a vitória dos Persas nas guerras. Ferdawsi (940-1020) fala também, no seu Shahnama (Livro dos Reis) ,da ~andeira do Irão antigo, sobre a qual figurava uma aguia, É especialmente a noção de varana,poder divino e lu~ de glória ?o. Masdeísmo (religião do Irão pré-islâmico) que esta hgada a este símbolo. . No Av~s~a (Zâ!l1yâd-yasht: yasht XIX, 34-38), o varana foi simbolizado por uma águia ou por um falcão ..Qu~ndo ? lendário rei do Irão, Djamshid (Yama), o pnmeiro rei do mundo segundo este livro (ou o terceiro, se~undo a Shahnama, de Ferdawsi), proferiu uma mentira, o varana que habitava nele abandonou-o de forma aparente sob a forma duma ave, varaghna (falcão). De repente, o rei viu-se despojado de todas as suas faculdades prodigiosas; foi vencido pelos seus inimigos e perdeu o seu trono. O aparecimento do Islão não vem alterar o símbolo da águia. Em vários contos, um mágico prova a sua supremacia sobre outro transformando-se em águia. Um poder sobrenatural é atribuído a esta ave nas velhas farmacopcias, que prescrevem beber sangue de águia para se adquirir vigor e bravura e defendem que o.seu exerel~lento, misturado com uma espécie de bebida .~lcoól1ca chamada siki, é um remédio para a esterilidade das mulheres (MOKC, 23-43). Nos nossos dias ainda, a águia representa, para os nómadas Yürük da Turquia, a idade da plena potência procriadora masculina, a meio caminho entre a idade do peixe, a adolescência, e a do carneiro, a velhice. Nos sonhos e na arte divinatória orientais a águia simboliza um rei poderoso, enquanto que um rei é presságio de desgraça. O folclore manteve este valor simbólico da águia. Em Os Segredos de Hamza (p. 10), o rei Anushiravan (Chosroés I) vê em sonhos um bando de corvos a virem de Khaybar. O que vem à frente apodera-se da sua coroa. Nesse instante três águias reais, vindas da direcção de Meca, abatem-se sobre o o corvo e retiram-lhe a coroa que entregam a Chosroés. Este sonho é interpretado pelo vizir Buzardjomehr como indicando um inimigo do rei que será .vencido pelo emir Hamza, ‘Amr (w), seu escudeiro, e Moqbel, seu arqueiro. A qualificação de águia r:al é empregue muitas vezes para designar estes tres personagens, que também são chamados sahe-qaran, isto é, senhores da época, os que alcançaram a vitória sobre os infiéis, pelo que são comparados às águias. A Águia agoireuta: como qualquer símbolo também a águia tem um aspecto nocturno, maléfico, ou .,uento; trata-se do exagero do seu valor, da perwrsão do seu poder, do descomedimento da sua própria exaltação, O dualismo do simbolo é expresso ji entre os Indios Pawnee. A. Fletcher (FLEH) obser- 11’00 que entre eles a águia parda, fêmea, é associada à aoite, à Lua, ao Norte, à Mãe Primordial, captadora, JCDCl”Osae terrivel, ao passo que a águia branca, macão. é pelo contrário associada ao dia, ao Sol, ao Sul, ao Pai Primordial, cuja figura pode também tomar-se Ikminadora e tirânica. Nos sonhos a águia, tal como o leão, é um animal real que encama os pensamentos elevados e cujo significado é quase sempre positivo. Simboliza a impressão súbita, a paixão consumidora tio espírito. Mas o seu carácter de ave de rapina que lieYaas suas vitimas com as suas garras para as transportar” para os lugares de onde não podem escapar, faz com que ela simbolize também uma vontade de poder inflexível e devoradora. Aplicada à tradição cristã, a mesma inversão de imagem conduz de Cristo ao Anticristo: a águia, símbolo de orgulho e de opressão, passa a ser uma rapace auel, um ladrão. ÁGUIA (de duas cabeças) Este símbolo não era desconhecido dos antigos Mexicanos. É especialmente representado no Códice Nuttal, onde encama, sem dúvida, segundo Beyer, mna divindade da vegetação; de facto, está acompanhado de plantas e de conchas. Sabe-se que, nas antigas civilizações da Ásia Menor, a águia bicéfala era o símbolo do poder supremo. Nas tradições xamânicas da Asia Central, é frequentemente representada no cimo da coluna do Mundo, colocada no meio da povoação; os Dólganes chamam-lhe o pássaro-senhor e consideram-na a coluna que nunca se desmorona, no cimo da qual está pousada, como réplica duma coluna idêntica colocada diante da casa do Deus supremo e chamada aquela que jamais envelhece nem cai (HARA, 35-36). Segundo Frazer, este símbolo de origem hitita teria sido retomado na Idade Média pelos Turcos Scljúcidas, reproduzi da destes pelos Europeus na época das Cruzadas, para assim chegar indirectamente às armas imperiais da Áustria e da Rússia (FRAG, 5, 133, n.). A duplicação da cabeça, mais do que a dualidade ou a multiplicidade dos corpos do império, exprime o reforço, duplicando-o, do próprio simbolismo da águia: autoridade mais do que real, soberania verdadeiramente imperial, rei dos reis. Do mesmo modo, os animais postos dc lado ou frente a frente, tão frequentes nas obras de arte, ampliam ao máximo os valores simbolizados.

AIPO
Planta aromática, umbelífera e sempre verde, com gue os Gregos coroavam os vencedores dos Jogos Istmicos: os verdes pés do aipo dárico coroam a fronte deste ditoso vencedor (Píndaro). O aipo simboliza a juventude triunfante e alegre. Desempenhava um papel importante nas cerimónias fúnebres significando o estado de eterna juventude a que o falecido acabava de chegar.

ALAVANCA
O simbolismo da alavanca é da mesma natureza do da tesouras, faz parte, tal como esta, dasferramentas maçónicas. A alavanca é um princípio activo, na medida em que põe em movimento o princípio passivo, a matéria inerte. Mas a sua actividade resulta da vontade que a move e diante da qual parece passiva. Tal como veremos no caso da tesoura. A vontade precede aqui o conhecimento. A alavanca é, tal como a tesoura, um intermediário passivo. Torna-se activa apenas pelo poder de quem a utiliza: por si mesma, é inerte. Refere-se, portanto, ao conhecimento que só se torná iniciático no caso em que aquele que o possui é, ele próprio, iniciável, isto é, capaz de compreender. A alavanca torna-se então a força fecunda … e perigosa, e é por isso que ela só deve exprimir-se controlada pela Régua, pelo Nível e pela Perpendicular (BOUM, 21). A alavanca simboliza apenas uma força instrumental, movida e controlada por uma força superior, e o valor do seu uso só pode ser medido pelo próprio valor do que ela ajuda a levantar.

ALCÍONE
Uma espécie de guarda-rios que entrou na lenda e se tomou símbolo; ou gaivota ou aleatraz; ou ainda, ave fabulosa, bela e melancólica. Segundo uma lenda grega, Alcíone, filha de Éolo, rei dos ventos, desposou Ceíee, o filho do Astro da Manhã. A felicidade deles era tão perfeita que se comparavam a Zeus e Hera, e, precisamente por isso, atraíram sobre eles a vingança dos deuses. Foram metamorfoseados em pássaros e os ninhos, construídos perto das águas, são constantemente destruídos pelas ondas (GRID). Esta seria a origem do seu grito lamentoso. Mas Zeus, por piedade, acalma o mar duas vezes, sete dias por ano, antes e depois do solstício de Inverno; durante esta acalmia, a alcíone choca os seus ovos. Por esta razão, tomou-se um símbolo de paz e de tranquilidade; mas de uma paz que é preciso aproveitar depressa, porque é breve. Ave dos mares, dedicada a Tétis, divindade marítima e uma das Nereides, filhas do vento e do sol matinal, as alcíoncs pertencem simultaneamente ao céu e aos oceanos, ao ar e às águas. Simbolizam, por isso, uma fecundidade ao mesmo tempo espiritual e material, se bem que ameaçada pelo ciúme dos deuses e dos elementos. O perigo que evocam é o da auto-satisfação e da atribuição a si mesmas de uma felicidade que não pode vir senão do alto. Esta cegueira na felicidade expõe ao pior dos castigos. Chorai, doces a/cíones, ó vós, aves sagradas, Aves queridas de Tétis, doces alclones, chorai … (ANDRÉ CHÉNIER) Lendas tardias assimilaram a lenda de A1cíone à de Ísis; a mulher voa através dos ares e por cima dos mares à procura do seu marido, filho do Astro da Manhã, como Osíris era o Sol Nascente. Ovídio descreveu o reencontro da esposa, transformada em pássaro, com o cadáver do seu marido empurrado pelas (OVIM, XI, v. 732-743). Porém, os terrores provocados pelos elementos desencadeados subsistirão sempre, conjugando as violências dos ventos e das vagas. A confissão de Alcíone, trémula e como que scduzida pelo grandioso furor dos elementos desencadeados, mostra bem o que está no coração do simbolismo deste pássaro tão caro aos românticos: O que me aterroriza é o mar, é a horrível imagem das ondas… Quando depois de desencadeados os ventos se tornam senhores da planície líquida, nada os poderá já deter; não existe terra nem mar que esteja protegido contra o seu furor; atormentam até as nuvens do céu e delas fazem brotar, por terríveis choques, fogos faiscantes; quanto mais os conheço (porque eu conheço-os bem, e muitas vezes, quando era pequena, os vi em casa do meu pai), mais os acho medonhos (OVIM, XI, v. 427-438).

ÁLCOOL
O álcool realiza a síntese da água e do fogo. Segundo as expressões de Bachelard, é a água de fogo, a água que arde. A aguardente, escreve ele, é uma água que queima a língua e que se inflama com a menorfalsca. Ela não se limita a dissolver e a destruir como a água-forte. Desaparece com o que ela queima. É a comunhão da vida e do fogo. O álcool é também um alimento imediato que põe em seguida o seu calor no fundo do peito (BACF, 167). O álcool simbolizará a energia vital, que provém da união dos dois elementos contrários, a água e o fogo. Os poetas românticos exaltaram os estados iluminados pelo sol interior! Quão verdadeira e ardente é esta segunda juventude que o homem extrai de si mesmo! Mas como são assustadoras também as suas volúpias fulminantes e os seus encantamentos enervantes. E no entanto … quem de nós terei a coragem impiedosa de condenar o homem que bebe o génio? (Ch. Baudlaire, Du vin et du haschisch, 2). Com que emoção Bachelard evoca o bagaço das festas familiares da sua infância, com os seus fogos-fátuos domésticos; esta chama espirituosa que arde numa tijela de ponche, e este complexo de ponche que se revela nas poesias fantasmagóricas de um Hoffinann; os mil dardos afiados … a salamandra e as serpentes que saem da terrina de ponche … O álcool faz convergir milhares de experiências íntimas. Símbolo do fogo da vida, o álcool é também o símbolo da inspiração criadora. Não só excita as possibilidades espirituais, observa Bachclard, como verdadeiramente as cria. Incorpora-se, por assim dizer, ãquilo que se esforça por exprimir. Evidentemente, o álcool é um factor de linguagem … Baco é um deus bom; ao fazer divagar a razão, impede o anquilosamento da lógica e prepara a invenção racional. A ambivalência do álcool desvenda-nos a sua dupla origem. O álcool de Hoffinann é o álcool que arde; está marcado pelo sinal totalmente qualitativo, totalmente masculino do fogo. O álcool de Poe é o álcool que submerge e que dá o esquecimento e a morte; está marcado pelo sinal totalmente quantitativo, totalmente feminino da água (BACF, 174-180). O Além é o domínio misterioso para onde vão todos os seres humanos depois da morte. É diferente do Outro Mundo, que não é um Além, mas sim um mundo contíguo ou muitas vezes duplicado do nosso, no sentido em que os seus habitantes podem entrar ou sair dele livremente. Podem até convidar para lá os humanos, mas do Além ninguém regressa. O Além é por vezes localizado como um mundo mau sob as colinas e os outeiros. O Outro Mundo é, por definição, o mundo dos deuses, em oposição ao mundo dos homens, terrestres ou falecidos, indo estes últimos para o Além. Escapa às contingências do tempo e da dimensão. Os seus frequentadores são imortais e podem ser encontrados em qualquer lugar e momento. É aquilo a que a Irlanda chama globalmente sid, ou sidh, na ortografia moderna (de um termo que, etimologicamente, significa paz). E também, por excelência, um mundo sagrado com o qual a humanidade não pode comunicar senão em deterrminados momentos (festas) e em determinados sítios (lugares consagrados ou omphaloh. Os transcritores cristãos das lendas irlandesas confundiram- no indcvidamente, nas suas descrições maravilhosas, com o Além e com o Paraíso bíblico, quando já não era compreendida a distinção entre o Outro Mundo e Além. É também esta a razão pela qual se tem colocado algumas vezes o sid nas colinas da Irlanda ou nos lagos (OGAC, 28, 136 s).

ALFA E ÓMEGA
Estas duas letras encontram-se no princípio e no fim do alfabeto grego. Como se considera que elas contêm a chave do universo, este está inteiramente encerrado entre estes dois extremos. O alfa e o ómega simbolizam, portanto, a totalidade do conhecimento, a totalidade do ser, a totalidade do espaço e do tempo. O autor do Apocalipse atribui estas duas letras a Jesus Cristo, a testemunha fiel. o primogénito -dos mortos e o Príncipe dos reis da terra … Eu sou o Alfa e o Omega, diz o Senhor Deus. O que é. que era e que há-de vir, o Todo-poderoso. (Apocalipse, 1,4-8). Isto significa que Cristo é o princípio e o fim de todas as coisas. É a expressão helenizada do pensamento de Isaías: Quem, pois, realizou h/do isto? Aquele que desde a origem chamou as gerações à vida. Eu, o Senhor. que sou o primeiro e estarei também com os últimos. (41,4) …Eu sou o primeiro e o último, não há outro Deus fora de Mim (44,6-8) A revelação foi precisada no Apocalipse (21, 5-8). • Observa-se que muitos termos, além do Alfa e do Omega, são utilizados aqui num sentido simbólico: água, símbolo de vida, tornada símbolo do espírito, fonte da vida espiritual; o fogo devorado r, símbolo dos suplícios do inferno e da morte eterna diante de Deus. Do mesmo modo (Apocalipse, 22, 13-15): as palavras árvore* de vida, cidade*, portas*, são símbolos que se inscrevem no quadro do Alfa e Ómega, Primeiro e Último, Princípio e Fim. Estas duas letras CIlContram-se frequentemente inscritas na Cruz” de Cristo. Nos nossos dias, Teilhard de Chardin utilizou estas às letras gregas para exprimir uma teoria nova da evolução universal que tende a constituir uma noosi: ra pela espiritualização progressiva dos seres e da consciência. Denuncia, em primeiro lugar, uma 1e:odência do espírito moderno que veria na evolução .na despersonalização progressiva e uma colectiviação dos seres numa energia comum. Opõe-lhe a sua concepção de um universo personalizante. Com efeito, para ele a união diferencia, pelo menos a união 111como ele a entende; …em Omega adiciona-se e w:colhe-se, na sua flor e integridade, a quantidade de consciência pouco a pouco libertada na Terra pela Noogénese … Mais profundo do que todos os seus raios, o próprio foco da nossa consciência: eis o essencial que é preciso ao Ómega recuperar para ser verdadeiramente ómega … Para se comunicar, o meu amigo deve subsistir no abandono que faz de si: de outro modo, o dom esvai-se. Daí esta conclusão inevitável segundo a qual a concentração de um Universo consciente seria impensável se, ao mesmo tempo que todo o Consciente, ela não reunisse em si todas as consciências.: (Le Phénomène humain, p. 286,289-291, Paris, 1955). O ponto Ómega simboliza o termo desta evolução em direcção à noosfera, a esfera do espírito, em direcção à qual convergem todas as consciências e o humano seria de alguma forma divinizado em Cristo.

ALGA
A colheita das algas, elemento importante da alimentação japonesa, é feita de acordo com determinados ritos xintoístas, não tanto por elas serem um produto do mar, quanto por considerarem que possuem uma virtude protectora: garantem a segurança dos navegadores e facilitam os partos (HERS). Mergulhada no elemento marinho, reservatório de vida, a alga simboliza uma vida sem limite e que nada pode aniquilar, a vida elementar, o alimento primordial.

ALGARISMOS (ver Cifras, Números)

ALHO
Um molho de alhos pendurado à cabeceira da cama ou um colar de flores de alhos afastam os vampiros, segundo uma tradição da Europa central. Já Plínio llizia que o alho afastava as serpentes e protegia da loucura. Na Sibéria, segundo as crenças dos Buriatas, a aproximação das almas de mulheres mortas ao dar à luz, e que regressam de noite para perseguir os vivos, pode ser reconhecida pelo cheiro a alho que elas deitam (HARA).
Os Batak, do Bornéu, atribuem ao alho o poder de encontrar as almas perdidas (FRAG, 3, 46). O mesmo autor narra que, nos antigos costumes do Var (em Draguignan), os dentes de alho eram assados nas fogueias de São João, acesas cm todas as ruas da cidade; estes dentes eram seguidamente distribuídos por todos as lares (FRAG, 10, 193).
A Antiguidade clássica concedia ao alho determinadas virtudes como ainda se pode ver no folclore grego contemporâneo. Assim, por ocasião das Tesmofórias, bem como durante a Cirofória, as mulheres comiam alho, acreditando que esta planta ajuda à prática da castidade, imposta durante as festas (DARS, artigo Cérès); de resto, os Gregos detestavam o alho. Porém, a crença mais persistente na bacia mediterrânica e até na Índia é que o alho protege contra o mau-olhado. Por esta razão, encontram-se na Sicília, na Itália, na Grécia e na Índia réstias de cabeças de alho atadas com lã vermelha. Na Grécia, o simples facto de se pronunciar a palavra alho esconjura a má sorte (HASE, art. Evil eye).

Na altura das festas rituais da renovação, de carácter dionisíaco, celebradas ainda nos nossos dias na Trácia grega, e recentemente analisadas pela etnógrafa Katerina J. Kavouri, o principal personagem da cerimônia, que compreende ordálios com o caminhar sobre brasas ardentes, leva uma réstia de alho na mão (KAKD,41). Nos nossos dias ainda, os pastores dos Cárpatos, antes de ordenharem pela primeira vez as suas ovelhas, esfregam as mãos com alho bento, a fim de proteger o rebanho das mordeduras de serpentes (KOPK, 434). Em todas estas práticas, o alho aparece como um agente protector contra as influências nefastas ou as agressões perigosas. Os antigos Egípcios fizeram do alho um deus, talvez o anti-serpente, devido ao cheiro. Em Roma, era interdito entrar no templo de Cíbele àqueles que tivessem acabado de comer alho. Horácio fulmina o alho com um dos seus epodos de violentas imprecações. Sem dúvida, mais uma vez, por causa do cheiro. Como fazia parte da alimentação normal dos soldados romanos, o alho tornou-se um símbolo da vida militar.

ALIANÇA
O termo aliança (bêrtth, em hebraico) possui o sentido de compromisso, ou ainda de pacto, em relação a uma pessoa ou colectividade. Estes dois sentidos encontram-se igualmente nas palavras gregas (diathéké e synthéké), e nas latinas: foedus e testamentum. Daí as expressões Antigo e Novo Testamento, para Antiga e Nova Aliança. A Antiga Aliança designa um compromisso assumido por Javé para com Abraão; e que é precedida pela aliança celebrada entre Deus e Noé depois do dilúvio, cujo signo exterior é o areo-írls=, tal como o cordelro” pascal o será da aliança mosaica. A propósito desta aliança significada pelo arco-íris, podemos falar aqui duma revelação de Deus pela natureza, correspondente à aliança com Noé. A continuidade da aliança não está ligada à fidelidade de um homem ou de um povo, Javé mantém o seu pacto independentemente da atitude do seu parceiro; Israel sabe disso e é por isso que ele pedirá a Deus que se lembre da sua aliança. Jean Daniélou, ao analisar o sentido da Aliança (DANA, 46), precisa de que modo a aliança é simbolizada por uma vítima dividida. Por ordem de Javé, Abraão pega num bezerro, numa cabra, num carneiro, numa rola e num pombo e corta-os ao meio; entre os animais divididos passará um archote a arder para significar a aliança, que une o que está dividido e participa de um mesmo sangue. Na Nova Aliança a vítima será Cristo, e o signo, a Eucaristia. Assim, as alianças sucedem-se umas às outras, não se destruindo, mas assumindo as anteriores.

ALMA

 A palavra alma evoca um poder invisível: ser distinto, parte de um ser vivo, ou simples fenômeno vital; material ou imaterial, mortal ou imortal; princípio de vida, de organização, de acção; salvo fugazes aparições, sempre invisível e manifestando-se apenas através dos seus actos. Pelo seu poder misterioso, sugere uma força sobrenatural, um espírito, um centro energético. Afirmar a existência da alma, entretanto, provoca reacções opostas. Na visão da ciência ou da filosofia, esta existência é rejeitada (impostura de padres, segundo d’Alembert; teoricamente uma tolice, para Feuerbach; não existe qualquer alma na ponta de 11111 escalpelo, para o cirurgião) ou aceite, diferentemente concebida, sem dúvida, mas admitida. Estas duas atitudes determinam diferenças essenciais na antropologia, na ética e na religião. Porém, evocadora de um poder invisível e provocadora de um saber, de uma crença ou de uma rejeição, nesta dupla qualidade, a alma tem pelo menos valor de símbolo, quer pelas palavras e gestos que a exprimem quer pelas imagens que a representam. Está por detrás de toda uma série de símbolos. O principal destes símbolos é o sopro, com todos os seus derivados. A própria ctimologia da palavra remete para o sopro” e para o ar”, enquanto que princípio vital; animus; princípio pcnsante e sede dos desejos e das paixões, corresponde ao grego anemos, ao sânscrito aniti, que significam sopro; de valor intelectual e afectivo; de género masculino; anima: princípio da as: piração do ar e da sua expiração; de géncro feminino. As representações simbólicas da alma são tão numerosas quanto as crenças acerca dela.

ALMA- A alma do morto sob a forma de pássaro. Arte eglpcia

ALMA- A alma do morto sob a forma de pássaro.
Arte egípcia

Uma ideia, por mais breve que seja, sobre estas crenças é indispensável ao entendimento dos símbolos. Entre os Egípcios, por exemplo, a ibis sagrada representa o princípio imortal (akh), de natureza celeste, simultaneamente brilhante e poderosa, que parece comum aos homens e aos deuses; a ave com cabeça humana corresponde ao espírito próprio do indivíduo (ba), que pode vagar após a morte pelos lugares frequentados há pouco -pelo defunto. O ba é, pois, um princípio espiritual que pode aparecer independentemente do seu suporte flsico, agir por sua própria conta, representar de alguma forma o seu dono … alma itinerante de um ser vivo, capaz de acção material. Além destes dois princípios, o homem é composto também de outros elementos, entre os quais a sombra e o nome*, traduzindo este o seu ser íntimo (POSD, 10). Entre os Maia-Quiche (Popol- Vuh) a tradição quer que o morto seja deitado de costas para que a sua alma possa sair livremente pela boca, a fim de que Deus a ice para o outro mundo (GIRL, 78). Da mesma forma que a essência divina – líquido seminal -, também a alma é representada por uma fita ou por uma corda” e os Chorti simbolizam-na com uma cadeia de treze frutos que cinge o cadáver e a que eles chamam: o cabo pelo qual Nosso Senhor nos puxa. Entre os Naskapi, Índios caçadores do Canadá, a alma é uma sombra, uma centelha ou uma pequena chama que sai pela boca (MULR, 233). Entre os Delaware, a alma reside no coração e chamam-lhe imagem, reflexo, fenômeno visível sem matéria corporal (lbid., 243-244). Para os Índios da América do Sul, muitas vezes uma única palavra designa a alma, a sombra e a imagem. Ou então a alma, o coração (Caraíbas) e o pulso (Witoto). O homem tem, muitas vezes, várias almas (2, 3, 5 e mais), com funções diferentes e matéria mais ou menos subtil; geralmente, só uma ganha o céu depois da morte, as outras ficam com o cadáver, ou então, sendo de origem animal, reencarnam sob a forma de animal. É uma crença geral, entre estes Índios, que o sono, da mesma forma que a catalepsia ou o transe, provém duma perda temporária da alma (METB). Para os Bantos do Cassai (bacia congolesa), a alma separa-se igualmente do corpo durante o sono; os sonhos que ela traz das suas viagens ter-lhe-ão sido comunicados pelas almas dos mortos, com os quais conversou (FOUC). Na síncope, no transe e na hipnose a alma abandona igualmente o corpo, mas afasta- -se dele ainda mais; acontece até ela ir até ao país dos espíritos, do qual dá testemunho quando acorda. Segundo o Dr. Fourques, os Balubas e os Luluas consideram que três veículos subtis estão associados à pessoa humana: o mujauji, o veículo mais grosseiro, assimilado ao fantasma, guia a vida animal; seria análogo ao corpo etéreo dos ocultistas; o Mukishi é o duplo, veículo dos.sentimentos e da inteligência inferior, análogo ao corpo astral dos ocultistas; por fim, o M’vidi veicula a inteligência superior e a intuição; a reencarnação não é possível senão pela reunião destes três corpos subtis; apenas o homem possui estes três princípios, os animais não têm mais do que um fantasma (mujanji), à excepção do cão* que também tem um duplo (Mukishi), o que explica a sua importância ritual. Mujanji dirige a vida do corpo, Mukishi liberta-se do envoltório corporal du- -.te o sono e dialoga com os Mukishi dos defuntos (sonhos); M’vidi adverte o homem dos perigos ocultos ou cujos sinais de aproximação escapam à percepção (FOUC).

Nas concepções populares do norte de África, o corpo é habitado por duas almas: uma alma vegetativa, nefs, e uma alma subtil ou sopro, rruh; à alma subtil correspondem as paixões e o comportamento emocional; é transportada pelo sangue, a sua sede é no fígado. À alma subtil ou sopro corresponde a vontade, pois circula nos ossos e a sua sede é no coração (SERP,23). A união destas duas almas é simbolizada pelo par árvore-rochedo: a primeira representa o princípio feminino, a segunda o princípio masculino… A árvore dá sombra e humidade à nefs, a alma vegetativa; mas é sobretudo o suporte privilegiado de rruh, a alma subtil que vem pousar nela como um pássaro. Nefs está presente no rochedo ou na pedra e as fontes que jorram das pedras não são mais do ‘que o símbolo da fecundidade vinda do mundo de baixo (SERP, 28). A alma pode abandonar o corpo sob a forma de abelha ou de borboleta, mas o mais frequente é manifestar-se sob a forma de ave.

Para os povos siberianos, tanto os animais como os homens têm uma ou várias almas; elas são muitas vezes assimiladas à sombra dos seres que elas animam. No norte da Sibéria, entre os Yukagirs, diz-se que um caçador não pode apoderar-se de uma peça se um dos seus parentes defuntos não tiver previamente aguardado a sombra do animal em questão (HARA, 184).

Para os Esquimós, a alma e as pequenas almas desempenham um papel constante e misterioso em toda a vida e nos ritos fúnebres. Para os Yacutes, os Tchuvaches, etc., a alma sai pela boca daquele que dorme, para viajar; geralmente materializa-se sob a forma de insecto ou de borboleta; nalgumas lendas da Europa central toma o aspecto de um rato. Como tantos outros povos primitivos, e especial entre os Indonésios, os povos norte-asiáticos acham que o homem pode ter até sete almas. Ao morrer, uma delas fica no túmulo, uma segunda desce ao reino das sombras e a terceira sobe ao céu… A primeira reside nos ossos; a segunda alma – que reside provavelmente no sangue – pode abandonar o corpo e circular sob a forma de abelha ou de vespa; a terceira, em lado semelhante ao homem, é uma espécie de fantasma. Ao morrer, a primeira fica no esqueleto, a segunda é devorada pelos espíritos e a terceira mostra-se aos humanos sob a forma de fantasma (ELIC, 196-197).

Segundo Batarov, citado por U. Harva (HARA, 264), os Buriatas acreditam que uma das suas três almas vai para o inferno, que a segunda fica na terra sob a forma de espírito perseguidor (Kokholdoi) e que a terceira renasce noutro homem.

A maioria dos povos turco-mongóís acreditam na existência de uma alma continuamente separada do corpo e que vive geralmente sob a forma de animal, insecto, ave ou peixe (HARA). Na epopeia quirguizia de Er Tôshtük, o herói, devido à sua força e violência, tem uma lima de ferro em vez de alma; mata-se um homem por magia destruindo o animal ou o objecto que materializam a sua alma. O ubyr dos Tártaros do Volga é uma alma com uma característica particular, que nem todos os homens obrigatoriamente possuem. Com a morte do seu portador, o ubyr continua a viver e sai de noite por um pequeno orificio perto da boca do cadáver para sugar o sangue dos homens adormecidos (HARA, 199): está, portanto, relacionada com o mito do vampiro*. Destrói- se o ubyr desenterrando o cadáver e fixando-o no chão com uma estaca espetada no peito. O ubyr de um homem vivo é igualmente nefasto e sai frequentemente do seu corpo para cometer toda a espécie de maleficios. Pode ser visto sob a forma de uma bola de fogo, de um porco, de um gato preto, de um cão. O ubyr perde os seus poderes quando aquele que o vê parte umforcado de estrumar de madeira ou qualquer forquilha de árvore (HARA, 198). O elefante, o tigre, o leopardo, o leão, o rinoceronte, o tubarão e numerosos outros animais, sobretudo entre os que têm reputação de ctonianos, são por vezes considerados como reencarnação de reis ou de chefes defuntos; Prazer dá-nos múltiplos exemplos provenientes da Ásia (Semang e Malásia) e da África negra (Daomé e Nigéria) (FRAG, 1,84 s). Na China a alma é dupla, composta de dois princípios: Kuei e Shen. Kuei é a alma mais pesada, a que é entorpecida pelos desejos do ser vivo; permanece perto do túmulo e frequenta os lugares familiares … Sheu é o génio, a parcela divina presente 110 ser humano … No século IVantes da nossa era este dualismo popular veio juntar-se ao grande duallsmo da cosmogonia oficial baseada na oposição dos dois princípios, o yin terrestre e feminino e o yang masculino e celeste (SERH, 76). No mundo celta não é conhecido qualquer equivalente exacto da lenda de Eros e Psique. Porém, o exame da lexicografia neocéltica do nome da «alma» (irlandês: ainim; bretão: ene e auaon, almas dos defuntos) mostra que os Celtas da antiguidade conheceram também, no seu vocabulário e nas suas concepções religiosas e metafisicas, a distinção entre anímus e anima, nos sentidos específicos de alma (espírito) e alma (sopro), caida em desuso no vocabulário litúrgico a partir do século IV (animus foi substituido por splritus). O nome pancéltico da alma, anamon* está também em relação etimológica precisa com o nome da harmonia, anavo-n” e o nome da divindade feminina primordial (Ana). Simboliza, assim, a plenitude das virtualidades do homem enquanto ser «espiritual». (OTC XIX, 1967, n° 113-114). Os druidas da Gália e da Irlanda ensinaram, como sendo uma das suas’ doutrinas fundamentais, a imortalidade da alma. Depois da morte, os defuntos vão para o Além* e lá continuam uma vida semelhante à que levaram .neste mundo. Temos um vestígio desta concepção do Além nos Anaon bretões que, na festa dos mortos, no dia seguinte ao de Todos os Santos (que corresponde à Samain irlandesa) regressam, pelos caminhos que lhes são familiares, ao seu antigo domicílio. Os escritores antigos confundiram muitas vezes esta doutrina da alma com a da metempsicose; mas são distintas: os deuses, imortais por definição, não têm necessidade da imortalidade da alma e os humanos têm apenas um acesso temporário e excepcional ao Outro Mundo (OGAC, 18, 136 s.), que se distingue do Além. . Entregar a alma é morrer. Animar, dar uma alma, é fazer viver. Segundo o pensamento judaico, a alma dívide-se em duas tendências: uma superior (celeste) e outra inferior (terrestre). O pensamento judaico considera também o princípio masculino (nefesh) e o princípio feminino (chajah); um e outro são chamados a transformar-se, a fim de poderem ser um só princípio espiritual, rugh, o sopro, o espírito. Este está ligado à imagem divina e, cósmica de nuvem negra, de nevoeiro”. O elemento vital ou terrestre significa a exterioridade; o elemento espiritual ou celeste, a interioridade. O tema da viagem celeste da alma está indicado sob a forma de um sol errante (curso solar do nascente ao poente). A alma (alma- espírito), enquanto substância luminosa, é comummente representada sob a forma de uma chama ou de uma ave. Entre os Gregos, no tempo da Ilíada: a alma, psychê, como anima em latim, significa exactamente o sopro. Sombra, eidolon, é propriamente falando uma imagem. Por fim, o espírito é designado por uma palavra material, phrenes, o diafragma, sede do pensamento e dos sentimentos, inseparáveis de um suporte fisiológico (Jean Defradas).

Sob a influência dos filósofos, os Gregos mais tarde distinguiram duas partes na alma humana, princípios, forças ou faculdades. Para Pitágoras, e psyché correspondia à força vital; a sensibilidade (aísthesis), à percepção sensível; o nous, à faculdade intelectual, o único princípio especificamente humano. E conhecido o paralelismo desenvolvido por Platão (República, Livro IV) entre as partes da alma e as classes ou funções sociais. Aristóteles dinstinguiu no nous o intelecto passivo e o intelecto activo, que será, este último, nas especulações ulteriores, idcntificado com o Lagos e com Deus. A noção de pneu ma só intervirá mais tarde, na literatura de tendência teológica, como. sendo a da alma que é chamada a viver na sociedade dos deuses, sopro puramente espiritual que tende para as regiões celestes. Se bem que enraizando-se no pensamento de Platão, e desenvolvendo- se seis séculos mais tarde em Plotino, só dará origem a toda uma pneumatologia nos primeiros séculos da era cristã, para desabrochar no gnosticismo. A teologia simbólica não encontrará melhor imagem para exprimir o que é a alma- espírito do que a do sopro” que sai da boca de Deus. Para os Romanos, o pncuma, em latim spiritus, é ao mesmo tempo, diz Jcan Beaujeu, o princípio da geração para o conjunto dos seres animados e, no aspecto puramente inteligível e espiritual. o princípio do pensamento humano. O fogo” que entra na natureza do pneuma provém do fogo puro do éter, e não de uma combustão terrestre; esta origem estabelece o parentesco real da alma com o céu … A noção de pneuma, mistura de ar e calor vital, estreitamente aparentada e frequentemente identificada com o fogo puro do éter, que é a alma do mundo, parece ter o seu ponto de partida num dos primeiros tratados de Aristóteles, de onde passou para os estóicos. Mas a assimilação do cosmos a um ser vivo parece, por sua vez, de origem pitagórica; e passou para os estóicos através de Platão. Da mesma forma, a ideia de que o corpo paralisa e entorpece a alma, sujeitando-a ao mesmo tempo às trevas e às paixões, encerrando-a numa espécie de prisão, expandiu-se depois de Platão a toda uma série de pensadores, filósofos e religiosos. São Paulo, sem pretender ensinar uma antropologia completa e coerente, distingue no homem integral o espírito (pneuma), a alma (psyché) e o corpo (soma). Se compararmos os textos da Primeira Epístola aos Tessalonicenses (5, 23) e da Primeira Epístola aos Corlntios (15, 44), vê-se que a é alma-psyché que anima o corpo, ao passo que o espírito-pneuma é a parte do ser humano aberta à vida mais elevada, à influência directa do Espírito Santo. É ela que beneficiará da salvação e da imortalidade, é ela que a graça santitica; mas a sua influência deve irradiar, através da psyché, sobre o corpo, e, por conseguinte, sobre o homem integral, tal como deve viver neste mundo e tal como será reconstituído depois da ressurreição .. A tradição escolástica, e mais claramente o pensamento tomista, distinguirá três níveis na alma humana: a alma vegetativa, que governa as funções elementares de alimentação e de reprodução, de movimento bruto; a alma sensitiva, que rege os órgãos dos sentidos; a alma racional, de que dependem as operações superiores do conhecimento (intellectus) e do amor (appetitus). Não vamos entrar aqui nas divisões ulteriores em forças, faculdades, etc. É por esta alma racional que o homem se distingue dos outros animais e se diz que é feito à imagem e semelhança de Deus. Se considerarmos nela a sua máxima perfeição, atinge-se a mens, a parte mais elevada da alma, destinada a receber a graça, a tornar-se o templo de Deus e a gozar directamente da visão beatifica. O sentido místico da alma desenvolveu-se na tradição cristã. O nível espiritual alcançado pelos místicos nada tcm a ver com a psicologia, a sua alma é animada pelo Espírito Santo. A alma apresenta diferentes partes ou níveis de actividade e de energia. Depois de São Paulo, os místicos distinguem o princípio vital do princípio espiritual, o psíquico do pneumático; só o homem espiritual é movido pelo Espírito Santo. Fazendo uma alusão à palavra de Deus, São Paulo compara-a com um gládio penetrando até ao ponto de divisão da alma e do espírito (Hebreus, 4, 12). Reconhece-se como necessária a transformação espiritual para revestír o homem novo (Efésios, 4, 23). Quer se trate de Clemente de Alexandria quer de Orígenes, os Padres gregos retomarão as divisões propostas por Plotino, segundo o qual convém que se retenham três tipos de homem: o sensível, o racional é o inteligível, isto é, três niveis de hominização. Segundo Guillaume de Saint-Thierry, estes três tipos de homens encontravam-se nos mosteiros. A estabilidade nunca está rigorosamente adquirida, daí as passagens constantes entre os dois últimos estados: racional e espiritual.

A cada estado corresponde uma qualidade do amor proporcional à medida da união com Deus. Do ponto de vista psicanalítico, tendo mostrado que a alma é um conceito de múltiplas interpretações, Jung dirá que ela corresponde a um estado psicológico que deve gozar de uma certa independência dentro dos limites da consciência … A alma não coincide com a totalidade das funções psíquicas. (Ela designa) uma relação com o inconsciente e também uma personificação dos conteúdos inconscientes … As concepções etnológicas e históricas da alma mostram claramente que ela é em primeiro lugar um conteúdo pertencente ao sujeito, mas também ao mundo dos espíritos, o inconsciente. E é por isso que a alma tem .-pre em si qualquer coisa de terreno e de sobrenatural(JUNT, 251-255). Terreno, porque é posta em contacto com a imagem maternal da natureza, da terra; celeste, porque o inconsciente deseja sempre ardentemente a luz da consciência. E por isso que a anima exerce uma função mediadora entre o eu e o em si, constituindo este o núcleo da psyché.

A anima, em Jung, comporta quatros estádios de desenvolvimento: o primeiro, simbolizado por Eva*, coloca-se num plano instintivo e biológico. O segundo mais elevado, conserva os seus elementos sexuais. O terceiro é representado pela Virgem Maria, em quem o amor atinge totalmente o nível espiritual. O quarto  é designado pela Sabedoria (JUNS, 185). Que significam estes quatro estádios? A Eva terrestre, encarada enquanto elemento feminino*, progride em direcção a uma espiritualização. Se admitirmos que tudo o que é é terreno tem a sua correspondência celeste, a Virgem Maria deve ser vista como a face terrena da Spohia que, como tal, é celeste.

Assim, vemos logo que a alma individual tem de percorrer estas quatro etapas. A Eva em nós é chamada a purificar-se num movimento ascensional, a fim de imitar a Virgem Maria, descobrindo no em si a criança de luz (o puer aeternus), o seu próprio sol.

Retenhamos ainda uma outra definição dada por Jung: a anima é o arquétipo do feminino que desempenha um papel de uma importância muito particular no inconsciente do homem. A anima é o índice feminino do inconsciente do homem, o animus, segundo Jung, é o índice masculino do inconsciente da mulher, ou ainda, a anima é a componente feminina da psyché do homem e o animus é a componente masculina da psyché feminina (JUNM, 125, 446).

A alma, este arquétipo do feminino, é, conforme as épocas históricas, mais ou menos activa. Na tradição da magia, o homem pode vender a sua alma ao diabo, para obter em troca o que deseja nesta terra. Sob múltiplas formas, é o pacto de Fausto com Mefistófeles. Mas uma lenda alemã acrescenta que o homem que vendeu a sua alma já não tem sombra* (TERS, 26). Será um eco das crenças nas duas almas, no duplo dos antigos Egípcios? Não se tratará, antes, de simbolizar o facto de o homem ter perdido toda a existência própria? A sombra seria então o símbolo material da alma assim abandonada, que pertence doravante ao mundo das trevas e já não se pode manifestar sob o sol. Sem qualquer sombra, sinal de que já não há luz nem consistência.

Concepções tão dispares da alma e das almas, cujo enunciado requeriria vários volumes, traduzem-se em obras de arte, em lendas e em imagens tradicionais que são outros tantos símbolos das realidades invisíveis que actuam no homem. Estes símbolos permaneceriam fechados se não se fizesse referência às crenças sobre a alma que os povos que as imaginaram têm. Não fizemos mais do que esboçar, muito por alto, algumas dessas crenças, para incitar o intérprete dos símbolos a ter muitas reservas e cuidar os matizes quando falar dos símbolos da alma. De que alma se trata? A famosa discussão sobre o animus e a anima, apesar da subtileza de um Henri Brémond e de um Paul Claudel, está longe de ter exprimido todo o conteúdo das intuições humanas, tão ricas na sua incoerência, sobre este princípio vital que faz mais do que unir uma porção de matéria e um sopro de espírito, porque os une num mesmo sujeito.

ALMANDINA (ver Rubi, Carbúnculo) Pedra preciosa, de cor avermelhada, luminescente.
Pedra preciosa, de cor avermelhada, luminescente. Tida como capaz de brilhar nas trevas. Era incrustada nas órbitas de estátuas, simbolizando o brilho dos olhos, testemunho da intensidade da vida e do desejo. Coloca” da ao longo de um corredor escuro para guiar o caminho, simboliza, mais concretamente, os olhos que vêem na noite, ou o desejo que espicaça a procura do seu objecto . Nome dado também, pelos Antigos, ao Rubi*, devido à sua cor e à sua forma de amêndoa, depois confundido com o Carbúnculo”, gema fabulosa, cujo esplendor mágico é celebrado com lirismo na poesia romântica alemã: simboliza os desejos ardentes ocultos no fundo do coração .

ALMOFARIZ
A significação sexual do almofariz e do pilão* é fácil de compreender. Por extensão, os Bambaras fazem do almofariz um símbolo da educação (ZAHB). O almofariz, tal como o caldeirão”, desempenha um grande papel nas mitologias europeias e asiáticas. Na Rússia, a velha ogre Baba- Yaga, personificando as tempestades de Inveruo, viaja dentro de um almofariz: no almofariz ela rola, com o pilão ela bate, com a vassoura apaga o seu rasto (AFAN, T. I, p. 157) . Os Vedas celebraram o almofariz e o soma -licor da vida, esperma dos deuses – em versos em que o símbolo sexual é sacralizado até alcançar dimensões cósmicas; a matriz, onde se opera a perpetuação da vida, é aqui associada ao tambor, ao passo que o pilão, fálico, é comparado ao cavalo:

Vá. ó Indra, lá onde a pedra de larga base
é preparada para a pressão e engula o soma que se mói no almofariz.
Vá, ó Indra, lá onde as duas mós da prensa são feitas
como os órgãos genitais e engula o soma que se mói no almofariz.
Vá, ó Indra, lá onde a mulher se move para a
frente e para trás e engula o soma que se mói no almofariz.
Vá, ó Indra, lá onde se brande o pilão como as rédeas para dirigir o cavalo

e engula o soma que se mói no almofariz.
Oh, gentil almofariz, mesmo que te atreles de casa em casa,
é aqui que devesfalar com a tua voz ruidosa, como o tambor dos vencedores.
(VEVD, Rig ‘Veda, 1,28)

ALQUEIRE
O nosso alqueire, medida para cereais, corresponde a cerca de treze litros. Na China encontra-se uma medida para uso análogo, mas que agora contém somente 10, 31 litros: é o teu (em vietnamita, dau). De uso muito antigo, o teu viu a sua capacidade normalizada desde a dinastia Han. Como as organizações taoístas desta época recebiam, a título de imposto celeste, cinco alqueires de arroz, os referidos alqueires foram durante muito tempo, para os profanos, um emblema do próprio Taoísmo. o uso simbólico do alqueire é essencialmente devido às sociedades secretas relacionadas com a T’Ien-tl-houel, ou Sociedade do Céu e da Terra. No centro da loja, no espaço chamado Cidade dos Salgueiros, encontra-se um alqueire cheio de arroz vermelho. Como a Cidade dos Salgueiros resume a loja inteira, o teu representa a cidade e substitui-a: os caracteres mou-yang tcheng (cidade dos salgueiros) estão, aliás, desenhados no alqueire. Ao levantarem o teu, os novos iniciados dizem explicitamente: Nós levantamos a Cidade dos Salgueiros para destruir Ts’iug e restaurar Ming. Ora, Ming não é somente uma dinastia, é sobretudo a luz. Restaurar a luz levantando o alqueire corresponde, estranham ente, a um simbolismo que nos é familiar: se a luz não está escondida debaixo, pelo menos está contida no interior. Signo de reunião, arca da aliança, sede dos símbolos essenciais, o teu contém arroz*, que é o alimento de imortalidade. E contém-no pelo poder de Ming, isto é, ainda, pela luz, ou pelo conhecimento. Além disso, teu é o nome da Ursa Maior. Ora, a Ursa Maior*, no meio do céu como o soberano no coração do Império, regula as divisões do tempo e a marcha do mundo. Se o teu é a Ursa Maior, em volta dele as quatro portas cardeais da loja correspondem às quatro estações. Na vertical do pólo celeste, o alqucire é o ponto de aplicação da actividade do Céu. Na Cidade dos Salgueiros o alqueire é como o linga na eella do templo hindu, a sede da luz na caverna do coração (FAVS, GUET, GRIL, MAST, SCHL, WARH). Um dos filhos do deus irlandês Diancccht (ApoIo, no seu aspecto de deus-médico) chama-se Mlach, alqueire. E morto pelo seu pai por ter enxertado no rei maneta, Nuada, um braço vivo em vez do braço de prata cuja prótese ele, Diancecht, fizera. A filha de Dianeecht, Airmed, classificou as plantas, em número de trezentas e sessenta e cinco, que cresceram sobre o túmulo de Miach, seu irmão. Mas Diancecht desordenou- as para que ninguém pudesse utilizá-las. Miach (alqueire) simboliza a medida de equilíbrio cósmico e Diancecht mata o seu próprio filho, porque o conhecimento das plantas não deve ser divulgado. E põe-no debaixo do alqueire (Em francês: mettre sous le boisseau significa «esconder, ou ocultar, a verdade »). (OGAC, 16, 223, nota 4; ETUC, n.” 398, 1966, p. 272-279).

ALQUIMIA
A alquimia é a arte da transmutação dos metais tendo em vista a obtenção do ouro. Porém, produzir ouro metálico para o disfrutar, ou até mesmo, como na China, ouro potável para ser consumido a fim de se obter a longevidade corporal, não é de facto o verdadeiro objectivo da alquimia. De facto, ela não é, em medida alguma, uma pré-química, mas sim uma operação simbólica. Eles acreditaram, diz um velho texto chinês, que se tratava de fazer das pedras ouro: não é insensatez? A operação é possível, responde o guru Nagarjuna, através da virtude espiritual; mas nunca um tal poder (siddhi) poderá ser considerado como um fim em si. O ouro, dizem os textos védicos, é a imortalidade. E é para isso que tende a única transmutação real: a da individualidade humana. Diz-se expressamente de Lieu-Hiang que, se ele fracassou na obtenção do ouro foi por falta de preparação espiritual. Li Chao-Kiun não acha possível o êxito sem uma intervenção celeste; liga a obtenção final à busca das Ilhas dos Imortais. Se, por uma polarização tardia, os Chineses distinguem a alquimia interna (nel-tan) da alquimia externa (wai-tan) – apesar da segunda não ser mais do que o símbolo da primeira – o simbolismo é claramente exposto no Ocidente por Angelus Silesius: O chumbo transforma-se em ouro, o acaso dissipa-se quando, com Deus, eu sou transformado por Deus em Deus. É o coração, diz ele ainda, que se transforma em ouro do mais fino; é Cristo ou a graça divina é que são a tintura. Todavia, duma forma mais geral, o simbolismo alquímico situa-se no plano cosmológico. As duas fases de coagulação e de solução correspondem às do ritmo universal: kalpa e pralaia, involução-evolução, inspiração-expiração, tendências alternativas de tamas e sattva. A alquimia é considerada como uma extensão e uma aceleração da geração natural: a acção propriamente sexual do enxofre sobre o mercúrio é que faz nascer os minerais na matriz terrestre; mas a transmutação efectua-se também: a terra é um cadinho onde, lentamente, os minerais amadurecem, onde o bronze se transforma em ouro. Aliás, o forno do alquimista tem a mesma forma (em ampulheta) do monte Kuan-luan, centro* do mundo, e da cabaça”, imagem do mundo. A prática da alquimia permite descobrir em si mesmo um espaço de forma idêntica: a caverna” do coração. Aliás, o ovo filosófico está encerrado no cadinho, tal como o ovo do mundo ou o embrião de ouro o está na caverna cósmica. A fusão dos ingredientes no cadinho simboliza, de facto, tanto na China como no Ocidente, o retorno à indiferenciação primordial, e exprime-se como sendo um retorno à matriz, ao estado embrionário. A abertura superior do atanor* é identificada com a que é simbolicamente aberta no topo da cabeça (Bramarandra), por onde se efectua a saída do cosmos, por onde se escapa, dizem os Chineses, o embrião, no seu processo de retorno ao Vazio.

Os elementos da Grande Obra são, no Ocidente, o enxofre e o mercúrio, o fogo e a água, a actividade e a passividade, as influências celestes e as terrestres, cujo equilibrio é produzido pelo sal. Na alqui-” mia interna dos Taoístas, que aparentemente vaibusear muitas coisas ao Tantrismo, estes elementos são o K’i e o tsing, o sopro e a essência, igualmente fogo e água (Fogo do Espírito, Água seminal, diz o Tratado da Flor de Ouro). São representados pelos trigramas • e k’an do I Ching, que são, igualmente, fogo e jgua, mas influenciados também por K’ien e K’uan, que são perfeições activa e passiva, Céu e Terra. As etapas essenciais da Grande Obra são a obra ao branco (albedo) e a obra ao rubro (rubedo). Correspendem, segundo o hermetismo ocidental, aos peque- 1IOS mistérios e aos grandes mistérios; mas também à eelosão da Flor de Ouro chinesa e à saída do Embrião, à obtenção dos estados do Homem verdadeiro (tehen-jen) e do Homem transcendental (chen-jen): Homem primordial e Homem universal, diz o esotcrismo íslãmico, que aliás qualifica este último como Enxofre vermelho. Trata-se de facto: a) de atingir o centro do mundo ou o estado edénico; b) da saída do cosmos, ao longo do eixo do mundo e de atingir os estados supra-humanos. (ELIV, GRIF, GUED, GUET, GUES, KAL T, LECC). De um outro ponto de vista, a alquimia simboliza a própria evolução do homem de um estado onde predomina a matéria para um estado espiritual: transfor- JDaI’em ouro os metais é equivalente a transformar o homem em puro espírito. A alquimia comporta, de facto, um conhecimento da matéria; é menos uma ciência do que um conhecimento, é aplicada mais vezes aos metais, segundo uma flslca simbólica das mais desconcertantes aos olhos do cientista. A alquimia material e a alquimia espiritual pressupõem um eeahecimento dos princípios de ordem tradicional e baseiam-se muito mais numa teoria das proporções e das relações do que numa análise verdadeiramente psico-química, biológica ou filosófica dos elementos postos em relação. Linguagem e lógica são para ela de natureza simbólica. A famosa Tábua* de esmeralda enuncia, num dos estilos mais herméticos, os axiomas primordiais da alquimia. Podem ser resumidos assim: Todas as oposições ordenam-se em função da oposição fundamental masculino-feminino: a Grande Obra é a união do elemento masculino, o enxofre, e do elemento feminino, o mercúrio. Todos os autores multiplicam as comparações extraídas da linguagem da união e da geração (BURS, 28). Mas de forma nenhuma se reduz a uma sexologia: esta serve apenas de suporte simbólico ao conhecimento. Uma das práticas mais interessantes da alquimia era chamada, na Idade Média, Arte real, bem realçada por Serge Hutin. A partir da ideia de uma decadência dos seres da natureza, a Suprema Grande Obra (Obra mística, Via do Absoluto, Obra da Fénix) era a reintegração do homem na sua dignidade primordial. Encontrar a pedra filosofal é descobrir o Absoluto, é possuir o conhecimento perfeito (a gnose). Esta via real devia conduzir a uma vida mística na qual, uma vez extirpadas as raizes do mal, o homem tornar-se-ia generoso, meigo, piedoso, crente e temente a Deus (BURS, 60). Quatro operações, ainda por interpretar simbolicamente segundo os níveis em que se realizam as transformações ou transmutações, presidiam o trabalho do alquimista: a purificação do sujeito, a sua dissoluçãe ao ponto de ficar apenas o seu ser universal, uma nova solidlficação e, por fim, uma nova combinação, sob o império do ser mais puro, ao nível deste novo ser, ouro ou Deus. A segunda destas operações é também chamada volatilização, sublimação (não no sentido psicanalítico moderno), combustão, incineração, etc. Outros autores consideram seis operações no processo de transformação: a calcinação, que corrcsponde à cor negra, à destruição das diferenças, à extinção dos desejos, à redução ao estado primeiro da matéria; a putrefacção, que separa até à sua total dissolução, os elementos calcinados; a solução, que corresponde à cor branca, a de uma matéria totalmente purificada; a destilação, e depois a conjunção, que correspondem à cor vermelha, ou à união dos opostos, a co-existência pacífica dos contrários; por fim, a sublimação, que corresponde ao ouro, cor do Sol, plenitude do ser, calor e luz. Os diversos sistemas de operações, mais ou menos pormenorizados, resumem-se todos na célebre fórmula solve et coagula, que poderíamos traduzir por purifica e integra. Aplica-se também à evolução quer do mundo objectivo quer do mundo subjectivo, o da pessoa em vias de se aperfeiçoar. A interpretação alquímica utiliza os símbolos da sua linguagem própria como chaves para abrir o sentido oculto dos contos, das lendas e dos mitos, nos quais ela discerne o drama das perpétuas transformações da alma e do destino da criação. Eis um exemplo característico desta forma alquímica da interpretação: Branca de Neve é a nossa jovem virgem, a mina de ouro. Os sete anões ou gnomos (do grego «gnosis »: conhecimento) são o aspecto da matéria mineral nos seus sete prolongamentos (os 7 metais). Cada anão tem, aliás, o carácter do planeta que o domina. Zangado é saturnino, Simplório é lunar, Risonho é venusiano, etc. Mas é Zangado, o saturnino, quem presta mais serviços ao grupo e sabe tirá-lo de apuros no momento preciso. Branca de Neve é entregue pela Rainha má ao Caçador Verde para que a mate. Mas, por fim, depois de lima morte aparente, depois de ter trincado a maçã maléfica, ajo vem Virgem desposará o Príncipe dos seus sonhos, que é jovem e belo. Este Príncipe Encantador é o nosso Mercúrio filosofal (sabemos que o atributo do Mercúrio da mitologia é ajuventude perpétua do rosto e do corpo). E da união deste Mercúrio com a Virgem (do Príncipe com a Branca de Neve) surgirá a conclusão de todos os contos: foram muito felizes e tiveram muitos filhos … Com efeito, a multiplicação hermética obtida com a Pedra está de acordo com o Crescei e multiplicai-vos do Génesis. (Robert Ambelain, Dans /’ombre des cathédrales, em TEIR, 213).

ALTAR
Microcosmos e catalizador do sagrado. Para o altar convergem todos os gestos litúrgicos, todas as linhas arquitectónicas. O altar reproduz em miniatura o conjunto do templo e do universo. É o lugar onde o sagrado se condensa como máximo de intensidade. É sobre o altar, ou junto do altar, que se realiza o sacrifício, isto é, o que torna sagrado. Por isso ele é elevado (a/tum), em relação a tudo o que o rodeia. Reúne igualmente em si o simbolismo do centro* do mundo: é o fulcro da espiral* que sugere a espiritualização progressiva do universo. O altar simboliza o lugar e o instante em que um ser se torna sagrado, onde se realiza uma operação sagrada.

ALTURA
(Verticalidade*) Símbolo de ascensão e de espiritualização, de assimilação progressiva àquilo que o céu representa: harmonia nas alturas. A altura não é só moralizadora, é já também, por assim dizer, fisicamente moral. A altura é mais do que um símbolo. Aquele que a procura, aquele que a imagina com todas as suas forças da imaginação, que é o próprio motor do nosso dinamismo psíquico, reconhece que ela é material, dinâmica e vitalmente moral (BACS, 75).

ALVÉOLA
A alvéola – também conhecida por alvéola, lavandisca ou lavandeira – desempenha, nos mitos primordiais do Japão, um papel de natureza demíúrgiea. Com efeito, foi com ela que o casal primordial Izanagi-Izanamí aprendeu a copular. Seria realmente pueril interpretar este facto de forma unicamente realista. O papel do pássaro parece estar aqui relacionado com o da serpente no Gênesls, pois é simultaneamente revelador da inteligência criadora e o instrumento da transposição, no plano grosseiro, da manifestação subtil: (SeHI) revela o homem a si mesmo. Entre os Gregos, a alvéola, presente de Afrodite, está também ligada ao amor c aos seus filtros mágicos, em particular quando ela é fixada numa roda (ver zunidor*) que gira rapidamente: Do alto do Olimpo, a mestra das mais velozes flechas, a deusa nascida em Chipre, amarrou firmemente I1U111raoda uma alvéola de plumagem variegada, atada pelos quatro membros. Pela primeira vez levou aos homens a ave do delírio, e ensinou ao hábil filho de ÉSOI1 os sortilégios e as fórmulas, para que ele pudesse fazer com que Medeia esquecesse o respeito pelos seus pais (4.’ Pltica, v. 380-386). A alvéola simbolizaria os encantamentos do amor.

AMARELO
Intenso, violento, agudo até à cstridência, ou amplo e ofuscante como uma metal em fusão, o amarelo é a mais quente, a mais expansiva, a mais ardente das cores, diflcil de desvanecer, e que extravasa sempre os limites em que se pretende encerrá-Ia. Os raios do Sol, atravessando o azul dos céus, manifestam o poder das divindades do Além: no pantcão astcca, Huitzilopochtli, o Guerreiro triunfador, Deus do Sol do Meio-Dia, é pintado de azul e amarelo. O amarelo, luz de ouro, tem um valor cratofânico, e o par de esmaltes Ouro-Azul opõe- -se ao par Golcs-Sinople, tal como se opõem o que vem do alto e o que vem de baixo. O campo do seu confronto é a pele da terra, nossa pele, que se toma, ela também, amarela, com a proximidade da morte.

No par Amarelo-Azul, o Amarelo, cor masculina, de luz e de vida, não pode tender para o escurecimento. Kandinsky viu isto muito bem quando escreveu: o amarelo tem lima tal tendência para o claro que não pode haver amarelo muito escuro. Podemos dizer que existe uma afinidade profunda, psíquica, entre o amarelo e o branco (KANS). É a cor dos deuses: Zoroastro, segundo Anquetil, significa, astro de ouro brilhante, liberal, astro vivo. O Om, verbo divino dos Tibetanos, tem por qualificatieo o dourado (PORS, 68). Vixnu é o portador de hábitos amarelos, e o ovo cósmico de Brama brilha como o ouro. A Luz de Ouro torna-se, por vezes, um caminho de comunicação nos dois sentidos, um mediador entre os homens e os deuses. Assim, Frazer sublinha que na Índia utilizava-se uma faca de ouro nos grandes sacrificios do cavalo, porque o ouro é a luz e porque é por meio da LIIZ dourada que o sacrificado alcança o reino dos deuses (FRAG, 2, 80, n.” 3, segundo The Sathapata Brahmana). Na cosmologia mexicana, o amarelo dourado é a cor da pele nova da terra, no início das estação das chuvas, antes que reverdeça, Está, portanto, associado ao mistério da Renovação, Por esta razão, Xipe Totec, Nosso Senhor, o Esfolado, divindade das chuvas primavcrís, é também o dcus dos ourives. Na altura das festas da Primavera, os seus sacerdotes revestiam-se de peles pintadas de amarelo das vítimas supliciadas para aplacar esta divindade terrível (SOUM). E o amarelo dourado era também o atributo de Mitra, na Pérsia, e de Apoio, na Grécia. Sendo de essência divina, o amarelo dourado torna- se, na Terra, o atributo do poder dos príncipes, dos reis c dos imperadores, para proclamar a origem divina do seu poder. Os louros verdes da esperança humana recobrem-se do amarelo dourado do poder divino. E os Ramos verdes de Cristo, na sua estadia terrestre, são subtituídos por uma auréola dourada depois de Ele regressar para junto de seu Pai. No domingo de Ramos, em Espanha, os fiéis aeenam nos adros das catedrais com ramos de palmas amareladas. O amarelo é a cor da eternidade, do mesmo modo que o ouro é o metal da eternidade. Um e outro estão na base do ritual cristão. O ouro da cruz na casula do padre, o ouro do cibório, o amarelo da vida eterna, da fé, unem-se na pureza original do branco na bandeira do Vaticano. É também no meio destes ouros, destes amarelos, que os padres católicos conduzem os defuntos para a vida eterna. Todos os psicopompos têm assim, mais ou menos, o amarelo ao seu serviço: por exemplo, Mitra; do mesmo modo que, em várias tradições orientais, os cães infernais, como o de Zend Avesta, que tem os olhos amarelos – para melhor perscrutar o segredo das trevas – e as orelhas tingidas de amarelo e branco. Nas câmaras funerárias egípcias, a cor amarela é a mais frequentemente associada ao azul, para garantir a sobrevivência da alma, dado que o ouro quc ela representa é a carne do Sol e dos deuses.

Esta presença do amarelo no mundo ctoniano, sob o pretexto da eternidade, introduz o segundo aspecto simbólico desta cor terrestre. O amarelo é a cor da terra fértil, o que fazia corr; que se aconselhasse, na China antiga, para assegurar fertilidade do casal, que se pusessem em completa harmonia o yin e o yang, que as vestes, os cobertores e as almofadas do leito nupcial fossem todos de gaze ou de seda amarela (VANC, 342). Mas esta cor das espigas maduras do Verão anuncia já a do Outono, na qual a terra se despe, perdendo o seu manto verde. Ela é, então, a cor anunciadora do declínio, da velhice, da proximidade da morte. No fim, o amarelo toma-se um substituto do negro. Assim, para os Índios Pueblo, Tewa, é a cor do Oeste; para os Astecas e Zuni, é a do Norte ou do Sul, conforme associem uma ou outra destas direcções aos mundos inferiores (SOUM, 23). No tantrismo budista, o amarelo corresponde ao mesmo tempo ao centro-raiz (Muladharachakra) e ao elemento terra, e a Ratnasnmbhavap, cuja luz é de natureza solar. Negra ou amarela é também, para os Chineses, a direcção do Norte, ou dos abismos subterrâneos onde se encontram asfontes amarelas que conduzem ao reino dos mortos. É que as almas que descem às fontes amarelas, ou o yang que ali se refugia no Inverno, aspiram à restauração cíclica de que o solstício de Inverno é a origem. Se o Norte, se as fontes amarelas têm uma essência yin, são também a origem da restauração do yang, Por outro lado, o amarelo está associado ao negro como seu oposto e seu complementar. O amarelo separa-se do negro durante a diferenciação do caos: a polarização da indiferenciação primordial faz-se em amarelo e negro – como em yang e yin, em redondo e quadrado, em activo e passivo (Lic-Tsé). Negro e amarelo são, segundo o I Ching, as cores do sangue do dragão-demiurgo. Porém, aqui trata-se apenas de uma polarização relativa, de uma primeira coagulação (CHOO, ELIF, GRAP, GRAR, GRIl-I). O amarelo emerge do negro, na simbologia chinesa, da mesma forma que a terra emerge das águas primordiais. O amarelo é, na China, a cor do Imperador, porque este se situa, precisamente, no centro do Universo, da mesma forma que o sol está no centro do céu. Quando o amarelo se detém sobre esta terra, a meio caminho entre o muito alto e o muito baixo, traz consigo apenas a perversão das virtudes de fé, de inteligência, de vida eterna. Esquecido o amor divino, chega o enxofre luciferino, imagem do orgulho e da presunção, da inteligência que só se quer alimentar a si própria. O amarelo está associado ao adultério, quando se desfazem os laços sagrados do casamento, à imagem dos laços sagrados do amor divino, quebrados por Lúcifcr, com o matiz que a linguagem comum acabou por inverter o símbolo, atribuindo a cor amarela ao enganado, quando ela cabe originalmente ao enganador, como o testemunham muitos outros costumes: a porta dos traidores era pintada de amarelo para chamar a atenção dos que passavam, no séculos XVI e XVII. A partir do concílio de Latrão (1215), foi dada a ordem para os Judeus usarem uma roda amarela sobre as vestes. O Dictionnaire de Trevous (1771) garante que é costume açafroar as casas dos falidos (DIRG). Por isso conclui-se que os sindicalistas, quando chamam «amarelo» ao operário que se dcssolidariza da sua classe, estão a recorrer às mesmas fontes simbólicas que os nazis quando aplicavam a estrela amarela aos Judeus. Mas talvez os Judeus, invertendo a valorização do símbolo, vejam nesta estrela, não um sinal de infâmia, mas sim a gloriosa luz de Javé. A valorização negativa do amarelo é igualmente testemunhada pelas tradições do teatro de Pequim, cujos actores se maquilham de amarelo para indicar a crueldade, a dissimulação cinismo, ao passo que utilizam o vermelho para indicar a lealdade e a honestidade. No entanto, neste mesmo teatro tradicional, os trajos dos príncipes e imperadores – indicando não a psicologia, mas sim a condição social das personagens – são igualmente amarelos. Esta utilização da cor amarela no teatro chinês mostra muito claramente a ambivalência que lhe é própria, e que faz do amarelo a mais divina das cores, ao mesmo tempo que é a mais terrestre, no dizer de Kandinsky. Esta ambivalência encontra-se também na mitologia grega. As maçãs de ouro do jardim das Hespérides são um símbolo de amor e de concórdia. Que Héracles as roube, isso não impede que voltem ao jardim dos deuses. Elas são os verdadeiros frutos do amor, dado que Gaia, a Terra, as ofereceu a Zeus e a Hera como presente de casamento: consagram assim a hierogamia fundamental de onde tudo surgiu. Mas a maçã da discórdia, ela também uma maçã de ouro, que está na origem da guerra de Tróia, é símbolo do orgulho e da inveja. Sempre na mitologia grega, as duas faces do símbolo aproximam-se no mito de Atalanta, a Diana grega, Virgem agressiva: enquanto tenta vencer na corrida Hipómenes – a quem tem a intenção de matar, depois, como fez com todos os seus outros pretendentes -, cede à irresistível avidez que nela despertam as maçãs de ouro que o jovem vai deitando à frente dela, no chão. Por isso ela é vencida, e trai os seus votos mas por esta traição ela alcança o amor. Alguns povos procuraram a clivagem do símbolo nas noções dc opacidade e de brilho da cor – o que não deixa de lembrar a distinção simbólica do branco mate e do branco brilhante, sobretudo no que se refere aos cavalos infernais e celestes. É o caso, sobretudo, do Islão, onde o amarelo dourado significava sábio e de bom conselho e o amarelo pálido, traição e decepção (PORS, 88). Encontramos a mesma distinção na linguagem da heráldica, que valoriza o ouro-metal em detrimento do amarelo-cor.

AMAZONA
A existência de mulheres guerreiras na história, Amazonas, Valquírias*, talvez seja uma sobrevivência ou uma reminiscência das sociedades matriarcais. Mas o seu simbolismo não está necessariamente ligado a hipóteses sociológicas. As Amazonas são guerreiras que se governam a si próprias, se unem só a estrangeiros e criam apenas as filhas, cegando ou mutilando os filhos; amputam um dos seus seios, diz a lenda (em nada confirmada pelas obras de arte: as Amazonas são belas e têm o peito intacto), para melhor manejar o arco* e a lança*; guerreiras, caçadoras, sacerdotisas, rendem culto a Artemis (Diana). Na mitologia grega, simbolizam as mulheres- matadoras de homens: pretendem pôr-se no lugar do homem, rivalizar com ele combatendo-o em vez de o completarem … Esta rivalidade esgota aforça essencial própria da mulher, a qualidade de amante e de mãe, o calor da alma (DIES, 207). O cinto de Hipólita, a rainha das Amazonas, ter- -lhe-ia sido dado por Ares (Marte) para simbolizar o poder que ela possuía sobre o seu povo (GRID, 211). Héraeles (Hércules) foi encarregado de lhe roubar o cinto; Hipólita dispunha-se já a dar-lho, quando eclodiu uma disputa entre as Amazonas e o séquito de Héraeles. Este, julgando-se traído, matou Hipólita. A lenda acrescenta que fora Hera quem provocara a disputa. Quanto ao simbolismo do cinto*, «dar o seu cinto» significava abandonar-se a si própria, e não apenas renunciar ao poder. Para Hipólita, era desistir da sua condição de Amazona e entregar-se a Hérac1es. Hera, que é vista como símbolo da feminilidade normal, mostra, ao impedir a entrega do cinto, que quer, não a conversão, mas a morte da mulher viril; por outro lado, no ódio que tem por Héracles, que Zeus tivera de outra mulher, não quer que ele tenha a felicidade de receber o cinto de uma mulher. A Amazona simboliza a situação da mulher que, portando-se como homem, não consegue ser aceite nem pelas mulheres nem pelos homens, nem mesmo viver, ela própria, nem como mulher, nem como homem. Enfim, ela exprime a recusa da feminilidade e o mito da impossível substituição da sua natureza real pelo seu ideal viril. Segundo o ocultismo antigo, diz G. Lanoc-Villêne (LANS, I, 77-84), as Amazonas seriam, na ordem metafisica, um símbolo das forças psíquicas estelares girando no éter em torno do Paraíso dos deuses para o guardarem e defender as suas fronteiras. Nesta perspectiva, o seu cinto não é mais do que o circulo mágico que formam em torno do Paraíso e que Héracles franqueou com a sua luta: os seus cavalos selo as nuvens que correm em brancos esquadrões no céu azulado. Elas abrem os seus cintos aos heróis e matam os cobardcs, Guardiãs indomáveis de um Paraíso, estes seres perturbadores, que se entregam e se recusam, que salvam e que matam, talvez não sejam mais do que as portas ambíguas de um céu incerto.

ÂMBAR
Foi Tales quem descobriu, por volta de 600 a. C., as propriedades magnéticas do âmbar. O âmbar amarelo chama-se, em grego, électron, daí a palavra electricidade. Os rosários e os amulctos de âmbar são como condensadores de corrente, Ao autocarrcgarcrn-sc, descarregam dos seus próprios excessos aqueles que os usam ou lhes desfiam as contas. O âmbar representa o fio psíquico que liga a energia individual à energia cósmica, a alma individual à alma universal. Simboliza a atracção solar, espiritual e divina. Entre os Ccltas, Ógmios apresenta-se na lenda sob a forma de um ancião. Puxa uma multidão de homens e mantém-nos presos pelas orelhas a uma corrente de âmbar. Os cativos poderiam fugir, devido à fragilidade daquela corrente. Mas preferem seguir o seu guia. A ligação pelo âmbar é de ordem espiritual. Normalmente atribui-se um rosto de ãmbar aos heróis e aos santos. Isto significa um reflexo do céu sobre a sua pessoa bem como a sua força de atracção. ApoIo derramava lágrimas de âmbar quando, banido do Olimpo, foi para o país dos Hiperbóreos”. As lágrimas exprimiam a sua nostalgia do Paraíso e a ligação subtil que o unia aiuda ao Elísio. O Pseudo-Dionísio Areopagita explica que o âmbar é atribuído às essências celestes porque, reunindo em si as formas do ouro e da prata, simboliza ao mesmo tempo a pureza incorruptivel, inesgotável. indefectível e intangível que éprópria do ouro, e o resplendor luminoso, brilhante e celeste que é próprio da prata (PESO, 241). Segundo uma crença popular, o homem que trouxer sempre consigo um objecto de âmbar não será atraiçoado pela sua virilidade.

AMBROSIA
Alimento de imortalidade, a ambrosia é, juntamente com o néctar, um privilégio do Olimpo. Deuses, deusas e heróis alimentam-se dela, chegando ao ponto de a darem aos seus cavalos. As suas maravilhosas qualidades fazem também dela um bálsamo que cura qualquer ferida, e, quando aplicada sobre o corpo dos mortos, protege da putrefacção. Mas ai do ser humano que provar da ambrosia sem para tal ter sido convidado: arrisca-se ao suplício de Tântalo. Os deuses do Veda são menos ciumentos, e o mortal que provar o sorna” ou amrita, pode, por este meio, ganhar o céu:

Queira o Gandharva que conhece a ambrosia
revelar o nome oculto no segredo!

De repente percorremos o Céu, a Terra, os três mundos,
os quadrantes do céu e a morada da luz;
tendo desatado a tecedura da Ordem,

tendo visto Este mistério. tornamo-nos Este mistério,
presente em todas as criaturas.

(Tautirya Aranyaha 10, 1, VEDV, 335)

O ser toma-se aquilo que consome. Este sentido será retomado na mística cristã: a ambrosia toma-se a eucaristia, o corpo de Deus salvador, «verdadeiro pão dos anjos».

AMEIXOEIRA
A ameixoeira, que é frequentemente utilizada como tema de pintura no Extremo Oriente, é, em primeiro lugar, um símbolo da Primavera. Às vezes também o é do Inverno, porque, florescendo no final do Inverno, assinala a renovação e a juventude que estão prestes a manifestar-se. Simbolo também da pureza, as flores surgem sem folhas. Um monge da época Song, Tchong-jen, compôs toda uma obra sobre a ameixocíra em flor, da qual ele faz um símbolo do universo. É verdade que a flor da ameixoeira está também relacionada com a imortalidade, que os Imortais se alimentam dela e que ela constitui, em suma, o sêlo de Lao-Tsé, porque este, nascido sob uma ameixoeira, declarou logo fazer dela o seu nome de origem. . A ameixoeira figura, no Japão, entre as plantas de bom agoiro. Por vezes é considerada, entre os Franceses, como emblema da tolice, coisa que não se explica facilmente (DURV, GROC, KALL). Para os Índios Pawnee (América do Norte), a ameixoeira selvagem, particularmente prolífica, é um símbolo de fecundidade (FLEH). O seu fruto tem, por vezes, nos sonhos, um significado erótico, e esconde um desejo de prazer sexual.

AMEN
Símbolo da confirmação e da afirmação. Usado na Bíblia, aparece também na Iiturgia sinagogal e cristã. Pode ser encontrado no fim ou no início de uma frase. No Apocalipse, Cristo é chamado o Amen (3, 14). O vocábulo atnen deve ser relacionada com o termo aum”, Um e outro têm um sentido idêntico. Esta afirmação e esta confirmação contêm o próprio Senhor (VAL T), enquanto energia criadora.

AMÊNDOA (Mandorla, Noz)
A amêndoa é, regra geral, como fruto, o símbolo do essencial, oculto no acessório, da espiritualidade velada pelas doutrinas e práticas exteriores, da realidade mascarada pelas aparências e, segundo o esoterismo, a Verdade, o Tesouro, a Fonte sempre oculta. Assim, Clemente de Alexandria diz: Os meus Strómatas encerram a verdade misturada nos dogtnas da filosofia, 011 melhor, envolvida e recoberta por eles, tal como a casca cobre a noz. Ou Mahtnud Shabestari: a sharlut é a casca, a haqlqat é a amêndoa … Quando o migrador atinge a certeza pessoal, a amêndoa está madura e a casca abre. Ou, ainda, Abd al-Karim al-Jili: Abandona, portanto, a casca e tonta o miolo; não sejas dos que ignoram o rosto e tira o véu! A amêndoa é Cristo, porque a sua natureza divina está oculta pela sua natureza humana, ou pelo corpo da Virgem-mãe. É também, diz Adam de Saint- Victor, o mistério da luz, isto é, o objecto da contemplação, o segredo da iluminação interior. A amêndoa (mandorla”) que, na ornamentação medieval, aureola as figuras da Virgem Maria ou de Cristo em majestade, participa de uma outra forma no mistério da luz: é a luz celcstial, ao mesmo tempo emanação da morada dos Bem-aventurados e véu da visão beatifica. Corresponde, além disso, ao arco-íris, segundo o Apocalipse: O que estava sentado era, na aparência, semelhante â pedra de jaspe e de sardánio: e um arco-íris rodeava o trono, semelhante à esmeralda (4,3). A noção de elemento oculto, encerrado, inviolável, é perfeitamente expressa pela nome hebraico da amêndoa: luz, que é também o nome de uma cidade subterrânea (ver amendoeira*) e o do núcleo indcstrutível do ser (chinês: che-li; sânscrito: sharlra), contendo todos os elementos potenciais da sua restauração. É, em suma, o núcleo da imortalidade (BENA, CORT, GUEM, JILH). Na tradição mística, a amêndoa simboliza o segredo (o segredo é um tesouro) que vive na sombra e que devemos descobrir para dele nos alimentarmos. O envoltório em tomo da amêndoa é comparado a uma porta ou a um muro. A amendoeira era, para os Hebreus, o símbolo de uma vida nova. É a primeira árvore a florescer na Primavera. Daí este texto de Jeremias (1,11-12): Que é que vês, Jeremias? E eu disse: Vejo uma vara de amendoeira. E disse-me o Senhor: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para a cumprir. Descobrir a amêndoa, comer a amêndoa significa descobrir um segredo, participar nesse segredo. No esoterismo da Idade Média, a amêndoa significa a virgindade da Virgem Maria: amêndoa mística. Na arte, por vezes a auréola em elipse contorna a representação da Virgem. Segundo o Thesaurus de Henri Estienne, amandalos significa obscuro, invisível, interioridade. O corpo dos santos aparece muitas vezes todo envolto numa amêndoa; frequentemente, esta está dividida em três linhas, para exprimir a Trindade. Eles entraram no seio das Três Pessoas Divinas, às quais se unem pela Visão beatifica. Mas, em linguagem profana, comer a amêndoa é copular, porque a amêndoa é a vulva, a yonl da qual os Upanixades nos dizem que é o símbolo das águas cósmicas e da agitação rodopiante das infinitas possibilidades da existencialidade (TUCR). Esta velha imagem arquetípica poderia estar na origem da mandorla, O facto de a expressão amêndoa mística designar a virgindade de Maria na linguagem esotérica da Idade Média corroboraria esta hipótese. O mais marcante neste exemplo é o facto de a passagem do religioso ao profano em nada diminuir o valor sagrado do símbolo, antes, pelo contrário, o reforçar, como se pode ver em vários poemas sufis, pois esta conotação sexual dada à mandorla faz dela a Matriz original, aquela donde brotam, à luz da revelação, o Homem e Deus confundidos.

AMENDOEIRA
A amendoeira, euja floração acontece muito cedo, é o sinal do renascimento da natureza e da vigilância atenta aos primeiros sinais da Primavera. E igualmente o símbolo da fragilidade, porque as suas flores, as primeiras a abrir-se, são as mais sensíveis às últimas geadas … É o símbolo de Átis, nascido de uma virgem que o concebeu fecundada por uma amêndoa. Esta lenda talvez esteja na origem da relação estabelecida entre a amendoeira e a Virgem Maria. No entanto, o símbolo adquire todo o seu valor com a significação da própria amêndoa”. Segundo uma tradição judaica, é, além disso, pela base de uma amendoeira (luz) que se penetra na cidade misteriosa de Luz, que é uma morada de imortalidade. É ao mesmo tempo o nome da cidade perto da qual Jacob teve a sua visão, e a que ele chamou Bethel, ou Casa de Deus. A relação estabelecida entre a amendoeira e a noção de imortalidade explica-se aqui, também, pelo simbolismo da amêndoa (igualmente chamada luz) (BENA, GUEM). Mas, apesar do simbolismo da amêndoa ser feminino, o da amendoeira é masculino. Entre os Gregos, a amêndoa csmagada era comparada à ejaculação fálica de Zeus, enquanto potência criadora. Pausânias conta que, no decurso de um sonho, Zeus derramou um pouco do seu sêmen, que caiu sobre a Terra, daí surgindo um ser hermafrodita, Agdístis, que Dioniso mandou castrar. Das suas partes genitais caídas na terra brotou uma amendoeira. Um fruto desta árvore engravidou a filha do deus-rio, Sangário, que o tinha colocado sobre o seu seio. Destas lendas conclui-se que a amendoeira remonta directamente a Zeus, através do sangue de um hermafrodita, e que o seu fruto pode fecundar directamente uma virgem. O seu simbolismo fálico distingue- se assim pelo facto da sua fecundidade poder dar-se independentemente da união sexual. Segundo uma crença que ainda existe na Europa, a jovem que adormecer debaixo de uma amendoeira e sonhar com seu namorado pode acordar grávida.

AMETISTA
Do grego Ametusios – que não está ébrio. A ametista é uma pedra de temperança que protege de qualquer embriaguez. Talvez fosse por essa razão que, segundo as crenças cristãs ortodoxas, ela era usada pelos bispos. O bispo, enquanto pastor das almas, incumbido de uma responsabilidade espiritual e temporal, ao eontrário do recluso contemplativo, que abandonou o mundo, deve proteger-se de toda a embriaguez, mesmo da espiritual. Uma tradição cristã moralizante faz dela o símbolo da humildade, por ter a cor da violeta. Segundo Plínio, a ametista protege contra a feitiçaria, se nela figurarem gravadas a Lua e o Sol e estiver pendurada ao pescoço com penugem de pavão e penas de andorinha (BUDA, 309). Cura a gota e, colocada debaixo da almofada, proporciona sonhos benéficos, reforça a memória e imuniza contra os venenos (ver violeta*).

AMNIÓTICO, SACO (ver Bolsa de Águas)

AMOR
Na cosmologia órfica, a Noite e o Vazio estão na origem do mundo. A Noite engendra um ovo, de onde surge o Amor, ao passo que a Terra e o Céu se formam das duas metades duma concha partida. Para Hesíodo, no princípio era o Abismo; depois a Terra de largos flancos, base segura, oferecida para sempre a todos os seres vivos, e Amor, o mais belo entre os deuses imortais, aquele que desequilibra os membros e subjuga, no peito de todos os deuses e de todos os homens, o coração e a sábia vontade (HEST, 116-122). Sem dúvida, Eros tem muitas outras gcnealogias. Muitas vezes considerado como filho de Aírodite e de Hermes, Eros tem, como diz Platão em O Banquete, uma natureza dupla: filho da Afrodite Pandêmia, deusa do desejo brutal, ou da Afrodite Urânia, a deusa dos amores etércos. Pode também, no sentido simbólico, ter nascido da união de Poro (Expediente) e de Pénia (Pobreza), pois ele está sempre insatisfeito, à procura do seu objectivo e cheio de astúcias para atingir os seus fins. Muitas vezes é representado como uma criança ou um adolescente alado, nu, porque encarna um desejo que dispensa intermediários e não saberia esconder-se (Alexandre de Afrodísias, em TERS, 15). O facto de o Amor ser uma criança simboliza, sem dúvida, a eterna juventude de todo o amor profundo, mas também uma certa irresponsabilidade: o Amor troça dos humanos que captura, às vezes mesmo sem os ver, e aos quais ele cega ou inflama (arco, flechas, aljava, olhos vendados, tocha, etc.: os mesmos símbolos em todas as culturas). O globo que ele muitas vezes segura nas mãos sugere o seu poder universal e soberano. Sejam quais forem as suas sensaborias poéticas, a verdade é que o Amor continua a ser sempre o deus primeiro, aquele que assegura não somente a continuidade das espécies, mas também a coesão interna do Cosmos (GRID, 148). O amor depende também do simbolismo geral da união dos opostos, coincidentia contrario rum. É a pulsão fundamental do ser, a líbido, que impele toda a existência a realizar-se na acção. É ele que actualiza as virtualidadcs do ser. Mas esta passagem ao acto apenas se produz pelo contacto com o outro, por uma série de trocas materiais, sensíveis, espirituais, que são outros tantos choques. O amor tende a ultrapassar estes antagonismos, a assimilar as forças diferentes, integrando-as numa mesma unidade. Neste sentido, o amor é simbolizado pela cruz, síntese das correntes horizontais e das correntes verticais; pelo binómio chinês do Yang-Yin. Do ponto de vista cósmico, depois da explosão do ser em múltiplos seres, é a força que dirige o retorno” à unidade; é a reintegração do universo, marcada pela passagem da unidade inconsciente do eaos primitivo à unidade eonsciente da ordem definitiva, A líbido ilumina-se na consciência, onde se pode transformar numa força espiritual de progresso moral e místico. O eu individual segue uma evolução análoga à do universo: o amor é a procura de um centro unificador que permitirá realizar a síntese dinâmica das suas virtualidades. Dois seres, que se entregam e se abandonam, reencontram-se uni no outro, mas elevados a um grau superior de ser, se “a doação tiver sido total e não só limitada a um nível do seu ser, muitas vezes o carnal. O amor é uma fonte ontológica de progresso, na medida em que é efectivamente união, e não apenas apropriação. Quando pervertido, em vez de ser o centro unificador procurado, transforma-se em princípio de divisão e de morte. A sua perversão consiste em destruir o valor do outro, a fim de tentar escravizá- lo de forma egoísta em vez de enriquecer o outro e a si mesmo numa doação recíproca e generosa que faz com que ambos cresçam, ao mesmo tempo que se tomam cada vez mais eles próprios. O Amor é a alma do símbolo, a actualização do símbolo, dado que é a reunião de duas partes separadas do conhecimento e do ser. O erro mais grave no amor é tomar uma parte pelo todo. O conflito entre a alma e o amor é ilustrado pelo célebre drama mítico de Psique e Eros. Uma jovem cuja beleza ultrapassa a das mais belas, Psique não consegue encontrar um noivo: a sua grande perfeição assusta: é preciso vesti-Ia como para um casamento e expô-la sobre um rochedo, no cimo duma montanha, onde o monstro virá tomá-Ia por esposa. No meio de um cortejo fúnebre, é conduzi da ao lugar designado e lá fica, sozinha. Pouco depois, um vento suave transporta-a pelos ares até ao fundo de um extenso vale, a um magnífico palácio onde vozes se põem ao seu serviço como escravos. À noite, sente ao seu lado uma presença, mas não sabe quem é. É o marido, a quem o oráculo falara; mas ele não lhe diz quem é; apenas a avisa que, se ela o vir, o perderá para sempre. Dias e noites transcorrem desta forma no palácio, e Psique é feliz. Ao ter vontade de voltar a ver os pais, obtém a autorização para passar alguns dias com eles. Então, as suas irmãs, ciumentas, despertam a sua desconfiança, e, ao regressar ao palácio, à luz de uma lâmpada, vê adormecido a seu lado um belo adolescente. Ai! A mão de Psique treme: uma gota de azeite escaldante cai sobre Eros! O Amor, assim descoberto, acorda e foge. É então que começam as infelicidades de Psique, vítima da cólera de Afrodite, que lhe impõe tarefas cada vez mais difíceis para a atormentar. Mas Eros não consegue esquecer Psique, que também o não esquece. Ele obtém de Zeus o direito de desposá-Ia. Ela toma-se sua mulher e reconcilia-se com Afroditc. Neste mito, Eros simboliza o amor, c em especial o desejo de prazer. Psique personifica a alma, tentada a conhecer este amor. Os pais representam a razão, que combina os preparativos necessários. O palácio condensa as imagens de luxo c luxúria, todas as produções dos sonhos. A noite, a proibição aceite dc ver o amante e a sensação de uma presença significam a desistência do espírito e da consciência perante o desejo e a imaginação exaltados. É o abandono cego ao desconhecido. O retorno à casa dos pais é um rcspcrtar da razão; as perguntas das irmãs são as do espírito curioso e inseguro. Não é ainda a consciência que se clarifica, é a dúvida c a curiosidade, os sentidos apaziguados, que se elevam. Psique, regressada ao Palácio, deseja ver o amante: serve-se de uma lâmpada. Esta não é senão a luz fumegante e trémula de um espírito que hesita em infringir a regra e em perceber a realidade. A alma tem a intuição, perante aquele corpo admirável e esplêndido, daquilo que a sua presença encobre de monstruoso, nesse nível obscuro de realização. Descoberto, o amor foge. Esclarccida, mas aflita, vagueia pelo mundo, perseguida por Afroditc, duplamente ciumenta: como mulher, da beleza de Psique, como mãe, do amor que a jovem inspira ao seu filho, Eros. A Alma conhece até os horrores dos Infernos, onde entretanto Pcrséfone lhe dá um frasco de água da juventude: depois da expiação, o princípio da renovação. Psique, adormecida, é despertada por uma flecha lançada por Eros que, também desesperado, a procurava por toda a parte: é a persistência do desejo nela. Mas, desta vez, a autorização de casamento é pedida a Zeus: isto é, a união de Eros c Psique realizar-se-à, já não somente ao nível dos desejos sensuais, mas sim segundo o Espírito. Com o amor assim divinizado, Psique e Afrodite, os dois aspectos da alma, o desejo e a consciência, reconciliam- -se. Eros nunca mais aparecerá apenas sob os seus traços fisicos: nunca mais será tem ido como um monstro; o amor é integrado na vida. Psique desposa a visão sublime do amor fisico; torna-se a esposa de Eros: a alma reencontra a capacidade de ligação (DIES, 132-134; embora nos tenhamos mantido fiéis à sua linha geral, tivemos de modificar alguns pontos da interpretação de Paul Diel). No seu estudo sobre Richard Wagner, Baudelaire mostra a surpreendente analogia deste mito com a lenda de Lohengrin. Eisa dá ouvidos a Ortrude, a maga, do mesmo modo que Psique ouve as suas irmãs, e Eva, a serpente. EIsa foi vítima da curiosidade demoníaca e, não querendo respeitar o incógnito do seu divino esposo, perdeu, ao violar o mistério, toda a sua felicidade … A Eva eterna cai na eterna armadilha.

AMOREIRA
A amoreira é, na China antiga, a árvore do Levante. É a residência da Mãe dos sóis e a árvore por onde se ergue o Sol nascente. Quando Huang-ti parte de K’ong-sang, a amoreira oca, para se elevar à soberania, segue manifestamente a marcha ascendente do Sol. Esta mesma marcha é ritmada batendo numa caixa de ressonância feita de madeira de amoreira (ou de paulóvnia). Uma floresta de amorciras (sang-lin) está plantada na porta oriental da capital; o mesmo vocábulo designa uma dança que parece estar relacionada com o equinócio da Primavera. Entretanto, é também de uma amoreira que a filha de Ycn-ti, transformada em pega, se eleva ao céu. O arco de amoreira – tal como o arco de pescar – serve para atirar flechas, que eliminam, nos quatro horizontes, as influências negativas. Por isso, pode surpreender que o aparecimento de amorciras milagrosas relacionadas com acontecimentos dinásticos seja considerado nefasto: não há dúvida que a ascensão do Sol é anunciadora de secas, e que aparece com toda a evidência como uma maldição celeste (GRAD, KALL). As suas flores vermelhas, luminosas à noite, são comparadas, nas lendas, às estrelas. Ovídio conta que os frutos da amoreira eram, na sua origem, brancas, mas que se tornaram vermelhos na sequência do suicídio de dois amantes, Píramo e Tisbe, que se encontravam à sombra de uma amoreira, ao pé de uma fonte. AMOROSO, ° Sexto arcano maior do Tarot, o Amoroso simboliza essencialmente a dilieuldade de escolha que enfrenta o adolescente quando chega à encruzilhada da puberdade. O seu caminho até ali era um, mas eis que esse caminho se separa em dois: direita e esquerda. Qual escolher? É o Y pitagàrico, O número seis, que lhe está associado, sublinha em primeiro lugar o aspecto sexual deste símbolo: o senário, diz Clemente de Alexandria, é um número sexual, e por esta razão atrai o casamento. A escolha implica antagonismos e o desejo de os ultrapassar pela união. Um jovem está no centro desta lâmina, vestido com uma túnica às riscas verticais azuis*, vermelhas” c amarelas”. Duas mulheres emolduram-no: à sua esquerda, uma mulher loura, com um vestido azul e uma capa também azul com as orlas vermelhas, dirige a mão esquerda” para o peito do rapaz, ao passo que a palma da outra mão está voltada para baixo. À direita do Amoroso, uma mulher vestida de vermelho com grandes manchas azuis, cabelos azuis sob uma espécie de toucado ou coroa amarela, põe a mão esquerda no ombro direito do jovem e tem a outra aberta voltada para o chão. A primeira destas mulheres é sedutora; a segunda, de nariz comprido, tem um ar severo e envelhecido. No entanto, é para esta que o Amoroso olha. Por cima dele está um anjo ou um Eros-Cupido de asas azuis no centro de um círculo solar de raios azuis, amarelos e vermelhos; segura um arco e uma flecha branca que aponta para o jovem. Todos os comentadorcs do Tarot recordam aqui a parábola de Hércules na encruzilhada, tendo de escolher entre o Vício e a Virtude, ou a tradição órfica e pitagórica do caminho seguido pela alma depois da morte, no momento em que, numa bifurcação, ela tem de escolher entre o caminho da esquerda, que na realidade conduz aos Infernos, e o da direita, que leva aos Campos dos Bem- Aventurados. Só um dos caminhos conduz à felicidade real; cabe-nos a nós saber escolhê-lo. A flecha”, símbolo dinâmico e decisivo, vector de sol e de luz intelectual (VIRI, 73) que ajuda a resolver os problemas de ambivalência, está para guiar o Amoroso ou ditar-lhe a sua escolha. Neste caso pretende separá-lo das seduções ilusórias. Mas esta lâmina simboliza também os valores afectivos e a projecção da dupla imagem que o homem tem da mulher; Vénus Urânia ou Vénus das encruzilhadas, anjo ou demónio, inspiradora de amor carnal ou platónico, não cessa de se revestir de múltiplas formas diante das quais o homem hesita, porque, no fundo, não se conhece a si próprio: quer o homem esconda um conflito inexprimido, quer ele esteja hesitante diante dos termos de um conflito cuja expressão começa a nascer, resta-lhe em primeiro lugar proceder à tomada de consciência perfeita dos elementos que o dilaceram, e em seguida da sua objectivação, isto é. o acesso a uma posição que o torna independente em relação a eles. Só então é possível lima síntese construtiva; tal é a dialéctica fundamental de qualquer progresso da consciência (VIRI, 77). E esta é também, poderíamos acrescentar, uma das lições simbólicas dadas pelo Amoroso, este Eu afectivo diante do qual se vêm colocar e resolver todas as nossas escolhas.

AMOR-PERFEITO
O simbolismo desta flor provém, essencialmente, do número das suas pétalas: cinco, e este número é, precisamente, um dos símbolos do homem”. O amor-perfeito (em francês pensée: pensamento) designa o homem pelo que lhe é próprio: pensar; por isso ela é escolhida também para designar a medltução e a reflexão.

AMPULHETA
A ampulheta simboliza a queda eterna do tempo (Lamartine); o seu escoamento inexorável e desembocando como resultado, no ciclo humano, na morte. Mas significa também a possibilidade de inversão do tempo, o retorno às origens. A forma da arnpulhcta, com os seus dois compartimentos, mostra a analogia entre o alto c o baixo, bem como a necessidade, para que o escoamento seja para cima, de inverter a ampulheta. Por isso, a atracção exerce-se para baixo, a menos que invertamos a nossa maneira de ver e de agir. Temos de insistir na exiguidade da relação entre o alto e o baixo, estreita passagem por onde a relação pode ser estabelecida num movimento contínuo. O vazio e o cheio devem suceder-se; por isso, existe uma passagem do superior para o inferior, isto é, do celeste para o terrestre e, em seguida, por inversão, do terrestre para o celeste. Esta é a imagem da escolha, mística e alquímica. Na Ásia, bem como em países árabes, dá-se a forma de ampulheta ao tambor. Assim, aproxima-se da forma da cabaça”, do forno” dos alquimistas chineses, do monte Kuan-luan, centro do mundo. É que os dois reservatórios da ampulheta correspondem ao Céu e à Terra; o fiozinho de areia, invertido quando se vira o aparelho, representa as trocas entre um e outro, a manifestação das possibilidades celestes, a reintegraçãoda manifestação na Fonte divina. O estrangulamento no meio é a porta estreita por onde se efectuam as trocas, o pólo da manifestação. O fim do escoamento marca o termo de um desenvolvimento cíelico, e que M. Schuon viu que era exactamente conforme o movimento, ao princípio imperceptível, da areia, e depois cada vez mais rápido até à precipitação final. Este simbolismo encontra-se também no tambor- -ampulheta de Xiva, o damaru; as duas partes são triângulos invertidos Iinga-yoni, cujo ponto de contacto é o blndu, origem da manifestação. O damaru emite o som primordial, shabda (DAN, MALA, SCHT).

AMULETO
O amuleto é visto como possuindo ou encerrando uma força mágica: realiza aquilo que simboliza, uma relação especial entre quem o usa e as forças que ele representa. O amuleto fixa e concentra todas as forças … agindo em todos os planos cósmicos … coloca o homem 110 núcleo dessas forças, fazendo crescer a sua vitalidade, tornando-o mais real, garantindo-lhe lima condição melhor depois da morte (ELIT, 141). No Egipto, as múmias eram cobertas com amuletos de ouro, bronze, pedra e cerâmica para salvaguardar a imortalidade do defunto; serviam também para manter a saúde, a felicidade e a vida terrestre. Segundo a forma destes amuletos e a imagem que representam, considera-se que eles dão a força, a frescura de vida, a consciência, o poder dos membros, etc. O esquadro com a ponta para cima e o fio de prumo a cair no meio do ângulo constitui uma imagem com virtudes de amuleto que pertence tanto à arte religiosa do antigo Egipto como ao simbolismo maçónico dos nossos dias: garantiria a estabilidade perpétua. Os mais divulgados e os mais poderosos destes talismãs tinham a forma de escaravelho, de olho pintado, de nó* de Ísis, de cruz* ansada (POSO, 13).

ÂNCORA
Massa pesada cujo peso fixa o navio, a âncora é considerada um símbolo de firmeza, de solidez, de tranquilidade c de fidelidade. No meio da mobilidade do mar e dos elementos, a âncora é o que fixa, amarra, imobiliza. Simboliza a parte estável do nosso ser, a que nos permite manter uma calma lucidez perante a vaga de sensações e de sentimentos. Neste sentido, a âncora pode ser também uma barreira, um atraso, e é isso, sem dúvida, que ela significa quando, atada ao golfinho, que é a própria imagem da rapidez, aparece como ilustração da divisa de Augusto: Festina lente (apressa-te lentamente). Ultima salvaguarda do marinheiro na tempestade, a âncora está muitas vezes ligada à esperança, que permanece um apoio nas dificuldades da vida: temos esta esperança como uma âncora segura e firme da alma, diz São Paulo na Epístola aos Hebreus (6, 19). A âncora simboliza também o conflito entre o sólido e o líquido, entre a terra e a água. Detém o movimento da vida, quando este se torna tempestuoso. O conflito tem de ser resolvido, para a terra e a água conjugadas favorecerem a evolução fecunda. Do ponto de vista místico, ao não realizar-se esta harmonização neste mundo, será preciso, como diz São Paulo, ancorar a nossa alma em Cristo, o único modo de evitar o naufrágio espiritual. Minha âncora e minha cruz, dirão os místicos, exprimindo muito bem esta vontade de não se deixar levar pelo turbilhão da natureza sem a graça, para se fixar na fonte dc toda a graça que é a Cruz.

ANDAS
O uso das andas permite identificarmo-nos com as aves pernaltas, e em especial ao grou*, ave que na China antiga era considerada um símbolo de imortalidade. Aqueles que seio capazes de subir para unias andas, assinala o P’ao-pu tsé, podem percorrer em todos os sentidos a terra inteira sem serem detidos pelas montanhas e pelos rios … São capazes, na imagínação, de voar e atingir as Ilhas dos Imortais. E um poder que Huang-ti terá alcançado. A dança dos grous da China antiga, observa. M. Kaltenmark, foi provavelmente uma dança sobre andas: teria, portanto, uma relação directa com o simbolismo da ave* e da imortalidade (KALL). Manter SUl’ ses éxhasses (<<subir para as suas andas») é uma expressão francesa que significa fingir estar acima dos seus próprios méritos.

ANDORINHA
Diga o que disser o provérbio, a verdade é que, como escreveu Rémi Bellcau, as andorinhas são da Primavera as mensageiras. Na China, fazia-se até coincidir a chegada e a partida das andorinhas eom a data exacta dos equinócios. O dia do regresso das andorinhas (equinócio da Primavera) era aproveitado para os ritos de Iecuudldade, Pode-se aqui recordar muitas lendas que relacionam a fecundação maravilhosa de donzclas com a ingcstão de ovos de andorinha (história de Hicn-ti; história da antepassada da família Chang, de que Confúcio descendia). Confúcio será portanto, se assim se pode dizer, o filho da andorinha. Outro sinal da Primavera: eram colocadas bolachas em forma de andorinha por cima das portas, a andorinha parecia aqui confundir-se, aliás, eom uma outra ave da Primavera, que poderia ser o verdelhão. Além disso, o ritmo sazonal (yin-yang) das migrações da andorinha é acompanhado de uma metamorfose: ela refugia-se na água (yin, Inverno) onde, diz Lie-tse, ela transforma-se em concha, e voltando depois a ser andorinha, acompanhando o movimento ascendente do Sol (yang, Verão). Nesse mesmo sentido, Ísis transformava-se em andorinha, de noite, esvoaçando em tomo da uma de Osíris e lamentando-se com gritos de lamento, até ao regresso do Sol. Símbolo do eterno retomo e anúncio da ressurreição (GRAD, GRAP, GRAR, KALL, LIOT, WIEG). A andorinha é representada no domínio mítico celta pelo nome de Fand, esposa do deus do mar, Manannan. Apaixonando-se por Cuchulainn, convida- o para o outro mundo e ele passa um mês junto dela. Depois, ele abandona-a e volta para a sua mulher Emer. Com muita melancolia, Fand regressa então ao seu marido, que foi buscá-la. Uma outra personagem mítica relacionada com o nome de andorinha é Fandle, um dos três filhos de Nechtan Scene, morto por Cuchulainn aquando da sua primeira expedição à fronteira do Ulster. Fandle era de uma extrema leveza e combatia sobre a água (OGAC, 11, 325 s.; 437, ETUC, 506-5\3). A andorinha aparece, também aqui, ligada a um simbolismo da fecundidade, da alternâneia e da renovação. Para os Bambaras do Mali, a andorinha é um auxiliar – uma manifestação – do demiurgo Faro, senhor das águas e do verbo e expressão suprema da pureza, por oposição à terra, originalmente poluída. A andorinha deve o seu papel importante ao facto de nunca pousar na terra: está, assim, isenta de contaminação. É ela que recolhe o sangue das vítimas dos sacrificios oferecidos a Faro, para o levar para os espaços superiores, de onde ele voltará a descer sob a forma de chuva fecundante. Ela desempenha, assim, um papel de veíeulo no mecanismo cíclico da fecundação da terra; mas também na fecundação da mulher, por intermédio do sumo do tomate selvagem, que ela também leva para o céu. (DIEB). A andorinha é o símbolo da renúncia e da boa companhia no Islão; chamam-lhe a ave do paraíso. Entre os Persas, o gorjeio da andorinha separa os vizinhos e os camaradas; ela significa solidão, emigração, separação, certamente por causa da sua natureza de ave migradora (FAHN, 447). ANDRAJOS Símbolo das angústias e das feridas da psique; símbolo também da pobreza material, que, por vezes, nos contos de fadas, mascara príncipes, princesas, fadas e bruxas. Designa também a miséria e a inquietação; ou, então, esconde a riqueza interior sob aparências miseráveis, mostrando assim a superioridade do eu profundo sobre o eu superficial.

ANDROCÉFALO
Nas moedas gaulesas armoricanas figura um cavalo* androcéfalo. Não se encontra representação idêntica nem na numismátíca nem na iconografia plástica. Trata-se talvez de cavalos com inteligência humana, tal como os cavalos de Cuchulainn, o Tordilho de Macha e o Casco Negro (ou o Negro de Maravilhoso Vaie). (Ver Centauros, híbridos*.)

ANDRÓGINO
O andrógino inicial não é mais do que um aspecto, uma figuração antropomórfica do ovo cósmico. Encontramo- lo tanto no dealbar de qualquer cosmogonia como no final de qualquer escatologia. Tanto no alfa como no ómega do mundo e do ser manifestado se situa a plenitude da unidade fundamental, onde se confundem os opostos, quer eles ainda não sejam mais do que potencialidade, quer se tenha conseguido a sua conciliação, a sua integração final. Mircea Eliade refere numerosos exemplos extraídos das religiões nórdicas, grega, egípcia, iraniana, chinesas, indianas. Aplicada ao homem é normal que esta imagem de unidade primeira tenha uma expressão sexual, apresentada muitas vezes como a inocência ou virtude primeira, a idade de ouro a reconquistar. A mística sufi di-lo claramente: a dualidade do mundo das aparências em que vivemos é falsa, enganadora, e constitui o estado de pecado, e só há salvação na fusão com a realidade divina, isto é, 110 retomo à unicidade fundamental. Tal é o sentido dos soluços da flauta de cana arraneada à terra, no prelúdio do célebre, Mesnevi, de Mevlana Djelal ed Din Rumi. Esta primeira partição que cosmicamente cria, isto é, difereneia a noite e o dia, o céu e a terra, é também a do yin e do yang que acrescenta a estas oposições fundamentais as do frio e do calor, a do macho e da fêmea. No Japão, é o Izanagi e Izanami, inicialmente confundidos 110 ovo do caos, e é também o Ptah egípcio, a Tiamat acádia, Segundo o Rig-Veda, o andrógino é a vaca leiteira malhada, que é o bom touro sementaI. Um* produz doís”, diz o Tao; e é assim que o Adão primordial, que não era macho, mas sim andrógino, se torna Adão e Eva, Pois o andrógino é muitas vezes representado como um ser duplo que possui ao mesmo tempo os atributos dos dois sexos, ainda unidos e prestes a separar-se. É principalmente isto que é explicado pelo significado cosmogónico da escultura erótica indiana. Assim, Xiva, divindade andrógina, dado que se identifica com o princípio informal da manifestação, é muitas vezes representado abraçando estreitamente Shakti, a sua própria potência, figurada como divindade feminina. Vêem-se ainda traços de androginia em Adônis, Dioniso, Cíbele, Castor e PÓIIlX, que evocam Izanagi e Izanami. Poderíamos multiplicar os exemplos até ao infinito, pois em última análise qualquer divindade – as antigas teogonias gregas provam-no abundantemente – é bissexual, o que faz com que não tenha necessidade de parceira para se reproduzir. Este andrógino ritual, como sublinha M. Eliade, representa a totalidade das potências mágico-religiosas solidárias dos dois sexos (ELlM 134- 135, DELl-I, 29). O andrógino, signo de totalidade, aparece portanto quer no fim quer no princípio dos tempos. Na visão escatológiea da salvação, o ser faz parte de uma pleni- Platão relernbrou o mito do andrógino no Banquete (189): … naquele tempo, o andrôgino era 11111 gênero distinto e que, tanto pela forma como pelo nome, continha os outros dois, ao mesmo tempo macho e fêmea. Quando se evoca este mito, em certos midraschim que dizem respeito ao estado andrógino de Adão, ou ainda as doutrinas das gnoses cristãs, a androginia é apresentada como o estado inicial que deve ser reconquistado. Também na sua forma primitiva, segundo determinada tradição, o homem e a mulher possuíam um só corpo provido de dois rostos; Deus separou-os, dando a cada um deles um dorso. É a partir desse momento que começam a ter uma existência diferenciada. Dizer – segundo o mito do Génesis – que Eva foi tirada de uma costela de Adão significa que o todo humano era indiferenciado na origem. Tornar-se uno é o objectivo da vida humana. Orígcncs e Gregório de Nissa distinguiram um ser 311- drógino nesse primeiro homem criado à imagem de Deus. A dcificação para a qual o homem é convidado fá-lo reencontrar esta androginia, perdida pelo Adão diferenciado e restabelecida graças ao novo Adão glorificado. No Novo Testamento há vários textos que se referem a esta unidade.

 Tendo sublinhado a androginia como uma das caraterísticas da perfeição espiritual, em São Paulo e ao Evangelho de São João, Mircea Eliade escreve: Com efeito, tomar-se macho e fêmea, ou não ser nem macho nem fêmea são expressões plásticas através das quais a linguagem se esforça por descrever a metanóia, a conversão, a inversão total dos valores. É tão paradoxal ser macho e fêmea como tomar-se de novo criança, nascer de novo, passar pela porta estreia. (ELIM, 132). O masculino e o feminino não são mais do que um dos aspectos de uma multiplicidade de opostos chamados a interpenetrarem-se de novo. Esta realização da androginia, conviria estudá-la no mineral e no vegetal, porque eles também estão divididos em masculino e feminino, segundo a perspectiva alquimista. Toda a oposição é conduzida a abolir-se pela união do celeste e do terrestre, realizada pelo homem, cujo poder se deve exercer sobre o cosmos na sua totalidade.

ANEL
Basta citar, entre inúmeros exemplos, o anel nupcial e o anel pastoral, bem como o anel do Pescador que serve de selo pontifício e que é partido quando o Papa morre, para se perceber que o anel serve essencialmente para indicar uma ligação, para vincular. Surge também como signo de uma aliança, de um voto, de uma comunidade, de um destino associado. A ambivalência deste símbolo provém do facto de o anel religar ao mesmo tempo que isola, o que não deixa de fazer lembrar a relação dialéctica senhor-escravo. A imagem do falconeiro a aprisionar com uma argola um falcão que, a partir daí, já não caçará senão para ele pode ser próxima da do Abade, substituto da divindade, enfiando o anel nupcial no dedo da noviça, que assim se toma a esposa mística de Deus, a serva do Senhor. Com a diferença de que a submissão da religiosa, contrariamente à do animal, é livremente consenti da. É o que dá ao anel o seu valor sacramental: ele é a expressão de um voto. Faz-se notar aqui que a tradição quer que os noivos, na celebração do casamento, troquem os seus anéis. O que quer dizer que esta relação agora cvocada se estabelece entre eles duplamente, em dois sentidos opostos: uma dialéctica duplamente subtil, com efeito, e que exige que cada um dos cônjuges se tome, assim, senhor e escravo do outro. Esta simbóliea pode, em todos os níveis da interpretação, relacionar-se com a do cinto*, e sobretudo 00 plano espiritual, como se deduz do antigo costume romano que pretendia que o Ilâminc, sacerdote de Iúpiter, não tivesse o direito de usar um anel a /1(;0 ser que fosse partido e desprovido de pedra (AULUGELLE, Nuits attlques, 10, 15). A razão desta proibição era que qualquer espécie de elo que rodeasse completamente 1I/1Iaparte do corpo do operador encerrava neste o seu poder sobrenatural e impedia-o de agir no mundo exterior (BEAG). O facto de o anel do flâmine ser desprovido de pedra introduz um outro aspecto simbólico: o do anel portador de um selo que é, ele próprio, símbolo de poder e já não de submissão, mas de domínio, espiritual ou material. Assim era o anel ao qual Salomão, diz a lenda, devia a sua sabedoria. O anel do Pescador sobrepõe os dois poderes, dado que é ao mesmo tempo símbolo de poder temporal e de submissão espiritual. Vários anéis, cujo simbolismo varia, foram célebres, principalmente entre os Gregos. Prometeu, libertado por Héracles, teve de aceitar conservar no dedo um anel de ferro, no qual estava engastado um fragmento de pedra, como lembrança da rocha e dos grilhões do Cáucaso onde ele estivera acorrentado, e sobretudo, como marca de submissão a Zeus. Simbolismo duplo, também aqui, dado que a submissão a Zeus evoca também o que constitui a grandeza e o castigo do Herói, inseparáveis um do outro. O engaste deste anel, apesar de não ser um selo, é peJo menos uma marca. Na China, o anel é o símbolo do ciclo indefinido, sem solução de continuidade: é o círculo fechado, por oposição à espiral. Corresponde ao trigrama li, que é o do Sol e o do fogo. Mas o anel que constitui o botão de punho das espadas parece, aliás, estar relacionado com a Lua. Insistiremos sobretudo no anel de jade pi, cujo simbolismo se reveste de uma grande importância. O pi é um disco achatado, de pouca espessura, sendo o diâmetro da abertura igual à largura do anel, ou mais frequentemente à metade dessa largura. Indicamos na entrada jade* os elementos do símbolo real deste mineral. Os jadcs reais são pi; aliás, o carácter pi compõe- se, significativamente, de pi (príncipe) e de yu (jadc), O pi, por ser redondo, é o símbolo do Céu: no que se opõe ao jade ts’ong, quadrado, símbolo da Terra. A oferenda ritual do pi ao Céu e do ts’ong à Terra efectuava-se nos solstícios. O orifício central do anel é o receptáculo, ou o lugar de passagem, da influência celeste. Está na vertical da Ursa* Maior e da Estrela Polar”, como o imperador no Ming-t’ang. É, pois, o emblema do rei como Filho do Céu. Além do mais, o Ming-t’ang é circundado por uma reentrância anelar chamadaPiyong, pois tem a forma de um pio É importante notar que os Celtas também utilizavam anéis de jade muito belos e que um deles foi encontrado na Bretanha, associado a um machado* cuja ponta marcava o centro do anel. Ora, o machado está associado ao raio, que é uma manifestação da actividade celeste. O orificio central do anel é ainda a Essência única e é também o vazio do cubo de roda que faz girar a roda”; simboliza e contribui para realizar a vacuidade no centro do ser, onde deve descer o influxo celeste. Existem pi dentados que são, como se demonstrou, um gabarito exacto da zona circumpolar e que permitcm a determinação do pólo, bem como a da data do solstício. Porque observar o céu é o meio de o honrar como convém, de se adaptar à harmonia que ele mostra e de receber a sua iniluência benéfica. Notar-se-à, segundo Coomaraswamy, que o pi corresponde ao tijolo perfurado superior do altar védico, aquele que representa efectivamente o Céu, correspondendo os dois tijolos inferiores ao ts’ong. Os anéis de jade por vezes são ornamentados. O que pode constituir uma alteração do símbolo primitivo, o qual exige o hieratismo, o despojamento: ornamentados com dois dragões, é o yin e o yang, em mutação em volta da Essência imutável do centro; nos anéis ornamentados com oito trigramas, o vazio central é, com toda a evidência, o yin e o yang (ou T’aiki), a indistinção da unidade primeira. Alteração? Ou, talvez, manifestação, explicitação de um símbolo que já não é percebido por intuição directa (BELT, GRAD, GVES, SOOL, VARG). O anel simboliza no cristianismo a uuião fiel, livremente aceite. Está ligado ao tempo e ao cosmos. O texto de Pitágoras, que diz: Não coloqueis a imagem de Deus no vosso anel, mostra que Deus não deve ser associado ao tempo. Pode-se, ainda, interpretar de duas maneiras: uma, bíbliea, a de que não se deve invocar o nome de Deus em vão; a outra, ética, a de que se deve garantir uma existência livre e sem entraves. Os primeiros cristãos, à imitação dos Gentios, usavam anéis, e Clemente de Alexandria aconselhava os cristãos do seu tempo a usarem no engaste dos seus anéis a imagem duma pomba*, dum peixe” ou duma âncora”, Os cavaleiros eram autorizados a usar um anel de ouro. , No plano esotérico, o anel possui poderes mágicos. E uma redução do cinto”, protector dos lugares que guardam um tesouro ou um segredo. Apoderar-se de um anel é, de alguma maneira, abrir uma porta, entrar num castelo, numa caverna, no Paraíso, etc. Colocar um anel no próprio dedo ou no de outrem é reservar para si mesmo ou aceitar o dom de outrem como um tesouro exclusivo ou recíproco. Em inúmeros contos, romances, dramas, canções e lendas irlandesas o anel serve de meio de reconhecimento: símbolo de um poder ou de um laço que nada pode quebrar, mesmo que o anel se perca ou seja esquecido à beira do caminho. No relato da Segunda Batalha de Moytura, uma mulher dos Túatha Dé Dànann, Eri, filha de Dclbacth (EI”i significa Eriu, Irlanda, e Delbaeth, a forma) teve uma aventura amorosa com um desconhecido, vindo numa barca maravilhosa. No momento da separação, ele diz o seu nome: Elada (Ciência), filho de Dclbacth (eles são, portanto, irmão e irmã); e dá-lhe um anel, que pcrmitirá ao filho de ambos ser reconhecido por si. Cuchulainn faz o mesmo, numa outra lenda, em relação a Aoife, guerreira que ele venceu e seduziu, ao ver que iria ter um filho dela (OGAC, 17, 399; 9, 115 s). Salomão, segundo a lenda, devia a sua sabedoria a um anel. Os Arabes contam que um dia Salomão marcou com o selo daquele anel todos os demónios que tinha reunido para as suas obras diviuatórias e eles tornaram- se seus escravos. Certa vez perdeu-o no Jordão e teve de esperar que um pescador lho trouxesse para recuperar a sua inteligência. Não terá sido um génio ciumento a roubar o anel de Salomão, interrogam-se alguns autores esotéricos, para usar o seu poder, até Deus o obrigar a deitar o anel no mar, para ser restituído a Salomão? (GRIA, 89). Assim, este anel seria o símbolo do saber e do poder que Salomão teve sobre os outros seres. É como um selo de fogo, recebido do céu, que marca o seu domínio espiritual e material. Evoca outros anéis mágicos. De facto, vários anéis, cujo simbolismo varia, foram célebres, principalmente para os Gregos. Juntamente com o anel de Prometeu, de que já falámos, está também o anel de Polícrates: a Fortuna não parava de sorrir a este rei, ao ponto de, convencido de que aquela situação privilegiada não poderia durar muito, ter decidido sacrificar espontaneamente algum objecto precioso que lhe fosse caro e então, do alto duma torre, lançou ao mar o seu anel, ornamentado com uma esplêndida esmeralda”, Um peixe engoliu- o, um pescador apanhou-o e levou-o a Polícrateso O anel fora destinado a conjurar a sorte no seu círculo mágico; por isso a oferenda foi rejeitada pelo mar. Dario desencadeou uma guerra contra Polícrates e este, vencido, morreu amarrado a uma eruz. Por isso, este anel simboliza o destino, do qual o homem não consegue fugir; é também um elo indissolúvel que é expresso. Polícrates quis compensar com uma oferenda, mas os deuses só aceitam aquilo que eles próprios decidiram tomar, e não é portanto um abandono material e espectacular que consegue mudar os seus desígnios. Só o sacrificio interior é verdadeiramente um sacrificio, que consiste na aceitação do destino; eis o que parece significar o anel de Polícrates. O anel de Giges, de cujo achado nos fala Platão, não é menos rico de significado simbólico. Usando-o no dedo, Giges descobre por acaso que quele anel tem o poder de o tomar invisível, sendo esta a origem da sua fortuna. Será o sentido deste anel diferente do de Polícrates? Encontrado no corpo de um morto, em circunstâncias tão excepcionais como um terramoto e dentro dum cavalo de bronze, não pode ser senão um dom das forças ctonianas: transmitirá, a qualquer ser vivo deste mundo, os mais altos poderes. Mas a sua magia só funciona quando Giges vira o engaste do seu anel para o lado de dentro da sua mão. Também aqui se vê que as verdadeiras forças estão em nós próprios e que a invisibilidade que o anel dá é o afastamento em relação ao mundo exterior para atingir ou encontrar as lições essenciais, as que provêm do mundo interior. O anel de Giges simbolizará então o plano mais elevado da vida interior e talvez até a própria mística. Mas a bipolaridadc do símbolo encontra-se no interior de nós mesmos: o poder do anel pode conduzir às conquistas místicas, mas também, pela sua perversão mágica, às vitórias criminosas e a um domínio tirânico. E é o que não deixará de acontecer na história de Giges. O anel dos Nibclungos* era a garantia do seu poder. Com um só golpe de lança, Wotan despojou-os desse poder. O anel simboliza aqui a ligação que pode ser realizada pela vontade entre o ser humano e a natureza: este anel, na mão do homem, indica o domínio do homem sobre a natureza, mas também escraviza o homem aos turbilhões do desejo e às consequências dolorosas que o exercício deste poder comporta. O homem que pensa que domina sente-se acorrentado, ele próprio dominado, por este anel de ouro que o mantém preso a todas as ambições. E uma figura da vontade de poder. Mas Wotan, a divindade. não quer que a sua criatura lhe arrebate o poder sobre a criação, e retira ao homem o seu anel. Mais tarde. Sicgfried” e Brunilde*, a filha do deus, voltam a deitar o anel no rio, como sinal de renúncia ao poder. para eliminar a infelicidade no mundo e substituí-la pela consciência dos poderes do amor. O simbolismo do anel dos Nibelungos coloca-se a vários níveis: politico e social, ético e metafísico, e até mesmo místico.

ANÉMONA
A anémona simboliza, em primeiro lugar, o efémero. É a flor de Adónis. Adónís é transformado por Vénus numa anémona vermelho púrpura. Ovídio descreveu a cena nas Metamorfoses (livro 10, 710-735). Ela derrama no sangue do jovem um néctar perfumado; com este contacto, o sangue borbulha como as folhas transparentes que, do fundo de um lodaçal, sobem à superfície das suas águas amareladas; não tinha passado ainda uma hora a escoar-se quando, desse sangue, nasce uma flor da mesma cor, semelhante à da romãzeira, que esconde os seus grãos sob uma casca macia; mas não pode ser fruida durante muito tempo, porque, mal segura e demasiado leve, ela cai, arrancada por aquele que lhe dá o seu nome, o vento. O carácter efémero desta flor é que lhe valeu o nome de anémona, que em grego significa vento. Excepto na lenda de Ovídio, diz-se que esta flor nasce do vento e por ele é levada. Evoca um amor submetido às flutuações das paixões e aos caprichos dos vento. Segundo muitos autores, a anémona deve ser identificada com o lírio dos campos, dos quais se fala constantemente na Bíblia. Não havia lírios brancos nos campos da Palestina; mas a anémona era muito comum. O Cântico dos Cânticos faz alusão ao lírio dos campos, ao lírio do vale: cresce entre os espinhos, encontra-se nos jardins (2, I, 2, 5, 13, etc). No seu tamão da montanha, Cristo fala do lírio dos campos (Mateus, 6, 28-29) parecendo querer referir-se à anémona. A anémona é uma flor solitária cuja cor viva atrai o olhar. A sua beleza está ligada à sua simplicidade, As suas pétalas vermelhas evocam os lábios que o sofro do vento entreabre. Surge assim dependente da presença e do sopro do Espírito: símbolo da alma aberta às influências espirituais. Mas pode ser também, é o seu lado nocturno, um símbolo de beleza oferecida e precária, forte como a sua cor e frágil como um corpo que não tem alma. Flor de sangue desabrochada pelo vento e que o vento pode levar, mostra também a riqueza e a prodigalidade da vida e ao mesmo tempo a sua precariedade.

ANGUÍPEDE
Existem numerosas figurações galo-romanas de um cavaleiro sustentado por uma personagem monstruosa de corpo humano, mas cujas extremidades, muitas vezes bífidas, têm a forma de serpente e evocam o simbolismo do dragão. O cavaleiro é representado como Júpiter, umas vezes segurando a roda cósmica, outras o raio. Pretendeu-se ver nele diversos simbolismos: a luz contra as trevas, sobretudo o Imperador dizimando os bárbaros, segundo alguns comentários ou panegíricos latinos. Mas a figuração não exprime a ideia de uma luta: na ausência de qualquer texto de inspiração celta, supõe-se que deveria tratar-se do equivalente gaulês dos Fomoire* irlandeses (OGAC, 11,307 s).

ANIMA, ANIMUS (ver Alma*)

ANIMAL
O animal, como arquétipo, representa as camadas profundas do inconsciente e do instinto. Os animais são símbolos dos princípios e das forças cósmicas, materiais ou espirituais. Os signos do Zodíaco, que evocam as energias cósmicas, são exemplos disso. Os deuses egípcios têm cabeças de animais, os Evangelistas são simbolizados por animais, o Espírito Santo é representado por uma pomba. Dizem respeito aos três níveis do universo: Inferno, Terra e Céu. A mitologia dos Maias mostra-nos, por exemplo, um crocodilo abrindo as suas fauces monstruosas, que são as fauces de um monstro ctoniano, para devorar, ao crepúsculo, o sol. Temos de considerar, no conjunto simbólico extremamente complexo que reveste esta palavra, o animal ou a besta e os animais . O animal, a besta que existe em nós e que tanto embaraçou o moralismo judaico-cristão, é o conjunto das forças profundas que nos animam e, em primeiro lugar, a libido: desde a Idade Média que, na gíria, o animal, a besta e o cavalo significam o pénis, e por vezes também a mulher, enquanto encarnação da parte animal, senão mesmo satânica, do homem. Victor Hugo exprimiu perfeitamente este símbolo em La Légende des Siêcles, ao fazer da besta a mais velha de tudo, esboço da fecundidade bem como da devassidão do Caos, esposa lasciva do infinito que, antes do verbo, rugiu, sibilou, relinchou: Fósseis vós Deus, meditai ao ver o animal! Pois ele não é o dia, mas também não é o mal. Toda a força obscura e vaga da terra Está na besta, larva augusta e solitária (Le xrr siécle, Le Satyre) Esta maldição lançada durante muito tempo sobre a natureza humana, e que começa a ser contestada pelos românticos, será levantada com a descoberta da psicanálise, como o exprime Jung, ainda com alguma timidez, em O Homem e os seus Símbolos: A profusão de símbolos animais nas religiões e nas artes de todos os tempos não sublinha apenas a importância do símbolo. Mostra também até que ponto é importante para o homem integrar na sua vida o conteúdo psíquico do símbolo, isto é, o instinto … O animal, que é no homem a sua psique instintiva, pode tornar-se perigosa, quando não é reconhecido e integrado na vida do indivíduo. A aceitação da alma animal é a condição da uniflcaçõo do indivíduo, e da plenitude do seu desabrochamento (JUNS, 238- 239). O simbolismo dos animais, tal como o homem os encontra, observa – cada um com as suas particularidades -, e os nomeia, remete-o para um fenómeno infinitamente mais vasto, dado que engloba toda a história humana, e não um momento da nossa própria civilização. Trata-se do totemismo que, longe de estar relacionado com uma certa mentalidade «primitiva» ou com um estudo «arcaico» da sociedade, atesta uma tendência fundamental e omnipresente da humanidade. Lévi-Strauss, comentando Rousseau, resume-o assim: É por o homem verificar ser primitivamente idêntico a todos os seus semelhantes (entre os quais se deve incluir os animais) que irá adquirir a capacidade de se distinguir tal como os distingue, isto é, de tomar a diversidade das espécies como suporte conceptuat da diversidade social (LEVT, 145). Os animais, quer sejam considerados por grupos ou comunidades (os ruminantes, as abelhas) ou tomados individualmente, correspondem, pois, a caracteres, mais simbólicos do que alegóricos, por causa do número e da complexidade de significados que um só significante contém. Serão assim, para dar alguns exemplos importantes tirados de nomes de grupo, a serpente”, a ave”, ser celeste, ou o carnívoro, animal com presas ou fauces, sempre carregado de um forte simbolismo ctoniano ou infernal. O uso frequente, neste caso, da metáfora uma forma primeira do pensamento discursivo (LEVT, p. 146) não impede o símbolo, pois ela ilustra apenas uma parte dele, mais precisamente uma faceta: assim, a pomba do Espírito Santo está longe de exprimir todo o simbolismo de que essa ave pode ser o vcctor, mas permite que se aborde o exame. Sem pretender apresentar um bestiário exaustivo, consagramos nesta obra um artigo tão detalhado quanto possível de cada animal cuja carga simbólica nos pareceu suficientemente forte para exprimir uma permanência através da história humana (ver cordelro'”, águla”, cavulo=, cão”, tnrtaruga”, touro”, etc). Este interesse do homem pelo animal considerado como uma materialização dos seus próprios complexos específicos e simbólicos apresenta-se hoje em dia muito sensível com a moda dos animais domésticos, e sobretudo dos animais «de salão», mais adoptados do que criados. O antigo Egipto oferece um exemplo ainda mais extremo, dado que o cuidado dos animais os levava à zoolatria: um egípcio, diz Heródoto, deixa queimar os seus móveis, mas expõe a sua vida para salvar um gato das chamas. Existem inúmeras múmias de animais. Cuidar dos sepulcros dos animais era um dever de que os devotos tinham bastante orgulho: Dei pão ao homem faminto, água ao sedento. vestes ao despido. Cuidei dos ibis, falcões, gatos e cães divinos e inumei-os ritualmente, untados de óleos e enfaixados em panos (POSD, 15 b), Os animais fabulosos são os mais numerosos na arte chinesa. A origem deste fantástico só nos é eonhccida até ao presente através dos monumentos funerários descobertos em Chan-Tong e em Ho-Nan, É uma arte que ainda não foi civilizada pelo taoísmo c pelo confucionismo oficiais. Os seres mais fabulosos, os feiticeiros mais estranhos, os animais de formas mais bizarras ocupam um lugar considerável. O corvo solar antes de ser anexado pelos Mestres Celestes do taoísmo lá se encontra com as suas três patas (céu, terra, homem); a raposa tem nove caudas (as nove regiões do Império); depois os monstros, espécies de centauros com dois bustos humanos abraçados; feras cada uma com oito cabeças humanas, fixadas sobre pescoços de serpente, tal como as hidras da mitologia grega clássica. Sobre um baixo-relevo proveniente de uma câmara funerária, podemos ver duas personagens que se defrontam, uma segura na mão uma espécie de esquadro (emblema de um dos reis míticos da China), o outro uma cruz (os 5 pontos* cardeais), a parte inferior do seu corpo parece terminar numa espécie de cauda e enlaçar-se uma na outra (ver anguípede*). Estas gravuras datam do período dos Reinos Em Luta (441-221). Tornar-se-ão rapidamente mais sensatas sob a influência das doutrinas confucionista e budista. O seu simbolismo só voltará a encontrar-se na magia taoísta, A sua interpretação inspirar-se-á também num maravilhoso utilitário (elixir da longa vida) ou moralizante. Os templos xintoístas são guardados por animais fantásticos, sempre colocados dos dois lados da entrada. Um destes animais mantém as fauces abertas, o outro, fechadas. Simbolizariam o princípio e o fim.:« soberania sem limites do imperador, o alfa* e o ómega. Julgámos durante bastante tempo que a religião celta atribuía um lugar importante ao zoomorfismo e ao totemismo. Isto teria constituído uma prova da sua grande antiguidade ou do seu primittvismo, sendo o estado evolutivo seguinte constituído pelo antropomorfismo de deuses mais bem elaborados, como, por exemplo, os deuses gregos. Mas o animal tem simplesmente valor de símbolo: o javali simboliza a função sacerdotal, o urso, a função real; o corvo é o animal de Lug … O cisne, ou a ave em geral, é o mensageiro do Outro Mundo. O cavalo é psicopompo, etc. Não existe qualquer prova séria de totemismo no domínio celta, Os Turcos exigiam de um hábil chefe de exércitos as qualidades de dez animais: a bravura do galo, a castidade da galinha, a coragem do leão, a agressividade do javali, a astúcia da raposa. a perseverança do cão, a vigilância do grou, a prudência do corvo, o ardor no combate do lobo. o opulência do yagru, animal que, apesar de todos os.sofrimentos e de todos os esforços, permanece gordo (AI Mada ‘Ini, autor árabe do séc. IX, citado em ROUF, 233). Um outro autor muçulmano, um pouco anterior, fala, numa enumeração análoga das qualidades do guerreiro, da obstinação, do sangue frio, da força do lobo, da coragem do urso, da sede de vingança do iaque, da castidade da pega, da acuidade de vista do corvo, da sagacidade da raposa vermelha, da sede de vingança do camelo- -macho, da coragem do leão, da faculdade de vigília do mocho. A simbólica dos povos turcos acrescenta que o cavalo é valente e o boi, forte, que os carneiros são fracos e medrosos, que o leão não consegue reprimir a sua cólera, que o potro é turbulento, o tigre corajoso e destemido. Do ponto de vista bíblico, citaremos apenas dois casos: os animais são apresentados a Adão; os animais, agrupados na Bíblia, aparecem providos de um sentido particular. Os animais a que Adão dá o nome significam as paixões humanas que, segundo Fílon (Leg. Ali. 2,9-11), devem ser domadas. Fílon considera diferentes grupos de animais. Acerca do sacrifício feito por Abraão de um boi, duma cabra, duma ovelha, duma pomba e duma rola, dirá: A natureza destes animais apresenta um parentesco com as partes do universo: o boi com a terra, como trabalhador e cultivador; a cabra com a água, porque é U111 anima, colérico e que a água é agitada e impetuosa, tal come o testemunham as correntes dos rios e as marés; ( carneiro assemelha-se ao ar pela sua violência, e também porque não há nenhum animal mais útil a( homem, pois ele fornece-lhe as suas roupas; quanto às aves. o elemento que se lhes aparenta é o céu. dividido em diferentes esferas; podemos relacionar os planetas com a pomba. pois é um animal doce e os planetas são-nos propícios; as estrelas com a rola, pois ela gosta da solidão. Também podemos acrescentar que as aves são aparentadas às estrelas pois o seu IlOO parece-se com o movimento das estrelas e o seu conto com a música das esferas (Quaestiones in Genesim 3, 3). Insistindo neste tema, Fílon estabelece outras analogias entre estes animais e o homem, analogias que serão reencontradas na arte eristã. O boi apresenta uma afinidade com o corpo devido à sua docilidade, • cabra relaciona-se com os sentidos, pois estes seguem os seus impulsos. O carneiro evoca o Logos por causa do seu carácter macho e activo. A pomba eorresponde à razão na sua apreensão do mundo visível, a rola amante da solidão procura a realidade invisível (Qllaestiones in Genesim 3, 4), ct. (DANP, 131-132). Os animais, que tantas vezes intervêm nos sonhos e nas artes, formam identificações parciais com o homem; aspectos, imagens da sua natureza complexa; espelhos das suas pulsões profundas, dos seus instintos domesticados ou selvagens. Cada um deles corresponde a uma parte de nós próprios, integrada ou a integrar na unidade harmonizada da pessoa.

ANIVERSÁRIO
Os aniversários simbolizam as fases marcantes do ciclo da existência. principalmente quando são anos de viragem. Os aniversários das pessoas (Sanga) são festejados duma forma solene no Japão. São particularmente importantes os seguintes: 40.0 ano: chamado início da velhice (em japonês: shoro), pois Confúcio diz: Aos 40 anos. eu não me desviava; 61.0 ano: conclusão do ciclo de 60 anos (em japonês: kanreki). Neste aniversário, aqueles que têm esta idade põem um barrete vermelho e vestem um quimono vermelho e toda a gente os felicita por se terem tornado novamente recém-nascidos. 70.0 ano: ou idade rara (koki), assim chamada desde que o grande poeta chinês Tu-Fu disse que 70 anos (koki) era um privilégio entre os homens; 77.0 ano: ou alegre longevidade (em japonês: kiju); 88.0 ano: ou longevidade do arroz (em japonês: beiju). Estes dois últimos aniversários são assim chamados porque a caligrafia japonesa que representa as palavras alegria e arroz se parece com os números japoneses 77 e 88. Podemos aproximar destes aniversários especiais os que assinalam a duração do casamento, unindo ao símbolo da lembrança e da aliança o dos materiais cada vez mais preciosos, sólidos e raros: um ano, bodas de papel; cinco anos, bodas de madeira; dez anos, bodas de ferro; vinte e cinco anos, bodas de prata; cinquenta anos. bodas de ouro; e sessenta anos, bodas de diamante.

ANJOS
Seres intermediários entre Deus e o mundo, mencionados sob diversas formas nos textos acádios, ugaríticos, bíblicos e outros. Seriam seres puramente espirituais ou espíritos dotados de um corpo etéreo, aéreo; mas de homens apenas poderiam revestir as aparências. Para Deus, preencheriam as funções de ministros: mensageiros, guardiões, condutores dos astros, executores das leis, protectores dos eleitos, etc., e estariam organizados em hierarquias de sete ordens, de nove coros, ou de três tríades. Pseudo-Dionísio Areopagita elaborou sobre eles a mais perfeita e a mais mística das teorias nas suas Hierarquias Celestes. Sem julgar previamente as interpretações teológicas dadas pelas Igrejas e a fé católica na existência dos anjos, podemos fazer notar entretanto que, para muitos autores, os atributos dados aos anjos são considcrados como símbolos de ordem espiritual. Outros vêem nos anjos símbolos de funções divinas, símbolos das relações de Deus com as criaturas; ou, pc lo contrário mas na simbólica os opostos coincidem, símbolos de funções humanas sublimadas ou de aspirações insatisfeitas e impossíveis. Para Rilke, de uma forma ainda mais lata, o anjo simboliza a criatura na qual aparece já realizada a transformação do visível em invistvel feita por nós. Os anjos de seis asas, os serafins (literalmente, os Ardentes), rodeiam o trono de Deus; cada um deles tem seis asas: duas para cobrirem o rosto (pelo medo de verem Deus), duas para cobrirem os pés (eufemismo que designa o sexo), duas para voarem. (Isaías, 6, 1-2). Uma companhia destas só serve à pura divindade. Veremos também os anjos em tomo da figura de Cristo, atestando a sua divindade. Os anjos desempenham também o papel de signos de advertência do Sagrado. Para os Padres da Igreja, eles são a corte do rei dos céus, os céus dos céus. Para alguns, que estabelecem uma relação entre as suas crenças e a filosofia aristotélica, seriam os animadores dos astros”, estando cada um deles encarregado do movimento de um astro, embora se tenha feito a pergunta se o número de anjos era igual ao dos astros. A imensa cúpula do firmamcnto giraria sob a sua acção. Eles influenciariam também, quer pelo efeito das conjunções astrais, quer mais directamente, todos os escalões da criação material (CHAS 14). Anunciam ou realizam a intervenção divina. Segundo o Salmo 18, 10-11, estes seres celestes servem de trono a Javé: Inclina os céus e desce, com as nuvens debaixo de seus pés; cavalga sobre um querubim e voa, transportado nas asas dos ventos. Existe uma equivalência simbólica e funcional entre os mensageiros do Outro Mundo celta, que muitas vezes se deslocam sob a forma de cisnes, e os anjos do cristianismo, que têm asas de cisnes. Os anjos são, de resto, com muita frequência mensageiros do Senhor. Na versão mais recente da narrativa irlandesa intitulada A Morte de Cüchulainn existe uma interpolação cristã significativa: ao herói em perigo de morte e em pleno combate aparecem cortes de anjos que lhe cantam uma música celeste (CELT, 7, 14; CHAB, 67-70). As hierarquias celestes são uma imagem das hierarquias terrestres e a suas relações recíprocas devem inspirar as dos homens. O Pseudo-Dionísio Areopagita, o grande angelólogo do cristianismo, exprime- se assim: É à ordem dos principados, dos arcanjos e dos anjos que pertence a função reveladora; é ela que, através dos graus da sua própria ordenação, preside às hierarquias humanas, a fim de se produzirem de forma ordenada a elevação espiritual em direcção a Deus, a conversão, a comunhão, a união e ao mesmo tempo o movimento evolutivo do próprio Deus que, segundo uma ordenação muito santa, gratifica com os seus dons literalmente todas as hirarquias, ilumina-as fazendo-as entrar totalmente em comunhão com ele. Daí advém a teologia reservar aos anjos o cuidado da nossa hierarquia, chamando a Miguel arconte do povo judeu, e a outros anjos arcontes de outras nações, pois o Altissimo estabeleceu as fronteiras das nações de acordo com o número dos anjos de Deus (PSEO, 218-219). Esta afirmação não devia significar que exista exactamente tantas nações quantos os anjos de Deus; indica apenas que existe uma relação misteriosa entre o número das nações e o número de anjos. Estas relações podem variar conforme o número dc nações no decorrer da história; mas permanecerão sempre misteriosas precisamente pelo facto de o número dos anjos ser ele próprio desconhecido. A Escritura fala de mil vezes mil c dez mil vezes dez mil: Mil milhares o serviam, dez mil miriades lhe assistiam. (Daniel, 7, 10). Mas se ela multiplica por si mesmos os números mais elevados que conhecemos, é, precisa Pseudo-Dionísio, para nos revelar claramente que o número das religiões celestes escapa totalmente às nossas medidas. Tal é, com efeito, a imensidão destes exércitos bem-aventurados que não são deste mundo, que ultrapassam a ordem débil e restrita dos nossos sistemas de numeração material e que só eles podem conhecer e definir a sua própria inteligência e a sua própria ciência, que não é deste mundo, mas que pertence ao céu e que eles receberam como dom perfeitamente generoso da Tearquia, porque esta Tearquia conhece o infinito, pois ela é a fonte de toda a sabedoria, o princípio comum e sobre-essencial de toda a existência, a causa que dá categoria de essência a todos os seres, o poder que contém e o termo que abrange a totalidade do universo (PSEO, 234). Os anjos formam o exército de Deus, a sua corte, a sua casa. Eles transmitem as suas ordens e velam sobre o mundo. Os anjos têm um papel importante na Bíblia. A sua hierarquia está ligada à sua proximidade do trono de Deus. Citemos os nomes dos três principais arcanjos: Miguel (vencedor dos dragões), Gabriel (mensageiro e iniciador), Rafael (guia dos médicos c viajantes). As noções relativas aos anjos são diversas. Segundo Justino, que é um dos principais autores a falar do culto dos anjos, estes, apesar da sua natureza espiritual possuem um porto análogo ao eorpo humano. É claro que a sua alimentação não tem qualquer relação com a dos humanos, eles são alimentados nos céus. Para Justino, o pecado dos anjos consiste nas suas relações sexuais com as mulheres que pertencem à raça humana. Os seus filhos são chamados demónios. O Pseudo-Dionísio insiste no papel de iluminação que os anjos exercem em relação aos homens. Clemente de Alexandria descreve o papel protector exercido pelos anjos sobre as nações e sobre as cidades. A Sagrada Escritura não faz qualquer alusão aos anjos da guarda. No entanto, segundo Enoch (100, 5), os santos e os justos possuem os seus protectores. Cada ficl é assistido por um anjo, dirá Basílio; este anjo guia a sua vida, é ao mesmo tempo seu pedagogo e protector. Este papel de protecção encontramo-lo atirmado na Sagrada Escritura em relação a Lot (Génesis, 19), Ismael iGénesis, 21), Jacob (Génesis, 48). Um anjo liberta Pedro e João. Na Idade Média os anjos intervinham nos perigos, nas guerras, nas cruzadas, etc. O anjo, enquanto mensageiro, é sempre portador de uma boa notícia para a alma.

ANKH (Cruz ansada egípcia) (ver Cruz, Nó)
Cruz ou nó mágico chamado O Vivente (de Nem Ankh) utilizada muito frequentemente na iconografia dos contrários. Poderia representar, pela oval dominando a cruz, o sol, o céu e a terra, macrocosmicamentc, e o homem, microcosmicamente. É muitas vezes interpretada como um signo que exprime a conciliação dos contrários, ou a integração dos princípios activo c passivo, o que bem parece confirmar o facto de representar, deitada, os duplos atributos sexuais; da mesma forma, uma figura indiana do andrógino, de pé sobre uma flor de lótus, de maneira muito realista. Interpretada de uma forma mais tradicionalista é, segundo Chamdor, o símbolo de milhões de anos de vida futura. O seu círculo é a imagem perfeita daquilo que não tem começo nem fim: representa a alma que é eterna porque saiu da substância espiritual dos deuses; a cruz representa o estado de transe no qual se debatia o iniciado, mais exactamente representa o estado de morte, a crucificação do eleito e, nalguns templos, o iniciado era deitado pelos sacerdotes num leito em forma de cruz … Quem quer que possuísse a chave geométrica dos mistérios esotéricos, cujo símbolo era precisamente esta curz ansada, sabia abrir as portas do mundo dos mortos e podia penetrar no sentido oculto da vida eterna (CHAM, 22). Os deuses e os reis, Ísis quase sempre, têm-na na mão para indicar que detêm a vida, que por isso são imortais; os defuntos seguram-na na mão na hora da psicostasia* ou sobre a barca” solar, para indicar que imploram aos deuses esta imortalidade. Esta cruz simbolizava também o centro, donde brotam as qualidadcs divinas e os clixires da imortalidade; segurá-Ia entre as mãos era ir saciar-se às próprias fontes. Esta cruz cra muitas vezes segurada pela parte de cima, pela ansa – sobretudo no decurso das cerimónias fúnebres; evocava então a forma duma chave; e era verdadeiramente a chave que abria a porta da sepultura para os Campos de Ialu, para o mundo da eternidade. Por vezes a cruz ansada surge no meio da testa, entre os olhos; indica então o ser iniciado nos mistérios e a obrigação do segredo; é a chave que fecha os arcanos aos profanos. Aquele que beneficia da visão suprema, que foi dotado de clarividência, que rompeu o véu do além, não poderá tentar revelar o mistério sem o perder para sempre. A cruz ansada é muitas vezes relacionada com o nó de Ísis, como símbolo de eternidade, E isto não é devido às direcções das linhas direitas prolongadas imaginativamente até ao infinito, mas porque estas linhas convergem para o argola fechada, onde se reúnem. Esta argola simboliza a essência infinita da energia vital, identi Iicada com Ísis, donde brota toda a manifestação de vida. Por isso ela é usada como um talismã por todos os que querem participar .da sua vida. A cruz ansada pode por isso ser assimilada à árvore da vida, com o seu tronco e a sua fronde. O nó de Ísis, com esta espécie de laço que envolve os braços e o anel da cruz, como cabelos entrelaçados ou entrançados, tem uma significação mais complexa. Acrescenta ao sentido de signo de vida c de imortalidade o sentido dos laços que atam à vida mortal e terrestre e que é preciso desatar para se aceder à imortalidade. Desata os teus faças, diz um texto do Livro dos Mortos egípcio, solta as argolas de Néftis; ou ainda: Os luminosos são aqueles que usam a argola. Oh! portadoras da argola! Num sentido análogo, um livro budist~ tibetano intitula-s~: Livro do desenrolamento dos 110S. Enquanto que a simples cruz ansada simboliza a imortalidade divina, adquirida ou desejada, o nó de Ísis indicaria as condições desta imortalidade: o desenrolamento dos nós, no seu sentido próprio: o desenlace.

ANO
Annus, entre os Romanos, que alguns autores relacionaram com ânus (anel); depois, por extensão, com o ciclo zodiacaI. À deusa Anua Perenna (anel dos anos?) eram dirigi das orações no início do ano novo. Simbolizado pelo círculo” c pelo ciclo, o significado do ano coincide com o do Zodíaco*. De acordo com a imagem grega do uroboro*, a serpente” que morde a sua própria cauda, metade branca e metade preta, os astrólogos dividem o ano em hemisfério masculino, espiritual, que vai do equinócio do Outono ao da Primavera, e cujo meio (isto é, os solstício de Inverno) é a porta dos deuses, e em hemisfério feminino, material, que vai do equinócio da Primavera ao do Outono, e cujo centro (o solstício de Verão) é a porta dos homens (ver Les portes de l’année, SERP). De uma forma geral, o ano simboliza a medida de um processo cíclico completo. Com efeito, contém em si as suas fases ascendente e descendente, evolutiva e involutiva, as suas estações, e anuncia um retorno periódico do mesmo ciclo. É o modelo reduzido dum ciclo cósmico. É por isso que pode significar não só 365 dias do ano solar, como também todo o conjunto cíclico. Acrescentar-lhe uma unidade, fora o complemento quadrienal, simboliza a saída do ciclo, de todo o ciclo, isto é, a morte e a imortalidade, ou a permanência e a eternidade. Assim, nas narrativas mitológicas irlandesas que tentam, desajeitadamente, traduzir as concepções metafisicas mais elevadas em termos acessíveis ao entendimento, um ano e um dia são um símbolo da eternidade. Um símbolo estritamente equivalente é uma noite e um dia: quando o deus Dagda cede ao seu filho Mac Oc a sua residência do Bruig na Boind por um dia e uma noite, está a cedê-Ia para a eternidade. A unidade acrescentada é a abertura que permite sair do círculo, de fugir ao cicIo.

ANÕES
Génios da terra e do solo, para os Germanos, oriundos dos vermes que roíam o cadáver do gigante Ymir, os anões acompanham muitas vezes as fadas*, nas tradições dos povos do norte. Mas, enquanto as fadas têm uma aparência aérea, os anões estão ligados às grutas, às cavernas nos flancos das montanhas, onde guardam as suas oficinas de ferreiros. E ai que eles fabricam, com a ajuda dos elfos”, as espadas maravilhosas como Durandal ou a lança mágica de Odin- -Gungnir, que nada consegue desviar do seu rumo. O chefe dos anões da Bretanha, Gwioi, tem à sua guarda um vaso místico que se tornará o santo Graa!. Corno os Cabiros” fcnícios c gregos estão ligados às divindades ctonianas. Vindos do mundo subterrâneo ao qual permanecem ligados, simbolizam as forças obscuras que existem em nós e que facilmente têm aparências monstruosas. Pela sua liberdade de linguagem e de gestos junto dos reis, das damas e dos grandes deste mundo, personificam as manifestações incontroladas do inconsciente. São considerados como irresponsáveis e invulneráveis, mas ouvidos com um sorriso, como se fossem alienados (vindos de um outro mundo), com um sorriso por vezes amargo, como sorrimos por vezes às pessoas que nos dizem a verdade nua e crua, isto é, toda a verdade. São também relacionados com a imagem do louco e do bufão*. Mas podem partilhar toda a malícia do inconsciente e demonstrar toda uma lógica que ultrapassa o raciocínio, uma lógica dotada de toda a força do instinto e da intuição. Iniciados nos segredos dos pensamentos dissimulados e das alcovas, onde a sua pequena estatura permite que se introduzam, são seres de mistérios e as suas palavras agudas reflectem a clarividência; penetram como dardos nas consciências demasiado seguras. Em memória do seu anão, Augusto mandou erigir uma estátua, cujos olhos eram dois diamantes: ele escuta, ele vê, ele sente tudo e tudo se acumula nele. Certos intérpretes ligam o simbolismo do anão ao do monstro guardião do tesouro ou guardião do segredo. Mas o anão é mais um guardião tagarela, segundo as tradições, um tagarela, é verdade, que se exprime mais por enigmas. Apesar de parecer ter renunciado ao amor, permanece ligado à natureza da qual conhece os segredos. Por isso pode servir de guia, de conselheiro. Participa das forças tclúricas e é considerado como um velho deus da natureza. Conferiram-lhe virtudes mágicas, como aos génios ou demónios (SOUD, 79).
Pela sua pequena estatura e por vezes por uma certa deformidade*, os anões foram comparados a demónios. Já não é só o inconsciente que eles simbolizam, mas um fracasso ou um erro da natureza, muito facilmente imputados a uma falta, ou ainda ao efeito desejado de deformações sistemáticas impostas pelos homens poderosos. O Baixo-Império aplicava receitas muito antigas para fabricar monstros e anões. Os anões são também a imagem dos desejos pervertidos. A companhia de anões toma-se mesmo uma moda no Renascimento. Muitas vezes eram tratados como animais aprisionados. Não seriam então os substitutos do inconsciente que cuidamos para manter adormecido? Ou que tratamos e que nos faz divertir, como se fosse exterior a nós mesmos? Em várias religiões, vemos deuses e santos esmagarem sob os seus pés os demónios em forma de anões. O ser espiritualizado entra em sintonia imaginariamente com as formas harmoniosas. Não é preciso dizer que esta interpretação simbólica não visa, de forma nenhuma, pessoas; ela só se aplica a formas abs tractas. A história cita os anões que se distinguiram pelos seus dons excepcionais de rodador e de pensador. Licinius Calvus advoga com talento contra Cíccro; Alípio de Alexandria era famoso pela sua ciência e pela sua sabedoria: dava graças a Deus por só ter carregado a sua alma com lima mínima porção de matéria corruptível. Não se disse de um grande escritor contemporâneo, profundamente religioso, que possuía o mínimo de matéria para servir uma alma?

ANQA (ver Simorgh)
Ave fabulosa que tem tanto de grifo* como de fénix*. Das tradições que nós possuímos ressalta que a crença na existência da anqa seria de origem árabe e sabemos que os Antigos situavam a Iénix nos desertos da Arábia. Com o Islão, a anqa recebe uma consagração definitiva numa tradição referida por Ibn’ Abbâs (Mas’udi, As Pradarias de Ouro, 4, 19 s.): «O Profeta diz-nos um dia: nas primeiras idades do mundo, Deus criou uma ave de uma beleza maravilhosa e concedeu-lhe todas as perfeições. Deus criou uma fêmea à imagem do macho e deu a este casal o nome de anqa, Depois revelou estas palavras a Moisés, filho de ‘Imrân: Dei vida a lima ave de lima forma admirável, criei o macho e afêmea; entreguei-lhes os animais selvagens de Jerusalém para se alimentarem, e quero estabelecer relações de familiaridade entre ti e essas duas aves, como prova da supremacia que te conferi entre os filhos de Israel» A crença nos anqa foi assimilada, mais tarde, ao simorgh* dos Persas. A auqa, ou símorgh, tomou-se o símbolo dos místicos a levantarem voo para a Divindade. Na maravilhosa parábola da Linguagem dos Pássaros, o grande poeta místico persa Fcrid-cd-Din Altar (século XIII) conta a viagem espiritual das aves, em número de trinta (em persa Si-Morgh), representando as criaturas que acabam por chegar diante da Divindade. Então, diz Altar, o sol da proximidade dardejou sobre eles os seus raios, e a sua alma ficou resplandecente: Então no reflexo dos seus próprios rostos, esses trinta pássaros si morgh do mundo contemplaram aface do Simorgh espiritual. Apressaram-se a olhar para esse Simorgh, e verificaram que não era outro senão si morgh, isto é, que eles próprios eram a divindade. Assim, o místico só alcança a união quando o seu próprio ser for anulado … Ainda se atribui um outro nome a esta ave maravilhosa, por exemplo entre os Suhrawardi e Sadr al-Din Shirâzi: é o termo Quqnus, que designa vulgarmente a féníx, mas que é uma transcrição do grego kuknos, que significa o cisne”, Ora, no Fédon (84-85), Sócrates proclama que se o canto do cisne, a ave de Apoio, é mais brilhante do que nunca quando sente chegada a morte, não é pela dor, mas pela alegria de estar prestes a reunir-se a Deus. Devemos ver aí o motivo da transição para o símbolo da união mística (CORN, 46). A residência de Simorgh é a montanha de qâf*. Sob estes diferentes nomes, a anqa simboliza a parte do ser humano chamada a unir-se misticamente com a divindade. Nesta união, abolidas todas as diferenças, a anqa é ao mesmo tempo o criador e a criatura espiritual.

ANTA (ver Bétilo, Domo, Menhir, Pedras)

ANTIGO
O antigo, o ancestral reveste-se de um carácter sagrado qualquer que seja o objecto ou a pessoa assim qualificados. O antigo evoca já uma espécie de laço com as forças supratemporais de conservação. O facto de um ser ter resistido à usura do tempo é sentido como uma prova de solidez, de autenticidade, de verdadc. Reúne-se, assim, nas misteriosas profundezas, àquilo que é a fonte da existência e da qual participa numa medida privilegiada. Aos olhos de alguns psicanalistas, de uma forma paradoxal, mas bastante justa, o antigo sugere a infância, a primeira idade da humanidade, como a primeira idade da pessoa, a nascente do rio da vida. Ganha assim a cor dos prestígios do paraíso perdido. Para a simbólica, o antigo não é aquilo que caducou, mas aquilo que é persistente, durável, participante do eterno. Influencia o psiquismo como um elemento estabilizador e como uma presença do Além. É o contrário do velho que, regra geral, se associa mentalmente ao perecível, à fragilidade, à precariedade.

ANTÍGONA
Filha do casamento incestuoso de Édipo* e de Jocasta. Em vez de abandonar o pai cego e desesperado, depois da revelação do seu duplo crime (assassino de seu pai, marido de sua mãe), ela rodeia-o dos seus carinhos afectuosos e acompanha-o até ao santuário das Euménidas”, em Colona, onde ele morre na paz da alma recuperada. De regresso a Tebas, ela desobedece às ordens de Creonte, ao fazer sobre o irmão condenado à morte, Polinice, os gestos rituais mortuários. Por sua vez também condenada à morte, encerrada viva no túmulo familiar, ela enforca-se; o noivo suicida- se sobre o seu cadáver; a própria mulher de Creonte também se mata de desespero.
A psicanálise fez de Antígona um símbolo, ao dar o seu nome a um complexo, o da fixação afectiva da jovem pelo pai, pelo irmão, pelo círculo familiar, a ponto de se recusar a ter uma vida de desenvolvimento pessoal através de outro amor, que implicaria uma ruptura com os laços infantis. A sua morte tem valor de símbolo: ela enforca-se no jazigo familiar e o seu noivo morre. Mas a dramaturgia moderna ressuscitou Antígona e fê-la sair do seu túmulo. Antígona é exaltada como aquela que se revolta contra o poder do Estado, simbolizado por Creonte; aquela que se insurge contra as convenções e as regras, em nome das leis não escritas, as da sua consciência e do seu amor. É a jovem emancipada, que deixa no jazigo de família o despojo da inocente, esmagada pelos hábitos e pelas pressões sociais. E Antígona, a revoltada; mas, apesar de se indignar contra a tirania familiar e social, permanece psicologicamente dependente dela. Antígona tem de ser bastante forte e bastante livre para assumir plenamente a sua independência num novo equilíbrio que não seja o da hibernação banalizante. A lenda assim prolongada simboliza a morte e o renascimento de Antígona, mas de uma Antígona que se tomou ela própria, a um nível superior de evolução.

ANTIMÓNIO
Símbolo alquímico, matéria dos sábios, lobo cinzento dos filósofos, segundo Basile Valentin. O antímónio corresponderia à penúltima etapa do alquimista à procura do ouro tilosofal. Para Fulcanelli o antimónio dos sábios … é um caos que faz de mãe de todos os metais. E a matriz e o fllão do ouro e o viveiro da sua tintura, segundo Sendivogius (Lettre phtlosophique” traduzida do alemão por Ant. Duval, Paris, 1671). E igualmente considerado como filho natural de Saturno; amado apaixonadamente por Vénus, é a raiz dos metais; os seus laços com Saturno e Mercúrio aparentam-no com a esmeralda. Do ponto de vista psicanalítico, o antimónio simbolizaria, na evolução de um ser, um estado muito próximo da perfeição; mas ainda lhe faltaria franquear a etapa mais dificil, a última transformação do chumbo em ouro, etapa em que a maioria fracassa. Exprime a possibilidade de um impulso supremo, mas também de um fracasso definitivo; daí a sua cor simbólica, que é o cinzento; e a sua imagem mitológica, uma Diana admirável ou monstruosa.

ANTRO (ver Caverna)

ANZOL
O símbolo do anzol é usado com muita frequência de.Marsílio Ficino a Eckhart e a Hafez, numa relação evidente com o da pesca*. E o instrumento, diz A. K. Coomaraswamy, com o qual o Rei-Pescador pesca a sua presa humana. O amor, diz Mestre Eckhart,é como o anzol do pescador. O mesmo simbolismo estende-se, aliás, ao domínio mais prosaico e mais quotidiano: as expressões morder o anzol ou cair no anzol são, a este respeito, significativas,

APOCALIPSE
O apocalipse é, em primeiro lugar, uma revelação que se apoia em realidades misteriosas; em segundo lugar, é uma profecia, porque estas realidades estão por vir; por último, é uma visão em que as cenas e os números são outros tantos símbolos. Estas visões não têm valor por si mesmas, mas sim pelo simbolismo de que estão carregadas; pois tudo ou quase tudo num apocalipse tem valor simbólico: os números, as coisas, as partes do corpo, as próprias personagens que entram em cena. Quando descreve uma visão, o vidente traduz em símbolos as ideias que Deus lhe sugere, procedendo então por acumulação de coisas, de cores, de números simbólicos, sem se preocupar com a incoerência dos efeitos obtidos. Para o compreender, é preciso, portanto, entrar no seu jogo e retraduzir as ideias, os stmbolos que ele propõe, sob pena de falsear o sentido da sua mensagem (BIBJ, 3, 414). O termo «apocalipse» tomou-se igualmente (exceptuando os próprios livros apocalípticos, que constituem um género literário muito difundido nos primeiros séculos da nossa era) o símbolo dos últimos dias do mundo, que serão marcados por fenómenos espantosos: rebentações gigantescas dos mares, desmoronamentos de montanhas, aberturas surpreendentes da terra, incêndios do céu num indescritível fragor. O apocalipse toma-se assim um símbolo do fim do mundo. No fim d~ narrativa da Segunda Batalha de Moytura, a Morngu celta, ou deusa da guerra, profetiza o fim do mundo: confusão das estações, corrupção dos homens, decadência das classes sociais, maldade, relaxamento dos costumes. Este esquema é retomado, com grande profusão de pormenores, pelo texto íntítulado Diálogo dos dois sábios, redigido na língua rebuscada e dificil dos poetas irlandeses medievais. Podemos relacionar esta concepção com a do Apocalipse cristão, e também com a frase de Estrabão ao dizer que, segundo os druidas, o fogo e a água reinarão sós durante um dia. A título de exemplo destas visões apocalípticas e da sua interpretação, tomemos o símbolo da Besta. Vi, então, subir do mar, uma Besta com sete cabeças e dez chifres; sobre os chifres, dez diademas e, nas cabeças, nomes blasfematôrios. A besta que vi era semelhante a 11mleopardo. as patas como as do urso. e as fauces como as do leão. O Dragão transmitiu-lhe o seu poder. o seu trono e lima grande autoridade. Uma das suas cabeças parecia ferida de morte, mas a sua chaga mortal fora curada e toda a terra, maravilhada, seguiu a Besta. Adoraram o Dragão, porque deu à Besta o seu poder, e adoraram a Besta dizendo: «Quem é semelhante à Besta, e quem poderá lutar contra ela?» Foi-lhe permitido proferir palavras arrogantes e blasfémias e deram-lhe o poder de agir durante quarenta e dois meses. Então, abriu a boca para proferir blasfémias contra Deus. contra o Seu nome, o Seu tabernáculo e os que habitam no Céu.Foi-lhes permitido fazer guerra aos Santos e vencê-los; deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, povo, língua e nação. (Apoc. 13, 1-7). Do ponto de vista histórico, a Besta ferida evoca o império romano abalado e, talvez, o suicídio de Nero. De uma forma mais geral, a Besta representa o Estado perseguidor, o Adversário por excelência de Cristo e do seu Povo. A Besta ressuscitada é a paródia caricatural de Cristo, o anticristo dos tempos futuros. As sete cabeças da Besta evocam as inúmeras cabeças da Hidra tradicional, a renascerem constantemente. Os chifres simbolizam o poder da Besta; os diademas, a sua pseudo-realeza. A Besta, comenta Georges Casalis (BIBJ, 3,419-420) é o Dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satã (20, 2) e que se manifesta nesta terra através das bestas às quais transmite o seu poder e que forçam os homens a adorá-la: besta que surge do mar, império romano já mortalmente ferido e no entanto renascendo em cada um dos seus imperadores, e besta que surge da terra (13, 11), poder ideológico da propaganda totalitária, ou, melhor, do culto imperial (culto da persouaíídade) que obriga todos os homens a pertencerem, por meio de um baptismo blasfemo, ao imperador … A luta do império idólatra contra a Igreja é o reflexo terrestre do combate celeste do Diabo contra Cristo. A Besta que surge do abismo fará a guerra, matará, triunfará (11, 7), desencaminhará toda a terra habitada (12, 9). A Besta é uma das figuras centrais do Apocalipse. Representa o grande princípio de ilusão e de blasfémia … o princípio demoníaco de desencaminham ento das comunidades humanas que acompanha toda a história religiosa da humanidade. Depois das vitórias brilhantes e efémeras neste mundo, a Besta está destinada à derrota final; será vencida pelo Cordeiro*.

APOLO
Aparecendo de noite, na Ilíada, deus do arco de prata (canto I), o Febo Apolo brilha como a Lua. Será preciso ter em conta a evolução dos espíritos e a interpretação dos mitos para se reconhecer nele, muito mais tarde, um deus solar, um deus de luz, e para comparar o seu arco e as suas flechas com o Sol e os seus raios. Na origem talvez estivesse aparentado eom a simbólica lunar. No canto apresenta-se como deus vingador de flechas mortíferas: O Senhor Arqueiro, o toxôforo, o argirotoxo, com arco de prata. Ao princípio revela-se sob o signo da violência e de um louco orgulho. Mas, reunindo os diversos elementos de origem nórdica, asiática e do mar Egeu, esta personagem divina torna-se cada vez mais complexa, sintetizando em si inúmeras oposições que consegue dominar, para acabar num ideal de sabedoria que define o milagre grego. Realiza o equilíbrio e a harmonia dos desejos, não suprimindo as pulsões humanas, mas orientando-as para uma cspiritualização progressiva, graças ao desenvolvimento da consciência. Na literatura, é saudado com mais de duzentos atributos, que o fazem aparecer, sucessivamente, como um deus-rato” primitivo dos cultos agrários; como um guerreiro irascível e vingativo; como um senhor das feras, ao mesmo tempo que pastor serviçal que protege os rebanhos c as colheitas; como um benfeitor dos homens, que cura e purifica, e que engendra Asclépio (Esculápio), o deus-médico; profeta de Zeus, criou em Delfos a mântica de inspiração (ver tripé”). Inspira não só os profetas, como também os poetas e os artistas; torna-se o deus solar, cruzando os céus num carro resplandecente. Em Roma, não é assimilado a nenhum outro deus; é o únieo dos deuses estrangeiros adoptados pela cidade e pelo império que se mantém ele próprio, intacto, único, ímpar. Curiosas aproximações de palavras, que a etimologia científica tem razão para considerar suspeitas, e que, no entanto, são muito significativas na história do sentimento religioso. Aproximou-se, por exemplo, o nome ático de ApoIo da sua forma dóríca, Apelo, que evocaria o termo apella, que significa «curral de carneiros». Concebe-se que um tal deus tenha sido honrado pelos nómadas que eram os primeiros Gregos, levando até jundo dele os seus rebanhos, e também que tenha podido absorver facilmente, no Peloponeso, as divindades pré-helénicas dos rebanhos, como, por exemplo, Karnos, um deus-carneiro … Aliás, muitas vezes o mito apresenta 11mApoio pastor (SECG, 213- -214). Mas o que é notável é este deus pastor, que fazia reinar a ordem nos currais de carneiros, ter-se tornado o deus que reina sobre as assembleias dos homens pela sua eloquência e sabedoria. Apoio, canta Píndaro,faz penetrar nos corações o amor à concórdia e o horror à guerra civil. E quando Platão enuncia os deveres do verdadeiro legislador, é a ApoIo que ele aconselha que se pergunte pelas leis fundamentais da República: a Apoio de Delfos competem as mais elevadas, mais belas e mais importantes das disposições legais. -Quais? – A edificação de templos, sacrificios e outros actos de culto aos deuses, divindades e heróis. E ainda a sepultura dos finados, e toda a assistência que deve prestar-se-lhes para tornar propícios os que estão no além. Sobre estes assuntos nada sabemos, e aofundarmos a cidade, a ninguém mais obedeceremos, se tivermos senso, nem seguiremos outro guia, senão o da nossa pátria. Pois sem dúvida é este deus que, em todos estes assuntos, é o intérprete nacional para todos os homens, quando profetiza sentado no omphalos, no centro da terra. (Platão, A República, 427, b, c). O Apolo ce/ta é uma denominação clássica, comandada pela interpretatio romana, que não correspende a qualquer critério indígena preciso. As interpretações obrigam, de facto, a fragmentar a personagem divina entre várias entidades célticas: ApoIo, no seu aspecto aquele que cura, é Dianceht (o sentido do tcónimo irlandês é incerto; talvez prisioneiro dos deuses; alguns textos sugerem com influência duradoura); no seu aspecto de juventude, é o filho de Dagda, Ocngu, escolha única, ou Mac Oc, filho jovem. No seu aspecto luminoso (mas, algumas vezes, sombrio), é, por fim, Lug, o deus supremo do panteão celta, que é, por definição, politécnica, isto é, mestre de todas as técnicas, no sentido em que ele transcende as capacidades de todos os outros deuses. A lenda clássica do ApoIo hiperbóreo, na medida em que está em relação com o ApoIo celta, é uma alusão clara à origem polar da tradição celta (OGAC 11, 215 s.; 12, 59 s).
O sete* é o número da perfeição, aquele que une simbolicamente o céu e a terra, o princípio feminino e o princípio masculino, as trevas e a luz. Ora, é também o número de ApoIo; desempenha um papel cIaro em todas as suas tradições. Apoio nasceu no sétimo -dia do mês; viveu sob este signo. Ésquilo baptizou-o: o augusto Deus sétimo, o Deus da sétima porta” (Os Sete, 800). As suas festas principais eram sempre celebradas no dia sete de cada mês: a sua lira tinha sete cordas; ao nascer, os cisnes sagrados fizeram sete vezes, a cantar, a volta à ilha flutuante, Astéria, que Zeus, seu pai, fixaria com o nome de Delos e onde Leto o trouxe ao mundo; a sua doutrina resume-se em sete máximas, atribuídas a sete Sábios. Deus muito complexo, terrivelmente banalizado, quando o reduzem a um homem jovem, sábio e belo; ou quando, simplificando o que Nietzsche disse, o contrapõem a Dioniso, como a razão ao entusiasmo. Não, ApoIo é o símbolo da vitória sobre a violência, do autodomínio no entusiasmo, da aliança entre a paixão e a razão, o filho de um deus (Zcus), e neto de, por parte da mãe (Leto), de um Titã. A sua sabedoria é fruto duma conquista, não uma herança. Todas as forças da vida se conjugam nele para o incitarem a encontrar o seu equilíbrio apenas nos cimos, para o conduzirem da entrada da imensa caverna (Ésquilo) aos cimos dos céus (Plutarco), Simboliza a suprema espiritualização; é um dos mais belos símbolos da ascensão humana.

APSARA
O encanto das apsara, dançarinas e cortesãs celestes, foi popularizado pelas reproduções cm baixo- -relevo de Angkor. A ctimologia dada pelo Râmâyana (ap = água + sara: essência) é indício suficiente de que se trata de símbolos, e não de figurinhas anexas e graciosas da mitologia. Essência das águas, porque elas nasceram da agitação do mar, da leveza da sua espuma. Evanescentes, elas simbolizam as possibilidades informais, cujas águas superiores são uma figuração mais general. O seu aspecto secundário de cortesãs, isto é, instrumentos de amor, é geralmente susceptível de uma transposição espiritual que as identifica com as houris do paraíso muçulmano. Como mensageiras de Kali, apelam aos homens o amor da Divindade. A relativa frequência da apsura nos cortejos de iconografia budista confere-lhes igualmente, neste caso, um papel angélico. Na lenda das origens khmeres a apsara, fonte da dinastia solar, opõe-se à nagl, mãe da dinastia lunar e divindade das águas inferiores. A apsaru é familiarmente identifieada, na India, com a divindade do jogo. (CHOO; DANA; KRAA; THIK).

AQUÁRIO (20 de Janeiro – 18 de Fevereiro)
Este décimo primeiro signo do Zodíaco situa-se no meio do trimestre de Inverno. Simboliza a solidaricdade colectiva, a cooperação, a fraternidade e o desapego em relação às coisas materiais. O seu regente tradicional é Saturno, ao qual se acrescentou, depois da sua descoberta, Úrano. A figura representativa do décimo primeiro signo apresenta-nos a nobre aparição de um ser humano perfeito, sob os traços de um velho sábio que transporta, debaixo dos braços ou nos ombros, uma ou duas ânforas; estes recipientes inclinados derramam a água de que estão cheios. Mas esta água é totalmente aérea e etérea, e nela participa tanto o carácter fluido do ar como a natureza mole e frouxa da água. Este meio aqui invocado aplica-se às águas do ar espalhadas pelas ondas e ao fluido do oceano aéreo em que estamos imersos. Este signo de Ar de ressonância aquática apresenta uma substância nutritiva mais destinada a saciar a alma do que o corpo; e se o ar dos Gémeos evoca a comunicação do espírito, e o da Balança evoca o diálogo do coração, o do Aquário aponta para o mundo das afinidades electivas que fazem de nós seres vivos numa comunidade espiritual e em plena esfera universal. Este signo foi relacionado com Saturno, na medida em que o astro liberta o ser das suas correntes instintivas e solta as suas forças espirituais para uma via de despojamento. Também lhe é atribuído como regente ürano, que mobiliza de novo o ser libertado no fogo do poder prometaico, tendo em vista ultrapassar-se a si próprio. Face ao Leão hercúlco, temos o Aquário seráfico. A matéria íntima deste tipo zodiacal é fluída, leve, etérea, volátil, transparente, toda de uma limpidez espiritual, poder-se-ia dizer: angélica. Contém o dom do desapego de si próprio acompanhado de altruísmo, o sentido da amizade, a dedicação social. Existe também um Aquário uraniano, prometaico, que é o indivíduo das vanguardas, do progresso, da emancipação, da aventura.

AR
Um dos quatro elementos, juntamente com a terra, a água e o fogo, segundo as cosmogonias tradicionais. É, tal como o fogo, um elemento activo e masculino, ao passo que a terra e a água são consideradas como passivas e femininas. Enquanto estes dois últimos são mnterializantes, o ar é um símbolo de espiritualização. O ser é, ao princípio, metade fera, metade floresta; Mas o ar quer tornar-se Espírito, e então o homem surge. (VICTOR HUGO, La Légende des Siêcles, Xl/I” s., Le Satyre). O elemento ar é simbolicamente associado ao vento”, ao sopro*. Representa o mundo subtil intermediário entre o céu e a terra, o da expansão, que é preenchido, dizem os Chineses, pelo sopro (k’i), necessário à subsistência dos seres. Vayu, que o representa na mitologia hindu, está montado numa gazela e leva um estandarte flutuando no vento, que poder-se-ia identificar com um leque*. Vayu é o sopro vital, o sopro cósmico, e identifica-se com o Verbo, que é também sopro. Os vayu são, ao nível do ser subtil, as cinco funções vitais, consideradas como modalidades de prana, o sopro vital. O elemento ar, diz São Martinho, é um símbolo sensível da vida invisível, um móbil universal e um purificador, o que corresponde, bastante exactamente, à função de Vayu, que também, deve acrescentar, é considerado como purificador.
No esoterismo ismaelita, o ar é o prlncíplo da composição e da frntificação, o intermediário entre o fogo e a água, o primeiro Iam do Nome divino. Corresponde à função do Tali, a Alma Universal, origem da frutificação do mundo, da percepção das cores e das formas, o que nos conduz uma vez mais à função do sopro (CORT, DANA, GUEV, MALA, SAIR). O ar é o meio próprio da luz, do voo, do perfume, da cor, das vibrações interplanetárias; é a via de comunicação entre a terra e o céu. A trilogia do sonoro, do diáfano e do móbil é… lima produção da impressão intima de aligeiramento. E não nos é dada pelo mundo exterior. É uma conquista de um ser outrora pesado e confuso que, pelo pelo movimento imaginário e escutando as lições da imaginação aérea; se tornou leve, claro e vibrante … A liberdade aérea fala, ilumina, voa (BACS, 74). O ser aéreo é livre como o ar e, longe de ser evaporado, participa, pelo contrário, das propriedades subtis e puras do ar.

ARABESCO
Embora não lhe pertença exclusivamente, o arabesco é realmente específico, como o prório nome indica, da arte árabe, que proíbe a utilização de figuras humanas e animais. De facto, o arabcsco é um desenho perfeito, uma ultrapassagem da representação, lúcido e rigoroso. O arabcsco não é uma figuração, mas sim um ritmo, um encantamento por meio da repetição indefinida de um tema, uma transcrição do dhikr mental (Benoist), Tal como este, e quando se toma um suporte da contemplação, permite escaparmo- nos ao condicionamento temporal. O arabesco tem uma relação com o labirinto* cujo percurso complexo se destina a conduzir da periferia para o centro local (que é o símbolo do centro invisível do ser), do mesmo modo que com a teia de aranha*. Apesar de ter um ritmo claramente diferente, a representação dos movimentos naturais na pintura chinesa de paisagens, através de séries de linhas curvas repetidas, não deixa de ser também uma forma de arabesco (BURA, BENA). O grande segredo da decoração árabe é o arabesco. Nele podemos discernlr dois elementos fixos; por um lado, a interpretação da flora, sobretudo folhas e caules, por outro, a exploração ideal da linha. Dois principios, o primeiro de aparente fantasia, o segundo de estrita geometria. Daí, dois procedimentos: al-ramy e al-khayt, o traço recto e o laço (FARO). O arabesco corresponde a uma visão religiosa. O Islão é iconoclasta e dominado pela Palavra. Aos icones blzantinos, o Islão contrapõe o desenrolar abstracto do arabesco, onde se inscrevem os versículos da revelação … É uma forma técnica da arte muçulmana para evitar a idolatria (BAMC). É o fruto depurado da aspiração muçulmana … Não tem começo nem fim, e nem pode aspirar a tê-los, porque ela procura Aquele que é ao mesmo tempo, segundo o Alcorão (57, 3), o Princípio e o Fim … Dirige-se incansavelmente, mas em vão, para o ilimitado. Por outro lado existem arabescos traçados sem qualquer suporte geométrico e que não se inspiram em qualquer motivo floral. São os arabescos epigní licos. O vocabulário gráfico acontece como umjacto de impulsos que reanimam incessantemente o repertório ornamental. Dado que rejeita as servidões da prescrição, esta escrita inédita, hermética, equipara-se à actual arte abstracta, a exemplo do arabesco de traço recto (FARO). Poder-se-ia dizer que o arabesco é o símbolo do símbolo: revela velando e oculta desvelando. Fórmula privilegiada da arte muçulmana, escreve Jacques Berque, ilustra uma coincidência entre dois aspectos da obra de arte: o seu carácter de objecto e o de elo intersubjectivo entre uma psicologia individual, a do artista, e uma psicologia colectiva … Tudo nele é sintese, convergência: a intenção do artista, um sentido e uma matéria estreitamente integrados, a apropriação de uma sociedade, cuja originalidade caracteriza ao ponto de tomar o nome dela. Entramos numa mesquita. Contemplamos nas paredes este ou aquele arabesco, mas o que realmente fazemos é muito mais do que apenas contemplar. Ouvimos. Rodeia-nos uma salmodia. Se formos crentes, deciframos na medida do possível as fórmulas escritas … É também, no seu conjunto, grafia e sonoridade. E, para o crente, encantamento ritual. Ficamos subjugados, como num fogo cruzado, por aquilo que no arabesco existe de beleza sensual e, ao mesmo tempo, frase alcorânica, isto é, de sublime clareza. Ao espectador que tenta decifrar o arabesco, este oferece-se aos seus olhos como um labirinto, 11mdédalo… O que o artista procura é ao mesmo tempo ocultar e revelar a sentença alcorânica e, assim, suscitar … a emoção acrescida de uma beleza e de uma verdade que seriam sobretudo um compromisso com o longínquo (BERN).

ARADO
Símbolo de fertilização: a relha é como o membro viril que penetra no sulco, o qual é análogo ao órgão feminino, Passar o arado sobre a terra é unir o homem e a mulher, o céu e a terra: o nascimento é como uma colheita. No início do seu reinado, na China, o imperador traçava um sulco no solo, em sinal de tomada de posse e de fecundação do seu império. Na epopeia indiana, Rapa desposa Sita. O arado e a enxada simbolizam, como a maior parte dos utensílios cortantes, a acção do princípio macho sobre a matéria passiva, portanto fêmea. Examinaremos, aliás, o significado geral de lavoura*. A identificação do arado com o órgão gerador é ilustrada, observou Mircea Eliade, pelo parentesco linguística entre a palavra langala (arado) e a palavra linga, ambas derivadas de uma raiz que designa ao mesmo tempo a enxada e o falo. Esta identificação encontra- se em várias línguas austro-asiáticas. Na Índia, o arado é essencialmente atributo de Bala- -Rama (Rama, o forte) avatar de Vixnu e irmão de Krishna, símbolo das virtudes reais, mas sem dúvida sobretudo do domínio da terra. A tradição upanixádica identifica-o com o sentido do Veda, isto é, com a penetração no conhecimento. Quando o arado é atribuído aos nagas* (mas Bala-Rama é também o naga Ananta), a relação com o domínio da terra é evidente (BURA, MALA). Um dos três reis esposos de deusas epónimas da Irlanda tem o nome de Mac Ceht, filho do arado. É um dos únicos, senão o único testemunho mitológico referente a este instrumento agrícola. O arado só volta a aparecer no Mabinogi de Kulhwch e Olwen, quando o gigante Yspaddaden Penkawr exige de Kulhwch, entre as inúmeras condições a cumprir para que ele case com a sua filha, que ele desbrave num dia um certo bocado de matagal (LOTM, 1,300-301, OGAC, 4, p.16). Apesar de a sociedade celta, sacerdotal e militar, não comportar a classe agrícola (fecundidade), o arado participa assim no simbolismo do começo do mundo, da abertura de um sulco. Falando da conversão das nações, Isaías (2, 4) escreve: Os quais das suas espadas forjarão relhas de arados, e das suas lanças.foices. Uma nação não levantará a espada contra outra nação, e não se adestrarão mais para a guerra. Esta passagem de Isafas é muitas vezes retomada e interpretada pelos Pais da Igreja, em particular por Ircneu, que menciona nestes versículos o espírito pacífico dos cristãos no seu tratado Contra os Heréticos (4, 34). Explica de forma mais nítida o sentido deste texto quando diz: Pois o próprio Nosso Senhor foi quem fez o arado e trouxe o foicinho: isso designa a primeira sementeira do homem, que foi a sua modelagem em Adão, e a recolha da colheita pelo Verbo nos últimos tempos. E por causa disso aquele que unia o começo ao fim e é o Senhor de UI1l e de outro, manifestou no fim do arado, a madeira unida ao ferro, e assim mondou a sua terra: com efeito, o Verbo sólido, unido à carne e fixado de certa maneira, limpou a terra inculta. Nas tradições judaicas e cristãs, o arado é um símbolo da criação e da cruz. A madeira c o ferro do arado simbolizam a união no Cristo das duas naturezas. O arado é também um símbolo fálico. Mostrámos o simbolismo do arado que, no pensamento primitivo, significa ao mesmo tempo trabalhar c fecundar; o earus novalis (carnaval) das festas de Primavera era por vezes representado na Idade Média sob a forma de um arado (JUNM, 265). O arado e o estilete simbolizam também o esforço do escritor. Isidoro de Sevilha compara o estilete ao arado. Faz alusão aos Antigos traçando as suas linhas, tal como o lavrador abre os seus sulcos. A página branca é comparada a um campo que ainda não sofreu a acção da relha do arado. Os escritores da Idade Média utilizam muitas vezes este sentido simbólico.

ARANHA
A aranha aparece, em primeiro lugar, como uma epifania lunar, dedicada à fiação e à tecelagem. O seu fio evoca o das Parcas, mas que tecido é esse? Tanto a Biblia como o Alcorão sublinham a sua fragilidade: Constrói a sua casa como a aranha, como a choupana levantada pelo guarda. Deita-se rico, mas será pela última vez; ao abril’ os olhos já deixou de existir. (JOB,27, 18) Mas a morada da aranha é a mais frágil das moradas. (ALCORÃO, 29, 40) Esta fragilidade evoca a de uma realidade de aparências ilusórias, enganosas. Será a aranha, portanto, a artesã do tecido do mundo ou do véu das ilusões que oculta a Realidade Suprema? Esta é precisamente a questão levantada, na India, a partir do segundo milénio antes de Cristo, nos mais antigos textos védicos e interpretada de formas diferentes, pelo mito de Maya, a shakti ou companheira de Varuna. Para a filosofia budista, Maya evocará uma realidade ilusória, porque é «vazia de sem, isto é, desprovida de qualquer substrato metafisico. Para o Bramanismo, pelo contrário, a realidade é a existência, que é «verdadeira», dado que é uma manifestação da essência: o véu de Maya, tal como a teia de aranha, exprime a beleza da criação, e Maya é uma deusa prestigiosa. Esta dialéctica, de onde procede a ambivalência simbólica da aranha, situando-a no centro da problemática do hinduísmo e do budismo, é também a díaléctica essência/existência que encontramos na origem da própria cultura mcditerrânica, se examinarmos com atenção a organização do mito de Aracne, Atena, deusa da Razão Superior, pois é filha de Zeus, saída já armada da sua cabeça, é a mestra da tecelagem. Aracne, uma jovem da Lídia, que não é mais do que uma simples mortal, é de tal forma dotada nesta arte que ousa desafiar a divindade. As duas instalam- se frente a frente, diante do seu trabalho. Atena borda os doze deuses do Olimpo em toda a sua majestade, e, nas quatro pontas da sua obra, evoca os castigos merecidos pelos mortais que ousaram desafiá- -los. Como resposta a esta imagem transcendental de uma realidade superior, interdita aos seres humanos, Aracne pinta os amores dos deuses pelos vulgares mortais. Atena, ultrajada, bate na jovem com a sua lançadeira. Aracne decide então enforcar-se; Atena salva-lhe a vida, mas metamorfosei-a em aranha, que nunca mais deixará de se balançar na ponta do seu fio. O desafio à deusa feito por esta mortal tem qualquer coisa de sartriano, coloca este mundo à frente do outro, subordinando o próprio Olimpo às paixões humanas. A aranha, cuja tela hoje é irrisória, simboliza também a queda do ser que quis rivalizar com Deus: é a ambição demiúrgica punida. O simbolismo da aranha está todo contido num fundo cultural indo-europeu sujeito a várias interpretações, que se podem encontrar disseminadas, isoladas ou separadas numa infinidade de áreas culturais. Assim, a aranha pode facilmente surgir na figura de criadora cósmica, de divindade superior, de demiurgo. É o que acontece em muitos povos. Entre os povos da África ocidental, Anansé, a aranha, preparou a matéria dos primeiros homens, criou o Sol, a Lua e as estrelas. Depois, o deus do céu, Nyamé, insuflou a vida no homem. A aranha continua a preencher uma função de intercessora entre a divindade e o homem; tal como um herói civilizador, elà traz os cereais e a enxada (MYTF, 242). Os mitos da Micronésia (ilhas Gilbert) apresentam Narô, o Senhor-aranha, como o primeiro de todos os seres, como um deus criador (MYTF, 225). Os Achantis fizeram da aranha um deus primordial: o homem foi criado por uma grande aranha.
Uma lenda do Mali descreve-a como sendo o conselheiro do deus supremo, um herói criador que, disfarçando- se de pássaro. voa e cria. às escondidas do seu amo. o Sol. a Lua e as estreias … depois regula o dia e a noite. e faz surgir o orvalho (TEGH, 56). Tecedeira da realidade, é, portanto, senhora do destino; o que explica a sua função âtvlnatària, amplamente atestada em todo o mundo. Entre os Bamum dos Camarões, por exemplo, a aranha mígala recebeu do céu o privilégio de decifrar o futuro … No besttário da arte Bamum, o Ngaame (outro dos seus nomes) disputa o primeiro lugar com a serpente real … O seu significado é universal e complexo. Ligada ao destino do homem. ao drama da sua vida terrestre. a adivinhação feita por Ngaame criou uma técnica de decifração dos signos … Consiste em colocar sobre o buraco da cova da mégala signos que o animal desarruma de noite e transforma em mensagem. Através deles. o adivinho procura a cura. a protecção contra o inimigo e a alegria de viver (MVEA, 59). A adivinhação através da aranha era frequentemente praticada no antigo império dos Incas do Peru. O adivinho destapava um pote onde era conservada a aranha adivinhadora. Se alguma das suas patas não estava dobrada, o augúrio era mau (ROWI). A aranha às vezes torna-se um símbolo da alma ou um animal psicopompo. Entre os povos altaicos da Ásia central e da Sibéria, principalmente, a aranha representa a alma liberta do corpo. Entre os Muisca da Colômbia, quando ela não é a alma, é quem transporta ao longo do rio, num barco feito com a sua teia, as almas dos mortos que vão para o Inferno. Entre os Astecas, ela torna-se até o símbolo do deus dos Infernos. Entre os Montanheses do Victname do Sul, a aranha é uma forma da alma, Iugida do corpo durante o sono; por isso matar uma aranha seria correr o risco de causar a morte do corpo adonnecido. Todas estas qualidades de dcmiurgia, adivinhação, condução de almas e intercessão entre os dois mundos (o humano e a realidade divina), fazem com que a aranha simbolize também um nível superior de iniciação. Para os Bambara, por exemplo, a aranha designa uma classe de iniciados que já atingiram a interioridade, a força realizadora do homem intuitivo e meditativo (ZAHV, 116). Esta interioridade, evocada pela aranha ameaçadora no centro da sua teia, é, pelo contrário, para um psícanalista, um excelente símbolo da introversão e do narcisismo, a absorção do serpeio seu próprio centro (Beaudoín). Mas esta imagem cnvolvcnte c centrípcta não nos deve fazer esquecer uma outra imagem de intcrccssora que é constituída pela aranha a balançar-se como um iô-iô, na ponta do fio que ela parece estar constantemente a subir. Podcr-se-á descobrir nesta imagem um conteúdo sexual latente (Ver Baloíço*) perfeitamente corroborado pelos estudos feitos na Sardcnha e na Apúlia sobre o tarantulismo e os acessórios da sua encenação (EMR, 230 s), No plano místico, este fio evocará o cordão umbilical, ou a corrente de ouro que liga a criatura ao criador, e através da qual tenta elevar- se em direcção a ele, tema evocado por PIatão e que será retomado pelo Pseudo-Dionísio Areopagita: Esforcemo-nos, pois. com as nossas orações. por nos elevarmos até ao alto dos raios divinos e benfazejos, como se nos agarrássemos para a puxarmos constantemente na nossa direcção com as duas mãos alternadas a uma corrente infinitamente luminosa que pendesse do alto do céu e descesse até nós, dando-nos a impressão de estarmos a trazê-la para baixo; mas na realidade o nosso esforço não é capaz de movê-la. pois ela tanto está em cima como em baixo e somos realmente nós que subimos. A unidade do pensamento indo-europeu encontra- -se de novo aqui, mais uma vez, pois os Upanixades fazem da aranha que se eleva ao longo do seu fio um símbolo da liberdade. Ofio do yogi é o monossílabo Aum*; graças a ele, o yogi eleva-se até à libertação. O fio da aranha é o meio, o suporte da realização espiritual.

ARARA
Por causa das suas longas penas vermelhas, a arara é considerada pelos Maias um símbolo do fogo e da energia solar. O glifo Kayab, representado por lima teia de aranha. é um signo solsticial que os Chorti traduzem por II1nsol resplandecente (GIRP, 163). No pátio do terreno de jogo da péla de Copán, seis estátuas de araras em fila, três viradas para o Oriente e três viradas para o Ocidente, marcam a posição astronómica dos seis sóis cósmicos que – juntamente com o do meio (representado pela bola) – representam o setenvirato astroteogónico do Deus Sol (GIRP, 255). Os Índios Bribis da Colômbia utilizam um periquito vermelho como guia do morto (KRIE, 359). A pena de arara, símbolo solar, tem usos decorativos c rituais entre todos os povos da América equatorial e tropical. Uma observação de Yves d’Evreux entre os Tupinamba, referida por A. Métraux (METT), estabelece uma distinção entre o significado simbólico desta ave e o da Aguia*: era preciso evitar cuidadosamente colocar no conjunto das penas de uma flecha a pena da águia ao lado de lima pena de arara, pois esta última teria sido comida pela primeira. Os índios Bororós acreditam num ciclo complicado de transmigração das almas, durante o qual estas encarnam numa arara (LEVC). No Brasil, as araras fazem o ninho no cimo de falésias ou rochedos abruptos; a sua caça é, por isso, uma proeza: a arara, símbolo solar, é um avatar do fogo celeste, difícil de conquistar. Neste sentido, opõe-se ao jaguar*, associado ao fogo ctoniano, como é corroborado pelos numerosos mitos ameríndios sobre a origem do fogo, nos quais encontramos frequentemente o herói em luta com a dualidade ctono-uraniana, encarnada na arara e no jaguar.

ARCA
O simbolismo da arca, e o da navegação” em geral, comporta vários aspectos que estão, no seu conjunto, interligados. O mais conhecido é o da Arca de Noé a navegar sobre as águas do dilúvio e transportando todos os elementos necessários à restauração eíclica. Os textos purânicos da Índia contam de forma semelhante o embarque e salvamento, pelo Peixe Vixnu (Matsyaavatara), de Manu, o legislador do ciclo actual, e dos Vedas, que são o germe da manifestação cíclica. De facto, a arca está pousada na superflcie das águas, tal como o ovo do mundo, como o primeiro germe vivificador, escreve São Martinho. O mesmo símbolo do germe, da Tradição não desenvolvida, mas destinada a sê-lo no ciclo futuro, encontra-se também a propósito do búzio” e da letra árabe nun (uma semi- -circunferência, a arca contendo um ponto: o germe). Guénon salientou a importância da cornplementaridade da arca e do arco-íris”, que aparece por cima dela como sinal de aliança. Trata-se de dois símbolos análogos, mas inversos um relativo ao domínio das águas inferiores, o outro relacionado com as águas superiores que se completam para reconstituírem uma circunferência: a unidade do ciclo. O simbolismo da Arca da Aliança dos Hebreus está mais próximo do que parece do anterior. Os Hebreus colocavam-na na parte mais retirada do tabernáculo; ela continha as duas tábuas da lei, a vara de Aarão e um vaso cheio do maná que alimentara o povo no deserto. A arca cra a garantia da protecção divina, e os Hebrcus levavam-na nas suas expedições militares. Quando foi transfcrida, com grande pompa, para o palácio de David, os bois que puxavam o carro fizeram inclinar a arca; o homem que tocou nela para a segurar caiu logo morto no chão. Não se toca impunemente no sagrado, no divino, da tradição (Segundo Livro de Satnuel, 6). A arca contém a essência da Tradição, mas desenvolvida sob a forma das Tábuas da Lei. Ela é afonte de todas as Potências do ciclo (São Martinho), Uma lenda defende, aliás, que ela foi escondida por Jeremias ao regressar do cativeiro c que deverá reaparecer na alvorada de uma nova era. A Arca é, na tradição cristã, um dos símbolos mais ricos: símbolo da morada protegida por Deus (Noé) e salvaguarda das espécies; símbolo da presença de Deus no povo por ele escolhido; espécie de santuário móvel, garantindo a aliança entre Deus e o seu povo; por fim, símbolo da Igreja. Este reveste-se do triplo sentido simbólico da nova aliança, que é universal e eterna, de nova presença, que é real, de nova arca de salvação, já não contra o dilúvio, mas sim contra o pecado: a Igreja é esta Arca nova, aberta a todos para a salvação do mundo. A Arca de Noé é o tema de numerosas especulações, em especial na tradição rabínica. A sua forma de pirâmide tem o sentido de fogo, de chama. Encerra em si uma energia fálica. A Arca foi construí da em madeira incorruptível e imputrcscivel (resinosa ou de acácia). Existe uma relação estreita entre as dimensões dadas por Javé a Noé para construir a Arca na altura do dilúvio c as que foram dadas a Moisés para construir a Arca da Aliança. Esta última toma, aliás, as mesmas proporções que a Arca de Noé, numa escala muito reduzida. A Arca de Noé tinha três andares; a importância deste número não poderia passar despercebida: é um símbolo asecnsional. Orígencs explica as dimensões da Arca. Comenta o seu comprimento de 300 côvados, que exprime ao mesmo tempo o número 100 e o número 3; o primeiro significa a plenitude (a unidade), o segundo, a Trindade. A largura é de 50 côvados, e é interpretada como sendo o símbolo da redenção. Quanto ao cimo, simboliza o número I, e refere-se à unidade de Deus. Orígenes apresenta ainda analogias entre o comprimento, a largura e a altura da Arca e o comprimento, a largura e a profundidade do mistério do amor de Deus de que nos fala São Paulo (Efésios, 3, 18). Para Santo Ambrósio, a arca representa também o corpo com as suas dimensões e as suas qualidades. Isidoro de Sevilha dirá que os 300 côvados são iguais a 6 vezes 50; portanto, o comprimento é igual a 6 vezes a largura; e isto simboliza as seis idades do mundo. Santo Agostinho comenta este tema da Arca dizendo que prefigura a cidade de Deus, a Igreja, o corpo do Cristo. No seu tratado De arca Noe morali et De arca mystica, Hugo de São Victor retoma as grandes ideias de Orígenes. A Arca misteriosa é representada pelo coração do homem. Hugo compara-a com um navio. Estuda sucessivamente os diferentes elementos da Arca para Ihcs dar uma tripla interpretação: literal, moral e mística. A Arca do coração tem o seu análogo no lugar mais secreto do templo onde se oferece o sacrificio, isto é, o Santo dos Santos que representa o centro do mundo. A Arca conserva sempre um carácter misterioso. Jung descobre nela a imagem do seio matemo, do mar onde o sol se submerge para renascer. . É o vaso alquímico onde se faz a transmutação dos metais. É, ainda, o vaso do Graal. O tema do coração”, enquanto arca e vaso, é um símbolo constante. O coração do homem é o lugar onde se opera a transmutação do humano em divino. A Arca é um símbolo do cofre do tesouro, tesouro de conhecimento e de vida. É princípio de conservação e de renascimcnto dos seres. Na mitologia sudanesa, Nommo enviou aos homens o Ferreiro primitivo, que desceu, ao longo do arco-íris, com a Arca que continha um exemplar de todos os seres vivos, dos minerais e das técnicas (MYTF, 239).

ARCADA
Está ligada ao duplo simbolismo do quadrado” e do círculo”, reunindo, tal como o nicho”, os volumes do cubo e da taça”. A arcada é uma vitória sobre a mesquinhez carnal. A arcada, que levanta com os seus braços a coroa de pedra, proclama a vitória duradoura do esforço anagôgico sobre o peso material … Evoca também a estilização espontânea e imediata da silhueta humana: abraça os seus contornos e sublinha- lhe o dinamismo de ascensão (CHAS, 269).

ARCO
O tiro com arco resume de forma exemplar a estrutura da ordem ternária, tanto pelos seus elementos constituintes – arco, corda, flecha -, como pelas fases da sua manifestação: tensão, distensão, arremesso. Isto é, o simbolismo sexual mostra aqui com uma particular evidência a sua indissolúvel ligação com as actividades da caça e da guerra. Nas sociedades fortemente hierarquizadas o campo simbólico do arco vai do acto criador à procura da perfeição, tanto social, como o testemunha o seu papel na cavalaria e, principalmente, na tradição japonesa, como espiritualmente, quer o arco de Xiva quer o de Sagitário indicam a via de sublimação do desejo. Do despertar da libido à procura da santidade, vemos aqui reunidas numa só imagem a energia primordial e a energia psíquica que a tradição indiana coloca, respectivamente, no osso sacro (primeiro Chacra) e no topo do crânio (sétimo Chacra). O tiro com arco é ao mesmo tempo função nobre, função de caçador e exercício espiritual. O arco é uma arma nobre em todos os lugares: é uma arma de cavaleiro, de Kshatriya; está, por conseguinte, associado às iniciações cavaleirescas. A iconografia purânica faz dele um extenso, uso e designa-o expressamente como emblema real. E a anua de Arjuna: o combate da Bhngavad-Gita é um combate de arqueiros. O tiro com arco é uma disciplina essencial da via japonesa do Bushido. É – juntamente com a condução de carros – a principal das artes liberais chinesas: faz prova dos méritos do príncipe, manifesta a sua Virtude. O guerreiro de coração puro acerta à primeira no centro do alvo. A flecha” destina-se a atingir o inimigo, a abater ritualmcnte o animal emblcmático. A segunda acção visa estabelecer a ordem do mundo; a primeira, destruir as forças tenebrosas e nefastas. Por isso o arco (especialmente o arco de madeira de pessegueiro, utilizando flechas de artemísia ou de espinheiro) é uma arma de combate. Também é uma arma de exorcismo, de expulsão: eliminam-se os poderes do mal atirando flechas para os quatro pontos cardeais, para cima c para baixo (para o Céu e para a Terra). O Xintoísmo conhece vários rituais de purificação através dos tiros de flechas. No Rumnínna, a oferenda de flechas de Parashu-ramn adquire um carácter sacrificial. A flecha identifica-se com o relâmpago, com o raio … A flecha de Apelo, que é um raio solar, tem a mesma função que o vujra (raio) de Indra. Yao, imperador solar, atirava l1cchas cm direcção ao sol; mas as flechas atiradas em direcção ao céu pelos soberanos indignos voltam-se contra eles sob a forma de relâmpagos. Na China antiga atiravam-se também flechas serpenteantes, flechas vermelhas e portadoras de fogo que representavam clarumcntc o raio. Do mesmo modo, as flechas dos Índios da América têm uma linha vermelha em ziguezague que representa o relâmpago. Mas a flecha como relâmpago – ou como raio solar – é o traço de luz que atravessa as trevas da ignorância: é, portanto, um símbolo do conhecimento (da mesma forma que a flecha do Matador de dragão védico que possui, além disso, na mesma perspectiva, uma significação fálica, a que ainda voltaremos). Da mesma forma, os Upuníxades fazem do monossílabo om uma flecha que, lançada pelo arco humano e atravessando a ignorância, atinge a luz suprema; Om (aum*) é também o arco que projecta a t1eeha do Eu para o alvo, Brama, ao qual se une. Este simbolismo está particularmente desenvolvido no Extremo Oriente, e sobrevive até aos nossos dias no Japão. O livro de Lie-tse cita em vários sítios o exemplo do tiro não intencional, que permite atingir o alvo coma a condição de não se estar preocupado nem com o alvo nem com o tiro: é a atitude espiritual não actuante dos Taoístas. Aliás, a eficácia do tiro é tanta que as flechas formam uma linha contínua do arco ao alvo; o que implica, além da noção de continuidade do sujeito ao objecto, a eficácia da relação que o rei estabelece quando atira as flechas para o céu, identificando-se a cadeia de flechas com o Eixo do mundo. Quem atira? interrogamo-nos a propósito da arte japonesa do tiro com arco. Alguma coisa atira, que não sou eu, mas a identificação perfeita do eu com a actividade não actuante do Céu. Qual é o objectivo? Confúcio já dizia que o atirador que falha o objectivo procura a origem do fracasso em si próprio. Mas também é em si próprio que está o alvo. O carácter chinês tchong que designa o centro, representa um alvo trespassado pela flecha. O que a flecha atinge é o centro do ser, é o Si. Se se puder dar um nome a este objectivo, ele chama-se Buda, pois simboliza efectivamente o alcançar da Budeidade (nós já dissemos que ele também era Brama). A mesma disciplina espiritual é conhecida do Islão, onde o arco se identifica com o Poder divino e a flecha com a sua função de destruição do mal e da ignorância. Em qualquercircunstâncía, alcançar o Objectivo, que é a Perfeição espiritual, pressupõe a travessia pela flecha das trevas, que são os defeitos, as imperfeições do indivíduo. Num plano diferente, a Roda da Existência budista mostra a figura de um homem atingido no olho por uma flecha: símbolo da sensação (vedana), provocada pelo contacto dos sentidos com o seu objecto. Enquanto emblema de Vixnu, o arco representa o aspecto destruidor, desintegrante (tamas) que está na origem das percepções dos sentidos. Kama, o deus do amor, é representado por cinco flechas que são os cinco sentidos. Relcmbramos aqui o uso do arco e das flechas por Cupido. A flecha representa também Xiva (armado, aliás, de um arco semelhante ao arco-íris); identifica-se ao linga* de cinco rostos. Ora o linga* também é luz. Assim, associada ao número cinco, a flecha é ainda, por derivação, símbolo de Parvati, encarnação dos cinco tattva ou princípios elementares, mas também receptáculo, é verdade da flecha fálica de Xiva. A tendência desintegrante permite lembrar, aliás, que a palavra guna tem o sentido original de corda de arco (COOH, COOA, DANA, EPET, GOVM, GRAD, GRAC, GRAF, GUEC, GUES, BEllS, HERS, HERZ, KALL, MALA, WIEC). O arco significa a tensão de onde surgem os nossos desejos, ligados ao nosso inconsciente. O Amor, o Sol, Deus, todos possuem aljava, arco e flechas. A flecha” eontém sempre um sentido macho. Ela penetra. Ao manejar o arco, o Amor, o Sol e Deus exercem um papel de fecundação. Também o arco, com as suas flechas, é em todo o lado símbolo c atributo do amor, da tensão vital, tanto entre os Japoneses, como entre os Gregos, ou os mágicos xamânicos de Altai. Na base deste simbolismo, eneontramos o conceito de tensão dinamizante definida por Heráclito como expressão da força vital, material e espiritual. O arco e as flechas de ApoIo são a energia do Sol, os seus raios e os seus poderes fertilizantes e purifieadores. Em Job, 29,20, o arco simboliza a força: A minha raiz atinge as águas, o orvalho depositar-se-á, de noite, sobre os meus ramos. A minha glória será sempre jovem, e o meu arco fortalecer-se-à nas minhas mãos. . Uma comparação muito próxima coloca o arco na mão de Xiva e faz dele o emblema do poder de Deus, à semelhança de linga*. O arco de Ulisses simbolizava o poder exclusivo do rei: nenhum pretendente foi capaz de o retesar; só ele o conseguiu e massacrou todos os pretendentes. Retesado em direcção ao alto, o arco pode ser também um símbolo da sublimação dos desejos. É, segundo parece, o caso do Sagitário nos signos zodiacais, que apresenta uma figura de arqueiro a ajustar a sua flecha em direcção ao céu. Entre os antigos Samoiedos, o tambor” linha o nome de arco musical, arco de harmonia, símbolo da aliança entre os dois mundos, mas também arco de caça, que lança os xamãs como uma flecha para o céu (SERH, 149). Símbolo do poder guerreiro, ou da superioridade militar no Veda, significa também o instrumento das conquistas celestes. Este poema rico de símbolos evoca as rudes batalhas que são as de ordem espiritual: Pudéssemos nós, pelo arco, conquistar as vacas e a dificil colheita, pelo arco ganhar as severas batalhas! o arco é o tormento do inimigo; alcancemos pelo arco todas as regiões do espaço! (Rig-Veda, 6,75) O arco é, finalmente, símbolo do destino. Imagem do arco-íris no esoterismo religioso, manifesta a própria vontade divina. Exprime também, entre os Délficos, os Hebreus, as populações primitivas, .a autoridade espiritual, o poder supremo de decisão. E atribuído aos pastores dos povos, aos soberanos pontífices, aos detentores de poderes divinos. Um rei ou um deus mais poderoso que os outros quebra os arcos dos seus adversários: o inimigo não pode impor-lhe a sua lei. José é um ramo fértil, um ramo fértil à beira de zuna fonte. Ultrapassa os outros ramos ao longo da muralha. Exasperaram-no e feriram-no com flechas; odiaram-no os archeiros orgulhosos. Mas o seu arco manteve-se firme. E os músculos dos seus braços permaneceram vigorosos. Graças ao protector de Jacob, que assim o converteu no rochedo de Israel! Graças ao Deus de teu pai, que será o teu apoio; (Génesis, 49,22-25) Tal como o faz Javé, quando quer, sobre os inimigos do seu povo e dos seus eleitos, o Arqueiro Apoio faz reinar a sua lei sobre o Olimpo. O hino homérico que lhe é dedicado exalta, assim, o seu poder: … Falarei do Arqueiro Apolo cujos passos na morada de Zeus fazem tremer todos os deuses: todos se levantam dos seus assentos à sua aproximação, quando ele distende o seu arco ilustre (HYMH, a Apoio, 1-5). Com mais razão os humanos lhe serão submissos. Enquanto arqueiro é o senhor dos seus destinos. Homero chama-lhe na llíada: … o deus que lança a morte … ApoIo tem a flecha inevitável. Ele mata irremediavelmente aqueles que visa com as suas flechas aladas. De igual modo, Anúbis, o deus egípeio de cabeça de chacal, encarregado de velar sobre os processos dos mortos e dos vivos, é muitas vezes representado a atirar com o arco: atitude que simboliza o destino inelutável, o encadeamento dos actos. O rigor do destino é absoluto: mesmo o inferno tem as suas leis; mesmo a liberdade implica uma cadeira de reacções irreversíveis. Em nós,o primeiro acta é livre, diz Mefistófeles; nós somos escravos do segundo (GOETHE; Fausto, Primeira parte).

ARCO-ÍRIS
O arco-íris é caminho e mediação entre a terra e o céu. É a ponte de que se servem deuses e heróis entre o outro mundo e o nosso. Esta função quase universal é atestada tanto entre os pigmeus como na Polinésia, na Indonésia, na Melanésia, no Japão, para referir apenas culturas extra-européias. Na Escandinávia, é a ponte de Byfrost; no Japão a ponte flutuante do Céu; a escada de sete cores, através da qual Buda toma a descer do céu, é um arco-íris. A mesma ideia se encontra do Irão à África e da América do Norte à China. No Tibete, o arco-íris não é propriamente a ponte*, mas a alma dos soberanos que se ergue para o céu: o que conduz, indirectamente, à noção de Pontifex, o lugar de passagem. Existe um laço etimológico e simbólico entre o arco-íris (francês: arc-en-cieõ e o céu, cujo nome bretão kanevedeen admite um protótipo do antigo celta kambonemos, curva celeste. O simbolismo reuniria, então, ao mesmo tempo, o de céu e o de ponte. (OGAC, 12, 186). As fitas utilizadas pelos xamãs buriatas têm o nome de arco- íris, elas simbolizam, em geral, a ascensão do Xamã ao céu (ELIC, 132). Os pigmeus da África central acreditam que Deus lhes mostra o seu desejo de se relacionar com eles através do arco-íris. O arco-íris é um exemplo de transferência dos atributos do deus uraniano para a divindade solar: O arco-íris, tido em tantos sítios como epifania uraniana, entre os Fuegienses é associado ao Sol, tornando- se irmão do Sol (ELlT, SCHP, 79). Para os Dogones, o arco-íris é considerado como o caminho que permite ao Carneiro celeste, que fecunda o Sol e urina as chuvas, descer sobre a terra. O camaleão, que tem as suas cores, é-lhe aparentado. O arco-íris, sempre segundo as crenças dogone, tem quatro cores, o negro, o vermelho, o amarelo e o verde; são o rasto deixado pelos cascos do Carneiro celeste quando ele corre (GRIE).
Na Grécia o arco-íris é Íris, a mensageira rápida dos deuses. Simboliza também de uma forma geral as relações entre o céu e a terra, entre os deuses e os homens: é uma linguagem divina. Na China, a união das cinco cores atribuídas ao arco-íris é a do yin e do yang, o signo da harmonia e do universo e o da fecundidade. Se o arco de Xiva é parecido com o arco-íris, o de Indra é-lhe esprcssamente atribuído (arc d’Indra, elnthna, é ainda o nome que hoje lhe dão no Kampuchea (Cambodja). Ora, Indra fornece à terra a chuva e o raio, que são os símbolos da Actividade celeste. As sete e não cinco cores do arco-íris representam, no esoterismo islâmico, a imagem das qualidades divinas reflectidas no universo, pois o arco-íris é a imagem inversa do Sol sobre o véu inconsistente da chuva (JiIi). As sete cores do Arco são assimiladas aos sete céus na Índia e na Mesopotâmia. Segundo o budismo tibetano, nuvens e arco-íris simbolizam o Sambogha-kaya (corpo de êxtase espiritual), c a sua resolução em chuva o Nirmana-kaya (corpo de transformação). A união dos contrários é também a reunião das metades separadas, a resolução. Assim, sugere Guénon, o arco-íris, ao aparecer por cima da Arca, reúne as águas inferiores e as águas superiores, metades do ovo* do mundo como sinal de restauração da ordem cósmica c da gestação de um novo ciclo. De forma mais explícita, a Bíblia faz do arco-íris a materialização da aliança. E Deus acrescentou: «Este é o sinal da aliança que faço convosco, com todos os seres vivos que vos rodeiam e com as demais gerações futuras: coloquei o Meu arco nas nuvens para que seja o sinal da aliança entre Mim e a terra (GÉNESIS, 9, 12-17). De Champeaux acompanha-nos à mesma imagem no Novo Testamento, com a barca de Pedro a substituir a Arca de Noé: No interior desta concha está circunscrito o mistério da Igreja que é por vocação coextensivo do universo simbolizado pelo quadrado”. Com Noé, Deus inscreveu prefigurativamente o quadrado do Novo Cosmos no Círculo irisado da benevolência divina. Ele esboçou o esquema da Jerusalém * dos últimos tempos. Esta aliança éjá lima realização, uma assunção, pois Deus éfiel. Os Cristas em glória, bizantinos ou romanos, pontificam muitas vezes no meio de um arco-íris (CHAS, 108). A associação Chuva-Arco-Iris faz com que, em numerosas tradições, este, último evoque a imagem de uma serpente mítica. Na Asia oriental, é o Naga, saído do mundo subterrâneo. Este simbolismo, que se encontra também em África e talvez, observa .Guénon, na Grécia, pois o arco era representado na couraça de Agamémnon por três serpentes, está relacionado com as correntes cósmicas, que se desenvolvem entre o céu e a terra. A escada-are o-íris de Buda tem dois naga por montantes. Voltamos a encontrar o mesmo simbolismo em Angkor (Angkor-Thom, Prah Khan, Banteai Chmar), onde os caminhos ladeados por balaustradas-naga são imagens do arco-íris; o que é confirmado, em Angkor- Thorn, pela presença de lndra na sua extremidade. É preciso acrescentar que em Angkor esta mesma ideia parece estar bem expressa no !intel das portas – portas do céu, é claro -, onde de novo encontramos Indra e o makara” a esmagar dois naga. O arco com makara simboliza, de forma muito geral, o arco-íris e a chuva celeste. As lendas chinesas contam a metamorfose de um Imortal em arco-íris, enroscado como uma serpente. Assinalemos, ainda a este propósito, que existem pelo menos cinco caracteres para designar o arco-íris e que todos contêm a raiz hoei, que é também a da serpente. Acrescentemos que, se o arco-íris é geralmente anunciador de felizes acontecimentos, ligados à renovação cíclica (foi por isso, ainda, que apareceu um arco-íris quando nasceu Fu-hi), pode também ser prelúdio de perturbações na harmonia do universo e tomar até um significado aterrador; é a outra face, esquerda ou nocturna, do mesmo complexo simbólico: Quando um Estado está em perigo de perecer, escreve Huai Nan-tse, o aspecto do céu muda … aparece um arco-íris … Entre os montanheses do Vietnam do Sul, as relações céu-terra através da mediação do arco-íris implicam um aspecto nefasto, relacionado com a doença e a morte. O arco-íris Borlang-Kang tem uma origem sinistra; apontá-lo com o dedo pode provocar a lepra. Para os Pigmeus, o arco-íris é a perigosa serpente do céu, como que um arco solar formado por duas serpentes unidas. Entre os Negritos Semangues o arco-íris é uma serpente pitão. De tempos a tempos, ela desliza para ofirmamento para ir tomar l/III banho. Nessa altura, brilha com todas as cores. Quando despeja a água do seu banho, cai sobre a terra a chuva do sol, uma água extremamente perigosa para os seres humanos. Para os Negritos Andamanes, o arco-íris é maléfico: é o tantã do Espírito da Floresta; o seu aparecimento anuncia a doença e a morte (SCHP, 157, 167). Para os Chibchas da Colômbia, o arco-íris era, pelo contrário, um divindade protectora das mulheres grávidas (TRIB, 130). Para os lncas (LEHC), é a coroa de penas de Illapa, Deus do Trovão e das Chuvas. Illapa é considerado como um homem cruel e intratável, e, por isso, os antigos Peruanos não ousavam olhar para o arco-íris, e quando se apercebiam dele, fechavam a boca com a mão. O seu nome era dado à escada que dava acesso ao interior dos templos subterrâneos, e que portanto, simbolicamente, era o acesso ao dominio das forças ctonianas. Para os Incas, o arco-íris também é nefasto. Éuma serpente celeste. Recolhida pelos homens quando era apenas um verme, à força de comer adquiriu proporções gigantescas. Os homens sentiram-se obrigados a matá-Ia porque ela exigia corações humanos para sua alimentação. Os pássaros mergulharam no seu sangue e a sua plumagem ficou tingida ‘com as cores vivas do arco-íris. Na Ásia central, uma concepção muito corrente defende que o arco-íris aspira ou bebe a água dos rios e dos lagos. Os Iacutes acreditam que ele pode até levar consigo os homens da terra. No Cáucaso, exortam- se as crianças a terem cuidado com o arco-íris, não vá ele levá-las para as nuvens (HARA, 152).

AREIA
O simbolismo da areia vem da quantidade dos seus grãos. Os séculos passados, ensina Buda, são ainda mais numerosos do que os grãos de areia que há entre a nascente e a foz do Ganges (Samyutta Nikaya, 2, 178). Encontra-se a mesma ideia em Josué, 11,4: Saíram, então, com todos os seus exércitos, povo numeroso como a areia das praias do mar. A constituição ritual dos montes de areia no Camboja – substitutos manifestos da montanha central – está igualmente ligada ao símbolo da grande quantidade: o número de grãos de areia é o dos pecados, dos quais nos desfazemos, e do anos de vida que solicitamos. Os punhados de areia lançados em certas cerimónias do Xintoísmo representam a chuva, o que é também uma forma de simbolismo da abundância. Em circunstâncias especiais, a areia pode também substituir a água nas abluções rituais do Islão (HERS, PORA, SCHC). É purificadora, líquida como a água, abrasiva como o fogo. Fácil de ser penetrada e plástica, a areia adquire as formas que nela se moldam; neste aspecto, é um símbolo de matriz. O prazer que se sente quando caminhamos sobre ela, quando nos deitamos nela, quando nos afundamos na sua massa suave – como se vê nas praias – relaciona-se inconscientemente com o regressus ad uterum dos psicanalistas. E, efectivamente, como uma procura de repouso, de segurança, de regeneração.

ARES (Marte)
Deus da guerra, Ares é filho de Zcus e de Hera. Entretanto, é o mais odioso de todos os Imortais, diz o seu pai; este louco que ignora a lei, diz a sua mãe; este furioso, este mal encarnado, este cabeça de vento, diz Atena, sua irmã. Brilhantemente armado de elmo, couraça, lança e espada, nem sempre é brilhante nas suas proezas: Atena ultrapassava-o no combate graças à sua enorme inteligência; um herói grego, Diomedes, chegou a ferir o deus num corpo a corpo devido à sua maior destreza; Hcfesto colocou-o numa posição ridícula perante Afrodite. Simboliza a força bruta, a dos que se vangloriam do seu tamanho, peso, rapidez, tumulto, capacidade de massacrar e de troçar da questões da justiça, moderação e humanidade. Sacia-se com o sangue dos homens, diz Ésquilo. Mas esta perspectiva simplista é um pouco caricatura!. Sem ser necessariamente um deus da vegetação, Ares é também um protector das colheitas, o que é uma das missões do guerreiro. Sendo saudado com o título de deus da Primavera, não o é por favorecer o impulso da seiva, mas sim por o mês de Março inaugurar a estação em que os príncipes vão para a guerra. E também o deus da juventude; guia sobretudo os jovens que emigram para fundar novas cidades. Rómulo e Remo seriam os seus dois filhos gémeos, Vêem-se muitas vezes nas obras de arte os emigrantes acompanhados por uma picança de plumagem vcrde* ou por um lobo*, que são animais consagrados a Ares; foi uma loba que amamentou os dois gêmeos, numa gruta do futuro Palatino, Se por um lado é o Matador, o Defensor dos lares e dos jovens, por outro é também o Punidor e o Vingador de todas as ofensas e, em particular, da violação dos juramentos; às vezes é também honrado como deus do juramento (SECG, 248). Na tríade Indo-europeia, realçada pelos trabalhos de G. Dumézil, Ares representa a classe guerreira. O hino homérico, duma época sem dúvida muito tardia (séc. IV da nossa era?), que lhe é consagrado, indica o caminho duma evolução espiritual, que seria simbolizada pelo fogoso Ares se ele conseguissse domar as suas paixões brutais: Ares soberanamente forte … coração valoroso … pai da Vitória que dá um final feliz às guerras, sustentáculo da Justiça, tu que dominas o adversário e diriges os homens mais justos… outorgador da juventude plena de coragem … escuta a minha oração! Espalha lá do alto a tua doce claridade sobre a nossa existência, e também a tua força marcial, para que eu possa afastar da minha cabeça a cobardia degradante, reduzir em mim a impetuosidade enganadora da minha alma e conter o enorme ardor de um coração que me poderia incitar a entrar na contenda de glacial pavor! Mas tu, Deus venturoso, dá-me uma alma intrépida e a graça de permanecer sob as leis invioladas da paz, escapando ao combate do inimigo e ao destino de uma morte violenta! (HYMH, 182). A função do Marte romano está completamente garantida no domínio celta, se bem que de uma forma diferente. É representada em dois níveis: por Nodons (ir!. Nuada), que é o rei-sacerdote, oriundo da classe guerreira, mas que exerce uma função sacerdotal; e por Ogmios (ir!. Ogme), o deus dos laços, que é o campeão (Hércules), mestre do combate corpo a corpo, da magia e das potências obscuras. Na época galo-romana, a função real desapareceu e, por o combate corpo a corpo já não ter razão de ser, a própria natureza de Marte foi gravemente alterada pela interpretatio romana e pelo sincretismo, que foram a causa de inumeráveis confusões e erros (OGAC, 17, 175-188).

ARGOLA (Fivela; Caracol [de cabelo] e Brinco)
A argola relaciona-se com o simbolismo do cinto *, do nó* e do elo. A argola fechada significa autodefesa: protege quem a usa. A argola aberta anuncia uma libertação: oferece ou dá aquilo que significa. Do mesmo modo que o Uroboro*, a argola, mordendo a sua própria cauda, cumpre um caminho que leva ao seu ponto de partida. Por isso, a argola adquire um valor cíclico e simboliza o eterno retomo, no qual o alfa e o ómega se reconduzem eternamente um ao outro: evoca o destino. Alguns tipos de argolas remetem para símbolos diferentes: O caracol, ou anel, de cabelo é um símbolo de identificação. Uma madeixa dos cabelos da Medusa, era suficiente para, ao ser mostrada, pôr em debandada todo um exército (GRID, 187). Equivalia à presença da terrível Górgona, Os poetas egípcios comparavam o quarto crescente a um caracol de cabelo. O Khonson tebano era chamado o Senhor da mecha; era suficiente uma das suas mechas (de cabelo) para o revelar (SOUL, 20, 62). A forma circular do caracol de cabelo não é indiferente: encerra o significado no significante; simples cabelos caídos em linha recta não teriam o mesmo valor. As argolas das orelhas (ou arrecadas) são usadas, segundo parece, em todas as áreas culturais. São conhecidas as de Micenas, Atenas, Roma, etc. No norte de África, têm um significado particular, de origem sexual. Jean Servier narra que as argolas são mencionadas numa lamentação em forma de ladainha entre os Beni-Snus … O seu sentido literal é: que Deus regue as s,!as arrecadas! O sentido obsceno subentendido é: O Deus, rega os grandes lábios (da sua vagina). Este simbolismo sexual das argolas é claramente expresso na região de Aurés (Argélia), onde as mulheres, da puberdade à menopausa, usam argolas chamadas bularwah, que significa, literalmente: portadores de almas. As mulheres de mais idade usam argolas feitas com um simples aro de prata, ornamentado com um gancho de chifre ou de âmbar. Esta jóia, ligada à fecundidade da mulher, acaba por personificar a noiva da chuva (SERP, 188; SERH, 94). Estas práticas têm algo de comum com os ritos de excisão, observa o mesmo observador, dos quais não seriam mais do que formas simbólicas, tal como a perfi/ração do nariz, ou do lábio superior, e a infibulação das orelhas. Seja como for, a simbólica sexual da argola parece estar de acordo com a etimologia latina da palavra francesa (bouc/e), que significa, literalmente: petite bouche (epequcna boca»).

ARLEQUIM
Nome que vem da comédia italiana e dado a uma personagem classicamente vestida com uma roupa feita de pedaços de pano triangulares e de cores diferentes; usa uma máscara negra a tapar-lhe os olhos e um sabre de madeira à cintura. Encarna os papéis de jovem cómico, de bobo malicioso, de astuto um pouco pateta e leviano. É sobretudo este último aspecto que é sublinhado pelas suas vestes garridas. É a imagem do indeciso e do inconstante, sem ideias, sem princípios, sem carácter. O seu sabre é apenas de madeira, o seu rosto está mascarado, as suas vestes são feitas de pedaços e remendos, cuja disposição em xadrez” evoca uma situação conflitiva: a de um ser que não conseguiu individualizar-se, personalizar-se, Iibertar- -se da confusão dos desejos, projectos e possibilidades.

ARMA
A arma é o antimonstro que, por sua vez, se torna monstro. Forjada para lutar contra o inimigo, pode ser desviada do seu objectivo e servir para dominar o amigo, ou, simplesmente, o outro. Da mesma forma, as fortificações podem servir como pára-choqucs contra um ataque ou como ponto de partida para uma ofensiva. A ambiguidade da arma está em simbolizar ao mesmo tempo o instrumento da justiça e o da opressão, a defesa e a conquista. Em qualquer uma das hipóteses, a arma materializa a vontade dirigida para 11mobjectivo. Certas armas são feitas de ligas muito engenhosas ou de combinações alternadas de metais. Toda a armadura de Agamémnon, por exemplo, descrita por Homero, é uma cuidadosa composição de ouro e prata. Nela, misturam-se os metais mais preciosos, tanto na couraça e no escudo como na espada e do resto: Põe a tiracolo a sua espada. Pregos de ouro resplandecem nela; em contra partida, a bainha que a encerra é de prata, mas adapta-se a um boldrié de ouro (lliada 11, 24 e s). Como cada metal tem o seu valor simbólico, vê-se quanta riqueza de significação pode cada arma revestir e quanto poder mágico se procura atribuir-lhe. (O ferreiro+ era considerado um mágico.) Aquele que a usa identifica-se com a sua armadura. O intercâmbio de armas era também, para os Gregos, um sinal de amizade. Os sonhos com armas são reveladores de conflitos interiores. A forma de algumas armas concretiza a natureza do conflito. Por exemplo, a psicanálise vê na maioria das armas um símbolo sexual. (…) A designação do órgão masculino é a mais clara, quando se trata de pistolas e revólveres, que nos sonhos aparecem como um sinal de tensão sexual psicológica (AEPR, 225). São Paulo descreveu, na Epístola aos Efésios, aquilo a que poderíamos chamar a panóplia do cristão: Quanto ao mais, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, pelo Seu soberano poder. Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do Demónio. Porque nós não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas contra os Principados, Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os espiritos malignos espalhados pelos ares. Tomais, portanto, a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau, e ficar de pé depois de terdes cumprido todo o vosso dever. Ficai, firmes, tendo os vossos rins cingidos com a Verdade, revestidos com a couraça da Justiça, e os pés calçados, prontos para ir anunciar o Evangelho da paz. Empunhai, sobretudo, o escudo da Fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus (6, 10-17). A simbólica cristã apoderou-se, evidentemente, destas imagens para construir todo um quadro de correspondências no combate espiritual e elaborar uma espécie de polemologia mística: o cinto simboliza a verdade e a caridade; a couraça, a justiça e a pureza; o calçado, o zelo apostólico, a humildade e a perseverança; o escudo, a fé e a cruz; o capacete, a esperança da salvação; a espada, a palavra de Deus; o arco, a oração que actua ao longe. Deste ponto de vista espiritual e moral, as armas significam os poderes interiores, não sendo as virtudes mais do que as funções equilibradas sob a supremacia do espírito. Outras tabelas de correspondências foram concebidas para relacionar as armas com outros objectos. Por exemplo, algumas armas simbolizam os elementos: A funda de outros tempos, a espingarda, a metralhadora, o canhão, o míssil e o foguete dos nossos dias são relacionados com o elemento ar; a lança e as armas químicas, com o elemento terra; a espada e as armas psicológicas, com o elemento fogo; o tridente, com o elemento água; o combate entre a espada e a lança seria um combate entre o fogo e a terra; o combate entre o tridente e a funda, um ciclone.
Por outro lado, algumas armas simbolizam funções: a maça, o pau e o chicote são atributos do poder soberano; a lança, a espada, o arco e a flecha são atributos do guerreiro; a faca, o punhal, a adaga e venábulo são atributos do caçador; o raio e as redes são atributos da divindade suprema. Na psicanálise junguiana, a faca e a adaga correspondem às zonas obscuras do Eu, à Sombra (o lado negativo, reealcado do Eu); a lança, à Anima (a feminilidade consciente do ser humano ou inconsciente primitivo); a maça, o cacete, a rede, o chicote, ao Mana”; a espada, ao Em-Si (in CIRD, 349).

ARMINHO
Carnívoro de pêlo branco imaculado. A toga, a murça, o manto de arminho simbolizam a inocência e a pureza, na conduta, no ensino e na justiça. Elien (lI, 37) diz que se o arminho cai num carreiro fica como paralisado e morto (in TERS, 211). Dai a origem do seu significado simbólico, muitas vezes associado aos distintivos reais: preferir a morte aficar manchado. Significa também a pureza moral e, neste sentido, ornamenta as vestes ou a murça dos altos dignitários da Igreja, do Estado e da Universidade.

ARO (ver Anel, Jóia)

ARQUEIRO (ver Arco)
Símbolo do homem que dirige os olhos para qualquer coisa e que, assim que o faz, de alguma forma já está atingir essa coisa … O homem identifica- -se com o seu projécti/(CHAS, 324) (vcr l1echa*). Identifica-se, igualmente, com o seu objcetivo, seja para comer a peça que caça, seja para provar a sua bravura ou a sua habilidade. Do mesmo modo, muitas representações de feras a matarem cervas mostram aquelas montando sobre as suas presas, eomo se quisessem cobri-las antes de as devorar: duplo fenómeno de identificação e de posse: matar é dominar. Geralmente, Eros é representado com um arco e uma aljava.

ARROZ
Tal como o pão e o trigo na Europa, o arroz é, na Ásia, o alimento essencial; comporta, pois, a mesma significação simbólica e ritual. O arroz é de origem divina. Não só se encontra na abóbora” primordial, da mesma forma que as espécies humanas, eomo também, do mesmo modo que o maná do deserto, cresce e enche os celeiros espontaneamente. Todas as lendas da Ásia oriental dão testemunho disto. A laboriosa cultura do arroz vem na sequência da ruptura das relações entre o céu e a terra. Levado para o Japão pelo príncipe Ninigi, neto de Amaterasu, o arroz é o objecto de um rito comunitário durante o qual o imperador prova o cereal na companhia da Deusa solar. O arroz é para os Japoneses o símbolo da abundância, devida ao poder celeste. Alimento de vida, e também de imortalidade, o arroz vermelho é guardado como tal no alqueire das sociedades secretas chinesas. Provém exclusivamente, dizem os rituais, do poder rio senhor Ming, isto é, da luz, ou do conhecimento. E, pois, mais uma vez, tal como o pão, símbolo de alimento espiritual. O arroz transforma-se aiquimicamente em cinábrio”, sulfureto vermelho de mereúrio. O que pode relacionar-se com o enxofre vermelho do esoterismo islâmico e com a obra ao vermelho do hermetismo ocidental. O arroz é a riqueza, a abundância, a pureza primeira. Note-se que até no próprio Ocidente ele é símbolo de felicidade e de fecundidade: lançam-se punhados de arroz nas cerimónias de casamento (GRIL, GUET, HERS, HERJ, MAST, ROUN).

ÁRTEMIS (Diana)
Filha de Zeus” e de Leto, Ártemis é a irmã gémea de Apolo”. Virgem desconfiada e vingativa, sempre indomável, aparece na mitologia como o oposto de Afrodite. Ela castiga cruelmente quem quer que lhe falte ao respeito, transformando-o por exemplo em cervo, ordenando depois aos seus cães que o devorem; em contrapartida, recompensa com a imortalidade os seus adoradores fiéis, como Hipólito, que morreu vítima da sua castidade. Artémis, a Turbulenta, sagitário com o arco de 0111’0, a irmã do Arqueiro (IIíada, XX), correndo através de monte e florestas, com as suas companheiras e a sua matilha, pronta a atirar com o arco, é a selvagem deusa da natureza. Ela mostra-se impiedosa sobretudo com as mulheres que cedem à atracção do amor. Ela é ao mesmo tempo a condutora dos caminhos da castidade e a leoa que guarda os da volúpia. Foi cognominada a Senhora das feras. Caçadora, massacra os animais que simbolizam a doçura e a fecundidade do amor, os cervos e as corças, excepto quando são jovens e puros: então protege-os como seres consagrados; protege também as mulheres grávidas, as fêmeas prenhes, tendo em vista as crianças que vão nascer … Apesar de virgem, ela é a deusa dos partos. Oferecem-lhe saerificios de animais selvagens ou domésticos; rapariguinhas, disfarçadas de ursinhas dançam à sua volta. Ela reclamou a morte de Ifigénia, para castigar a afronta de Agamémnon, mas já na fogueira, substitui-a por uma corça e transporta a jovem pelos ares para a tomar sua sacerdotiza. Protectora, e por vezes temível, Ártemis reina também no mundo humano, onde preside ao nascimento e ao desenvolvimento dos seres. Dela fizeram uma deusa lunar, errando como a Lua e brincando nas montanhas, enquanto que o seu irmão gémeo Apoio se toma um deus solar. A Ártemis Selene também está ligada ao ciclo dos símbolos da fecundidade. Feroz para com os homens, desempenhará o papel de protectora da vida feminina. Também se considerou o seu culto como sendo derivado do da Grande Mãe” asiâtlca e egeia, particularmente em honra de Éfeso e Delos (SECG, 353-365). A Diana romana eorresponderia a um deus celeste indo-europeu que assegurava, segundo G. Dumézil, a coutinuidade dos nascimentos e provia à sucessão dos reis. Ela era também protectora dos escravos. A partir do século V a.C. foi assimilada à deusa grega Artemis.
Ártemis simbolizaria, aos olhos de alguns psicanalistas, o aspecto ciumento, dominador, castrador da mãe. Com Afrodite*, o seu oposto, ela constituiria o retrato integral da mulher, tão profundamente dividida em si mesma, que não foi capaz de reduzir as tensões nascidas deste duplo aspecto da sua natureza. As feras que acompanham Ártemis nas suas corridas são os instintos inseparáveis do ser humano, que é preciso domar para se chegar a esta cidade dos justos que, segundo Homero, amava a deusa. O culto de Diana propriamente dito não é testemunhado na Gália antes da época romana, mas a sua extraordinária difusão está provada em virtude da forma como os concílios e outras assembleias ou autoridades cristãs reagiram contra ele, até por volta dos séculos VII e VIII. É provável que Diana, que simboliza os aspectos virginais e soberanos da mais velha mitologia itálica, tenha aproveitado o culto de uma divindade céltica continental, cujo nome se parecia com o seu e que devia estar próximo, pela forma, da Dé Ana, ou deusa Ana irlandesa, mãe dos deuses e patrona das artes (CELT, 15, 358).

ARTEMÍSIA
A artemísia era – e continua a ser – considerada, no Extremo Oriente, como uma planta dotada de virtudes purificadoras. É verdade que tanto na China como na Europa se utilizaram as suas propriedades emenagogas e anti-helminticas, ambas relacionadas com formas de impureza. O caldo de artemísia era consumido ritualmente na festa do 5º dia e do 5º mês. Pcqucninas figuras feitas de artemísia (homens ou tigres) eram pendurados nas portas (esta prática parece não ter sido totalmente abandonada) com vista a purificar as casas das influências perniciosas e de as proteger contra a penetração destas. Eram atiradas flechas de artemísia contra o céu, a terra e os quatro orientes para eliminar as influências nefastas, Planta odorífera, a artemísia era além disso misturada com a gordura das vítimas sacrificiais, pois a elevação de vapores perfumados é um meio de comunicação com o céu (GRAD, GOVM).

ARTICULAÇÃO
O simbolismo das articulações relaciona-se com o dos nós* (em bambara articulação diz-se nó) (ZAIIB). As articulações permitem a acção, o movimento, o trabalho; entre os Bambaras, as seis sociedades de iniciação que escalonam o curso da vida humana são associados às seis principais articulações dos membros. Articulam a socidade humana, dão ao homem os meios de se realizarem (ZAI-IB). Tal como os nós e os laços, as articulações simbolizariam as funções necessárias à passagem da vida à acção. As articulações principais dos membros têm uma importância fundamental no pensamento dos Dogones e dos Bambaras do Mali. No inicio dos tempos, os homens não tinham articulações, os seus membros eram moles e eles não podiam trabalhar. Os antepassados míticos da humanidade actual foram os primeiros a serem dotados de articulações. Eram, de resto, em número de oito*, número que se toma o da criação. O sémen masculino provém das articulações e, quando ele desce para fecundar o óvulo contido no útero da mulher, instala-se nas articulações do embrião para lhe dar vida. Com o aparecimento dos homens articulado surge o da terceira palavra: o verbo na sua plenitude, e o das técnicas próprias a esses povos – agricultura, fiação, tecelagem, forja (GRID). Para os Bambaras, a fadiga que o homem sente nos seus membros, depois do acto sexual, prova que o seu líquido seminal vem das articulações (DIEB). Para os Licubas e Licualas do Congo, o corpo humano compreende catorze articulações principais, das quais sete superiores (pescoço, ombros, cotovelos, pulsos) e sete inferiores (rins, virilhas, joelhos, tornozelos), que constituem o centro da geração; a ordem destas articulações (de cima para baixo, do pescoço para os tornozelos) é aquela em que se faz a manifestação da vida no recém-nascido; inversamente, podemos ver a vida retirar- se de um corpo de um moribundo pela paralisia progressiva das suas catorze articulações, sendo a última a funcionar a do pescoço (LEBM). Os antigos caraíbas das Antilhas consideravam que o homem era dotado de várias almas, que eles situavam no coração, na cabeça e nas articulações onde se manifesta o pulso (METB). A articulação é um dos símbolos da comunicação, a via por onde se manifesta e passa a vida.

ARTUR
Etímologicamente, o nome galês Artur é um derivado do nome do urso (arto-s) através de um antigo vocábulo britânico artoris no qual só o sufixo é de origem latina. Artur é o «rei» por cxecelência e o seu poder temporal opõe-se simbolicamente à autoridade espiritual (representada pelo javali”) no lendário episódio da caça. O ideal cavaleiresco da demanda do Graal, amplamente retomado e explorado pelas literaturas medievais, insulares ou continentais, corresponde, com efeito, a uma predominância da classe guerreira. Consequentcmente, o rei Artur da história, transposto para a lenda e misteriosamente adormecido na ilha de Avalon (localização do Outro Mundo) catalisa todas as aspirações políticas das pequenas nações celtas da Idade Média: os Galeses e os Bretões esperam que ele venha libertá-los da dominação estrangeira, o que o rei não deixará de fazer antes do fim dos tempos (ver urso* e pedra*).

ÁRVORE
Este é um dos temas simbólicos mais ricos e mais difundidos, e só a sua bibliografia daria para fazer um livro. Mircea Eliade distingue sete interpretações principais (ELIT, 230-231) que ele, aliás, não considera exaustivas, mas que se articulam todas em torno da mesma ideia de Cosmos vivo em perpétua regeneração. A despeito das aparências superficiais e de conclusões apressadas, a árvore, mesmo quando sagrada, não é objecto de culto em toda a parte; é a figuração simbólica de uma entidade que a ultrapassa e que, esta sim, se pode tomar objecto de culto. Símbolo da vida, em perpétua evolução, em ascensão para o céu, a árvore evoca todo o simbolismo da verticalidade: por exemplo, a árvore de Leonardo da Vinci. Por outro lado, serve também para simbolizar o carácter cíclico da evolução cósmica: morte e regeneração; as frondosas, sobretudo, evocam um ciclo, pois despojam-se e cobrem-se todos os anos de folhas. A árvore põe também em comunicação os três níveis do cosmos: o subterrâneo, com as suas raízes abrindo caminho nas profundezas onde penetram; a superficie da terra, com o tronco e os primeiros ramos; as alturas, com os seus ramos superiores e o seu ponto mais alto, atraídos pela luz do céu. Os répteis rastejam entre as suas raizes; as aves voam entre os seus ramos: a árvore põe em contacto o mundo ctoniano e o mundo uraniano. Reúne todos os elementos: a água circula com a sua seiva, a terra integra-se no seu corpo através das raízes, o ar alimenta as suas folhas, o fogo brota quando esfregamos dois paus. Aqui apenas nos deteremos na simbólica geral da árvore; pormenorizações sobre espécies particulares serão dadas nos suas respectivas entradas: acácia*, amendoeira”, carvalho”, cipreste”, oliveira”, etc. Pelo facto de as suas raizes mergulharem no solo e os seus ramos se elevarem para o céu, a árvore é universalmente considerada como um símbolo das relações que se estabelecem entre a terra c o céu. Neste sentido, tem um carácter de centro, de tal fo1111a que a Árvore do mundo é um sinónimo de Eixo do mundo. É precisamente assim que a descreve liricamente o pseudo- Crisóstomo, na sexta homilia sobre a Páscoa: firme sustentáculo do universo, ligação de todas as coisas, suporte de toda a terra habitada, entrelaçamento cósmico, compreendendo em si toda a diversidade da natureza humana. Fixada pelos pregos invisíveis do Espírito, para não vacilar no seu ajustamento ao divino; tocando no céu com o topo da sua cabeça, fortalecendo a terra com os seus pés, e, no espaço intermediário, abraçando a atmosfera inteira com as suas mãos incomensuráveis. (citado por H. de Lubac, em Catholicisme – Les aspects sociaux du dogme, Paris, 1941, p. 366). Figura axial, a árvore é naturalmente o caminho ascensional pelo qual transitam os que passam do visível ao invisivel: portanto, é a mesma árvore que é evocada também tanto pela escada de Jacob como pelo poste xamânico da iurta siberiana, ou pelo poste central do santuário vodu, Caminho dos espíritos (METV, 66), ou ainda pelo poste do acampamento dos indios Sioux em torno do qual se realiza a dança do sol. É o pilar central que sustenta o templo ou a casa, na tradição judaico-cristã, e é também a coluna vertebral sustentando o corpo humano, templo da alma. A árvore cósmica é muitas vezes representada sob a forma de uma essência particularmente majestosa. É o que acontece, nas crenças dos povos respectivos, com o carvalho cclta, a tília gerrnânica, o freixo cscandinavo, a oliveira do oriente islâmico, o larício e a bétula sibcrianos, todas elas árvores notáveis pelas suas dimensões, pela sua Iongevidadc ou, como no caso da bétula, pela sua brancura luminosa. Incisões no tronco desta última materializam as etapas da ascensão xamâniea. Deuses, espíritos e almas utilizam o caminho da árvore do mundo, entre o céu e a terra. É o que acontece na China com a árvore Kian-Mu, erguida no centro do mundo, como o testemunha o facto de não haver ao pé dela nem sombra nem eco; tem nove ramos e nove raízes, através das quais chega aos nove céus e às nove fontes, morada dos mortos. Por ela sobem e descem os soberanos, mediadores entre o Céu e a Terra, mas também substitutos do Sol. O Sol e a Lua descem igualmente pelo larlcio siberiano sob a forma de pássaros; além disso, de um lado e de outro da árvore Kian encontram-se a árvore Fu, no levante, e a árvore Jo, no poente, por onde sobe e desce o Sol. A árvore Jo tem também dez sóis, que são dez corvos. Para os muçulmanos xiitas de rito ismaelita, a árvore, que se alimenta da terra e da água e que ultrapassa o sétimo séu, simboliza a hakikat, isto é, o . estado de bem-aventurança no qual o místico, ultrapassando a dualidade das aparências, alcança a realidade suprema, a Unidade original onde o homem se identifica com Deus. Nalgumas tradições existem muitas árvores do mundo. Assim, os Gold situam uma primeira nos céus, uma segunda na terra e uma terceira no reino dos mortos (HARA, 56). Nos antipodas da terra dos Gold encontramos, na cosmologia dos Índios Pueblo o grande abeto do mundo subterrâneo que retoma o simbolismo ascensional da migração das almas, ao fornecer a escada por meio da qual os Ancestrais, in illo tempore, puderam trepar até à terra do nosso sol (ALEC, 56). Mas esta árvore central que, do cosmos ao homem, cobre todo o campo do pensamento com a sua presença e o seu poder, é também, necessariamente, a árvore da vida, quer ela seja de folhas perenes, como o loureiro, símbolo da imortalidade, quer de folhas caducas, cuja regeneração periódica exprime o ciclo das mortes e rcnascimentos, e, por isso, a vida na sua dinâmica: ela está carregada de forças sagradas, observa M. Eliade, porque é vertical, porque cresce, porque perde as suas folhas e recupera-as e, por conseguinte, regenera-se: morre e renasce vezes sem conta (ELlT, 235). A árvore da vida tem o orvalho celeste como seiva, e os seus frutos, ciosamente defendidos, transmitem uma parcela de imortalidade. É o que acontece com os frutos da árvore da vida do Éden, que são em doze, signo da renovação cíclica, e com os da árvore da Jerusalém celeste, dos pomos de ouro do jardim das Hespérides e dos pêssegos da Si-wang mu, da seiva do Haoma iraniano, sem falar das diversas resinas de coníferas, O himorogi japonês, trazido para a Terra central, parece uma Árvore da Vida. A Árvore da Vida é um tema de decoração muito difundido no Irão, onde é representada entre dois animais que se defrontam; em Java, é representada com a montanha central na tela (kayon) do teatro de sombras. A Árvore da Boddhi, sob a qual Buda alcançou a iluminação, é também uma Árvore do Mundo e uma Árvore da Vida: representa, na iconografia primitiva, o próprio Buda. As suas raizes, diz uma inscrição de Angkor, são Brama, o seu tronco é Xiva, os seus ramos, Vixnu. É uma representação clássica do eixo do mundo. A Árvore cósmica que, na Agitação do Mar de Leite, serve para a obtenção da bebida da imortalidade, é representada, em Angkor, tendo Vixnu na sua base, no tronco e no cimo. Porém, noutras circunstâncias, Xiva é uma árvore central em que Brama e Vixnu são os ramos laterais. A associação da Árvore da Vida com a manifestação divina está presente nas tradições cristãs; pois existe uma analogia, e até mesmo rccondução do símbolo, entre a árvore da primeira aliança, a árvore do Génesis, e a árvore da cruz, ou árvore da Nova Aliança, que regenera o Homem. Para H. de Lubac, a Cruz, erigida sobre uma montanha, no centro do mundo, reconduz totalmente a antiga imagem da árvore cósmica ou árvore do mundo. De resto, na iconografia cristã são frequentes as representações da cruz com ramos e folhas ou duma Arvore-Cruz, onde se encontra, com a separação dos dois primeiros ramos, a simbólica da forquilha e da sua representação gráfica, o Y, ou do único e do dual. Em última análise, é o próprio Cristo que, por mctonímia, se torna a árvore do mundo, o eixo do mundo, a escada: a comparação é explícita em Orígcnes. No Oriente, bem como no Ocidente, a árvore da vida é muitas vezes invertida. Esta inversão, segundo os textos védicos, proviria de uma certa concepção do papel do sol e da luz no crescimento dos seres: é do alto que estes extraem a vida, é em baixo que se esforçam por fazê-Ia penetrar. Daí, a inversão de imagens: a copa desempenha o papel das raizes, as raizes o dos ramos. A vida vem do céu e penetra na terra: segundo uma expressão de Dantc, ele próprio era uma árvore que vivia da sua parte de cima. Esta concepção nada teria de amlclentlfico; porém, o «em cima» oriental é sacralizado e a fotogéncse explica-se pelo poder dos seres celestes. O simbolismo hindu da árvore invertida, que se exprime principalmente no Bhagavad- Gita, 15, I) significa também que as raizes são o princípio da manifestação, e que os ramos são a manifestação que desabrocha. Guénon descobre nela ainda um outro significado: a árvore eleva-se acima do plano de reflexão que limita o domínio cósmico invertido em baixo; transpõe o limite do manifestado, para penetrar no reflectido c nele introduzir o inspirado. O esoterismo hcbraico retoma a mesma ideia: A árvore da vida estende-se do alto para baixo e o sol ilumina-a totalmente (Zohar), No Islão, as raizes da Árvore da Felicidade mergulham no último céu e os seus ramos estendem-se por cima e por baixo da terra. A mesma tradição afirma-se no folclore islaudês e finlandês. Os Lapões sacrificam todos os anos um boi em benefício do deus da vegetação e, nessa ocasião, colocam uma árvore junto do altar com as raizes para cima e a eopa para baixo. Schmidt narra que nalgumas tribos australianas os feiticeiros tinham um árvore mágica que plantavam invertida. Depois de terem besuntado as suas raizes com sangue humano, queimavam-na. Nos Upanixades, o Universo é uma árvore invertida, mergulhando as suas raizes no céu c estendendo os seus ramos por cima da terra inteira. Segundo Eliade, esta imagem poderá ter um significado solar. O Rig-Veda especifica: É para baixo que se dirigem os ramos, é em cima que se encontra a raiz, que os seus raios desçam sobre nós! O Katha-Upanixade diz: Este Açvattha eterno, cujas raízes vão para cima e os ramos para baixo, é o puro, é o Brama; o Brama é aquilo a que se chama a Não-Morte. Todos os mundos repousam nele. Mireea Eliade comenta: a árvore Acvattha representa aqui, em toda a sua clareza, a manifestação do Brama no Cosmos, isto é, a criação como movimento descendente (ELIT, 239-241). E Gilbert Durand conclui: Esta insólita árvore invertida, que contraria o nosso sentido da verticalidade ascendente, é um sinal da coexistência, no arquétipo da árvore, do esquema da reciprocidade ctclica (DURS, 371). Esta ideia de reciprocidade conduz à de união entre o contínuo e o descontínuo, a unidade e a dualidade, à deslocação simbólica da Arvore da Vida para a Arvore do Conhecimento, aquela Arvore da Ciência do Bem e do Mal que, no entanto, é distinta da primeira. No paraíso terrestre, ela será o instrumento da queda de Adão, assim como a árvore da vida será a da sua redenção, com a crucificação de Jesus. Esta distinção do Antigo Testamento, que reforça mais uma vez a ideia de reeiprocidade, introduz também, segundo André VireI, o paralelismo e a distinção de duas evoluções criadoras, por um lado biológica (árvore da vida), por outro, psicológica e histàríca (VIRI, 175). De facto, esta é a ideia de evolução biológica que faz da árvore da vida um símbolo de fertilidade sobre o qual se tem construido ao longo dos tempos toda uma magia propieiatória, que ainda hoje podemos ver em numerosos testemunhos. Por exemplo, nalgumas tribos nómadas iranianas, as mulheres jovens enfeitam o corpo com a tatuagem de uma árvore em que as raizes partem do sexo, e as folhagens se espalham sobre os seios. Um outro costume muito antigo faz com que se encontre, do Mediterrâneo à Índia, isoladas no campo e muitas vezes perto de umafonte*, belas árvores cobertas por uma floração de lenços vermelhos, que as mulheres estéreis foram atar aos seus ramos para conjurar a má sorte. e costume dravidiano do casamento místico entre árvores e humanos destina-se a reforçar a capacidade dc procriação da mulher: a noiva de um Goala hindu casa-se obrigatoriamente com uma mangueira, antes de se unir ao seu próprio marido (BOUA, 277). Tradições análogas são testemunhadas no Punjabe e no Himalaia. Em Bombaim, entre os Kudva-Kunbis do Gujerat, quando o casamento apresenta algumas dificuldades, em primeiro lugar casa-se a jovem com lima mangueira ou qualquer outra árvore frutifera, porque, escreve Campell (Bombay Gazeteer, 7,61) os espíritos temem as árvores, sobretudo as àrvores de fruta. A analogia árvore de fruta-mulher fecunda desempenha aqui um papel complementar da analogia árvore laticífcra-força gcnésica (do macho). O que explica que, entre os Kurmi, seja o noivo a ter de casar primeiro com uma mangueira no dia do seu casam enio. Abraça a árvore à qual é seguidamente amarrado. Depois de algum tempo é solto, mas as folhas da árvore são aladas em volta dos seus pulsos. e casamento com árvores associado ao casamento humano encontra-se também na América do Norte. entre os Sioux; e na África, entre os Bosquímanos e Hotentotes. Conta-se, entre os Iacutes, que no umbigo da terra se ergue lima árvore florescente de oito ramos … A copa da árvore derrama um líquido divino de um amarelo espumante. Quando os que passam bebem dele, o seu cansaço dessipa-se e a sua fome desaparece … Quando o primeiro homem, na altura da sua aparição no mundo, desejou saber por que razão ali estava, aproximou-se desta árvore gigantesca cujo cimo atravessava o céu … Viu então, no tronco da árvore maravilhosa.: uma cavidade onde se lhe mostrou até à cintura uma mulher que lhe fez saber que viera ao mundo para ser o ancestral do género 11lImano (ROUF, 374). Os Altaicos dizem igualmente: antes de virem para a terra, as almas dos seres humanos residem no céu, onde estão postas nos cimos celestes da árvore cósmica, sob a forma de pequeninos pássaros (ROUF, 376). . Marco Polo narra que o primeiro rei dos Uigures nasceu de um certo cogumelo que se alimentou com a seiva das árvores (citado por ROUF, 361). Encontramos crenças análogas na China. Todas estas lendas não representam senão uma alternativa: ou uma árvore é fecundada pela luz o que parece ser a forma mais antiga do mito ou então duas árvores acasalam. O costume dravidíano casa também entre elas, as árvores, substitutas dos homens. Assim, no sul da Índia, um casal que não consiga procriar vai para a beira dum lago ou do rio sagrado, na manhã de um dia propício. Ali, os dois esposos plantam lado a lado duas árvores sagradas, uma delas macho, a outra fêmea, e enlaçam o caule duro da árvore macho com o caule flexível da árvore fêmea. O casal de árvores assim formado é, a seguir, protegido por uma ccrea, a fim de que viva e assegure, com a sua própria Iecundidade, a do casal humano que o plantou (BOVA, 8-9). No entanto, até então estas árvores serão consideradas como noivos. Será preciso deixar passar um tempo de uma dezena de anos para que, na altura de uma nova visita, a mulher estéril, agora agindo sozinha, se aproxime do casal vegetal e deponha entre as raízes das duas árvores, que continuam cnlaçadas, uma pedra” que tenha sido lavada durante muito tempo pelas águas do rio ou do lago sagrado, e na qual esteja gravado um par de serpentes” cnlaçadas, Só então se produzirá a união mística das árvores sagradas, e a mulher se tornará mãe. A associação dos símbolos água-pedra-serpente-árvore neste ritual de fecundação é particularmente significativo. Encontramos igualmente interpretações antropomórficas da árvore entre os Altaieos e os Turco- -Mongóis da Sibéria, Assim, entre os Iunguses, 11m homem transforma-se em árvore e recupera logo a sua forma primitiva (ROUF, 246). A árvore fonte da vida, precisa Eliade (ELIT, 261), pressupõe que a fonte da vida se encontra concentrada nesse vegetal; portanto, que a modalidade humana se encontra ali no estado virtual, sob a forma de germes e de sementes. Segundo Spcncer e Gillcn, citados pelo mesmo autor, a tribo Warramunga, do norte da Austrália, acredita que o espírito das crianças, pequeno como um grão de areia, se encontra no interior de algumas árvores, de onde por vezes se desprende para penetrar, através do umbigo, no ventre maternal. O que faz lembrar uma outra crença muito difundida, segundo a qual o princípio do fogo, tal como o da vida, está escondido nalgumas árvores, de onde pode ser extraído por meio de fricção (GRAF). Todas as crenças que acabamos de referir mostram que o simbolismo da árvore é sexualmente ambivalente. A árvore da vida pode, na sua origem, ser considerada como uma imagem do andrôgino inicial. Porém, no plano do mundo fenoménico, o tronco erguido em direcção ao céu, símbolo de força e de poder eminentemente solar, é realmente o Falo, imagem arquetípica do pai. Ao passo que a árvore oca – da mesma forma que a árvore de folhagem densa e envolvente, onde os pássaros se aninham, e que se cobre periodicamente de frutos – evoca a imagem arquetípica lunar da mãe fértil: é o carvalho oco de onde sai a água da fonte da juventude (CANA, 80); é também o atanor dos alquimistas, matriz onde se opera a gestação do ouro filosofal, muitas vezes comparado a uma árvore. Foi neste sentido que Jerónimo Bosch, na Tentação de Santo Antão, a assimilou a uma megera que extirpa do seu ventre de cortiça uma criança enfaixada (VANA, 217). Por vezes a árvore é considerada como macho, outras vezes como fêmea: entre os Tchuvaches, a tília serve para fazer marcos funerários para o oficio das mulheres mortas, o carvalho, para o oficio dos homens mortos (ROUFF, 360). Ou então as duas polaridades adicionam-se, o que leva Jung a uma interpretação androgínica, ou melhor, hermcfrodita” do símbolo. O mito de Cíbele e Átis proporciona ao psicanalista um excelente esquema para ilustrar o seu pensamento. A princípio, considera que Cíbele, mãe dos deuses e símbolo da libido maternal, era tão andrógina como a árvore. Mas uma andrógina inflamada de amor pelo seu filho. Mas como o desejo do jovem deus estava voltado para uma ninfa, Cíbele, ciumenta, tornou-o louco. Atls, no paroxismo do delírio que lhe provocara sua mãe, loucamente apaixonada por ele, castra- se debaixo de um pinheiro, explica C. G. Jung, árvore que desempenha um papel de capital importância no culto que lhe é prestado. (Uma vez por ano. cobria-se o pinheiro com grinaldas, pendurava- -se nele uma imagem de Àtis,depois abatia-se a árvore para simbolizar a castração.} No auge do desespero, Cíbele arrancou a árvore do solo, levou-a para a sua gruta e chorou. Assim, eis a mãe ctônica que vai esconder o filho no seu antro, isto é, no seu regaço; porque, de acordo com uma outra versão, Átis foi metamorfoseado em pinheiro. Neste caso, a árvore é, antes de mais. o falo. mas também a mãe, visto que se pendura nela a imagem de Átis. Isto simbolizava o amor do filho agarrado à sua mãe (JUNL, 411-412). Na Roma imperial, como recordação, um pinheiro cortado, símbolo ou simulacro de Átis, era solenemente transportado para o Palatino no dia 22 de Março, para a festa chamada Arbor intrat. Um outro mito é interpretado, com alguma liberdade quanto aos pormenores das lendas antigas, no mesmo sentido e em relação à mesma árvore, o pinheiro. O herói Penteu é filho de Equíon, a cobra, e ele próprio também uma serpente por natureza. Curioso por espirar as orgias das Ménades, sobe para um pinheiro. Mas a sua mãe, apercebendo-se, dá o alarme às Ménades, a árvore é abatida e Penteu, tomado por animal, é rasgado em pedaços. A sua própria mãe é a primeira a lançar-se sobre ele… Assim, encontram- -se reunidos neste mito o sentido fálico da árvore (pois o corte da árvore simboliza a castração) e o seu sentido maternal, representado pela subida ao pinheiro e pela morte do filho (JUNL, 413). Esta ambivalência do simbolismo da árvore, ao mesmo tempo falo e matriz, manifesta-se mais claramente ainda na árvore dupla: Uma árvore dupla simboliza o processo de indívidualizaçãa no decurso do qual os contrários se unem dentro de nós (JUNS, 187). O grande número, nas lendas dos povos, de pais- -árvores, bem como de mães-árvores, conduz à árvore- ancestral euja imagem, despojada pouco a pouco do seu contexto mítico, irá dar a árvore genealágica dos nossos dias. Fazendo o percurso do símbolo profundo até à alegoria moderna, podemos citar o mito bíblico da árvore de Jessé (lSAÍAS, 11, 1-3) que inspirou tantas obras de arte e comentários místicos: Brotará uma vara do tronco de Jessé, e 111/1rebento brotará das suas raizes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e defor/aleza. espírito de ciência e de temor do Senhor. A árvore de Jessé simboliza a cadeia de gerações cuja história nos é rcsumida pela Bíblia e que culminará com a vinda da Virgem e de Cristo. Teve um grande êxito entre os miniaturistas e vitralistas do séc. XIII, e em especial entre os Cistercienscs, em virtude da sua particular devoção a Nossa Senhora. Nas suas representações, a árvore emerge do umbigo, da boca ou do flanco de Jessé. Por vezes, o tronco tem ramos sobre os quais aparecem os reis de Judá, antepassados de Cristo. Uma outra árvore de Jcssé que, segundo Oursel, constítui a obra-prima da miniatura cisterciense, encontra- se no comentár!o de São Jerónimo sobre Isaías. Sob a imagem encontra-se o texto Egredietur virgo. Jessé, com o busto e a cabeça meio levantados, segura com a mão esquerda a árvore que brota do seu flanco. A Virgem, imensa, paira. Poderíamos dizer até que ela saltou da ramagem que brota do ventre de Jessé, comparável a um monte. Ela segura o menino com o braço direito, e com a mão esquerda oferece-lhe uma flor; dois anjos circundam a sua cabeça, na base de uma auréola rodcada de pedras. O anjo da direita, para o qual a Virgem dirige o olhar, apresenta uma igreja esqucmatízada: a de Citeuux. O anjo da esquerda segura uma coroa, destinada à Virgem. Por cima desta auréola encontra-se a pomba, avatar do Espírito Santo. Simbolizando o crescimento duma família, duma cidade, dum povo, ou melhor ainda, o poder crescente dum rei, a árvore da vida pode bruscamente inverter a sua polaridade e tornar-se árvore de morte. Conhecemos o caso de Nabucodonosor atormentado pelos seus sonhos e a interpretação que lhes é dada pelo profeta Danicl: Tive um sonho, diz o Rei, que me apavorou … Vi, no meio do meu reino, /I/I1aárvore muito alta. Esta árvore cresceu e tornou-se vigorosa. O cimo tocava o céu; avistava-se até aos confins do país. A sua folhagem era bela e os frutos abundantes, a todos forneciam alimentos … Nas visões do meu espírito, contemplei 11mVigilante. Era como um santo que descia do céu e se pôs a gritar com uma voz forte: “Derrubai a árvore, cortai-lhe os ramos; fazei-lhe cair as folhas e atirai para longe os frutos dela … Que o sonho seja para os teus inimigos, respondeu Daniel, e a sua interpretação para os teus adversários. A árvore que viste crescer e adornar-se, cujo coruto tocava o céu … és tu, ó rei, que te tornaste grande e poderoso … Mas expulsar-te-ão dentre os homens … (DANIEL, 2, 3, 4, 2, 7, 8, 11, 17,22). Em Ezequiel (31,8-10) o Faraó é comparado a um cedro do Líbano. Grandes árvores, como os terebintos, representam por vezes nos Salmos (29, 9) os inimigos de Javé e do seu povo: A voz do Senhor contorce os terebintos, despe os bosques. Isaías (14, 13) já denunciava os tiranos que querem, como ciprestes e cedros, escalar os céus, mas que são derrubados. Um aspecto negativo do simbolismo destas grandes árvores é representarem também a ambição desmedida dos grandes deste mundo, que querem sempre estender e aumentar o seu poder, e que terminam aniquilados. A Cabala também fala de uma árvore da morte. É ela que fornece a Adão as folhas com que cobre a sua nudez, e o Zohar vê nesta árvore o símbolo do saber mágico, que é uma das consequências da queda, que está ligada à existência do corpo fisico privado do corpo de luz (SCHK, 193). Mas é, ainda, a cruz, instrumento de suplício e de redenção, que reúne numa única imagem os dois significados últimos deste significantc maior que é a Árvore: pela morte para a vida; per crucem ad lucem, pela cruz para a luz.

ASAS
As asas são, acima de tudo, símbolo do levantar voo, isto é, do aligeirarnento, da desmaterialização, da libertação – seja de alma ou de espírito -, de passagem para o corpo subtil. As tradições do Extremo oriente, xamanísticas de Leste ou Oeste e do Ocidente, quer seja muçulmano quer judaico-cristão, não divergem sobre este tema; pois o voo da alma e o voo do xamã são “ambos a mesma aventura, no que se refere à libertação da gravidade tcrrcste: aquilo que o esoterismo alquímico exprimia pela imagem da ág/lia* a devorar o leão*. Em todas a tradições, as asas nunca são recebidas, mas sim conquistadas com o preço de uma educação iniciática e puriticadora muitas vezes longa e perigosa. Mesmo nestas, podem-se comparar os relatos dos xamãs, os dos grandes místicos cristãos ou sufis, e numerosos contos alegóricos entre os quais deveríamos citar em primeiro lugar os de Andersen. Contrariamente a uma ideia feita. as asas do santo em oração não são apenas uma visão espiritual, como o atesta a crença na levitação. A leveza c o poder de voar são próprios dos Imortais taoístas, que podem, assim, atingir as Ilhas* do; Imortais. A própria ctimologia dos caracteres que as designam faz destacar o poder de elevar-se nos ares A dieta que lhes é própria faz crescer no corpo dele; uma penugem, ou até penas. Os seus costumes parecem- se às vezes com os das aves.
O levantar voo aplica-se universalmente à alma na sua aspiração ao estado supra-individual. O levantar voo, a saída do corpo, faz-se através da coroa da cabeça, segundo um simbolismo que examinaremos ao tratar do domo*. O Taoísmo encara de forma semelhante o levantar voo do corpo subtil, que não é outra coisa senão o Embrião do imortal. As asas indicam também a faculdade eognitiva: aquele que compreende tem asas, precisa um Bramana. E o Rig- Veda diz: A inteligência é a mais rápida das aves. E por isso, aliás, que os anjos, realidades ou símbolos de estados espirituais, são alados. Muito naturalmente, ainda: a asa e as penas estão relacionadas com o elemento Ar, elemento subtil por excelência. E foi com a ajuda dos seus braços cobertos de penas que o arquitecto celeste Vixvakarma, como se usasse um fole de forja, realizou a sua obra de demiurgo (COOH, ELIY, ELIM, GRIF, KALL, SILI). Na tradição cristã, as asas significam o movimento aéreo, leve, e simbolizam o pneuma, o espírito. Na Bíblia, são um símbolo constante da espiritualidadc, ou da espiritualização, dos seres que delas são providos, quer tenham figura humana quer tenham forma animal. As asas são próprias da divindade e de tudo o que dela se possa aproximar depois de uma transfiguração; por exemplo, os anjos e a alma humana. Quando se fala de asas a propósito duma ave, trata-se quase sempre do símbolo da pomba, que significa o Espírito Santo. A própria alma, pelo facto da sua espiritualização, possui asas de pomba, no sentido dado pelo Salmo (54, 7): Quem me dera ter asas como a pomba, para poder voar e achar repouso! Ter asas, portanto, é abandonar o que é terrestre para ter acesso ao que é celestial. Este tema das asas, que é de origem platónica (Fedro, 246), é constantemente explorado pelos Padres da Igreja e pelos místicos. Fala-se das asas de deus nas Sagradas Escrituras. Designam o seu poder, a sua bem-aventurança e a sua incorruptibilidadc. Escondei- -me à sombra das Vossas asas (Salmo 16,8). Osfilhos dos homens abrigam-se à sombra das Vossas asas (Salmo 35, 8). Segundo Grcgório de Nissa, se Deus, o arquétipo, é alado, a alma criada à sua imagem possui as suas próprias asas. Se ela as perdeu por causa do pecado original, é-lhe possível recuperá-Ias, c isto ao ritmo da sua transfiguração. Quando o homem se afasta de Deus, perde as suas asas; quando se aproxima dele, volta de novo a tê- las. Na medida em que a alma for alada, mais alto subirá, e o céu para o qual se dirige pode comparar-se a um abismo* sem fundo. Ela pode subir sempre, pois é incapaz de atingi-lo na sua plenitude. Tal como a roda”, também a asa é um símbolo habitual da dcslocação, da libertação das condições de lugar, e de entrada no estado espiritual que lhe é correlativo (CRAS 431). Portanto, as asas exprimirão geralmente uma elevação em direcção ao sublime, um impulso para transcender a condição humana. São o atributo mais característico do ser divinizado e do seu acesso às regiões uranianas. A junção de asas a algumas tiguras transforma os símbolos. Por exemplo, a serpente, de signo de perversão do espírito, se for alada transforma-se em símbolo de espiritualização, de divindade. As asas indicam também, ao mesmo tempo que sublimação, libertação e vitória: são próprias dos heróis que matam os monstros, os animais fabulosos, ferozes ou repugnantes. Sabe-se que Hermes (Mercúrio) tinha asas nos calcanhares. Gaston Baehelard vê no calcanhar divinizado o símbolo do viajante nocturno, isto é, dos sonhos de viagem. esta imagem dinâmica vivida é muito mais significativa na realidade onírica do que as asas presas às omoplatas. Muitas vezes o sonho de asas que batem é apenas um sonho de queda. Defendemo- nos da vertigem agitando os braços, e esta dinâmica pode fazer surgir asas nas costas. Mas o voo onirico natural, o voo positivo que é a nossa obra nocturna, não é um voo ritmado, tem a continuidade e a história de um impulso, é a criação rápida de um instante dinamizado. E o autor compara estas asas no calcanhar ao calçado, chamado pé ligeiro, de santos budistas a viajarem pelos ares; aos sapatos voadores dos contos populares; às botas de sete léguas. Para o homem que está a sonhar é no pé que residem as forças voadoras … Permitlr-nos-emosi poranto, nas nossas investigações de metapoética, conclui Bachelard, designar estas asas no calcanhar sob a denominação de asas onlricas (BACS, 39-40). A asa, símbolo de dinamismo, sobrepõe-se aqui ao símbolo da espiritualização; amarrada ao pé, não implica necessariamente uma ideia de sublimação, mas sim de libertação das nossas forças criadoras mais importantes: o poeta, assim como o profeta, tem asas quando está inspirado.

ASCENSÃO
Na iconografia cristã existem numerosas representações do homem ascensional: símbolo do levantar voo, da elevação ao céu depois da morte. Geralmente é representado com os braços levantados, como na oração; as pernas dobradas por baixo dele, como na adoração; por vezes está suspenso, sem apoio, e tem a cabeça nimbada de estrelas; por vezes umas asas, anjos ou pássaros levam-no pelos ares (CHAS, 322). Todas estas imagens representam uma resposta positiva do homem à sua vocação espiritual c, mais do que um estado de perfeição, é um movimento em direcção à santidade. O nível de elevação no espaço, muito perto do chão ou em pleno céu, corresponde ao grau de vida interior, à medida da qual o espírito transcende as condições materiais da existência. A Assunção da Virgem Maria, após a sua Dormição, simboliza, por exemplo, independentemente da realidade histórica do facto, a esplritualização absoluta do seu ser, corpo e alma. Outros símbolos ascensionais a árvore*, a fleeha*, a montanha *, ete. representam também a subida da vida, a sua evolução gradual em direcção às alturas, a sua projecção em direcção ao céu. A ascensão xamânica é uma operação divinatória e profiláctica, destinada a salvar um doente, ao reencontrar a sua alma roubada por um espírito. A moderna psicanál ise, que vê nos ‘sonhos ascensionais um símbolo orgásmico, vem juntar-se ao aspecto da traição cristã da Idade Média que associava ao diabo, e portanto aos cultos orgiásticos, a ascensão nocturna dos feiticeiros, feiticeiras e possessos. Pólo tenebroso do símbolo.

ASFÓDELOS
Para os Gregos e Romanos, os asfódelos, plantas liliáceas de flores regulares e hermafroditas, estão sempre ligados à morte. Flores das pradarias infernais, são consagradas a Hades c Perséfonc. Os próprios Antigos ignoravam por completo a razão disto e procuravam cortar, ou mesmo corrigir, o nome, para fazer com que significasse campo de cinzas ou os decapitados, isto é, misticamente, aqueles cujas cabeças já não comandam os membros nem ditam as vontades (LANS, 1, 166). Também se tira álcool desta planta. O asfódelo simbolizaria a perda do juízo e dos sentidos, característica da morte. Embora os Antigos lhe atribuíssem um cheiro pestilento – sob a influência, talvez, de uma associação com a ideia de morte- , o perfume do asfódelo assemelha-se ao do jasmim. Victor I-Iugo evoca-o em Boozendormí, por entre uma sombra nupcial, E/a meio viva e eu meio morto, onde a velhice, a dúvida, o enfraquecimento dos sentidos contrastam com a expectativa do amor: Umfresco perfume desprendia-se dos tufos de asfódelos; Os sopros da noite flutuavam sobre Galga/a . Ruth sonhava e Booz dormia; a erva era negra .

ASNA
A sua forma de onda, simples Oll multiplicada, com uma ponta em bico alternando com um vazio, faz lembrar os movimentos da água. A onda elevada representa também a primeira letra do alfabeto, em maiúscula: A. Estes dois valores unem-se numa mesma direcção simbólica: a água*, como elemento primordial de todas as coisas; a letra A, como princípio de toda a escrita*. A asna indica também, quando desenhada nalgumas vestes, um princípio de autoridade. Muitas vezes perdida entre a ornamentação, o sentido da asna situa-se a vários níveis – cosmogónico, cultural, social -, para designar a origem de um movimento nunca completado. É o próprio movimento que faz a vida, diz Griaule, em todos os planos (GRIE). Qualquer começo está repleto de uma capacidade de desenvolvimento: a água fecunda a terra, a primeira letra (uma vogal) fecunda a palavra, a autoridade fecunda a sociedade. Mas este sentido, como qualquer símbolo, pode voltar-se contra si mesmo através de um processo de perversão: a água pode inundar e devastar, a palavra pode enganar, a autoridade pode oprimir c arruinar. A repetição da asna em linhas quebradas e contínuas, o A invertido em V, em dentes de serra, liga-se, como qualquer fenômeno de repetição, segundo Frcud, a uma pulsão de morte. Porém, conforme o número dos dentes da serra, pode revestir-se de um sentido complexo: oito, por exemplo, simbolizaria o acesso ou o destino a uma via nova, e, portanto, a morte-renas cimento, como a maioria dos símbolos fundamentais – impulso, pausa, impulso, pausa, numa sucessão rítmica. No que se refere à sua utilização prática, a asna é também um signo de solidez, de valor, de competência, de experiência c de condições de autoridade. O sentido simbólico permanece: qualquer título, qualquer insígnia, qualquer novo começo pressupõe uma preparação, uma prova, uma emergêneía, um passado, uma anterioridade. No entanto, a asna, tanto na arquitectura como na heráldica, sendo simples, acabando em ponta no topo, é essencialmente uma figura de equilíbrio realizado, tal como o compasso” da franco-maçonaria.

ASNO (ver Burro)

ASSENTO (Sede, Sé)
O assento é universalmente reconhecido como um símbolo de autoridade. Receber sentado é manifestar uma superioridade; oferecer um assento é reconhecer uma autoridade, um valor pessoal ou representativo. A Santa Sé é o sim bolo da autoridade divina de que o Papa é investido enquanto Soberano Pontífice. Um assento elevado indica superioridade. Cortar o assento é uma expressão chinesa que significa, simbolicamente, romper a amizade. No espírito chinês, tem um grande valor devido à importância que os Chineses dão à amizade e à sinceridade entre amigos. Vender um amigo, isto é, traí-lo, era, segundo Mencius, contrário à doutrina da piedade filial. Cortar o assento ou romper a amizade com alguém é lima fórmula extraída duma história muito antiga: dois sábios bastante conhecidos, Kuan- -Ning e Hua-In, da dinastia Wei (220-265 da era cristã), no período dos Três Reinos, eram amigos íntimos e trabalhavam juntos no campo e na biblioteca. Mas certo dia, enquanto cultivavam a terra, encontraram uma moeda de ouro; Hua-In cobiçou-a; com isto deu uma má impressão de si ao seu amigo Kuan-Ning.Quando voltaram à biblioteca, este último não quis manter mais a sua amizade; por isso, separou o seu assento do assento de Hua-In, cortando o banco. Factos posteriores provaram que Kuan-Ning não se tinha enganado sobre a probidade do seu antigo amigo, pois, enquanto ele recusara obstinadamente todos os empregos que lhe foram sucessivamente oferecidos pelo usurpador de Han, Hua-In, pelo contrário, desempenhou um papel eminente nesta usurpação,

ASTROS
Em geral, participam das qualidades de transcendência e de luz que caracterizam o eéu*, com um matiz de regularidade int1exível, comandada por uma razão ao mesmo tempo natural e misteriosa. São animados por um movimento circular que é o sinal da perfeição. (Ver estrelas”, Lua”, Sol*). Os astros são símbolos do comportamento perfeito e regular, bem como de uma inacessível e distante beleza. Na Antiguidade, eram divindades; mais tarde, foram concebidos como sendo dirigidos pelos anjos. Tornaram-se a morada das almas das personagens ilustres, como afirma Cicero no Sonho de Cipião. Foram objecto não só de poemas, como também de admiráveis orações; testemunho disto é o fervoroso hino aos planetas que a seguir reproduzimos. Esta oração escrita por um devoto pagão, no princípio do séc. IV, exprime.o simbolismo cósmico e moral atribuído aos planetas pelos astrólogos mais ou menos místicos dos primeiros séculos da nossa era: Sol, soberanamente bom, soberanamente grande, que ocupas o centro do céu, intelecto e regulador do mundo, chefe e mestre supremo de todas as coisas, que fazes durar para sempre os fogos das outras estreias ao difundir sobre elas, na justa proporção, a chama da tua própria luz, e tu, Lua, que, situada na região mais baixa do céu, de mês a mês, sempre alimentada pelos raios do Sol, resplandeces com um augusto brilho para perpetuar as sementes geradoras, e tu, Saturno, que, situado na ponta extrema do céu, te adiantas, astro lívido, com um andar preguiçoso de movimentos indolentes, e tu, Júpiter, habitante da rocha Tarpéia, que pela tua majestade bendita e salvadora não cessas de dar alegria ao mundo e à Terra, que deténs o governo supremo do segundo círculo celeste, tu também, Marte Gradivus, cujo brilho vermelho provoca sempre um horror sagrado, que estás estabelecido na terceira região do céu, vós enfim, fiéis companheiros do Sol, Mercúrio e Yénus, pela harmonia do vosso governo, pela vossa obediência ao julgamento do Deus Supremo que concede ao nosso soberano mestre Constantino, e aos seus filhos de lodo invencíveis, nossos senhores e nossos césares, um império perpétuo, fazei com que, sobre os nossos filhos, ainda, e sobre os filhos dos nossos filhos, eles reinem sem interrupção durante a infinidade dos séculos, para que, tendo afastado todo o mal e toda a aflição, o género humano adquira a graça da paz e da felicidade eternas. Firmicius Maternus (Trois dévots paiens, trad. francesa de A. J. Fcstugiêrc, Paris, 1944, I, p. 13-14).

ATANOR
Símbolo do cadinho das transmutações físicas, ..orais ou místicas. Para os alquimistas, o atanor, onde se opera a transmutação, é lima matriz em forma de ovo, tal como o próprio mundo, que é também um ovo gigantesco, o ovo órfico que está na base de todas as iniciações, tanto no Egipto como na Grécia; e do mesmo modo que o Espírito do Senhor, ou Ruah Eloim flutua sobre as águas, assim também nas águas da atanor deve flutuar o espírito do mundo, o espírito da vida, para apoderar-se do qual o alquimista tem • ser muito hábil (GRIM; 392).

ATENA
Tal como a do seu irmão, Apolo*, a figura dc Atena evoluiu muito na Antiguidade e, de uma forma constante, no sentido de uma espiritualização. Dois dos seus atributos simbolizam os termos desta evolução: a serpente e a ave. Antiga deusa do mar Egeu, saída dos cultos ctonianos (a serpente), elevou- -se a uma posição dominante nos cultos uranianos (a ave): deusa da fecundidade e da sabedoria; virgem, protectora das crianças; guerreira, inspiradora das artes e dos trabalhos da paz. Ela é, segundo a expressão de Marie Delcourt, uma pessoa muito enigmática, sem dúvida aquela, de toda a mitologia grega, cujo ser profundo continua para nós o mais secreto. E isto porque a imagem que fazemos de Atena condensa muitos séculos de história mitológica vivida com a maior intensidade. O seu nascimento foi como um jacto de luz sobre o mundo, a aurora de um novo universo, semelhante a uma visão apocalíptica. Com um golpe de machado= de bronze *, forjado por Hefesto, segundo a evocação de Píndaro, Atena saltou da fronte de seu pai lançando um grito impressionante. Urano estremeceu, assim como a Terra- Mãe. O seu aparecimento representou uma reviravolta completa na história do Cosmos e da humanidade. Uma chuva de neve de ouro espalhou-se sobre a cidade do seu nascimento: neve e ouro, pureza e riqueza, vindo do céu com a dupla função de fecundar, como a chuva, e de iluminar, como o Sol. Esta neve de ouro é também a arte que engendra a ciência e que sabe crescer, cada vez mais bela, sem recorrer à fraude, isto é, à mentira, ou à magia. Nesse mesmo dia, Apoio, o Deus que dá aos homens a luz ditou à sua inumerável descendência que observasse no futuro esta obrigação: …Sobre o altar brilhante que eles seriam os primeiros a erguer à Deusa, instituiriam 11maugusto sacrifício para regozijarem o coração da Virgem da lança fremente e o do seu pai (Píndaro, Sétimo Olímpico, 35-55). Não seria fácil imaginar uma atmosfera mais luminosa, semelhante à epifania de lima divindade a emergir de lima montanha sagrada (SECG, 325). No entanto, em certos dias de festas em honra de Atena, ofereciam-se bolos com a forma de serpentes e de falos: símbolos de fertilidade e de fecundidade. Na Grécia, em memória de Erictónio, o futuro fundador de Atenas – a quem Atena protegera, quando ele ainda era criança, num pequeno cofre, acompanhado e guardado por uma serpente -, oferecia-se aos recém-nascidos um amuleto representando uma pequena serpente: símbolo da sabedoria intuitiva e da vigilância protectora. Muitas estátuas revestem Atena não só com um escudo com uma cabeça de Górgona aureolada de serpentes, cuja vista era suficiente para aterrar os seus inimigos, como também com um cinto, uma cota, uma túnica, ou um boldrié, todos com franjas de serpentes de boca aberta: símbolo da combatividade da deusa e da acuidade da sua inteligência. É esta jovem armada que defende as alturas, em todos os sentidos do termo, físico e espiritual, onde se estabeleceu. Ela coloca no seu escudo a cabeça aterradora da Medusa como se fosse um espelho da verdade, para combater os seus adversários, petrificando-os de horror perante da sua própria imagem. Foi graças ao escudo que ela lhe emprestou que Perseu* conseguiu vencer a horrível Górgona”. Atena é, portanto, a deusa vitoriosa, pela sabedoria, pelo engenho, pela verdade. A própria lança* que ela segura na mão é uma arma de luz; separa e trespassa, como o relâmpago, as nuvens; é um símbolo vertical, como o fogo e como o eixo*. A protecção que ela concede aos heróis – Héraeles, Aquilcs, Ulisses, Menelau-, simboliza, escreve Pierre Grimal, a ajuda trazida pelo Espírito à força violenta e ao valor pessoal dos heróis (GRID, 53).
Aquela que foi honrada como uma deusa da fecundidade e da vitória simboliza sobretudo: a criação psíquica… a síntese pela reflexão… a inteligência socializada (VIRI, 104). Com efeito, Atena é a protectora dos lugares altos, acrópoles, palácios, cidades (deusa políade); inspiradora das artes civis, agrícolas, domésticas e militares; inteligência activa e industriosa. É a deusa do equjlíbrio interior, da justa medida em todas as coisas. E a personalidade divina que exprime melhor os próprios caracteres da civilização helénica, guerreira ou pacifica, mas sempre inteligente e reflectida, sem mistérios ou misticismo, sem ritos orgíacos ou bárbaros (LAVD, 129). A própria história do mito de Atena, com o seu valor simbólico, só tem a ganhar com este ponto de vista. Este mostra- nos que a deusa só atingiu a sua perfeição no fim de uma longa evolução; e esta reflecte a evolução da consciência humana. No decurso da sua história mitológica, Atena apresentou vários traços de carácter selvagem e bárbaro, capazes de contradizer a imagem final que a deusa dá de si própria, quando todos os elementos da sua rica personalidade foram integrados numa síntese harmoniosa. Podemos julgá-Ia por uma fase do seu desenvolvimento c pôr em relevo uma determinada característica particular. Podemos considerá-Ia, pelo contrário, no seu ponto mais elevado na consciência grega. Desde então parece, tal como o seu irmão ApoIo, que ela simbolizaria a espiritualização combativa e a sublimação harmonizante (que) são solidárias … Eles (o irmão e a irmã) simbolizam as funções psíquicas sensatas, nascidas da visão dos ideais últimos: a verdade SI/- prema (Zeus) e a sublimidade perfeita (Hera). Notemos que Zeus e Hera são tomados aqui, também eles, no seu significado mais elevado, Atena simbolizará mais particularmente a combatividade espiritual (DIES, 97-98), aquela que deve estar sempre desperta, pois nenhuma perfeição é adquirida para sempre, salvo para o ser que se tiver tornado tal que, finalmente, a eternidade o transforme em si mesmo.

ATLÂNTIDA
A Atlântida, continente submerso, qualquer que seja a origem histórica da lenda, permanece no espírito dos homens, à luz dos textos egípcios em que Platão se inspirou, como símbolo de uma espécie de paraíso perdido ou de cidade ideal. Domínio de Posídon, que lá instalou os filhos que ele engendrara de uma mulher mortal; ele próprio ordenou, embclczou e organizou a ilha, que foi um grande e rnaravi- Ihoso reino: Os habitantes tinham adquirido as riquezas em tal abundância que, sem dúvidaç jamais antes deles nenhuma casa real possuíra semelhantes e nenhuma as possuirá assim facilmente no futuro … Colhiam os produtos da terra duas vezes por ano; no Inverno, utilizavam as águas do céu; no Verão, as que eram dadas pela terra, dirigindo-as para fora dos seus canais (Crinas, 114 d, 118 e, da trad. francesa de Albert Rivaud, Les bcllcs-Lettres, Paris, 1925). Quer sejam as recordações de uma tradição muito antiga, quer se trate de uma utopia, Platão projectou nesta Atlântida os seus sonhos de uma organização política e social sem falhas. Os dez reis julgam-se entre si: Quando a escuridão chegara e o fogo dos sacrifícios tinha arrefecido, todos se cobriam com vestes muito belas de um azul escuro e se sentavam por terra, nas cinzas do seu sacrifício sacramental. Então, na noite, depois de terem apagado todas as luzes em volta do santuário, eles julgavam e submetiam- se a julgamento, se um deles acusasse um outro de ter cometido alguma infracção. Administrada a justiça. gravavam as sentenças, ao amanhecer, numa chapa de ouro que consagravam, para memória (Crítias, 120 bc, p. 273). Mas quando o elemento divino começou a diminuir neles e passou a dominar o carácter humano, mereceram o castigo de Zeus. Por isso, a Atlântida junta-se ao tema do paraíso, da Idade de Ouro, que se encontra em todas as civilizações, quer no dealbar da humanidade, quer no seu termo. A sua originalidade simbólica está na ideia de que o paraíso consiste na predominância em nós de um elemento divino. A Atlântida mostra-nos ainda que os homens, por terem desprezado os mais belos dos bens, os mais preciosos, acabam sempre por ser expulsos do paraíso que se afunda juntamente com eles. Não quererá sugerir que o paraíso e o inferno estão sobretudo dentro de nós mesmos?

ÁTON
Deus egípcio, cujo culto exclusivo foi estabelecido pelo célebre reformador religioso, o faraó Akhenáton (Amenófis IV), c que Daniel Rops baptizou de rei embriagado de Deus, mas cujo reinado foi fatal ao Império. Era ao mesmo tempo o deus tutelar, solar e espiritual, que irradiava o seu calor e a sua luz para todos os seres. Concebera e criara o universo com a sua palavra e com o seu pensamento. Era representado como um sol dardejando os seus raios como símbolos de vida. Simbolizava a vida única, de onde procede todo o ser vivo. Os hinos cantam-no: Salve! ó tu, ó Disco vivo que despontas no céu. Ele inunda os corações e toda a terra está em festa pela virtude da sua jubilosa vibração (da trad. francesa de Jean Yoyotte, em POSD, 32).

ÁUGURE
Os Celtas conheceram druidas, poetas e adivinhos, mas nenhum colégio de áugures especializados. A adivinhação foi apanágio indiviso de toda a classe sacerdotal. Esta foi a grande originalidade dos áugures nas terras célticas. Abstraindo esta particularidade, os procedimentos utilizados não divergem muito dos dos países clássicos: adivinhação através dos elementos, das aves, da forma de cair de um animal sacrificado (LERD,53). O Colégio dos Áugures, em Roma, teria sido fundado, desde as origens da cidade, por Numa, o segundo rei. Mas os auspícios ou a consulta ritual do voo das aves, dos meteoros e dos fenómcnos atmosféricos, que era a função própria dos áugures, remontam à mais alta antiguidade, e provavelmente aos Cal deus. O vocábulo augur, da mesma raiz que o verbo augeo, observa Jean Beaujeu, significava um poder de crescimento; os áugures são os únicos intérpretes autorizados da vontade dos deuses, salvo recurso excepcional aos arúspices (colégio de sacerdotes que interpretava as vontades divinas, através do exame das visceram de animais). Os áugures interpretam os auspicios em nome do Estado, por meio do exame do voo das aves*, da observação dos frangos * sagrados e da interpretação dos relampagos”; a resposta é dada por um sim 0u por um não a lima questão precisa, posta por um magistrado, e segundo 11111 ritual rigoroso. Da decisão do áugure não há apelo, o seu poder é considerável, dado que pode adiar uma batalha, uma eleição, etc. Os áugures têm também a função de inaugurar ritualmente as cidades, os templos e outros lugares, bem como fazer sacerdotes. O áugure é geralmente representado vestido com uma veste vermelha, uma coroa na cabeça, o seu bastão augural namão, de pé e a olhar para o céu. A insígnia da sua função é uma pequena vara recurvada em forma de báculo, o lítuo. O áugure utilizava-o para marcar o espaço do céu onde os pássaros deviam evoluir: desenhava um quadrado, a forma dum templo, no qual a ave se encaixaria. O áugure não podia ser desapossado dos seus privilégios sagrados: eles marcavam-no para toda a vida. Mesmo quando condenado pelos maiores crimes, diz Plutarco, o áugure MO pode, enquanto for vivo, ser despojado do seu pontificado. Intérprete todo-poderoso c infalível das mensagens divinas, através duma escrita gravada nos céus, o áugure simboliza a primazia do espírito sobre a razão. Ele é o ieitor do Invisível através dos sinais visíveis do céu. Causas misteriosas de fracasso ou de êxito escapam à inteligência humana: é preciso percebê-las através de outros meios de investigação. O áugure viu, leu, falou, deve-se acatá-lo. Os conluios históricos entre a voz do áugure e os desejos das autoridades públicas, numa época em que as crenças estavam enfraquecídas, em nada afectam este valor do símbolo.

AUM (OU OM)
Colocado no princípio ou no fim de qualquer recitação litúrgiea, Aum é o primeiro mantra, um dos mais poderosos e o mais célebre da tradição indiana. É o símbolo mais forte da divindade, que ele exprime :10 exterior e realiza no interior da alma, resume em si mesmo o sopro criador; com efeito, a tradição vedica defende que o universo se desenvolveu a partir da energia cósmica posta em movimento na altura em que o demiurgo pronunciou esta primeira fórmula, despertando todas as coisas: AUM BHUR BHUVAH SVAH (AUM TERRA! ATMOSFERA! CÉU!) Sendo o som primordial, o verbo do universo, o seu enunciado tem uma carga cncrgética considerável c: extraordinariamente c ficaz para a transformação espiritual. No pensamento hindu, o Sol que é ao mesmo tempo Deus, origem de todas as coisas e de todo o ser, confere aos mantras o seu valor quase mágico. A palavra que exprime o ser num som é ao mesmo tempo este mesmo ser c o Ser de onde tudo deriva e no qual tudo se reabsorve. Exprimir o som de Deus é divinizar-se. Aum é, segundo Vivekananda e a tradição vedanta, a manifestação por excelência da divindade. A significação totalizante da palavra Aum é reforçada pelo facto de as três letras que a compõem conterem o ritmo temário, tão importante no pensamento, na organização do mundo e na cosmogonia indianas. Eis alguns exemplos: tripla é a divindade suprema, sob as aparências de Brama, Vixnu e Xiva; triplas são as qualidades cósmicas: material idade, energia, essencialidade; existem três mundos: a terra, o espaço e o céu; e a humanidade está dividida em três castas: clero, nobreza e o terceiro estado, tal como a pessoa humana, que é feita de corpo, de pensamento e de alma; o que vem ao encontro do enunciado da Idade Média cristã (espiritus, anima, corpus). Para estas doutrinas metafisicas, os Hindus procuram correspondências fisiológicas que conduzem a uma verdadeira teologia do som. A técnica da pronúncia da palavra sagrada Aum, segundo Vivekananda, esclarece o seu simbolismo: Quando exprimimos um som, fazemos actuar o sopro e a língua, utilizando a laringe e o palato como caixa de ressonância. A manifestação mais natural do som é, precisamente, a sílaba Aum, que encerra todos os sons. Aum é composta por três letras: A.U.M. A é o som fundamental, a chave, que se pronuncia sem contacto com qualquer parte da língua e do palato. É o som menos diferenciado de todos, aquele que faz Krishna dizer, no Bhagavad-Gita: «Entre as letras eu sou o A e o Binário das palavras compostas; sou Eu que sou o Tempo infinito; eu sou o Deus cuja face está voltada para todos os lados.» O som da letra A parte do fundo da cavidade bucal, é gutural. O U é soprado a parlir da própria base de ressonância da boca e até à sua extremidade. Representa, exaclamente, o movimento da força para a frente, e que nasce na raiz da língua e vem acabar nos lábios. O Mcorresponde ao último som da série labial, pois é produzido com os lábios fechados. Pronunciado correctamente, Aum representa lodo ofenômeno da produção do som, o que nenhuma outra palavra consegue fazer. É, pois, o símbolo natural de todos os sons diversificados; condensa toda a série possível de todas as palavras que seja possível imaginar. A mcJhor expressão do som, a melhor expressão do sopro, Aum é a melhor manifestação do divino. Ao atravessar todas as palavras, todos os seres, desdobra-se num, movimento criador perpétuo, universal, ilimitado. E a tradução mais subtil do Universo manifestado. Tem sido relacionado com a palavra hebraica Amen, adoptada pela Iiturgia cristã, vocábulo com que conclui as orações e cuja música se compõe geralmente de uma sequência poderosa de arses e de tésis, de impulsos e de pausas, e que termina num sopro. Esta palavra e estes cantos obedeceriam, para alguns psicólogos, à mesma pulsão arquetlpica que Aum e simbolizariam também, no voto final da oração, o sopro criador invocado para acolher favoravelmente a oração.

AURA
A aura designa a luz que rodeia a cabeça dos seres solares, isto é, dotados de luz divina. Esta luz é um nimbo*, para a cabeça, ou auréola”, para o corpo, glória para o ser na sua totalidade. A aura pode, por isso, comparar-se com uma nuvem luminosa: as suas colorações são variadas. A forma ovóide da aura está relacionada com a amêndoa* mística, a mandorla* e o ovo” áurico. Por vezes, a aura e o nimbo confundem- se em virtude do seu carácter análogo. A luz é sempre um sinal divino de sacralização. As religiões de luz, os cultos do Sol e do fogo estão na origem desta importância dada à aura (COLN).

AURÉOLA (Nimbo)
Imagem solar que tem o sentido de coroa (coroa real). A auréola manifesta-se por uma irradiação em volta do rosto e, por vezes, do corpo na sua totalidade. Esta irradiação de origem solar indica o sagrado. a santidade, o divino. Materializa a aura” sob uma forma particular. A auréola elíptica, ou auréola em volta da cabeça, indica a luz espiritual. Esta prefigura a dos corpos ressuscitados. Trata-se, pois, de uma transfiguração antecipada em corpo glorioso (COLN). A tonsura dos padres e monges está ligada à auréola na medida em que forma uma coroa*: indica a sua vocação exclusiva para o espiritual, a abertura de alma. Na arte bizantina, a auréola redonda era reservada aos defuntos que tinham vivido como santos cá em baixo e que são admitidos ao céu; as pessoas ainda vivas na terra podiam, quanto muito, beneficiar de uma auréola quadrada. Voltamos a encontrar aqui o simbolismo universal do círculo”: o céu; e o do quadrado”: a terra. A auréola é um procedimento universal para valorizar uma personalidade no que ela tem de mais 110~ bre: a cabeça. Graças à auréola. a cabeça é como que engrandecida; irradia. No homem aureolado, a parte superior – celeste e espiritual – assumiu a preponderância: é o homem realizado. unificado pelo alto (CHAS, 270). Com efeito, roi dito dos santos que eles se harmonizavam nas alturas. A auréola simboliza a irradiação da luz sobrenatural, da mesma forma que a roda representa os raios do So\. Marca a difusão, a expansão para fora de si deste centro de energia espiritual que é a alma ou a cabeça do santo que a auréola envolve.

AURIGA
Condutor de carros nos jogos do hipódromo e do circo, o auriga era muitas vezes um escravo; mas era um servidor por vezes tão hábil que o seu amo mandava erguer uma estátua em sua honra. Assim, o Auriga de Delfos é a estátua de um condutor de carros vencedor: vestido com uma túnica comprida, segura as rédeas com a mão direita. É o próprio símbolo da calma, do autodomínio, do controlo das paixões; reduz o múltiplo que está em nós c fora de nós à unidade da vontade e da direcção. Perante os movimentos ardentes ou dcsordcnados dos cavalos que, cm nós, são os nossos instintos ou as nossas paixões, o auriga é a razão ao mesmo tempo maleável, adaptada, vigilante c inl1exívcl. Com um simples movimento do seu dedo, ele traz de volta o cavalo que se afasta, como a razão que traz de volta o equilíbrio e a sabedoria. Mas sem o ardor dos cavalos ou das paixões, ela nada conseguiria. Esta parelha da alma dividida, puxada com violência para um lado e para o outro, é conduzida pelo Auriga; e a sua serenidade grave, mas não crispada, simboliza o equilíbrio interior, feito de tensão entre as diversas forças. A mão que sustém as rédeas representa perfeitamente o nó que reúne as forças do espírito e as da matéria. Este simbolismo relaciona-se com o do mito platónico da parelha alada (Fedro, 246a-246s.).

AURORA
Em todas as civilizações, a Aurora de dedos cor-de-rosa é o símbolo alegre do despertar na luz reencontrada. A aurora tiritante, em vestes cor-de-rosa e verdes, diz Baudelaire (Crepúsculo da manhã). Depois da longa noite, a sua irmã, portadora de angústia e de temor, a aurora, guia esplendorosa das liberalidades, apareceu; radiosa, ela abriu-nos as portas. Impulso dos seres vivos. ela revela-nos as nossas riquezas, a aurora desperta todas as coisas … Repelindo os ódios, guardiã da Ordem e nascida na Ordem, rica de benevolências. incttadora de beneficios, feliz no presságio e portadora do convite. divino, levanta-te, Aurora: tu és a mais bela de todas as belezas. (Rig-Veda, I, 113; ;n VEDV, 100). Sempre jovem, sem envelhecer. sem morrer. ela avança cumprindo o seu destino e vê sucederem-se as gerações. Mas todas as manhãs ela está aí, símbolo de todas as posslbllídades, signo de todas as promessas. Com ela recomeça o mundo e tudo nos é oferecido. A aurora anuncia e prepara o desabrochar das colheitas, tal como a juventude anuncia e prepara o do homem. Símbolo de luz e de plenitude prometida, a aurora não deixa de ser, em cada um de nós, a esperança. Os textos celtas insulares mantêm os traços de um antigo mito da aurora, análogo ao de Uças da mitologia védica, na lenda irlandesa dos amores de Boand e de Dagda, e na lenda galesa de Rhiannon (a grande rainha). O filho do céu (Dagda) e da aurora (ou da terra) é o dia. A expressão na juventude do dia é uma metáfora nos textos galeses para designar a aurora (CELT, 15,328). A aurora, com todas as suas riquezas simbólicas na tradição judaico-cristã, é o sinal do poder do Deus eelestial e o anúncio da sua vitória sobre o mundo das trevas, que é o dos malfeitores. Àqueles que julgam que devem tudo a si próprios, Javé dirá, dirigindo-se, primeiro, a Job: Acaso. alguma vez na vida. deste ordens à manhã e indicaste o seu lugar à aurora, para que ela alcançasse as extremidades da terra e expulsasse os malfeitores? (Job, 38, 12-13).

Na poesia mística do Islão, a aurora marca «um estado de tensão espiritual em que se dá o acontecimento primordial». O poeta sente-se chamado a ser «o co-fundador c a co-testemunha dos acontecimentos primeiros». Sente-se invadido «por uma intensa emoção metafísica, que umas vezes adquire a forma da angústia … outras vezes, a forma do êxtase» (Daryusch Shayegan, HPBA, p. 126-127). A aurora boreal é uma manifestação do Além que tende a sugerir a existência de uma outra vida depois da morte. Simboliza uma forma de existência simultaneamente luminosa e misteriosa. Para os Esquimós, a aurora é considerada como o jogo da bola dos mortos (KHIE, 5 I).

AUTOMÓVEL
O automóvel aparece frequentemente nos sonhos modernos, quer com o sonhador no interior do veículo, quer vendo os veículos a andar em volta dele. Como qualquer outro veículo, o automóvel simboliza a evolução em marcha e as suas peripécias. Se aquele que sonha se encontrar no interior do automóvel, este adquire então um simbolismo individual. Conforme as suas características, veículo de luxo ou velha carripana, exprime a maior ou menor adaptação à evolução em andamento. O Eu pessoal do sonhador pode estar dominado por um complexo, quando o condutor não se vê a si próprio a conduzir a viatura, complexo que será determinado pela personalidade de quem vai a conduzir, que não é mais do que um outro aspecto da personalidade daquele que está a sonhar. Se quem sonha estiver ele próprio a conduzir o carro, este poderá ser bem, mal ou perigosamente conduzido; cada situação indicará a fraca, perfeita ou perigosa forma de conduzir a sua existência, seja no plano objectivo, seja no plano subjectivo. Pela sua potência e pela sua precisão mecânica, o automóvel obriga, de facto, a um perfeito autodomínio c a uma adaptação à condução. Para conduzir bem é preciso disciplinar os impulsos, estar seguro das próprias reacções e ter o sentido das responsabilidades. É preciso, igualmente, cumprir o código da estrada, as regras do jogo da vida, a parte inelutável de convenções e conveniências que têm de ser aceites. Conduzir bem wn veículo evoca a autonomia psicológica e a libertação de constrangimentos: podemos cumprir as regras sem ter de sofrer, quando reconhecemos a sua oecessidade social, mesmo quando são absurdas aos olhos da razão. Sentir-se dentro de um veículo onde não se tem direito a estar indica que aquele que sonha se empenhou de forma errada numa conduta de vida, objectiva ou subjectiva, que ele. não tinha o direito de adoptar. Ficar sem combustível (ver avlão'”) pode significar uma deficiência de libido para conduzir bem a sua vida, ou uma atonia psíquica. Ou valorizou demasiado as suas forças ou não está a utilizá-Ias completamente. Um veículo muito carregado pode chamar a atenção da pessoa que sonha para certas atitudes de açambarcamento ou para uma apego a falsos valores que entravam e entorpecem o seu andamento. A evolução bio-psíquica é obstruida, cntorpccida c atrasada. A carroçaria pode estar relacionada com a persona, a máscara, a personagem, que procura causar um efeito em alguém, pelo desejo de ser admirado ou pelo medo de ser desprezado. -. Se o automóvel for visto pelo que sonha sob o seu aspecto puramente mecânico, nesse caso indica um desenvolvimento demasiado exclusivo da função do pensamento, do intelecto, do aspecto exclusivamente mecânico e técnico da existência ou da análise. Um automóvel que esmaga uma criança pode indicar que o impulso vital, o desenvolvimento da personalidade, as pressões exteriores não tiveram em conta um apego persistente à infância e os valores psicológicos reais que só podem integrar-se numa evolução harmoniosa numa cadência mais lenta. Revela resistências interiores à lei do movimento. Automóveis que chocam e se enfeixam uns nos outros fazem lembrar dolorosamente a potência dos conflitos interiores que se opõem com todas as suas forças, em vez de se juntarem às forças evolutivas. O choque dos contrários é traumatizante. Esmagar-se contra um obstáculo revela que o Eu consciente se destroça dolorosamente também contra um obstáculo que está a obstruir o caminho da evolução. O obstáculo terá de ser identificado: pode ser interior ou exterior, mas subjectivado numa brutal resistência. Os camiões transportam cargas úteis e preciosas, evocando os conteúdos positivos da Psique. Mas podem também representar o companheiro de estrada que de repente se transforma em adversário e contra quem se avança e se vai chocar. É uma terrível ambivalência. O autocarro é um veículo público. Evoca a vida social que vos dirige (A. Teillard). Esta vida social opõe-se ao isolamento, ao egocentrismo, ao infantilismo, ao excesso de introversão. Não podemos fugir à vida colectiva. A dificuldade ou a obrigação de entrar num autocarro é reveladora: O individualista vê- -se obrigado a viajar num autocarro a abarrotar ou, então, é metido nele à/orça (AEPR, 186). O autocarro simboliza o contacto forçado com o social em toda a evolução pessoal.

AVE (ver Abutre, Águia, Alvéola, Andorinha, Asa, Cegonha, Cisne, Codorniz, Coruja, Corvo, Faisão, Fénix, Galo, Gavião, Grou, Guarda-rios, Milhafre, Mocho, Noitibó, Pato, Pavão, Pelicano, Perdiz, Picanço, Pomba, Pombo, Rouxinol, Simorgh, Verdelhão)
O voo das aves predispõe-nas, é claro, a servir de símbolos às relações entre o céu e a terra. Em grego, . a própria palavra foi sinónímo de presságio e de mensagem do céu. E este o significado das aves no Taoísmo, onde os Imortais tomam a figura de aves para significar a leveza, a libertação do peso terrestre. Os sacrificadores ou as dançarinas rituais são muitas vezes qualificados pelos Brâmanes como aves que/evantam voo para o céu. Nesta mesma perspectiva, a ave é a figura da alma a sair do corpo, ou apenas das funções intelectuais (a inteligência, diz o Rig-Veda, é a mais rápida das aves). Alguns desenhos pré-históricos de homens-pássaros foram interpretados num sentido análogo (Altamira, Lascaux): o voo da alma ou o voo extâüco do xamã. A ave opõe-se à serpente, como o símbolo do mundo celeste ao do mundo terrestre. De uma forma mais geral ainda, as aves simbolizam os estados espirituais, os anjos, os estados superiores do ser. As numerosas aves azuis (Maeterlinck) da literatura chinesa dos Han são fadas, imortais, mensageiros celestes. As aves, tanto no Ocidente como na Índia, pousam hierarquicamente nos ramos da Árvore do mundo. Nos Upanixades, são dois: um come o fruto da árvore, o outro olha sem comer, símbolos respectivos da alma individual (jlvatma) activa e do Espírito universal (Atma), que é conhecimento puro. Na realidade, não são diferentes, e é por isso que às vezes são representados com a forma de uma única ave com duas cabeças. As aves são os símbolos dos anjos em especial no Islão, A linguagem das aves, de que fala o Alcorão é a dos anjos, o conhecimento espiritual. Po-yi, assistente de Yu, o Grande, na sua obra de organização do mundo, compreendia também a linguagem das aves e subjugou, talvez por isso mesmo, os Bárbaros-pássaros. As aves viajantes-ecomo as de Fari-od-Din Altar e as do Conto do Pássaro, de Avicena- são as almas comprometidas na procura iniciática. Guénon assinala, além disso, o caso dos auspícios de Roma: não será a adivinhação pelo voo e pelo canto das aves, de certa forma, uma compreensão da linguageui.das aves, e portanto da linguagem celeste? O poeta Saint-John Perse teve, sem dúvida, a intuição de uma espécie de pureza primordial nesta linguagem quando escreveu: As aves mantêm entre nós algo do canto da criação, A leveza da ave comporta, entretanto, como acontece muitas vezes, um aspecto negativo: São João da Cruz vê nela o símbolo das operações da imaginação, leves, mas sobretudo instáveis, esvoaçando aqui e além, sem método e sem sequência, aquilo a que o Budismo chamaria a distração ou, pior, a diversão, É talvez neste sentido que o Tao atribui aos bárbaros a forma de ave, para designar a espontaneidade primordial, violenta e incontrolada. O Caos é simbolizado na China por uma ave amarela e vermelha, como uma bola de fogo, sem rosto, mas dotada de seis patas e quatro asas, capaz de dançar e de cantar, mas não de comer ou respirar. Em segundo plano, ver-sc-á este signo destacado pelos Chineses da Antiguidade: a ave destrói o seu ninho? Então é sinal de dificuldades e de desordens no Império. É preciso mencionar, ao falar do Oriente, o símbolo hindu do Klmnara, metade homem, metade pássaro, tocando a citara e que parece estar associado sobretudo às personagens de carácter solar ou real, como Vixnu, Surya ou Buda (AUI3T, BENA, COOH, DANA, ELIY, ELIM, GRAP, GUEV, GUES, CALL, LECC, MALA). Os documentos mais antigos entre os textos védicos mostram que a ave (em geral, sem especificações particulares) era vista como um símbolo da amizade dos deuses para com os homens. É uma ave que vai buscar soma, isto é, a ambrosia, numa montanha inacessível e a dá aos homens. São as aves que, ao atacarem as serpentes, dão a vitória aos Arianos sobre os Bárbaros, que se opõem ao seu avanço. Mais tarde, a epopeia celebrará a fidelidade da ave Jatayu, que se sacrificará para tentar impedir que o demónio Ravana rapte Sita. E a interpretação mística desta história, professada por inúmeros hindus, vê a amizade divina sob a forma de ave esforçando-se por preservar a alma dos ataques demoníacos do espírito do mal. Na medida em que os deuses são tidos por seres voadores (como os anjos da Biblia), as aves são, de alguma maneira, símbolos vivos da liberdade divina, liberta das contingências terrestres (o peso, em face da graça que os deuses possuem de uma forma eminente). Quando ao ninho das aves, este refúgio quase inacessível, escondido no mais alto das árvores, é considerado como uma representação do Paraíso, morada suprema à qual a alma só acederá na medida em que, libertando-se dos pesos humanos, conseguir voar até lá. Daí, ainda, a ideia de que a própria alma é uma ave, e os Upanixades concretizam: uma ave migradora (em sânscrito: Hamsa; cf. o alemão Gans), em referência à crença na migração da alma de corpo para corpo, até ao voo final em direcção àquele ninho onde encontrará, por fim, refúgio contra os perigos da transmigração. Este último símbolo é tão forte que se conta que Ramakrishna, há uma centena de anos, caiu um dia em êxtase, ao ver um pássaro migrador, todo branco, sair de repente de uma nuvem preta. No mundo cclta, a ave é, em geral, o mensageiro ou o auxiliar dos deuses e do Outro Mundo, quer ele seja o cisne da Irlanda, o grou ou a garça-real da Gália, o ganso da grã-Bretanha, o corvo, a carriça ou a galinha. Os Ulates caçavam as aves em carros e, segundo algumas indicações esparsas nos textos, comiam pato. Mas isto não parece ter sido muito frequente e o mundo celta no seu conjunto teve uma grande veneração pelas aves. A deusa galesa Rhiannon (grande rainha), diz-se numa curta passagem do Mabinogi de Pwy\l, tinha aves que despertavam os mortos e adormeciam (matavam) os vivos com a suavidade da sua música. A Gália conheceu igualmente, na arte plástica da época romana, divindades que eram aves. São-lhes dedicados monumentos na Alésia (Costa do Ouro), na Compiêgne (Oise), em Martigny e Avenches (Suíça). Podemos recordar aqui as aves de Odin e de Votan, no mundo germânico (OGAC, 18, 146-147; Genava 19, 1941, p. 119-186). No Alcorão, a palavra ave é muitas vezes tomada como sinónimo de destino: Ao pescoço de cada homem, atamos a sua ave (Alcorão, 17, 13; 27, 47; 36, 18-19). Quando os Abtssinios, conduzidos por Abraão, marcharam sobre Meca, Deus enviou contra eles as aves qualificadas de Ababil que lhes lançaram pedras de argila (Alcorão, 105, 3).Nas tradições do Islão, o nome ave ou pássaro verde” é dado a um certo número de santos, e o anjo Gabriel tem duas asas verdes. As almas dos mártires voarão para o Paraíso sob a forma de aves verdes (Alcorão, 2, 262). É uma crença comum que as aves têm uma linguagem. O Alcorão (27, 16) diz que o rei Salomão conhecia esta linguagem. A célebre obra de Fari-od- -Din Attar (séc. XII-XIII) Mantic ut-Tair, A Linguagem das Aves, um clássico da literatura persa, utiliza este tema para descrever as peripécias do itinerário místico à procura do divino (ver Anqa*, Simorgh*). A ave é vista também como um símbolo da imortalidade da alma, no Alcorão (2, 262; 3, 43; 67, 19) e na poesia. A alma é comparada ao falcão que o tamboril do Mestre chama, à ave cativa numa gaiola de argila, etc. Como na maioria das outras tradições, também a mística muçulmana compara muitas vezes o nascimento espiritual com a eclosão do corpo espiritual desfazendo-se da sua ganga terrestre da mesma forma que a ave quebra a casca do ovo. A ave, símbolo da alma, tem um papel de mediador entre a terra e o céu. O signo da abetarda”, símbolo da união das almas e da fecundidade, da descida das almas na matéria… é comum a várias tribos marabútlcas berberes. Os Tuaregues de Air, a sul de Hoggar, usam nos seus escudos o signo dos dois Shin opostos, as duas patas da abetarda. Este símbolo encontra- se também nas Índias, no mundo celta crow’s root, nas vestes dos xamãs das tradições uralo-altaicas e até na gruta de Lascaux (SERH, 74-75). Num sentido totalmente diferente, os Hopis atribuem também às aves o poder mágico dc comunicar com os deuses. Muitas vezes representam-nos com a cabeça rodeada de nuvens”, símbolos da chuva que é um beneficio dos deuses, por fcrtilizarcm a terra, e nimbada por um círculo aberto que representa a criação, a vida, bem como a abertura e a porta”, símbolo da comunicação. A propósito da ornitomancia, Ibn Haldun declara que se trata da faculdade de falar do desconhecido que desperta, entre algumas pessoas, ao verem uma ave a voar ou 11m animal a passar, e de concentrar o seu esplrito depois de desaparecerem. É lima faculdade da alma que provoca uma compreensão rápida, pela inteligência, das coisas vistas ou ouvidas, que sõo matéria para o presságio. Ela supõe uma imagi- 1taÇãoforte e poderosa … Os dois ramos da ornitomancia árabe baseiam-se na interpretação da direcção do voo das aves observadas e na dos seus gritos (FAfIN, 206-207). No Curdistão, para os Yezidis e para os Ahl-i Haqq (Fiéis da Verdade), o símbolo da ave aparece desde que existe um mundo espiritual. Por isso, para os Yezidis, no tempo em que todo o universo estava coberto pelo mar, Deus é representado sob a forma de um pássaro pousado numa árvore”, cujas raízes mergulham DOS ares. O mesmo acontece na cosmogonia dos Ahl- -i-Haqq: Deus é representado com a aparência de um pássaro com asas de ouro, no tempo em que ainda não existia nem terra nem céu. Recordemos que no início do Génesis (1, 2) o espírito de Deus movia-se, como uma ave, sobre a superfície das águas primordiais. (M. Mokri, O Caçador de Deus e o Mito do Rei-Águia, Dara-y Damyari, Wiesbaden, 1967). A ave é uma imagem muito frequente na arte africana, principalmente nas máscaras”, A ave simboliza a Corça e a vida; muitas vezes é o símbolo dafecundidade. Por vezes, como para os Batnbaras, é à ave, ao grou” coroado, por exemplo, que se liga o dom da palavra. Vemos com frequência nos vasos o tema da luta entre a ave e a serpente”, imagem da luta entre a Vida e a Morte (MVEA, 129). Os Iacutes acreditam que, depois da morte, tanto os bons como os maus vão para o céu, onde as suas almas tomam a forma de uma ave. Provavelmente as almas-aves pousam nos ramos da Árvore do mundo, imagem mítica, quase universal (ELIC, 189). Da mesma forma, no Egipto, uma ave com cabeça de homem ou de mulher simboliza a alma de um defunto ou a de um deus que visita a terra. A concepção da alma-ave e, portanto, a identificação da morte com uma ave verificam-se já nas religiões do Próximo Oriente arcaico. O Livro dos Mortos descreve o morto como um falcão que levanta voo, e, na Mesopotâmia, representam-se os falecidos sob a forma de aves. O mito é provavelmente mais antigo ainda: nos monumentos pré-histôricos da Europa e da ÁSia, a Árvore Cósmica é representada com duas aves nos seus ramos. Estas aves, para além do seu valor cosmogónico, parecem ter simbolizado também a alma ancestral. Lembremo-nos, realmente, de que nas mitologias da Asia central, siberianas e indonésias, as aves empoleiradas nos ramos da Árvore do Mundo representam as almas dos homens. Os xamãs, pelo facto de poderem transformar-se em aves, isto é, pelo facto da s,-!a condição de Espírito, são capazes de voar até à Arvore do Mundo para levarem as almas- -aves (ELIC, 417-418). A mais antiga demonstração da crença em almas- aves está, sem dúvida, contida no mito da Fénix*, ave de fogo, cor de púrpura – isto é, composto de força vital -, e que, para os Egípcios, representava a alma. A fénix, duplo sublimado da águia”, que está no topo da árvore cósmica, assim como a serpente está na base da mesma, representava no simbolismo alquímico o coroamento da Obra (DURS, 135). As aves mais pequenas, assim como as borboletas, representam muitas vezes, não só as almas dos mortos, isto é, as a/mas libertadas, que regressam à pátria celeste, onde esperam pela sua reencarnação, mas também as almas das crianças. É o caso, principalmente, das crenças dos povos uralo-altaicos da Asia central (HARA). Diz-se, entre os Golds, que lima mulher grávida pode ver em sonhos lima ave e que, se ela conseguir discernir o seu sexo, saberá se o seu filho é menino ou menina (HARA, 120). As aves nocturnas são muitas vezes assimiladas às almas do outro mundo*, às almas dos mortos que vêm gemer durante a noite para junto da sua antiga morada. Para os Negritos Scmang, os seus cantos aterrorizam as aldeias; os mortos, segundo a tradição Semang, regressam às suas famílias para matarem os seus familiares, pois não gostam da solidão. Os Buriatas da Sibéria acreditam que o grande-mocho caça as almas das mulheres que morreram durante o parto e vêm perseguir os vivos (HARA, 263). Para guardarem os seus animais, os Iacutes pregam uma cabeça de mocho na porta do estábulo (ibid., 284). No Altai, a veste do xamã, sempre omitomorfa, é frequentemente ornamentada com penas de mocho, Segundo Harva (ibid., 341) o conjunto das suas vestes, tal como era noutros tempos, devia representar um mocho. O mocho afasta todos os espíritos, segundo a crença popular do Altai. Em muitos sítios, quando as crianças estão doentes, é hábito, ainda hoje, capturar um mocho e alimentá-lo, com a ideia de que esta ave afugentará os maus espíritos que atacam o berço. Nas festas do urso, entre os Iogules, uma pessoa disfarçada de mocho é encarregue de manter à distância a alma do urso morto (HARA, 349). A tradição esotérica (VALC, 185) esboçou todo uma série de correspondências entre as aves, as cores e as pulsões psíquicas. As quatro cores principais seriam representadas pelo corvo*, pássaro preto, símbolo da inteligência; pelo pavão*, verde e azul, símbolo das aspirações amorosas; pelo cisne*, branco, símbolo da libido, que gera a vida corporal e, por meio do logos, a vida espiritual; a fénix* vermelha, símbolo da sublimidade divina e da imortalidade. Numerosas variantes desenvolveram estas tábuas de correspondências (LOEC, 150-152, etc), Por exemplo, o amor, do carnal ao divino, será representado pela pomba*, a ave de Afrodiic, pelo pombo* e pelo pato; a sublimação da alma, também pela pomba, pela águia* e pelo simorgh*; a intercessão entre o divino e o humano, pelo corvo* e pelo cisne”, que desempenham o papel de guia c mensageiro (estranha c significativa aproximação do preto” e do branco*); o abutre e a fénix serão as aves psicopompas; a águia, o falcão e a arara* significarão os valores solares e uranianos, os triunfos da guerra, da caça e das colheitas; as aves nocturnas representarão os valores lunares e ctonianos. Nos sonhos, a ave é um dos símbolos da personalidade do sonhador. Uma grande ave amarela apareceu um dia a uma personagem de Trumau Capote. Em A Sangue Frio, o romancista americano analisa o caso de um jovem que matou várias pessoas sem qualquer móbil aparente: Ao longo de toda a sua vida criança pobre e maltratada, adolescente sem afeições, homem aprisionado uma imensa ave amarela com cabeça de papagaio pairara nos sonhos de Perry, anjo vingador que atacava os seus inimigos com grandes golpes do bico e das garras 011 que, como agora, o socorria quando ele corria IIInperigo mortal: levantou- me nos ares, eu estava leve COIllOUIIIUIIlratinho; ganhámos altitude e eu podia ver a praça lá em baixo, os homens que gritavam e corriam, o xerife que atirava sobre nós. Estavam todos furiosos porque eu era livre, porque eu voava, porque eu voava melhor do que qualquer um deles. Assim, a ave de rapina transformou- se, no sonho, em ave-tutelar. Esta imagem ambivalente corresponde bem aos traços da personalidade de Perry, descritos pelo psiquiatra Dr. Jones: … uma raiva constante e dificilmente dominada, facilmente provocada por qualquer sentimento de ser enganado, humilhado ou considerado como inferior pelos outros. Na maioria das vezes, no passado, os seus acessos de cólera tinham sido dirigidos contra os representantes da autoridade; pai, irmão, ajudante … e chegaram a um comportamento várias vezes violentamente agressivo … as suas raivas sobem dentro dele … a força desmedida da sua cólera e a sua impotência para a dominar ou para a canalizar reflectem uma fraqueza essencial na estrutura da sua personalidade … (ver L ‘Express, n.” 792, p. 54). Este dualismo da personalidade não integrada reflectia-se na imagem onírica da ave umas vezes cruel e outras vezes protectora.

AVELERIA
Esta árvore e o seu fruto – a avelã – desempenharam um papel importante na simbólica dos povos germânícos e nórdicos. Iduna, deusa da vida e da fertilidade, para os Germanos do Norte, é libertada por Loki, transformado em falcão, que a leva sob a forma de uma avelã (MANG, 25). Num conto islandês, uma duquesa estéril passeia num avelal para consultar os deuses que a tornam fecunda (MANG, 184). A aveleira tem muitas vezes um lugar nos ritos de casamento: em Hanôver, a tradição ordenava que a multidão gritasse para o jovem casal dizendo: avelãs, avelãs; a recém-casada distribuía avelãs três dias depois das suas núpcias, para significar que o casamento tinha sido consumado (ibid), Para os Pequenos Russos de Volínia, durante a boda, a sogra deita avelãs e aveia sobre a cabeça do genro; por último, a expressão quebrar avelãs é utilizada na Alemanha como eufemismo amoroso. Portanto, parece que esta árvore da fertilidade se tornou muitas vezes em árvore do desregramento. Nalgumas regiões da Alemanha, algumas canções folclóricas opõem o abeto, como árvore da constância, à aveleira, Explica-se assim, à luz das práticas da Idade Média, a escolha da varinha” de aveleira pelos feiticeiros e buscadores de ouro: os metais amadurecidos no ventre da Terra-Mãe, da mesma forma que a água das nascentes, exprimem a sua inesgotável fertilidade provocada, por homeopatia, pela varinha desta madeira. Mannhardt assinala que na Normandia batia-se três vezes na vaca com uma varinha de aveleira para que ela desse leite; dos papéis de um processo de bruxaria, datado de 1596, em Hcsse, extraiu a citação seguinte: se na noite de Walpurgis a dita feiticeira tivesse batido numa vaca com a sua varinha do diabo, esta vaca daria leite durante todo o ano. Por isso, a aveleira, árvore da fertilidade, torna-se pouco a pouco a árvore da incontinência, da luxúria e, por fim, do diabo. Nos costumes celtas foi muitas vezes associada às práticas de magia. A mitologia germânica faz dela um atributo do deus Thor. Em todos os textos insulares, as aveleiras são consideradas como árvores de carácter mágico. Por isso são muitas vezes utilizadas pelos druidas ou pelos poetas como suportes de encantação. A utilização mais notável é a gravura em madeira das ogam, ou letras mágicas. A aveleira aproxima-se nesta utilização do teixo e da bétula, e a avelã é muitas vezes vista como um fruto de ciência. Um dos reis miticos da Irlanda, MacGuill, era chamado filho da ave/eira. É símbolo de paciência e de constância no desenvolvimento da experiência mística, cujos frutos se fazem esperar. Ele tornou-me semelhante à aveleira que logo floresce nos meses sombrios e deixa que esperem durante muito tempo os seus frutos desejados. (HADEWIJCH D’ANVERS)

AVENTAL
O avental de couro é um dos ornamentos essenciais da Maçonaria. No grau de Aprendiz é usado com a parte de cima levantada; nos graus superiores, com a parte de cima deitada para baixo. Herdado das tradições artesanais, evoca com toda a clareza o trabalho, para o qual é necessário usá-lo. Ainda não há muito tempo, falava-se do direito de avental, pago pelos aprendizes de certas profissões no final do seu período probatório. No simbolismo maçónico, o avental, que caracteriza as vestes do iniciado, é, com efeito, o emblema do trabalho; recorda que um mação deve ter sempre uma vida activa e laboriosa. Para outros, recordaria a túnica de pele com que Adão c Eva cobriram a sua nudez depois do pecado original: o avental tem de ser branco, imaculado e puro. Conservando-o assim, cada um pode, ao seu nível, realizar a perfeiçiio a que lodo o iniciado aspira; outros ainda vêem Dele: o símbolo do corpo fisico, do invólucro material de que o espírito se tem de revestir para participar na obra da Construção Universal; outros atribuem-lhe w:n significado ético: o avental maçónico cobre apenas a parte inferior do corpo e sobretudo o baixo ventre… sede da afectividade e das paixões … Isto significa que só a parte superior do corpo, sede das faculdades racionais e espirituais, é que deve participar no trabalho, e só ela permite atingir a serenidade de espírito que produz o verdadeiro iniciado (BOUM, 292). Pensou-se também, com alguma razão, que o papel protector do avental se estendia a determinados cenlroS subtis do ser humano. Daí o triplo simbolismo do avental: pessoa dcdicada ao seu trabalho, pertença a um meio de trabalho, protecção contra os riscos do trabalho. Os aventais de ossadas são documentos já quase desaparecidos; são frequentemente substituídos, no Tibete e na África, por simples aventais de tecido com pinturas brancas sobre um fundo preto representando ossos. Sob a forma de trapézio que termina num cinto de pano, o avental de ossos humanos para feiticeiroé uma das seis peças do material mágico tântrico (punhal, faca sacrificial, flauta mágica, tambor de crânios, crânio-vasilha ou boca, avental de ossos). De noite, eles emitiriam raios de luz. Os fragmentos de ossos, quadrados ou com a forma de medalhões, são por vezes esculpidos: figuras, máscaras, flores. etc.; outras vezes são intercalados com contas de material semi precioso, vermelhas, verdes, azuis (TONT, 18). Talvez este avental simbolize uma protecção contra as reacções dos mortos ou a intervenção requeri da dos mortos para preservar de contactos nocivos e de se ficar manchado durante os actos sagrados. Voltamos assim a um símbolo de protecção. Mas também pode ser que o feiticeiro que usa o avental queira, ao fazê-lo, associar os mortos ao seu trabalho e captar o poder  mágico encerrado nas ossadas, Aproximamo-nos, aqui, do primeiro valor simbólico do avental, o que está ligado ao trabalho.

AVESTRUZ
No Egipto, a pena de avestruz era um símbolo de justiça, de equidade, de verdade. Os Antigos viam a origem deste significado no facto de as penas de avestruz terem todas o mesmo comprimento: mas isto tem pouca importância. A pena de avestruz erguia-se sobre a cabeça da deusa Maat, deusa da justiça e da verdade, que presidia à pesagem das almas; servia também de peso justo na balança do julgamento. Tal como a deusa de que é emblema, a pena de avestruz significa a ordem universal fundada sobre a justiça. As penas de avestruz, com as quais eram confeccionados os enxota-moscas dos faraós e dos altos dignitários, simbolizavam o dever essencial das suas funções: observar a justiça. Nas tradições africanas, entre os Dogons, povo de agricultores cujo sistema simbólico é todo ele lunar e aquático, o avestruz substitui por vezes as linhas onduladas ou as sequências de ziquezagues que simbolizam os caminhos da água. Nestas representações, o seu corpo é pintado com círculos concêntricos e ziguezagues. Segundo M. Griaule, o andar em ziguezague, característico desta ave, às curvas como se fosse um curso de água, explicaria esta interpretação (GRID).

AVIÃO
Actualmente, vemos com frequência que os automóveis e os aviões substituem, nos sonhos contemporâneos, os animais fabulosos e os monstros do tempos antigos (C. G. Jung). Ao conteúdo simbólico do automóvel, o avião vem acrescentar o da levitação”, Já não se trata de um cavalo, mas sim do Pégaso. Dir-se-á que o seu levantar voo pode exprimir uma aspiração espiritual: a da libertação do ser humano do seu Eu terreno através do acesso purificador ás alturas celestiais. Quer dizer também que a viagem de avião, pelo menos na sua fase ascendente – e é raro que o sonhador, neste caso, se veja a descer de novo à terra -, conduz a um êxtase que não deixa de ter uma analogia com a pequena morte (ou orgasmo). Portanto, o psicanalista atribuirá muitas vezes a estes sonhos uma coloração sexual. Mas a sua análise é evidentemente mais complexa e cheia de matizes. O aparecimento do avião nos sonhos é, evidentemente, recente, mas frequente. Embora pertença ao mundo moderno, o avião parece, tal como a ave, ilustrar uma das grandes aspirações do homem, que é a de se poder lançar nos ares. E neste sentido que o avião está um pouco para o Pégaso como o automóvel para o cavalo. O sonhador pode encontrar-se dentro do avião ou vê-lo a voar no céu. No primeiro caso, liberta o homen da gravidade que o amarra à terra sobre a qual se arrasta. No segundo caso, adquire o aspecto quase mágico das forças que vêm do Além . Evoca, então, os poderes cósmicos do Inconsciente colectivo, face aos quais o Eu consciente mede a sua impotência. O avião pertence ao domínio do ar” e materializa uma força deste elemento. É o domínio das ideias, do pensamento, do espírito . O avião é também assimilado ao Dragão” ou aos raios de Zeus*. O sonhador encontra-se no interior do avião: então o avião adquire um simbolismo invidual. A personalidade lança-se na imensidão livre. Sente-se independente e,mesmo permanecendo no domínio da Terra-Matéria, lança-se para o Céu-Espiritual. Simultaneamente rápido, delicado no seu mecanismo e difícil de manejar, o avião faz lembrar o comportamento na vida, que se assemelha a uma grande aventura iniciática. O dirigir bem exige uma competência e um auto-domínio que permitam evoluir nos espaços infinitos. O avião toma autónomo, independente, rápido e permite ir aonde o piloto quer com toda a liberdade e quase instantaneamente. Por vezes o avião em que o sonhador se encontra é pilotado por outra pessoa, aspecto complexado de si mesmo, que domina o sonhador. Mas esta personagem pode representar também o analista ou, ainda, o Si- -Mesmo que conduz a evolução. Se o sonhador ou o piloto se entregam a acrobacias, estas podem ser muito boas ou perigosas do ponto de vista espiritual. Denotam indecisão ou inconstância no dinamismo, um gosto excessivo pelo risco e a tentação da desmedida. Estar num avião onde não se tem o direito de estar: esta situação indica que o sonhador enveredou erradamente por uma conduta, objectiva ou subjectiva, de vida que não tem o direito de adoptar; sugere também um privilégio proibido. Falta de combustível, como já se disse, pode significar uma deficiência da libido; talvez haja também uma atonia psíquica. Se um avião com demasiada sobrecarga não consegue levantar ou voa com dificuldade, significa que impedimenta (bagagens pesadas) obstruem o psiquismo e impedem o processo de levantar voo: ilusões, falsos valores, pseudo obrigações, saber intelectual, projecções, fixações inconscientes, ideias fixas, inquietações, revolta, sentimentalismo, apetites, etc. Temos de deitar fora o lastro para nos podermos elevar. O avião, visto pelo sonhador no seu aspecto puramente mecânico, indicará, como no caso do automóvel, um comportamento demasiado exclusivo da função do pensamento, do intelecto, do aspecto puramente mecânico ou técnico da existência ou da análise. Dois aviões chocam um com o outro ou num combate aéreo revelam pensamentos de tendências opostas que chocam com violência em nós c se destroem mutuamente, dilacerando-nos psicologicamente. Há um choque de contrários. Aviões a voarem no céu revelam forças espirituais, potências cósmicas percebidas no nosso espaço psíquico e a libertarem-se. No elemento água, estas forças vivas são os peixes. A queda de um avião que se projecta no solo mostra uma atitude demasiado intelectual ou demasiado espiritualista, de tendência utópica; demasiado afastada do terrestre, esta atitude desfaz-se ao contacto com as realidades materiais da existência. Os ideais retomam brutalmente o contacto com as sólidas realidades concretas. O choque é doloroso. Ao sonhador pode também faltar o sentido do real (compare-se com o mito de Ícaro*). Existe uma colisão entre o espírito e o instinto. Os pólos são demasiado opostos. A antiga personalidade, à qual faltam as bases para a elevação espiritual, desmorona-se; mas, se a experiência for assumida, uma nova partida terá lugar sobre bases novas, tendo também em conta tanto o mundo de baixo como o mundo de cima. Bombardeamcnto por um avião: da retaguarda dos planos psíquicos surgem aviões ameaçadores. O inconsciente negligenciado ataca, a fim de que se tenha em conta o seu poder. Erige-se em Zeus lançador do relâmpago” e de raio”, A acção simbolizará as tendências do inconsciente para se libertarem da pressões do meio, uma vontade de libertação.

AZEITE (Óleo)
O uso ritual e sacrificial do azeite é característico dos povos mediterrânicos e do Próximo Oriente, e mais precisamente de todas as sociedades no seio das quais a oliveira”, fornecendo iluminação e alimento, ocupa o lugar de eleição que todos conhecem. Partindo deste duplo uso, o azeite é símbolo de luz e de pureza, ao mesmo tempo que de prosperidade. No norte de África e, segundo parece, em toda a tradição mcditerrãnica, as mulheres fazem libações de azeite sobre altares de pedra bruta; os homens deitam azeite na relha do arado”, antes de o enfiarem na terra. Trata-se, em todos estes casos, de uma oferenda ao Invisível (SERP, 120). Símbolo da força untuosa e fertilizante, de cor solar, o azeite assim oferecido atrai, ao mesmo tempo que introduz o seu símbolo, a fecundidade sobre o sulco aberto. A relha untada que penetra no solo talvez signifique também a doçura, a marca de uma reverência quase sagrada, do contacto com a terra, que preside a este rito da fecundação e que simboliza a união dos sexos. Materializando a ideia de uma família de culturas, o azeite toma-se um sinal da bênção divina, símbolo de alegria e de fraternidade (Deuteronômto, 34, 24; Salmo 45, 8 e 133, 1-2). No entanto, 110S ritos de unção, o simbolismo é mais profundo. Os reis de Israel eram ungidos, e o azeite conferia-lhes então autoridade, poder e glória da parte de Deus, que era, de resto, reconhecido como sendo o verdadeiro autor da unção. É por isso que o azeite é visto como um símbolo do Espírito de Deus (l Samuel, 16, 13; Isaías, 11,2, onde se recordará que se trata do rei futuro). Do facto de o ungido ser como que introduzido na esfera do divino deduz-se que os homens não devem pôr-lhe a mão em cima (I Samuel, 24,7.11; 26, 9). Provavelmente foi este velho fundo de crença que se perpetuou na expressão popular francesa c ‘est un huile, que serve para designar uma personalidade importante, fora do vulgar, que será melhor não ofender. Podemos recordar aqui que o vocábulo hebraico para ungido deu, em transcrição, o Messias, e que a sua tradução grega é: Christos. Jesus é visto, portanto, como o rei esperado, sem que se possa excluir totalmente, a priori, qualquer alusão a um ministério sacerdotal e profético. Porém, como ele não tinha recebido, evidentemente, um azeite de unção material, o caminho estava aberto para uma espiritualização: o Espirito Santo, que o azeite simbolizava, é concedido a Jesus plenamente, como por unção iLucas, 4, 18). E, como o cristianismo primitivo relaciona imediatamente o dom do Espírito e o baptismo (Actos, 2, 38; 9, 17 s), chega-se muito rapidamente à instituição de um rito baptismal de unção efectiva com azeite (ou óleo) (Hipólito, Tradição apostólica, 22; Tertuliano, Tratado do Baptismo, 7).
E é assim que o azeite, apresentado no alfa e no ómega da vida (rito da extrema-unção) acaba por desempenhar no mundo cristão um papel excepcionalmente sacralizante; o que é resumido perfeitamente pelo comentário do Pseudo-Dlonísio Areopagita: após a saudação, o pontífice lança os óleos sobre o defunto. Ora, recordareis que, no sacramento da regeneração, antes do santo baptismo, e quando o iniciado se despojou totalmente das suas vestes antigas, a sua primeira participação nas coisas sagradas consiste na unção dos santos óleos; e, no termo da vida, são também os santos óleos que são lançados sobre o defunto. Pela unção do baptismo chama-se o iniciado para a /iça dos santos combates; o azeite derramado sobre o defunto significa que ele concluiu o seu caminho e pôs fim às suas gloriosas lutas (PSEO, 151-152). Por outro lado, a consistência fluida do azeite faz com que ele seja considerado na mitologia xintoísta como uma imagem da lndlferenclação primordial: as águas originais são de azeite. Não é de admirar, pois, que a Ciência Hermética tenha, ela também, atribuído um papel simbólico maior ao azeite. Presente logo no início da vida e no seu termo, eis que o azeite se torna igualmente, para Claude de Saínt-Martin, um símbolo de Inço intermediário, enquanto elemento de uma Grande Obra alquímica, na qual o vinho e o trigo eandial são o enxofre e o mercúrio. O azeite, diz ainda, é composto de quatro substâncias elementares que lhe dão relações activas com os quatro pontos cardeais. Pela sua própria natureza, o azeite lixaria e deteria as influências exteriores, o que é um outro aspecto do seu papel purificador e protector.

AZEVICHE
Na bacia do Mediterrâneo (Itália, Egipto), e na Índia, o amuleto de azeviche, assim como o de coral, protegia do mau-olhado. Nas ilhas Britânicas, o azeviche afastava as tempestades, os demónios, os venenos, as possessões, as doenças enviadas pelos feiticeiros e as mordeduras de serpentes. As mulheres irlandesas, quando os maridos se ausentavam, queimavam azeviehe, betume muito inflamável, a fim de garantirem a sua segurança (BUDA, 316). Segundo Marbode, por subfutnigação, o azeviche facilita as regras das mulheres … Crê-se que é contrário aos demónios … Vence as magias e anula os encantamentos; é, dizem, a pedra de toque da virgindade (GOUL, 208). Em qualquer dos casos, o azeviche, pedra* negra e reluzente, intervém como símbolo tutelar, protegendo de todos os malefícios invisíveis.

AZUL
O azul é a mais profunda das cores: nele o olhar penetra sem encontrar qualquer obstáculo e perde-se no infinito, como que perante uma perpétua fuga da cor. O azul é a mais imaterial das cores: a natureza apresenta-o geralmente como feito de transparência, isto é, de vazio acumulado, vazio do ar, vazio da água, vazio do cristal ou do diamante. O vazio é exacto, puro e frio. O azul é a mais fria das cores, e, no seu valor absoluto, a mais pura, excepto o vazio total do branco neutro. Destas qualidades fundamentais depende o conjunto das suas aplicações simbólicas. Aplicada a um objecto, a cor azul suaviza, abre e desfaz as formas. Uma superficie pintada de azul já não é uma superfície, um muro azul deixa de ser um muro. Os movimentos e os sons, bem como as formas, desaparecem no azul, confundem-se com ele, esvaem- -se nele como uma ave no céu. Imaterial em si mesmo, o azul desmaterializa tudo o que se liga a ele. É o caminho do infinito, onde o real se transforma em imaginário. Acaso não é o azul a cor da ave da felicidade, o pássaro azul, inacessível e no entanto tão próxima? Entrar no azul é um pouco como Alice no País das Maravilhas: passar para o outro lado do espelho. Claro, o azul é o caminho do devaneio, e quando escurece, de acordo com a sua tendência natural, torna-se o caminho do sonho. O pensamento consciente vai então deixando pouco a pouco o seu lugar ao inconsciente, da mesma forma que a luz do dia se vai tornando insensivelmente a luz da noite, o azul da noite. Domínio, ou melhor, clima da irrealidade – ou da super-realidade imóvel -, o azul resolve em si mesmo as contradições, as alternâncias tal como a do dia e da noite – que dão ritmo à vida humana. Impávido, indiferente, em nenhum outro lugar sem ser em si mesmo, o azul não é deste mundo; sugere a ideia de eternidade tranquila e altaneira, que é sobre-humana – ou inumana. O seu movimento, para um pintor como Kandinsky, é simultaneamente um movimento de afastamento do homem e um movimento dirigido unicamente para o seu próprio centro que, no entanto, atrai o homem para o infinito e desperta nele o desejo de pureza e uma sede de sobrenatural (KANS). Daí que se compreenda quer o seu importante significado meta físico, quer os limites da sua utilização clínica. Um ambiente azul acalma e tranquiliza, mas, ao contrário do verde, não tonifica, pois não fornece mais do que uma evasão sem apoio no real, uma fuga que, a longo prazo, deprime. A profundidade do verde, segundo Kandinsky, dá uma impressão de repouso terrestre e de contentamento consigo mesmo, enquanto que a profundidade do azul tem lima gravidade solene, supraterrena. Esta gravidade remete para a ideia da morte: as paredes das necrópoles egípcias, sobre as quais se destacavam em ocre e vermelho as cenas do julgamento das almas, eram geralmente revestidas de um reboco azul claro. Disse-se também que os Egípcios consideravam o azul como a cor da verdade. A Verdade, a Morte e os Deuses andam juntos, e por isso o azul celeste é também o limiar que separa o homem dos que governam, do Além, seu destino. O azul sacralizado – o azul-celeste – é o campo elíseo, o útero através do qual penetra a luz dourada que exprime a sua vontade: Azul e Ouro, valores feminino e masculino, estão para os uranianos como o Sinople e Goles estão para os ctonianos. Zeus e Javé estão sentados no trono’ com os pés sobre o azul, isto é, sobre o outro lado desta abóbada celeste, que na Mesopotâmia diziam ser feita de lápis-lazúli e da qual a simbólica cristã fez o manto que cobre e vela a divindade (PORS). De azul com três flores de lis douradas era o brasão da casa de França que proclamava assim a origem teologal, supra-terrena, dos Reis Cristianissimos. O azul manifesta, juntamente com o vermelho e o ocre amarelo, as Hierogamias ou as rivalidades entre o céu e a terra. Sobre a imensa estepe asiática, que nenhuma vertical interrompe, o céu e a terra desde sempre estiveram face a face; o seu casamento preside também ao nascimento de todos os heróis da estepe: segundo uma tradição não extinta, Gcngiscão, fundador da grande dinastia mongol, nasceu da união entre o lobo e a corça selvagem. Lobo azul é também Er Toshtük, herói da gesta quirguiz, que usa uma armadura de ferro azul e segura na mão um escudo e uma lança azuis (BORA). Os leões azuis, os tigres azuis, que abundam na literatura turco-mongol, são também atributos cratofânicos de Tangri, pai dos Altaicos que reside acima das montanhas e do céu, e que, com a conversão dos Turcos ao Islão, se transformou em Alá. No combate entre o céu e a terra, o azul e o branco aliam-se contra o vermelho e o verde, tal como é muitas vezes testemunhado pelo iconografia cristã, principalmente nas suas representações da luta de São Jorge contra o dragão. Em Bizâncio, as quatro equipas de carros que se enfrentavam no hipódromo usavam o vermelho ou o verde, de um lado, o azul ou o branco do outro. Tudo leva a crer que estes jogos da Roma do Oriente se revestiam de um significado religioso e cósmico tão elevado como o dos jogos de bola que na mesma altura praticavam os Meso-amcricanos. Tanto uns como outros constituíam um teatro sagrado onde se representava a rivalidade entre o imanentc e o transcendente, entre a terra e o céu. Na nossa história houve também combates bem reais e mortíferos, nos quais cada um dos lados em confronto usava também as mesmas cores emblcmáticas, em nome do direito divino e do direito humano que cada um pretendia encarnar: por exemplo, os insurrcctos da Vcndcia eram azuis, os revolucionários do Ano II eram vermelhos, e estas são também as cores políticas que ainda hoje se defrontam em todo o mundo. A expressão sangue azul é também explicada por um leitor: Na Idade Média, blasfemar era um pecado mortal, e os camponeses nunca se arriscavam a isso, mas os senhores não o evitavam, até que 11111 dia UII1 jesuíta, favorito do rei, os proibiu de usar o nome de Deus nas suas blasfémias predilectas. Eles contornaram esta dificuldade substituindo Deus por Azul (em francês, Dieu por Bleu, palavras com a mesma terminação). E foi assim que «par la mort de Dieu» (pela morte de Deus) se transformou em «morblcu», «Sacré Dicu» (Santo Deus) se transformou em «sacroblcu », «Par Dicu» (Por Deus) transformou-se em «parbleu». «Par le sang de Dieu» (Pelo Sangue de Deus) transformou-se em «palscmbleu». etc… A criadagem, que muitas vezes só entendia esta última imprecação, retinha apenas «sang blcu» (sangue azul). Como o uso destas imprecações era um privilégio da nobreza, para distinguir UI11 nobre de UI11 plebeu os criados diziam: «Aquele é U111 sangue azul!» (P. G. Voilleneuve Saint-Georges). O azul e o branco, cores marianas, exprimem o desprendimento em relação aos valores deste mundo e movimento da alma liberta em direcção a Deus, isto é, em direcção ao ouro que virá ao encontro do branco virginal, durante a sua ascensão no azul celeste. Volta- -se a encontrar aqui, valorizada positivamente pela crença no Além, a associação dos significados mortuários do azul e do branco. Quando se promete vestir uma criança de azul ou de branco, é porque se trata de impúberes, isto é, não ainda sexuadas, não ainda plenamente materializadas; não pertencem realmente a este mundo; e por isso responderão mais facilmente ao apelo azul da Virgem. Ora, o signo da Virgem, na roda zodiacal, corresponde à estação das colheitas, altura em que a evolução primaveril já terminou e vai ceder o lugar à ínvolução outonal. O signo da Virgem é um signo centrípeta como a cor azul, que vai despojar a terra do seu manto verde, despi-la, dessecá-la. É o momento da festa da Assunção da Virgem-Mãe, que se realiza sob um céu sem véus no qual o ouro solar se faz fogo implacável e devora os frutos maduros da terra. Este azul é, no pensamento dos Astecas, o azul turquesa, cor do Sol, a que eles chamam Píncipe de Turquesa (Chalchihuitl); era um sinal de incêndio, de seca, de fome, de morte. Mas Chalchihuitl é também a pedra verde-azul, a turquesa, que ornamentava a veste da deusa da renovação. Quando um príncipe asteca morria, antes de incinerá-lo colocavam uma destas pedras no lugar do coração; assim como no Egipto punham um escaravelho de esmeralda no coração do faraó defunto, antes de o mumificarem. Nalgumas regiões da Polónia, subsiste o costume de se pintar de azul as casas das jovens casado iras. Segundo a tradição hindu, a face de safira de Meru – a do Sul – reflecte a luz e tinge de azul a atmosfera. Luz, de que já falámos a propósito da amendoeira*, a morada de imortalidade da tradição judaica, que também é chamada Cidade azul. No Budismo tibetano, o azul é a cor de Vairocana, a Sabedoria transcendente, da potencialidade – e simultaneamente da vacuidade, de que a imensidão do céu azul é, aliás, uma imagem possível. A luz azul da Sabedoria do Dharma-dhâtu (lei, ou consciência original) é de uma potência ofuscante, mas é ela que abre a via da Libertação. O azul é a cor do yang, a do Dragão geomântico, daí as influências benéficas, Huan (azul), cor do céu obscuro, longínquo, evoca, como se disse atrás, a morada da imortalidade, mas também, se o interpretamos segundo o Tao-te king (cap. 1), o não-manifestado. O carácter antigo estaria em relação com o desenrolar do tio de um duplo casulo, o que faz lembrar o simbolismo da espiral -. As línguas célticas não têm um termo específico para designar a cor azul (glas, em bretão, assim como em galês e em irlandês, signitica azul ou verde, ou até mesmo cinzento, conforme o contexto, e, quando é indispensável a distinção, utilizam-se substitutos ou sinónimos. Glesum é, em celta antigo latinizado, o nome do âmbar* cinzento). O azul é a cor da terceira função, produtora e artesanal. Mas nos textos irlandeses e galeses da Idade Média já não parece ter valores funcionais comparáveis aos do branco* e do vermelho”, No entanto, César narra (De Bello Gallico) que nalgumas cerimônias as mulheres dos Bretões pareciam nuas, o corpo coberto de cor azul; c um ancestral mítieo dos Irlandeses chama-se Goedel Glas, Goedel, o Azul: é o inventor da língua gaélíca (assimilada ao hebraico). (OGAC 7, 193-194). A linguagem popular, que é uma linguagem terrestre por excelência, não acredita realmente em sublimações do desejo c por isso só vê perda, falta, ablação e castração onde outros vêem uma mutação e um novo ponto de partida. Assim, o azul adquire, na maioria das vezes, um significado negativo. O medo metafisico toma-se um medo azul; por isso na França diz-se só vejo azul quando se quer dizer não vejo nada. Na Alemanha, estar azul significa perder a consciência por causa do álcool. O azul, em certas práticas aberrantes, pode mesmo significar o cúmulo da passividade e da renúncia. Por isso, uma tradição das prisões francesas exigia que o invertido efeminado tatuasse o seu membro viril com uma carapuça uniforme azul, a fim de exprimir que renunciava à virilidade. No oposto do seu significado mariano, o azul exprimia, aqui, também uma castração simbólica; e a operação, a imposição deste azul; à custa de um longo sofrimento, testemunhava um heroísmo ao contrário, não masculino, mas sim feminino, não sádico, mas sim masoquista.