Símbolos-B

B

Dicionário de Símbolos Letra B

Dicionário de Símbolos Letra B

 

BAAL e BELIT
Casal de deuses adorados pelos Semitas, Baal como deus do furacão e da fecundidade, Belit como deusa da fertilidade, sobretudo agrária. Os profetas judeus, que anunciavam em Javé um Deus de uma concepção mais elevada, opuseram-se a estes cultos antigos que renasciam incessantemente e que celebravam até à exacerbação e monstruosidade a sacralidade da vida orgânica, as forças elementares do sangue, da sexualidade e da fecundidade. O culto de Baal chegou a simbolizar a presença ou o retomo periódico, em qualquer civilização, de uma tendência a exaltar as forças instintivas. O culto de Javé realçava a sacralidade de lima forma mais integral, santificava a vida sem desencadear as forças elementares …, revelava lima economia espiritual na qual a vida do homem e o seu destino se outorgavam novos valores; facilitava uma experiência religiosa mais rica, uma comunhão divina mais pura e mais completa (ELlT, 17).

BABEL (Torre de; ver Casa de Deus)
A Torre*de Babei simboliza a confusão. A própria palavra Babei provém da raiz BII, que significa confundir. O homem presunçoso eleva-se exageradamente, apesar de lhe ser impossível ultrapassar a sua condição humana. A falta de equilíbrio arrasta a confusão nos planos terreno e divino, e os homens já não se entendem: já não falam a mesma língua, quer dizer, já não há entre eles o mínimo consenso, pensando cada um em si mesmo e tomando-se a si próprio como um Absoluto. A narrativa bíblica situa-se no fim dos capítulos sobre as origens da humanidade e precede a história, mais circunstanciada, menos mitológica e mais cronológica, dos patriarcas. Forma uma espécie de conclusão, no termo desta primeira fase da história da humanidade, que se caracterizou por uma constituição progressiva de grandes impérios e de grandes cidades. É singular o facto de ser um fenómeno social e uma catástrofe social a marcarem o fim deste período (Génesis, 11, 1-9, texto citado no vocábulo Torre”; veja-se também Zigurate*). Poder-se-ia dizer que a confusão babélica é o castigo da tirania colectiva que, à força de oprimir o homem, faz explodir a humanidade em fracções hostis. Sem contestar de forma alguma a intervenção divina nesta catástrofe, poder-se-ia pensar que a teofania de Javé não exclui a interpretação simbólica B segundo a qual Javé seria também, neste caso, uma manifestação de justiça imanente, uma expressão da consciência humana revoltada contra o despotismo de uma organização de tendência totalitária. Uma sociedade sem alma e sem amor está votada à dispersão; a união só poderá vir de um novo princípio espiritual e de um novo amor. É o castigo de uma falta colectiva, observa R. de Vaux, que, como a dos primeiros pais, é também umafalta de imoderação. A união só será restaurada em Cristo salvador: milagre das línguas no Pentecostes (Actos, 2, 5-12), assembleia de nações no céu (Apocalipse, 7, 9-10; 14-17), (BIBJ, I, 107). A antítese da Torre de Babel, com a sua incompreensão e a sua dispersão, é com efeito esta visão apocalíptica da sociedade nova governada pelo Cordeiro”, bem como o dom das línguas no Pentecostes.

BABILÓNIA
No plano dos símbolos, a Babilónia é a antítese da Jerusalém celeste e do Paraíso. No entanto, de acordo com a etimologia, Babilónia significa: porta do deus. Mas o deus sobre o qual se abre esta porta”, embora numa determinada altura tenha sido procurado nos céus, no sentido do espírito, perverteu-se em homem e naquilo que no homem existe de mais vil, o instinto de dominação e o instinto de luxúria, erigidos em absoluto. Esta cidade é tão magnifica, escrevia Heródoto, que não há no mundo uma cidade que se lhe possa comparar. A sua cintura de muralhas, os seus jardins suspensos figuravam entre as sete maravilhas do mundo. Tudo foi destruido, pois tudo assentava em valores unicamente temporais. O símbolo da Babilónia não é o de um esplendor condenado pela sua beleza, mas sim o de um esplendor viciado que se condenou a si próprio ao desencaminhar o homem da sua vocação espiritual. A Babilónia simboliza o triunfo passageiro de um mundo material e sensível, que exalta apenas uma parte do homem e, por conseguinte, o desintegra. Nalguns textos irlandeses, a Babilónia simboliza o paganismo, visto como muito mau, e é nela onde as crianças de Callatin (Fomoire*) vão fazer a sua aprendizagem da magia, a fim de matarem o herói Cuchulainn. O simbolismo não é diferente do da Babilónia dos textos bíblicos, ao qual claramente obedece (CELT, 7, passim).

BACANTES
As Bacantes ou Ménades, as furiosas. as impetuosas; mulheres apaixonadas por Dioniso” e entregues com fervor ao seu culto, por vezes até ao delírio e à morte. Quanto aos Gregos, pode-se ler sobre este tema a tragédia de Eurípides, As Bacantes, e quanto aos Romanos, a descrição dramática de Tito Lívio (XXIX, 8-19). As suas estranhas práticas, espalhadas ao longo de toda a bacia mediterrânica, receberam o nome de «orgia» ou menadismo. Algumas cenas não poderiam deixar de lembrar as famosas descrições médicas da histeria. Em muitos aspectos, o delírio das Bacantes, com os seus movimentos convulsivos e espasmódicos. a flexão do corpo para trás, o descaimento e a agitação da nuca. faz lembrar as afecções neuropáticas, perfeitamente descritas hoje em dia. que implicam o sentimento da despersonalização, da usurpação do Eu por uma pessoa estranha. aquilo que é precisamente o entusiasmo dos Antigos. isto é. a possessão (SECG, 292). Simbolizam a embriaguez de amar, o desejo de ser penetradas pelo deus do amor, bem como a irresistível influência desta loucura, que é como uma arma mágica do deus (JEAD).

BAÇO
No Ocidente, e também no mundo árabe, o baço é relacionado com o humor, c mais particularmente com o riso, que se supõe provocado por uma dilatação do baço. É a consequência de concepções fisiológicas pouco conformes com as da medicina moderna. Na China, o baço é considerado como um entreposto de energia yin, terrestre. Corresponde ao sabor doce e à cor amarela, que é habitualmente a do centro. Entretanto, o sistema de correspondências é bastante complexo: a energia essencial é localizada no baço no equinócío da Primavera; o Houg-fan, por seu lado, faz corresponder o baço ao elemento Madeira e à Primavera, portanto à cor verde (CHAT, CORT, GRAP). Mas, em qualquer dos casos, é um símbolo de versatilidade, como os humores mutantes.

BÁCULO
Símbolo da fé, da qual o bispo é o intérprete. A sua forma de gancho, semicírculo ou círculo aberto, significa o poder celeste aberto sobre a terra. a comunicação dos bens divinos, o poder de criar e recriar os seres. O báculo do bispo ou do abade é o emblema da sua jurisdição pastoral: por isso, é também um símbolo de autoridade, de uma autoridade de origem celeste. Deve ser relacionado com o bastão” do pastor. O gancho com que termina permite puxar para o rebanho a ovelha desgarrada.

BAIXIO (ver Simplégades)

BALANÇA
A balança é conhecida como símbolo da justiça, da medida, da prudência e do equilíbrio, porque a sua função corresponde precisamente à pesagem dos actos. Associada à espada, a balança continua a ser a Justiça, mas duplicada pela Verdade. No plano social, trata-se de emblemas da função administrativa e da função militar, que são as do poder real, e que na Índia caracterizam a casta dos Xátrias. É por isso também que na China a balança é um dos atributos do Ministro, desta vez associada a um torno de oleiro. Presente nas lojas das sociedades secretas chinesas, a balança significa o direito e a justiça. Na cidade dos Salgueiros. pesamos tudo com exactidão, o que pode adquirir um interesse muito particular, se recodarmos que a cidade dos Salgueiros corresponde ao Invariável Meio. A balança como símbolo do Julgamento é apenas uma extensão da acepção precedente da Justiça divina. No antigo Egipto, Osíris pesava as almas dos mortos; na iconografia cristã, a balança é segurada por São Miguel, o Arcanjo do Julgamento; a balança do Julgamento é também recordada no Alcorão; no Tibete, os pratos da balança destinada à pesagem das boas e das más acções dos homens são enchi dos, respectivamente, de pedras brancas e de pedras pretas. Na Pérsia, o anjo Rashnu, colocado junto de Mitra, pesa os espíritos sobre a ponte do destino; um, vaso grego representa Hermes a pesar as almas de Aquiles e de Pátroclo. Abrangendo as noções de justiça e, também, de medida e ordem, a balança, para os Gregos, é representada por Témis, que rege os mundos de acordo com uma lei universal. Em Hesíodo, ela é filha de Urano (o céu) e de Gaia (a terra), e portanto da matéria e do espírito, do visível e do invisível. Na Illada, aparece também como um símbolo do destino, como o testemunha o combate de Aquiles e Heitor: Ei-los que regressam às fontes pela quarta vez. Desta vez, o Pai dos deuses ostenta a sua balança de ouro; nela coloca as duas deusas da morte dolorosa. a de Aquiles e a de Heitor. o domador de éguas; depois. pegando nela pelo meio. levanta-a, e esse é o dia fatal de Heitor que, pelo seu peso. afaz descer e desaparece no Hades. Então. Febo ApoIo abandona-o (/líada, 22, 208-213). A noção de destino implica a de tempo vivido, e por isso compreender-se-á que a balança seja igualmente o emblema de Saturno ou Cronos. Juiz e executor, este último mede a vida humana, e mantém também a balança, em equilíbrio ou não, entre os anos, as estações, os dias e as noites. Poder-se-à sublinhar aqui que o signo zodiacal da balança é atingido no equinócio do Outono; no equinócio da Primavera começa o do Carneiro; nestas datas, o dia e a noite estão em equilíbrio. Da mesma forma, os movimentos dos pratos da balança, como os do sol no ciclo anual, correspondem ao peso relativo do yin e do yang, do escuro e da luz, o que sem variação simbólica notável nos reconduz da Grécia à China clássicas. A flecha ou ponteiro, quando os pratos estão em equilíbrio (cquinócio), ou a espada que se identifica com ela, é o símbolo do Invariável Meio. O eixo polar que o representa termina na Ursa Maior, que a antiga China chamava a Balança de Jade. Por vezes, entretanto, os dois pratos da Balança celeste eram representados pela Ursa Maior e pela Ursa Menor. O texto do ritual das sociedades secretas acrescenta que a Balança da cidade dos Salgueiros é magnífica e brilhante como as estrelas e as constelações, das quais ela é, efectivamente, o reflexo, junto do eixo cósmico. Além disso, o nome sânscrito da Balança (tula) é o mesmo que o da Terra Santa primordial, situada na hiperbórea*, isto é, no pólo (ver Tule*). A balança é, ainda, o equilíbrio das forças naturais, de todas as coisas feitas para serem unidas (Devoucoux), e cujos símbolos antigos eram as pedras oscilantes. Equilibrando as coisas e o tempo, o visível e o invisível, compreende-se que a ciência ou o domínio da Balança seja familiar ao hermetismo e à alquimia: esta ciência é a das correspondências entre o universo corporal e o universo espiritual, entre a Terra e o Céu (veja-se o Livro das Balanças, de Jabir ibn-Hayyân). E esta balança (mizân) é transfcrida pelo csoterismo islâmico até para o plano da linguagem e da escrita, a balança das letras que estabelece a mesma relação das letras com a linguagem c a das coisas que ela designa com a sua natureza essencial. Levar o fiel de tais balanças à horizontal é, sem sombra de dúvida, atingir a suprema Sabedoria (CORT, CORJ, DEVA, EVAB, GUEM, SOUJ). Em O Livro dos Mortos egípcio, podemos ver a Psicostasia*, a pesagem das almas: nos pratos da balança, deum lado temos o vaso (que significa o coração do morto), do outro, a pena de avestruz (que significa a justiça e a verdade). A balança simboliza a justiça, o peso comparado dos actos e das obrigações. A balança aparece muitas vezes nas sepulturas cristãs. O pensamento judaico-cristão retoma este tema segundo o sentido dado na Antiguidade. Muitos autores bíblicos aproximam a~ noções de bem e de verdade da noção de balança. E o caso de Job, 31, 6-7: Que Deus me pese na balança justa e reconhecerá a minha integridadel, O bem significa o que é equilibrado no exterior e no interior. No pensamento judaico, os demónios aparecem sempre privados de poder em relação ao que é equilibrado. O conhecimento é uma ciência exacta e rigorosa: é pesado na balança. Este sentido aparece num texto do Eclesiástico: Escuta-me, mel/filho, e aprende a sabedoria: Eu desvendar-te-el uma doutrina pesada na balança e far-te-ei conhecer lima ciência exacta. Esta medida rigorosa, voltamo-la a encontrar tanto na ordem do conhecimento como na pesagem das almas ou dos metais. O equilíbrio simbolizado pela balança indica um retorno à unidade; isto é, à não-manifestação, pois tudo o que é manifestado está sujeito à dualidade e às oposições. O equilíbrio realizado pelos pratos fixados um frente ao outro significa, portanto, o lado de lá dos conflitos, que pertencem ao espaço-tempo, à matéria. E a partir do centro da balança e da fixidez do ponteiro que as oposições podem ser encaradas como aspectos complementares. Na Cabala, diz-se que antes da criação a balança estava no mais Antigo dos dias. Enel, comentando este texto, dirá que antes da manifestação do acta que pôs em marcha a Criação, o Indefinido tinha formado no seu pensamento o seu desdobramento, que devia gerar todas as divisões consecutivas, até às da célula. Com os seus dois pratos, a balança representa este desdobramento.

Balança (signo do zodíaco: 23 de Setembro – 22 de Outubro)
Ao entrar neste signo, o Sol está no ponto que marca o meio do ano astronómico. A sua passagem do hemisfério Norte para o hermisfério Sul marca o equilíbrio entre o edificio construído e as forças que preparam a sua ruína, bem como o dos dias e das noites. É representado por uma balança com o seu ponteiro e os seus dois pratos. Este ponto do justo meio em torno do qual tudo oscila testemunha o balanço entre o crepúsculo de um Outono exterior e a aurora de uma Primavera interior. Neste ponto central, à mesma distância em que se igualam os dois pratos do motor e do freio, do impulso e da contenção, da espontaneidade e da reflexão, do abandono e do medo, do apelo e do recuo perante a vida, vemos sobretudo como as forças contrárias se neutralizam. Dele surge um mundo da média, da medida, dos semitons, das cores suaves e dos matizes. É um universo de refinamento que nós vemos apresentar-se na simbólica do elemento Ar, de natureza subtil. O meio aéreo da Balança está para o dos Gémeos como o lugar do coração está para o lugar do espírito. O Eu coloca-se face a um outro diferente de si, de igual valor, introduzindo o diálogo afectivo do tu e eu. O signo das Festas galantes é, aliás, colocado sob a regência de Vénus, a cuja assistência Saturno contribui com uma nota de desprendimento e de espirítualização. Trata-se da Vénus Afrodite das rosas de Outono, deusa da beleza ideal, da graça da alma, das Núpcias sagradas; e, igualmente, das serenatas e minuetos.

BALEIA
O simbolismo da baleia está ligado ao mesmo tempo ao de entrada da caverna e ao de peixe”, Na Índia, é o avatar vixnuano do peixe que guia a arca sobre as águas do dilúvio. No mito de Jonas, a própria baleia é que é a arca: a entrada de Jonas na baleia é a entrada no período da obscuridade, intermediário entre dois estados ou duas modalidades de existência (Guénon), Jonas no ventre da baleia é a morte iniciática. A saída de Jonas é a ressurreição, o novo nascimento, como o demonstra de forma particularmente explícita a tradição islâmica. Com efeito, nun, a vigésima nona letra do alfabeto árabe, significa também peixe”, e em particular a baleia. É por isso que o profeta Jonas, Seyidna Yunus, é chamado Dhun-Nun, Na Cabala, a ideia de novo nascimento, no sentido espiritual, está ligada a esta letra nun. A própria forma da letra, em árabe (a saber, a parte inferior de uma circunferência, um arco encimado por um ponto que nos indica o centro) simboliza a arca* de Noé a flutuar sobre as águas. Esta semicircunferência representa igualmente uma taça* que pode, sob certos aspectos, significar o útero. Considerada deste modo, isto é, enquanto elemento passivo da transmutação espiritual, a baleia representa num certo sentido cada individualidade na medida em que contém o germe da imortalidade no seu centro. representado simbolicamente junto do coração. Convém recordar aqui a estreita relação existente entre o simbolismo da taça” e o do coração”. O desenvolvimento do germe espiritual implica que o ser emergia do seu estado tndividuado e do meio cósmico a que pertence. da mesma forma que o regresso de Jonas à vida coincide COI/! a sua saída do ventre da baleia … Esta saída equivale à do ser que emerge da caverna” tntciâttca, cuja concavidade é igualmente representada pela semiclrcunferênda da letra nun (GUEN, 166-168). A baleia aparece também no Alcorão (A Caverna. capo 18) com a parábola de uma viagem de Moisés, que levara consigo um peixe. Moisés vai dar à confluência de dois mares (v. 60). No cruzamento destes dois mares, no ponto onde se unificam as contradições. o peixe foge de Moisés e reencontra o seu elemento. para nele renascer para uma vida nova. O simbolismo da letra árabe, nun, e do crescente que a represente. junta-se aqui, de uma forma curiosa, ao simbolismo da cruz. representada pela junção dos dois mares. e ao do peixe, emblema de vida. o «Ictio» que foi. igualmente. para os primeiros Cristãos, um sinal de ressurreição. Não é por acaso que as orações destinadas ao serviço dos mortos têm verslculos que rimam sobretudo em «/1» (BAMC. 141). Do ponto de vista do simbolismo cosmogôníco, a tradição islâmica narra que a terra, uma vez criada, balançava sobre as águas. Deus fez descer um anjo que levantou a terra sobre os seus ombros. Para que os seus pés tivessem onde apoiar-se, Deus criou um rochedo verde que, por sua vez, estava pousado sobre o dorso e os chifres de um touro com quarenta mil cabeças e eujas patas estão sobre uma imensa baleia. Ela é de tal forma imensa que, se todas as águas dos mares se reunissem dentro de lima das suas narinas, o conjunto seria comparável a tnn grão de mostarda numa terra deserta. Tha’labi disse: Deus criou Nun; é a grande baleia. Dado que a terra assenta sobre o anjo, o anjo sobre o rochedo, o rochedo sobre o louro, o louro sobre a baleia, a baleia sobre a água, a água sobre o ar e o ar sobre as trevas, e que toda esta estrutura depende dos movimentos da baleia, Íblis, o demónio, induziu esta última à tentação, dizem, de se libertar da sua carga. Os tremores de terra são devidos aos sobressaltos da baleia. Mas ela foi dominada: Deus enviou à baleia um pequeno animal que lhe entrou numa das narinas e penetrou até ao cérebro. O grande peixe gemeu (e implorou) a Deus que permitisse ao pequeno animal sair. Mas ele continua em frente da baleia, ameaçando reentrar, de cada vez que esta se sente tentada a mexer-se (SOUS, 252-253). Tal como outros animais o crocodilo”, o elefante”, a tartaruga” também a baleia é um símbolo de apoio do mundo, um cosmóforo. A Polinésia, a África negra e a Lapónia fazem intervir a baleia nos mitos iniciáticos análogos aos de Jonas. A passagem pelo ventre dum monstro, com irequência marinho, é por vezes expressamente considerado como uma descida aos infernos. Nas costas do Vietname, os ossos das baleias encalhadas são recolhidos e transformados em objecto de culto: divindade do mar, a baleia guia os barcos dos pescadores e salva-os do naufrágio. O espírito-baleia é também um espírito auxiliador por simples extensão na passagem para a morada dos imortais. A baleia parece, portanto, desempenhar aqui um papel de psicopompo, o que não pode deixar de recordar o lugar importante que ela tem nas culturas índias da costa Oeste do Canadá (K.wakiutl, Haida, Tlingit, etc.), e principalmente as célebres máscaras de faces móveis, que representam um rosto humano no interior de uma baleia ou de qualquer outro monstro que possa ser aberto. Seja como for, o culto vietnamita atrás mencionado parece provir dos Chams, que certas tribos dizem ter vindo do mar e ter dado às costas de Anam. A tradição austro-asiática dos deuses encalhados existe também no Japão. Trata-se também, há que dizê-lo, de uma baleia maravilhosa que levou aos Montanheses sul-vietnamitas a Criança salvadora do mundo, libertadora do mal. Finalmente, símbolo do continente e, segundo o seu conteúdo, símbolo do tesouro oculto ou por vezes também da desgraça ameaçadora, a baleia encerra sempre a polivalência do desconhecido e do interior invisível; ela é a sede de todos os opostos que podem vir à existência. Por isso, também a sua massa owõidIe já foi comparada à conjunção de dois arcos de circulo que simbolizam o mundo do alto e o mundo de bai:IID. o céu e a terra.

BALOIÇO
Em todo o sueste da Ásia, o baloiço é associado aos ritos da fertilidade e da fecundidade, por causa seu movimento de alternância, que a terminologia chinesa identificaria com o do yin* e do yang*. Os Bramana chamam ao baloiço (melbor ainda, à retoiça) navio que conduz ao céu, segundo um simbolismo do movimento que se explica a si mesmo, mas que não pode deixar de evocar, pensa Mircea Eliade, um contexto xamânico.
No rito solsticial hindu do mahavrata, o Sacrificador balançava-se num baloiço evocando os trê s0- pros, prana, vyana e apana, o que poderia estar em relação com uma disciplina respiratória inspirada no Ioga. No entanto, é a aplicação particular de um simbolismo cósmico mais geral: o movimento do baloiço identifica-se com o do Sol, a que o próprio Rig-Veda chama baloiço de ouro; o ritmo do balanço é o do tempo, ciclo quotidiano e ciclo sazonal, ao mesmo tempo que é o do sopro. Ao evocar, no caso do mahavrata, o início da ascensão do yang, o jogo do baloiço é mais comummente praticado na Primavera. acompanha a renovação. Paralelamente é também símbolo de amor (utilizado nos ritos de casamento); o que uma outra interpretação, perfeitamente explícita,  associa ao ritmo do movimento do baloiço ao atravessar o pórtico. No entanto, quando se esclarece que o pórtico é um torana entrada e saída do mundo; porta do sol. este ritmo é o mesmo ritmo universal da vida e ela morte, da expansão e da reintegração, da evolução e da involução, E por isso é muito natural que um Kabirr o tenha comparado ao do samsara: Neste baloiço estão suspensos todos os seres e todos os mundos; e este baloiço nunca para de balançar. Nalgumas regiões da India, o uso do baloiço era interdito fora do campo ritual; era reservado às comunicações entre a terra e o céu, e mais particularmente à manifestação da palavra divina. Este baloiçar liga-se, aliás, aos ritos de obtenção da chuva, pois a oscilação do baloiço é um presságio claro da altura dos pratos de arroz; o seu assento pode estar decorado com makara e evocar também o domínio das águas ou o arco-íris; trata-se sempre, através do acompanhamento dos ciclos naturais e de um impulso para o céu, de atrair para o mundo a harmonia e a bênção celestes. Há sem dúvida implicações desta mesma ordem na antiga prova chinesa do baloiço, destinada, diz Granet, a pesar os talentos e, sem dúvida, as virtudes (AUBJ, GRAC). Pausânias descreve um quadro, A descida aos Infernos, no qual ele reconhece, entre outras personagens da mitologia grega, a irmã de Ariadne, Fedra, cujo corpo balo iça suspenso no ar sobre uma corda a que ela se agarra. de cada lado. com lima mão. Viu-se nesta imagem de Fedro no baloiço o sinal do suicídio da heroína – contestado – e, também, o da sobrevivência de 11mvelho rito pré-helénico. Foram. defacto, encontradas pequenas figuras mináicas feitas para serem baloiçadas. Qual seria o significado destes ritos do baloiço? Seria realmente, como SI/punha Charles Picard, lima representação do impulso em direcção ao divino? É muito diflcil de dizer. Ofacto de, numa religião em que a árvore era adorada como um símbolo de fecundidade, a deusa se baloiçar numa árvore podia ter também 11msignificado (Defradas, BEAG, 295). A atitude de Fedra viria ao encontro do simbolismo chinês da fecundidade. É isto que é confirmado por Pierre Lavedan a propósito desta baloiçar-se de Fedra: ali está o rito agrário do baloiço. Talvez ela fosse originalmente considerada como uma divindade egeia dafertilidade do solo (LAVO, 751). Por outro lado, Atenas celebrava uma festa dos baloiços. Era um rito de expiação pelo assassínio de Icário, Tendo difundido a plantação da vinha na Grécia, Icário terá dado a provar o vinho, presente de Dioniso, a uns pastores que, vendo-se ébrios e julgando-se envenenados, o teriam matado. A sua filha enforcara- -se numa árvore junto da qual se encontrava o cadáver. Atacadas de loucura, por obra de Dioniso, as jovens atenienses imitaram-na. O oráculo disse que este estado de crise fora a vingança do deus pela assassínio de Icário e o desespero da filha. Ao terem os homens desprezado o presente do deus, o vinho, o deus sentira-se ultrajado. Foi então instituída uma festa religiosa em que as jovens se penduravam nas árvores; mais tarde elas foram substituídas pelas suas imagens, discos com rosto humano, os oscilla; Roma conheceu também esta tradição (GRID, 121, 122). Encontramo- -nos, no suicídio de Pedra, com o simbolismo da morte, mas para renaseer, de acordo com as crenças agrárias baseadas nos ciclos alternados da vegetação. O rito do baloiço associa no .seu próprio significado dois símbolos: faz nascer o vento*, que fecunda o solo enviando a chuva; reúne a mulher e a árvore*, que é, também ela, símbolo de vida. Encontra-se também este rito do balo içar-se no Nepal, na Estónia, nas Índias e na Espanha como 11mchamamento ao vento, necessário para a debulha, chamamento à fecundidade do sopro (SERP, 312).

BAMBU
O bambu é, no Japão, juntamente com o pinheiro e a ameixoeira, uma das três plantas de bom augúrio. É, sobretudo, um dos elementos principais da pintura da époea Song, fortemente influenciada pelo Budismo tch’an. A pintura do bambu é mais do que uma arte: é um exercício espiritual. A rectidão inigualável do bambu, a perfeição do seu impulso em direcção ao céu, o vazio dos seus entre-nós imagem da shunyata, da vacuidade do coração simbolizam para o budista, e até para o taoísta, os earacteres e o alvo do seu modo de andar interior. Sem esquecer a evocação do seu sussurrar que foi, para alguns mestres, o sinal da Iluminação. A pintura de bambu relaciona- se com a caligrafia: é uma linguagem verdadeira, mas à qual só a percepção intuitiva tem acesso. Outros aspectos muito diferentes: o bambu é utilizado para afastar as más influências; menos, talvez, por razões simbólicas do que em função dos estalos secos que a sua madeia produz quando posta no fogo. Um espesso bosque de bambus, um obstáculo clássico, representa muitas vezes na iconografia a selva dos pecados que só pode ser atravessada pelo tigre *, símbolo do poder espiritual do Budismo. Um texto dos T’ang identifica o bambu com a serpente”, na qual ele se transforma, segundo parece, facilmente (a acepção é aparentemente benéfica). A dualidade do bambu masculino e do bambu feminino é um símbolo de ligação, de união conjugal. Encontra-se, em vários textos, a menção de bambus com três e com nove nós*: estes objectos evocam essencialmente um simbolismo numérico (BELT, CHOO, GROC). Para os Bamuns e os Bamileques, um pedaço de bambu chamado Guis (o riso) é um símbolo da alegria, da alegria simples de viver, sem doença e sem preocupação. Tanto na África equatorial como na América das mesmas latitudes, a lasca de bambu endurecida no fogo desempenha um papel civilizador análogo ao da lasca de sílcx ou de obsidiana nas culturas Iíticas, e principalmente no México. É um instrumento sacrificial e serve sobretudo aos medecine-men que realizam a circuncisão ritual. É ponta de flecha de guerra, faca e instrumento com o qual se obtém o fogo, entre os nómadas Ianomanes do Sul da Venezuela. Os seus vizinhos, os Iecuanas, aparentados com os Caraíbas, utilizamo bambu como instrumento de música sagrada: na sua língua, chama-se uana (clarinete) e repare-se que a principal festa em que este instrumento fala é chamada ua-uana; o demiurgo, ou herói civilizador invocado nesta ocasião, tem o nome de uanadji. Este uana, entendido na sua totalidade, seria para os Iecuanas a árvore cósmica ou árvore da vida, pai de Uanadji, o ancestral mítico, e por isso pai dos Iecuanas, cujos clãs têm, aliás, nomes que terminam todos em uana: Dec-uana, Iec-uana.

BANANEIRA
A bananeira não é uma árvore, mas sim uma planta herbácea, desprovida de tronco lenhoso. Os seus talos, muito tenros, desaparecem depois da frutificação. Por isso, Buda fez da bananeira o símbolo da fragilidade, da instabilidade das coisas, cujo interesse deve ser abandonado: As construções mentais são como uma bananeira, lê-se no Samyutta Nikaya (3, 142). Um dos temas clássicos da pintura chinesa é o Sábio a meditar sobre a impermanência das coisas à sombra de uma bananeira.

BANDEIRA
Símbolo de protecção, concedida ou implorada. O portador de uma bandeira ou de um estandarte” ergue-a acima da sua cabeça. Lança, de certa forma, um apelo ao céu, cria um elo entre o alto e o baixo, o celeste e o terrestre. Javé é a minha bandeira, diz o texto do Êxodo (17, 15); o que significa: Deus é a minha salvaguarda. Para os Semitas, as bandeiras dcscmpenharam sempre um papel importante. No plano cristão, a bandeira simboliza a vitória de Cristo rcssuscitado e glorioso. Toda a procissão litúrgica durante o tempo pascal e da ascensão inclui a utilização de bandeiras. Passando de Cristo para a alma, as bandeiras significam (segundo Ricardo de São Vítor, séc. XII, Sermões e Opúsculos Inéditos, texto em latim, com introdução e notas em francês de Jcan Chatillon, Paris, 1951, pp. 68, 78) o levantamento (subleva tio) e a elevação (elevatio) do espírito. Assim como a bandeira é elevada e o homem a estende acima de si, da mesma forma este tende através da contemplação para os bens celestes. Estar suspenso sobre a terra é ser-se iniciado nos segredos divinos. Este símbolo de protecção acrescenta-se ao valor do signo distintivo: bandeira de um senhor, de um general, de um chefe de Estado, de um santo, de uma congregação, de uma corporação, de uma pátria, ctc. A bandeira põe sob protecção a pessoa, moral ou física, de quem ela é a insígnia.

BANHO
A virtude purificadora e regeneradora do banho é bem conhecida e atestada, tanto no profano como no sagrado, pelo seu uso claro em todos os povos, cm todos os lugares e em todos os tempos. Podemos dizer que o banho é universalmente o primeiro dos ritos que sancionam as grandes etapas da vida, principalmente o nascimento, a puberdade e a morte, O simbolismo do banho associa os significados do aclo de imersão e do elemento água. A imersão é, para o psicanalista, lima imagem da regressão uterina. Satisfaz uma necessidade de repouso, de segurança, de ternura, de recuperação, sendo o regresso à matriz original um regresso à fonte da vida. A imersão, voluntariamente consentida, e que é uma espécie de entcrramento, é a aceitação de um momento de esquecimento, de renúncia à sua própria responsabilidade, de um «pôr-se fora de jogo», de vacuidade. Daí as suas inúmeras utilizações terapêuticas. Esta imersão intervém no tempo vivido como um hiato, uma solução de continuidade, o que lhe confere obrigatoriamente um valor iniciático. O melhor exemplo disto talvez seja o rito de entrada numa sociedade secreta extremamente fechada de feiticeiras da África central (Camarões-Gabão), segundo o qual a noviça, drogada, é sepultada durante vinte e quatro horas numa cavidade estanque preparada debaixo do leito de um ribeiro, no coração da floresta equatorial: os símbolos da floresta-ventre, da água-mãe, e do tempo que passa como a água do rio, associados ao do esconderijo uterino, formam aqui um complexo simbólico de um poder tal que as iniciadas desta confraria se esquecem praticamente do curso da sua vida anterior. Aqui a regeneração iniciática adquire plenamente o seu sentido de morte e renascimento; além disso, estes costumes, ainda em vigor nos nossos dias, embora dificilmente observáveis, lançam uma luz complementar sobre este ou aquele mito ou costume da Antiguidade clássica, ou sobre outros momentos da nossa história. Assim, para. os Gregos, estátuas de deuses e de deusas eram ritualmente mergulhadas em banhos puriticadores (Atena, Hera, etc): um banho precedia a iniciação dos Nazarenos, tal como, na Idade Média na sagração dos cavaleiros. Além de purificadora, de regeneradora, a água é também fertilizante: daí o banho ritual dos noivos, e as imersões de mulheres estéreis neste ou naquele lago ou tanque de uma fonte sagrada, prática atestada do Mediterrâneo ao Extremo Oriente ao longo de mais de três mil anos de história. O cristianismo retoma para si o costume do banho lustra!. João baptiza no Jordão. Com o baptismo cristão, matéria e espírito confundem-se no mesmo símbolo; quando São João Evangelista declara que aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois está todo limpo (JOãO, 13, 10), a mesma palavra grega tem o sentido de limpo e de puro. Esta pureza, na sua acepção cristã, não é negativa: prepara um caminho novo e fecundo. O estado obtido é vida pura, sem mistura com o princípio de morte que é o pecado: a pureza positiva não é a ausente de mácula, mas sim a vida no estado puro. A despeito de tantas tradições que estão de acordo em valorizar positivamente o banho, uma certa pudicícia cristã inverteu o símbolo, condenando o uso do banho como contrário à castidade. Temos de distinguir aqui os banhos quentes dos banhos frios. Os primeiros são considerados como uma procura de sensualidade que deve ser afastada. Esta é, precisamente, a opinião de São Jerónimo (Episl. 45, 5), que vê no banho quente um atentado contra a castidade. Os cristãos dos primeiros séculos iam alegremente aos banhos em comum. Os concílios e os Padres da Igreja insurgiram-se com violência contra um costume que eles julgavam imoral. Na Idade Média, os banhos públicos tinham a reputação de serem lugares de devassidão; por isso foram proibidos aos cristãos. Certos monges ocidentais e orientais sendo estes últimos ainda mais severos excluem não só os banhos do corpo na sua totalidade, como recusam também o uso da água. Clemente de Alexandria tinha distinguido três tipos de banhos: por prazer, para aquecer, por limpeza, ou por razões de saúde. Só este último motivo lhe parecia válido. No entanto, as mulheres pareciam-lhe autorizadas a fazer uso do banho, com a condição de que fosse pouco frequente. Santo Agostinho mostra-se mais aberto, autorizando o banho quente, na sua Regra, uma vez por mês. Pelo contrário, a imersão em água fria era recomendada como mortificação, que valia mais quanto mais gelada estivesse a água. Por isso, os biógrafos das vidas de santos pertencentes aos primeiros séculos cristãos e à Idade Média, copiando-se uns aos outros, falarão de ímersões em água gelada a fim de mortificar a carne. Notemos também que, numa certa accpção alquímica do termo, se pode entender o banho como uma purificação pelo fogo, e não pela água, tal como existe um baptismo de fogo, o dos mártires. Por último, o banho, num texto como o Tratado da Flor de Ouro, é associado ao jejum do coração (sin tchaí): a sua lavagem é a eliminação dc toda a actividade mental, a aquisição decisiva da vacuidade, o que põe o fecho do símbolo e nos leva de novo ao seu ponto de partida.

BANQUETE
O banquete ritual é quase universal. Muitas vezes é constituído por oferendas previamente consagradas: é o caso do Xintô. Milarepa cita o mesmo rito, realizado em casa do seu guru Marpa. Era também muito frequente no Taoísmo antigo. No ritual hindu, a absorção da bebida comunial pelo sacrificador chama-se beber o Soma no banquete dos deuses, que é a evidente expressão duma participação na bem-avcnturança supra-terrestre. Comer o sacrificio é uma fórmula corrente na China antiga, onde eorrespondia a um festim realizado 110 Templo dos Ancestrais. O Che-kíng relata-nos os cantos que os acompanhavam; o Tso-tchuan precisa que o festim deve servir para fazer brotar a Virtude. É também um rito de aliança e provavelmente de enfeudação (COOH, GRAD). O banquete, e mais precisamente o da Eucaristia, exprime, como se sabe, um rito comunial. Por extensão, é também o símbolo da Comunhão dos Santos, isto é, da bem-aventurança celcstial pela partilha da mesma graça e da mesma vida. De uma forma geral, é um símbolo de participação numa sociedade, num projecto, numa festa. A única cerimônia deste gênero conhecida c documentada é o banquete da resta de Samain (primeiro de Novembro). Era efectuado na capital real, Tara, ou, segundo alguns textos épicos, na capital do U1ster, Emain Macha. O princípio é, em qualquer dos casos, o mesmo: a participação é obrigatória e os vassalos juntam- se todos em tomo do rei. Nele consumia-se carne de porco (animal simbólico do deus Lug) e bebia-se hidromel ou cerveja, mais raramente vinho, bebida de soberania e de imortalidade (OGAC, 13,495 s),

BAPTISMO (Banho)
Foi dito da actividade de João Baptista no deserto: …e eram por ele baptizados no Jordão, confessando os seus pecados (Mateus, 3. 6). É aquilo a que se chamou baptismo por imersão, tal como foi praticado durante muito tempo. Este rito dc imersão é um símbolo de purificação e de renovação. Era conhecido nos meios essénios, mas também noutras religiões (que o associavam ao ritos de passagem, principalmente de nascimento e de morte) e no Judaísmo e suas seitas. Entretanto, os editores da Biblia de Jerusalém observam a este propósito aquilo que diferencia o baptismo de João dos outros ritos de imersão: não visa uma purificação ritual. mas sim moral; não se repete e por isso adquire o carácter de uma iniciação; tem um valor escatológico, introduzindo no grupo dos que professam uma espera activa do Messias que estava para vir. e que constituem por antecipação a sua comunidade. Podemos compará-lo ao enterro simbólico, à iniciação através da pedra furada, do buraco duma árvore, duma fenda da terra. Sejam quais forem as modificações trazidas pela liturgia das diversas confissões cristãs, os ritos do baptismo continuam a ter dois gestos ou duas fases de notável alcance simbólico: a imersão e a emersão. A imcrsão, hoje em dia reduzida à aspersão, é já de per si rica de significados: indica o desaparecimento do ser pecador nas águas da morte, a purificação através da água lustral, o recurso do ser à origem da vida. A emersão revela o aparecimento do ser de graça, purificado, reconciliado com uma fonte divina de vida nova. Alguns textos irlandeses mencionam um baptismo druidico, sobre o qual nada mais se sabe, a não ser que talvez tenha existido. No entanto, é possível que o uso do termo, em textos que são todos da época cristã, seja devido apenas à atracção do vocabulário litúrgico para designar analogicamente uma lustração (ou lavagem) ritual (LERD, 53-54). A imersão ou a aspersão com uma água virgem encontra- se também nas tradições de inúmeros povos, associada aos ritos de passagem, e principalmente ao nascimento e à morte. Para os Maias Quichés, o baptismo estava ligado à história arquetípica dos Gémeos, deuses do Milho. Nas tradições funerárias destes mesmos povos, não só o morto é lavado ritualmente, como também o seu túmulo é aspergido com água virgem, o que nos pode levar a dizer que o morto, no momento de partir para a sua outra vida, é baptizado, tal como o ser vivo o é quando chega à vida (GIRP, 195-196). Com esta operação, o morto, ao receber a água viva, análoga ao sangue divino. tem a garantia de ser regenerado. Esta espécie de baptismo é também, neste caso, uma operação iniciática de regeneração. A água” primeira ou água virgem. transformada em água benta. desempenha um papel complementar ao do Fogo” nos rituais de purificação ou de regeneração. Aliás, João Baptista falará do fogo a propósito do baptismo: Eu baptizo-vos em ágl/a para vos mover ao arrependimento; mas Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de Lhe levar as sandálias. Ele baptizar-vos-á com o fogo do Espírito Santo (Mateus, 3, 11). E os exegetas observarão que o fogo. meio de santificação menos material e mais eficaz do que a água. simboliza já no Antigo Testamento a intervenção soberana de Deus e do seu Espírito para purificar as consciências (Isaías 1, 2 5). Farei passar esta terça parte pelo fogo; purificá-los-ei, como se purifica a prata. e os provarei como se prova o ouro. (ZACARIAS, 13, 9).

BAPTISMO (Banho) Foi dito da actividade de João Baptista no deserto: … e eram por ele baptizados no Jordão, confessando os seus pecados (Mateus, 3. 6). É aquilo a que se chamou baptismo por imersão, tal como foi praticado durante muito tempo. Este rito dc imersão é um símbolo de purificação e de renovação. Era conhecido nos meios essénios, mas também noutras religiões (ZACARIAS, 13, 9).
Nos primeiros séculos da nossa era, dir-se-á dos catecúmenos, não ainda baptizados, mas enviados ao martirio, que receberam o baptismo de fogo. Uma análise mais pormenorizada dos ritos católicos do baptismo faria ressaltar o rico simbolismo dos múltiplos gestos e objectos que intervêm na administração deste sacramento: imposição das mãos, insuflação, sinais da cruz, tradição do sal da sabedoria, abertura da boca e das orelhas, renúncia ao demónio, recitação do Credo, unção de diversos óleos de exorcismo, de eucaristia, colocação da veste branca e do cirio aceso. Todos os passos desta cerimónio iniciática traduzem a dupla intenção de purificar e vivificar. Revelam também a estrutura folheada do símbolo: num primeiro plano, o baptismo lava o homem da suas manchas morais e outorga-lhe a vida sobrenatural (passagem da morte à vida); num outro plano, evoca a morte e a ressurreição de Cristo: o baptizado junta- -se ao Salvador, a sua imersão na água simboliza a descida ao túmulo e a sua saída, a ressurreição; num terceiro plano, o baptismo liberta a alma do baptizado da sujeição ao demónio e introdu-lo no exército de Cristo, ao marcá-lo com o selo do Espírito Santo, pois esta cerimónia eonsagra um compromisso ao serviço da Igreja. Não opera uma transformação mágica; confere a força para se desenvolver, através da fé e das obras, no sentido do Evangelho. Toda esta liturgia simboliza e realiza, na alma do baptizado, o nascimento da graça, princípio interior de aperfeiçoamento espiritual.

BARBA
Símbolo de virilidade, de coragem, de sabedoria. Indra, o deus védico, Zcus (Júpitcr), Posídon (Neptuno), Hefesto (Vu1cano), etc., tanto os heróis como os deuses, os monarcos e os filósofos, são na sua maioria representados com barba. O Deus dos Judeus e Cristãos também. As rainhas egípcias são representadas com barba, como sinal de poder igual ao dos reis. Na Antiguidade, dava-se uma barba postiça aos homens imberbes e às mulheres que tivessem dado prova de coragem e de sabedoria. Na época céltiea, as mulheres pedem ao jovem herói Cuchulainn que cole uma barba. Na narrativa Razia dos Vacas de CooJey, os guerreiros da Irlanda recusam-se a combater contra Cuchulainn, o herói do Ulster, por ele ser imberbe. Vê-se forçado, perante aquela atitude de recusa, a fazer para si uma barba falsa, mágica, feita de ervas (WINI, 309). Os guerreiros francos são barbudos. Na Idade Média, os nove corajosos usam uma barba dourada como testemunho do seu heroísmo e da sua inspiração. No Levitico (19, 27) é recomendado aos Hebreus: não arredondareis as extremidades do cabelo e não rapareis os cantos da barba. Até ao séc, VI, Cristo é muitas vezes representado como um adolescente imberbe depois, barbudo. Os monges orientais usavam e usam ainda barba. A barba tinha, para os Semitas, uma importância muito grande. Não só era um sinal de virilidade, como também era considerada como o ornamento do rosto masculino. Por isso, era cultivada com cuidado e muitas vezes perfumada. Não tratada e descuidada, era um sinal de loucura. Segundo o uso oriental, devia-se pousar nela os lábios em sinal de respeito (I Reis, 20, 9). Cortar a barba de um inimigo ou de um visitante é cometer uma grave afronta. Quem era vítima disto escondia-se, a fim de não se expor ao ridículo até ela ter crescido de novo. Apenas num caso era permitido cortar a barba: por motivo de luto ou sofrimento; por vezes, apenas se cobria a barba em sinal de dor. Os leprosos tinham de usar um véu sobre a barba. No entanto, os sacerdotes do Egipto rapavam a barba, a cabeça e o corpo todo; Moisés exige aos Levitas serem completamente rapados na altura da sua consagração (Números, 8, 7). Apesar de os Egípcios fazerem a barba desde a origem, no entanto, assinala François Daumas, (DAUE, 582) os deuses distinguiram-se pelo uso de uma barba postiça, comprida efina. Era trançada e presa às orelhas por um fio que passava sobre aface, os reis compartilhavam este privilégio com os deuses. Com a ponta curvada para a frente, esta barba postiça parece- -se com a que ainda hoje é usada pelos dignitários de algumas tribos da África central (ver trança”).

BARCA
A barca é o símbolo da viagem, de uma travessia efectuada seja pelos vivos, seja pelos mortos. Além do costume de exporem os mortos em canoas, existem, na Melanésia, três importantes categorias de factos mágico- religiosos que implicam a utilização (real ou simbólica) de uma barca ritual: 1. a barca para expulsar os demónios e as doenças; 2. a barca que serve ao xamã indonésto para viajar no ar à procura da alma do doente; 3. a barca dos espíritos que transporta as almas dos mortos para o Além (ELIC, 127). Encontramos a barca dos mortos em todas as civilizações. Muito difundidas na Oceania são as crenças segundo as quais os mortos acompanham o Sol no Oceano, levados por barcas solares (Frobenius, citado por ELIT, 127). Na Irlanda, a barca, como tal, aparece muito pouco nos textos épieos; mas nos textos mitológicos, ela é o símbolo e o meio de passagem para o Outro Mundo (OGAC, 16, 231 s). Na arte e na literatura do Egipto antigo, era numa barca sagrada que o morto descia às doze regiões do mundo inferior. A barca vogava através de mil perigos: serpentes, demónios, espíritos do mal de longas facas. Tal como na da psicostasía=, também a sua representação comporta elementos constantes, hieráticos, rituais, que algumas variantes vêm enriquecer. No centro da imagem, desenha-se a barca solar levada pelas ondas. No seu centro, ergue-se Ra, o deus solar; o defunto está ajoelhado diante dele, em adoração. À frente e atrás da barca, Ísis e Néftis parecem indicar uma direcção com a mão esquerda levantada, enquanto a direita segura uma cruz” ansada (Ankh”), símbolo da eternidade que aguarda o viajante. Na extremidade esquerda da representação, seguido pelo deus Anúbis, com cabeça de chacal”, o guia dos caminhos, o defunto dirige-se para a barca, levando as suas entranhas numa uma. Assim como a coluna vertebral, também as entranhas têm um carácter eminentemente sagrado: elas possuem a força mágica sem a qual o morto não poderia conservar a sua personalidade e a sua consciência … Ora, cada morto deve velar particularmente para que as suas entranhas não lhe sejam de modo algum roubadas pelos espíritos malfeitores que pululam no Além. sempre em busca de força mágica (CHAM, 52). Pululam sobretudo nos caminhos líquidos do mundo subterrâneo, nos quais a barca avança em direcção ã morada definitiva do defunto, em direcção ã claridade da luz, se não tiver fraquejado pelo caminho. Por vezes a barca contém apenas um porco; trata-se do Devorador que espera pelos condenados para os devorar no inferno das maldições, onde reinam os torcionários de dedos cruéis. Por vezes, a barca é puxada ao longo das margens com a ajuda de uma corda comprida com a forma de de uma jibóia gigante, símbolo do deus que expulsava dafrente de Ra os inimigos da luz (CHAM, 70). Outras vezes, a serpente Apópis, temível encarnação de Ste, surgia das águas, em volta da barca que tentava virar. Como um dragão, Apópis lança chamas, faz redemoinhar as águas para se apoderar da alma aterrada do defundo. Se resistir a estes assaltos, a barca completará o seu percurso subterrâneo, tendo evitado os escolhos, as portas do inferno, as fauces dos monstros, para atingir a luz do Sol nascente, diante de Quéfera, o escaravelho+ de ouro, e a alma justa conhecerá as felicidades eternas. Por vezes, um escaravelho de pé dentro da barca segura um sol com as patas, como promessa de imortalidade. Compreende-se que esta riqueza de imaginação possa, tal como a a mitologia grega, prestar-se a uma interpretação psicanalítica, partindo do princípio de que a viagem subterrânea da barca solar seria uma exploração do inconsciente. No fim da viagem, a almajustilicada pode cantar: O laço está desatado. Deitei por terra todo o mal que há em mim. 6 Oslris poderoso! Acabo de nascer! Olha para mim. acabo de nascer! (citado em CHAM, 156). Para G. Bachc1ard, a barca que conduz a este nascimento é o berço redescoberto, Neste mesmo sentido, evoca o seio ou o útero. A primeira barca é, talvez, o caixão. Se a Morte foi o primeiro navegador …• o caixão, nesta hipótese mitológica, não seria a última barca. Seria a primeira. A morte não seria a última viagem. Seria a primeira viagem. Seria, para alguns sonhadores profundos, a primeira verdadeira viagem (BACE, 100). Porém, insiste Bachelard, a barca dos mortos desperta uma consciência da culpa, assim como o naufrágio sugere a ideia de castigo, a barca de Caronte vai sempre para os infernos. Não há UIl1 barqueiro da felicidade. A barca de Caronte seria também um símbolo que permanecerá ligado à indestrutivel infelicidade dos homens (BACE, 108). A vida presente é também uma navegação perigosa. Deste ponto de vista, a imagem da barca é um símbolo de segurança. Favorece tanto a travessia da existência, como a das existências. Uma auréola com a forma de barca figura geralmente por detrás da personagem de Amida nas representações japonesas; lembra aos fiéis que Amida é um passador de almas e que a sua compaixão os conduzirá para além do Oceano das dores, que são a vida neste mundo e o apego a esta vida. Talvez esta personagem budista fosse também um barqueiro dafelicidade. Na tradição cristã, a barca onde os crentes ocupam o seu lugar para vencer as ciladas deste mundo e as tempestades das paixões é a Igreja. A este propósito lembremos a Arca” de Noé, que é a sua prefiguração, Existe o prazer. diz Pascal, de estar num barco batido pela tempestade quando se tem a certeza de que ele não corre perigo.

BARSOM
Feixe de caules amarrados juntos. No antigo Irão, simboliza a natureza vegetal no momento das oferendas sacrificiais.

BASILISCO
Erva odorífera cujas folhas se julga terem poderes mágicos (são usadas na preparação da água vulnerária vermelha) e cujas flores exalam um cheiro penetrante. No Congo central, as folhas de basilisco são usadas para conjurar a má sorte e proteger dos maus espíritos (FOUC). São apropriadas para a cura de pancadas, feridas e contusões. Réptil fabuloso que matava com um simples olhar, ou apenas com o bafo, qualquer pessoa que se aproximasse sem o ter visto e ter sido ele o primeiro a ver. Teria nascido de um ovo de galo velho, de 7 ou 14 anos de idade, ovo redondo, posto no estrume e chocado por um sapo ou por uma rã. É representado como um galo com cauda de dragão ou uma serpente com asas de galo. Todo o seu simbolismo provém desta lenda. Representaria o poder real que fulmina os que lhe faltam ao respeito; a mulher devassa que corrompe os que a não a reconhecerem e que não podem, por conseguinte, evitá-Ia; e os perigos mortais da existência humana, que não são percebidos a tempo, e dos quais apenas a protecção dos anjos divinos pode resguardar: É que Ele deu ordem aos Seus anjos … Tomar-te-ão nas palmas das mãos. não aconteça ferires. nas pedras. os teus pés. Poderás caminhar por cima de serpentes e víboras, calcar aos pés leões e dragões. (Salmo 90, 12-13). A lenda acrescenta que era extremamente dificil caçar o basilisco. A única forma de o conseguir era pôr um espelho, e assim o seu terrível olhar, dotado de um poder mortal, reflectido e voltado para o próprio basilisco, matava-o: ou então, os vapores envenenados que ele lançava actuavam sobre ele, causando- lhe a morte que ele desejava provocar. Como não fazer uma aproximação com a Górgona, cuja visão era suficiente para provocar o pavor e a morte? A cabeça da Medusa no escudo de Atena” aniquilava, por si só, os inimigos da deusa.
Na Idade Média, pensava-se que Cristo esmagara os quatro animais citados pelo salmista e entre os quais se encontra o basilisco. Diz-se que o basilisco era utilizado na medicina e que, misturado com outros ingredientes, se tornava precioso. Na alquimia, simbolizou o fogo devastador que é prelúdio da transformação dos metais. Não será sempre a imagem da morte, que deita por terra apenas com o súbito brilho da sua foice, semelhante ao olhar do basilisco, se sobre ela não meditarmos antes, preparando-nos para ela com lucidez? Ou colocando-nos, como diz as Escrituras, nas palmas das mãos dos anjos? E por fim, não será também, para a psicanálise, uma imagem do inconsciente, temível para aquele que o ignora e dominando aquele que não o reconhece, até desintegrar e matar a personalidade? Temos de encarar e admitir o seu valor, para não nos tornarmos sua vítima.

BASTÃO
O bastão aparece na simbólica sob diversos aspectos, mas essencialmente como arma e, sobretudo, como uma arma mágica; como apoio da caminhada do pastor e do peregrino; como eixo do mundo. O bastão reveste-se de todos estes sentidos na iconografia hindu: arma nas mãos de muitas divindades, mas sobretudo de Yama, guardião do sul e do reino dos mortos; o seu danda desempenha um papel de sujeição e de punição. Em contrapartida, nas mãos de Vamana, o Anão, avatara de Vlxnu, o danda é um bastão de peregrino*; nas mãos do brâmane, diremos que é o eixo. Os bastões de Ninurta fustigam o mundo e assemelham-se ao raio. O cajado do pastor reaparece no báculo do bispo, que Segalen sublinha dizendo que o balanceio do seu andamento ritual é a transcrição esplêndida e caduca do dos príncipes pastores, nas pastagens antigas. Apoio ao andar, mas também sinal de autoridade: o bordão do pastor e o bastão de comando. O khakkhara do monge budista é apoio ao andar, arma de defesa pacifica, sinal de uma presença: tomou-se símbolo do estado monástico e arma de exorcismo; afasta as influências perniciosas, liberta as almas do inferno, amansa os dragões e faz brotar as fontes: bastão do peregrino e varinha* da fada. Na China antiga, o bastão, e principalmente o bastão de madeira de pessegueiro*, desempenhava um papel muito importante: servia, na altura da chegada do novo ano, para a expulsão das influências nefastas. Vi, o Arqueiro, foi morto por um bastão de madeira de pessegueiro. O bastão, principalmente o bastão vermelho, servia para a punição dos culpados. Há sempre bastões vermelhos justiceiros na hierarquia das sociedades secretas. Entre os taoistas, os bastões de bambu* com 7 ou 9 nós* (números dos céus) eram de utilização ritual corrente. Chegou-se a dizer que os DÓscorrespondem aos graus de iniciação. Seja como for, estes bastões fazem lembrar o brama-danda hindu, cujos sete nós representam os setes chacras, rodas ou lôtus da fisiologia ioga, que marcam os graus da realização espiritual. Os mestres eelestes taoístas são muitas vezes representados com um bastão vermelho na mão. Este bastão é nodoso, pois deve representar os sete ou os nove nós que, noutros termos, simbolizam as sete ou nove aberturas que o iniciado tem de passar antes de atingir o conhecimento. Adquirido este conhecimento, ser-lhe-à então possível subir ao céu, através de outros tantos graus, sentado neste bastão segurado no bico de um grou. A lenda das feiticeiras da Idade Média que se dirigem ao Sabá montadas num cabo de vassoura”, não deixa de ter certa analogia com esta viagem do Tao, embora a diferença seja imensa no signo que se relaciona com este mesmo símbolo. De uma forma geral, o bastão do xamã, do peregrino, do mestre e do mágico são símbolo da MONTADA invisível, veículo das suas viagens através dos planos e dos mundos. O bastão tomou-se, nas lendas de feitiçaria, a varinha mágica graças à qual afada transforma a abóbora em carruagem e a rainha má em sapo (SERH, 139). Os bastões têm também um simbolismo axial, tal como a lança*. Em volta do brama-danda, Eixo do mundo, enrolam-se, em sentido inverso, duas linhas helicoidais, que fazem lembrar os dois nadi (nagas) tântricos em volta do eixo vertebral, susbumna, e o enroseamento das duas serpentes em volta de um outro bastão, do qual Hermes fez o caduceu*. Exprime- -se assim o desenvolvimento das duas correntes contrárias da energia cósmica: É preciso citar ainda o bastão ou vara de Moisés (Exodo, 7, 8 a 12), transformando- se em serpente, e depois voltando a ser outra vez bastão. Esta é, segundo algumas interpretações, a prova da supremacia do Deus dos Hebreus; para outras, é o símbolo da alma transfigurada pelo Espírito divino; alguns autores viram igualmente nesta alternância bastão-serpente um símbolo da alternância química: solve et coagula (Burckhardt). Outras associações de bastão e serpente: os bastões de Esculápio e de Hígio, emblemas da medicina, e que representam as correntes do caduceu, as correntes da vida fisica e psíquica. Evocam o outro bastão de Moisés, que se tornará a serpente de bronze e uma prefiguração da Cruz redentora (BURN, ELlF, FAVS, GRAD, GUET, MALA, MAST, SEGS, SOYS). O bastão é considerado também como símbolo de tutor, mestre indispensável na iniciação. Servir-se do bastão, para fazer avançar o animal, não significa fustigar seria deturpar o verdadeiro sentido do bastão, mas sim apoiar-se nele: o discípulo avança apoiando- -se nos conselhos do mestre (HAMK). . Apoio, defesa, guia, o bastão torna-se ceptro, simbolo de soberania, de poder e de comando, tanto na ordem intelectual e espiritual como na hierarquia social. O bastão, sinal de autoridade e de comando, não era reservado apenas, na Grécia, aos juizes e aos generais, mas também, como marca de dignidade, a alguns mestres do ensino superior, pois sabemos que os professores, encarregados de explicar os textos de Homem, usavam um bastão vermelho (cor reservada aos heróis) quando interpretavam a Ilíada e um bastão amarelo (como signo das viagens etéreas de Ulisses no mar celestial), quando falavam da Odisseia O bastão de marechal é o signo supremo do comando: O rei, ao delegar o seu poder, dá o bastão ao marechal de França; o Grão- Juiz dá a vara ao meirinho; o amo, a sua varinha ao mordamo; os porteiros de um palácio representam os seus senhores com o bastão. Nos funerais dos reis de França, quando as exéquias terminavam, o Grão-Mestre de cerímónias gritava três vezes: «O rei morreu!» enquanto partia o seu bastão no joelho. O bastão é igualmente sinal da autoridade legitima que é confiada ao chefe eleito de um grupo. O bastonárto, antigamente, era um chefe eleito que levava, nas procissões, o bastão ou a bandeira de uma confraria. Do mesmo modo, o bastonário da ordem dos advogados, nas cerimónias da confraria de São Nicolau, confirmada por carta de Filipe VI, de Abril de 1342, levava o bastão de São Nicolau (LANS. B, 55-57). Recorde- se aqui. como exemplo. o báculo pastoral do bispo. transfiguração do bastão/cajado do pastor. A simbólica do bastão está igualmente relacionada com a do fogo. e, por conseguinte, com a da fertilidade e da regeneração. Tal como a lança” e o pilão”, o bastão foi comparado a um falo: as miniaturas rajaputras são, a este respeito, particularmente explícitas. O bastão faz mal, dizem alguns povos, a propósito do desejo masculino insaciado, O logo brotou do bastão, segundo uma lenda grega. Hermcs terá sido o inventor do fogo (pyreia), excepto o fogo trazido do céu por Prometeu, esfregando dois paus um contra o outro, um de madeira dura, o outro de madeira mole. Este fogo terrestre seria de natureza diferente, ctoniano, da do fogo celeste, uraniano, roubado aos deuses por Prometeu=, este último não se teria tornado telúrico, segundo o epíteto de Ésquilo, sc não tivesse descido do Olimpo dos Imortais para o meio dos homens desta Terra. Este fogo, o da centelha, o do relâmpago e do raio, é fertilizante: faz com que chova ou jorrem as nascentes subterrâneas. Batendo no rochedo com a vara, Moisés descobre uma fonte, onde o povo vai saciar a sede: Mas o povo, que lá estava, excitado pela sede que os queimava e sem água para beber, murmurava contra Moisés e dizia: «Porque nos persuadiste a sair do Egipto? Para morrermos de sede com os nossos filhos e os nossos rebanhos? Então, Moisés dirigiu esta súplica ao Senhor: «Que hei-de fazer a este povo? Dentro em pouco irão apedrejar-me». O senhor respondeu a Moisés: «Coloca-te à frente do povo, leva contigo alguns anciãos de Israel, segura na tua mão a vara com que feriste o rio, e caminha. Eu estarei diante de ti sobre o rochedo de Horeb. Baterás no rochedo e dele jorrará água, então, o povo poderá beber». ,Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel (Exodo, 17, 1-6). O sacerdote da deusa Deméter bateu no solo com um pau, rito destinado a promover a fertilidade 011 a invocar os poderes subterrâneos (SECG, 136). Certa noite, o fantasma de Agatnémnon apareceu em sonhos a CUtmenestra. Dirigiu-se para o seu ceptro, de que o seu assassino, Egisto, se apropriara. Pega nele e enterra-o no chão como se fosse um bastão. Imediatamente Clitmenestra viu elevar-se do topo deste caule uma árvore florescente, cuja sombra cobriu todo o pais dos Micénios (Sófocles, Electra, 413-415). Este bastão que reverdeceu e floresceu anuncia o regresso próximo do filho de Agamémnon, o vingador. Simboliza a vitalidade do homem, a regeneração e a ressurreição (LANS, H,59).

BEBERETE
O beberete, que Rabelais doutamente demonstrou ter precedido a sede, evoca certas obras em que a embriaguez” não é, em suma, mais do que um pretexto para exercícios de linguagem (ver álcool”) ou para abandonar-se ao sono do esquecimento. O beberete é um rito muito apreciado na China antiga, onde, tal como o banquete”, tem valor comunial e valor de aliança. O período de renovação do .ano e a vacância do calendário entre dois anos sucessivos eram ocupados com beberetes nocturnos (sete ou doze noites). O seu fim era a restauração das energias vitais, antes do início do ciclo anual e do despertar da natureza que se pretendia propiciar. Este ritual e a preocupação que o acompanha não são, aliás, exclusivos da China. Para os Montanheses do Vietname do Sul, sonhar com um beberete é sinal de chuva. O rito comunial da jarra é característico entre eles e apresenta-se como favorecendo a fertilidade (DAMS, DAUa, GRAD, GRAC). Os beberetes são rituais e obrigatórios nas festas célticas, e muito particularmente na do Samain, que abrange toda a sociedade. Bebia-se, depois do repasto, hidromel* e cerveja”, e há muitos textos que falam, sem ver neles qualquer mal, destes beberetes e da bebedeira que eles provocavam. Valha a mesma observação para o País de Gales. Na Gália, onde se gostava muito de beber vinho+ puro, à moda antiga, isto é, com alto teor de álcool, os ágapes deviam muitas vezes terminar mal. Os Irlandeses tinham a precaução de desarmar antecipadamente os convivas, o que no entanto nem sempre era suficiente para impedir totalmente as provocações e as rixas. Não parece que a embriaguez sagrada tenha sido frequente. Em todo o caso, ela existiu, não como meio de adivinhação, mas sim como meio de contatco com o Outro Mundo, de pôr-se em disponibilidade passiva sob o influxo da divindade (ver orgias*) (OGAC, 4, 216 s; 13, 481 s).

BEHEMOT
Porque se lê no capítulo XL de Job que Behemot come feno como um boi, os rabinos fizeram dele o boi maravilhoso reservado para o festim do seu Messias. Este boi é tão enorme, dizem eles, que engole todos os dias o feno de mil montanhas imensas com o qual se vem cevando desde o princípio do mundo. Ele não abandona nunca as suas mil montanhas, onde a erva que comeu de dia repousa de noite para no dia seguinte… Os Judeus prometem-se milita alegria no festim em que ele será o prato forte. Juram pela parte que lhes caberá do boi Behemot (COLD, 86). Para dizer a verdade, este boi é um hipopótamo” e, se come o feno de mil montanhas, não vive nas montanhas, mas sob o lótus e as plantas dos rios ou dos pântanos. Simboliza o animal, irracional, a força bruta. Foi apenas numa tradição posterior que passou a simbolizar uma imensa reserva de alimento que os convivas repartiriam entre si na altura dos festins solenes ou míticos.

BEIJO
Símbolo da união e da adesão mútuas que na Antiguidade assumiu um significado espiritual. No Zohar, encontramos uma interpretação mística do vocábulo beijo. A fonte do comentário deste termo é, vendo bem, o texto do Cântico dos Cântieos (1, 1). No entanto, existe uma segunda, a que provém da concepção rabinlca, segundo a qual certos justos, como Moisés, foram poupados da agonia e da morte, partiram deste mundo terreno no arrebatamento extático do beijo de Deus (VAJA, 210). A este respeito, Georges Vajda cita um texto do Zohar relativo ao beijo divino: «Que ele me beije com beijos da sua boca» Porque é que o texto utiliza esta expressão? Com efeito, beijo significa adesão de espírito a espírito. É por isso que o órgão corporal do beijo é a boca, ponto de saída e fonte do sopro. E também pela boca que se dão os beijos de amor, unindo (assim) inseparavelmente espírito a espírito. É por isso que aquele cuja alma sai ao beijar adere a um outro espírito, a um espírito do qual nunca mais se separará; esta união chama-se beijo. Ao dizer, «que ele me beije com beijos da sua boca», a Comunidade de Israel pede esta adesão inseparável de esplrito a espírito … Os comentadores do Cântico dos Cântlcos, quer se trate dos Padres da Igreja quer dos autores da Idade Média, interpretam o beijo num sentido idêntico. Para Guillaume de Saint-Thlerry, o beijo é o sinal da unidade. O Espírito Santo pode ser considerado como procedente do beijo do Pai e do Filho; a Encarnação é o beijo entre o Vcrbo e a natureza humana; a união entre a alma e Deus durante a vida terrena antecipa o beijo perfeito que será dado na eternidade. Também Bernardo de Clairvaux, no seu comentário ao Cântleo dos Cânticos, fala longamente do osculum que resulta da unitas spiritus. Só a alma-esposa é digna dele. O Espírito Santo é, dirá São Bernardo, o beijo da boca, trocado entre o Pai e o Filho, beijo mútuo de igual a igual e reservado apenas a eles. O beijo do Espírito Santo ao homem e que reproduz o beijo da Deidade trinitária não é nem pode ser o beijo da boca, mas sim um beijo que se reproduz, se comunica a um outro: o beijo do beijo, a réplica no homem do amor de Deus, a caridade de Deus tornada caridade do homem por Deus, semelhante, quanto ao objecto e ao modo do amor, à caridade que Deus tem por si mesmo. Segundo São Bernardo, o homem encontra- -se, de certa forma, no meio do beijo e do abraço do Pai e do Filho, beijo que é o Espírito Santo. O homem está assim unido pelo beijo a Deus, e por isso mesmo deificado. Enquanto sinal de concórdia, de submissão, de respeito e de amor, o beijo era praticado pelos iniciados ao Mistério de Ceres: testemunhava a sua comunhão espiritual. Num sentido idêntico, São Paulo recomenda- o (Romanos, 16, 16). Sal/dai-vos uns aos outros com um ósculo santo. Todas as Igrejas de Cristo vos saúdam. Era costume na Igreja primitiva. Inocêncio I substituiu este costume por uma placa de metal (Pax), que o celebrante beija e faz beijar dizendo Pax teeum. Esta placa, mais tarde chamada patena continua a ser usada. Existe ainda o costume de beijar as relíquias dos santos, expostas à veneração dos fiéis. Na Antiguidade, beijavam-se os pés e os joelhos dos reis, dos juízes, dos homens que tinham reputação de santidade. Beijavam-se as estátuas, a fim de implorar a sua protecção. Na Idade Média, no direito feudal, o vassalo era obrigado a beijar a mão do seu Senhor: dai a expressão beija-mão, para significar render homenagem. Nos antigos rituais da cerimónia de ordenação dos sacerdotes e da consagração das virgens, faz-se alusão ao beijo dado pelo bispo. Por razões de decência, o abraço foi suprimido no caso das virgens, e a monja mal devia tocar com os seus lábios na mão do sacerdote. Na sociedade feudal, o beijo provocava muitas dificuldades, quando era uma dama a receber ou a prestar homenagem. Símbolo de união, o beijo guardava, de facto, a polivalência, a ambiguidade, das inúmeras formas de união (DA VS).

BELEROFONTE
Na sequência de inúmeras proezas, e em particular da sua vitória sobre a Quimera*, obtida graças ao cavalo alado, Pégaso*, Belerofonte quis subir até ao trono de Zeus. Para a assembleia dos deuses, que simbolizava a lei que impõe ao homem a justa medida das suas aspirações e dos seus esforços, a tentativa de Bclerofonte significava a vaidade do homem, a evoluir em perversão dominadora sob a mais audaciosa das formas (DIES, 83- 90). Vencido, irá juntar- -se nos Infernos aos outros ambiciosos, como Ixíon; mas a sua ambição, em vez de ser colorida de sexualidade, como em Ixíon, é antes a do homem que as façanhas guerreiras e heróicas embriagaram ao ponto de o empurrarem ao desejo do poder soberano. Simboliza o exagero na ambição militar ou o poder militar querendo dominar o poder civil e tornar-se a autoridade suprema.

BÊNÇÃO
A bênção significa uma transferência de forças. Abençoar quer dizer, na realidade, santificar, fazer santo pela palavra, isto é, aproximar do santo, que constitui a forma mais elevada da energia cósmica.

BERÇO
O berço, talhado na madeira, como entre os antigos Romanos, ou simples cesto de vime, é um símbolo do seio materno, de que é a continuação imediata. Elemento de protecção indispensável, macio e quente, permanece em nós como recordação das origens, que se traduz nas saudades ineonscientes do regresso ao útero e o seu balanceio está associado à felicidade da segurança descuidada. Liga-se também à viagem; por isso, o berço tem muitas vezes a forma de uma barca ou de uma canoa. Útero que flutua ou voa, e que dá segurança na travessia do mundo.

BÉTEL(Bétele, Betle)
Conhece-se, sob o nome de bétel, um conjunto de substâncias activas utilizadas como mastigatôrto tónico e adstringente (Littré). Trata-se, no sueste asiático, de noz de areca, cal viva e folhas da trepadeira bétel, aos que se juntam, conforme o caso, tabaco e diversas plantas aromáticas. O bétel desempenhou em todos os tempos um papel de suma importância nos ritos de noivado e de casamento no Vietname: Eis umajovem noz de areca cortada em duas. Toma um bocado antes que se estrague. Se os laços de himeneu nos devem unir… escreve a poetisa Hô-Xuan-Huon (citada por G. Lebrun). O bétel é, realmente, símbolo de amor e de fidelidade conjugal, e algumas bolinhas desta preparação podem desempenhar até o papel de filtros de amor. Este simbolismo pode vir realmente do verdadeiro casamento dos elementos que constituem a preparação. E é justificado por uma bclíssima lenda segundo a qual um jovem é transformado em arqueiro e a sua mulher numa trepadeira bétel que se enrola em volta do tronco da árvore. A árvore e a trepadeira tomaram, respectivamente, o nome das duas personagens: lang e trau. O pote” de cal, por sua vez, representa o bonzo malvado de uma outra lenda, cujo ventre está também cheio de cal corrosiva que é agitada pela cspátula dos mascadores. No Vietname, ainda, a duração de uma preparação mastigatória de bétel é uma medida empírica de tempo (três a quatro minutos). Se o bétel possui qualidades higiénicas ou medicinais indiscutiveis, a Índia atribui-lhe também virtudes afrodisíacas. A caixa de bétel (tambula) é, segundo o Agní-Purana, um dos atributos de Devi. Por vezes representada sob uma f0011a cilíndrica de tampa pontiaguda, parece que é portadora de um simbolismo erótico (HUAN, LEBC, MALA, VUOB).

BÉTILO (ou Abadir)
Vocábulo de origem semita que significa casa de Deus. Trata-se de pedras* sagradas, veneradas sobretudo pelos Árabes anteriores ao Profeta como manifestações da presença divina. Eram um dos receptáculos do poder de Deus. Foi com a cabeça deitada numa pedra que Jacob recebeu em sonhos a revelação do destino reservado pelo poder de Deus à sua descendência (Génesis, 28, 11-19); erigiu, em seguida, esta pedra em monumento, aonde foram em peregrinação multidões de israelitas. A escada* que se erguia a partir desta pedra, no sonho do patriarca, simbolizava a comunicação entre o céu c a terra, entre Deus e o homem. Josué também ergueu uma pedra como testemunho do pacto firmado entre Javé e o seu povo (Josué, 24-27). É o selo da comunicação espiritual. Estas pedras que manifestam uma acção divina, espécie de teofania, de lugares de culto, transformam-se facilmente em objectos de adoração idólatra. Por isso deviam ser destruídas, segundo a ordem dada a Moisés (Levítico, 26, I; Números, 33, 52). O omphalos de Delfos, umbigo* do mundo para os Helenos, era feito, segundo Pausânias (lO, 16, 2), de pedra branca e considerava-se que estava no centro da Terra. Segundo uma tradição relatada por Varrão, o ônfalo recobriria o túmulo da serpente sagrada de Delfos, Píton*. Como umbigo, esta pedra simboliza 11mnovo nascimento e uma consciência reintegrada. É a sede de uma presença sobre-humana. A partir da simples hierofania elementar representada pos algumas pedras e por alguns rochedos – que impressionam o espírito humano pela sua solidez, pela sua durabilidade e pela sua majestada – até ao simbolismo onfálico ou meteôrlco, as pedras cultuals não cessam de significar alguma coisa que ultrapassa o homem (ELIT, 202). O nome do deus Hermes proviria, segundo uma etimologia incerta, das hermai, pedras colocadas à beira dos caminhos; estas significavam uma presença, encarnavam uma força, protegiam e fecundavam; alongadas em coluna e encimadas por uma cabeça, tomaram-se a imagem de um deus que delas recebeu o nome; a pedra era divinizada, o seu ciclo, coroado na imaginação dos homens. O culto de ApoIo também derivaria do das pedras, que foram sempre um dos sinais distintivos do deus. Nos países célticos actuais encontramos um número bastante grande de bétilos que podem ser considerados como outros tantos ônfalos locais, como centros do mundo (menir*). O principal bétilo da Irlanda, que é mal visto em todos os textos hagiográficos, foi Cromm Cruaich, a curva da colina (outro nome da pedra de Fal), primeiro ídolo da Irlanda, rodeado de outros doze, cujo culto foi destruí do pessoalmente por São Patrício que de tal forma lhes bateu com o seu báculo que eles se afundaram na terra. O bétilo de Kermaria (Morbihan), hoje desaparecido, tinha a suástica* (CELT, 1, 173 s). Uma pedra sagrada de Heliópolis, no Egipto antigo, tinha o nome de Benben. Este bétilo representava a colina primordial, a duna sobre a qual o deus Aton pousara para criar o primeiro casal. Sobre esta colina, sobre a pedra Benben, o Sol levantara-se pela primeira vez; sobre ela a fénix vinha pousar. A pirâmide e o obclisco não deixam de estar relacionados com o Benben primitivo. Este, por sua vez, está relacionado com o ônfalo e o culto fálico. Serge Sauneron e Jean Yoyotte (SOUN, 82-83) indicam que já se propôs, não sem razão, explicar o nome do benben pela raiz bn, brotar. De facto, seria interessante para o estudo das cosmogonias egípcias considerar os numerosos vocábulos egípcios em bn ou bnbn referentes quer ao brotar das águas, quer ao nascer do Sol, quer à procriação.

BÉTULA
A bétula é, por excelência, a árvore sagrada dos povos siberianos, entre os quais assume todas as funções do Axis mundi (ver eixo*, árvore*). Como pilar* cósmico, recebe sete, nove ou doze incisões que representam os níveis celestes. Na altura das cerimónias de iniciação xamânicas, a bétula é plantada no centro da iurte circular e chega ao orifico do topo, que representa a porta do Céu ou do Sol, por onde se sai do cosmos no eixo da estrela polar (ver domo*). Por vezes, a bétula é associada à Lua, e até ao Sol e à Lua: neste caso, é dupla: pai e mãe, masculino e feminino, Desempenha um papel de protecção, ou melhor, de instrumento da descida da influência celeste: daí a noção de dualidade que é, na essência, a da manifestação (ELIC, ELIM, SOUL). A bétula simboliza o caminho por onde desce a energia do céu e por onde sobe a aspiração humana para o alto. Árvore sagrada na Europa oriental e na Ásia central, simboliza, particularmente na Rússia, a Primavera e a donzela; bétula é o nome de um célebre conjunto russo de cantos e de danças composto unicamente por raparigas. Para os Selkupes caçadores, penduram- se as imagens dos espíritos protectores. na bétula dos sacrificios, próximo da casa. No mundo celta, não há qualquer indicação clara sobre o simbolismo da bétula, mas provavelmente tem um simbolismo funerário. O texto gaulês do Combate dos Arbustos (Kat Godeu) contém um verso bastante enigmático depois da descrição de um combate, ou melhor, de um massacre: o topo da bétula cobriu- -nos de folhas; transforma e muda o nosso enfraquecimento; o que talvez seja uma alusão ao costume de cobrir os despojos mortais com ramos de bétula (OGAC, 5, 115). Mas significa igualmente que a bétula é o artífice das transformaçãoes que preparam o defunto para uma vida nova. Plínio acreditava que a bétula era originária da Gália: a bétula, diz ele, fornece aos magistrados os feixes de varas temidos por todos, e aos cesteiros, os aros e as vergas necessárias para o fabrico de cestos e canastos. E acrescenta que era utilizada igualmente na confecção das tochas nupciais, vistas como talismã para o dia de núpcias (Hist. Nat., 16,30, in LANS B, 207). Em cada um dos casos, a bétula está estreitamente ligada à vida humana como um símbolo tutelar, tanto da vida como da morte.

BEZERRO
(o Bezerro de Ouro) Ídolo da riqueza. É o deus dos bens materiais posto no lugar do deus do espírito. A origem da expressão está na Bíblia: Vendo que Moisés demorava a descer do monte, o povo reuniu-se à volta de Aarão e disse-lhe: «Vamos! Façamos para nós um Deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, a esse homem que nos persuadiu a sair do Egipto, não sabemos o que lhe teria acontecido». Aarão respondeu- lhes: «Tirai as argolas de oiro das orelhas das vossas mulheres, dos vossos filhos e das vossas filhas, e trazei-mas.» Eles tiraram as argolas que tinham nas orelhas e levaram-nas a Aarão. Recebeu- as de todas as mãos, deitou-as num molde, efez um bezerro de metal fundido. Então, exclamaram: «Israel, aqui tens o teus Deus, aquele que te fez sair do Egipto». Vendo isso, Aarão construiu um altar diante do ídolo, e disse em voz alta: «Amanhã haverá festa em honra do Senhor». No dia seguinte de manhã, ofereceram holocaustos e sacrificios de acções de graças. O povo sentou-se para comer e beber, e, depois, levantou-se para dançar. O Senhor disse a Moisés: «Vai, desce, porque o povo, aquele que tiraste do Egipto, está pervertido. Desviaram-se bem depressa do caminho que lhes prescrevi. Fizeram um bezerro, um ídolo fundido, prostraram-se diante dele, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: «Israel, aqui tens o teu deus, aquele que te fez sair do Egipto». O Senhor prosseguiu: «Vejo bem que este povo é um povo de cerviz dura. Agora deixa-Me; a Minha cólera vai inflamar-se contra eles e destruí-los-eis. Mas farei de ti uma grande nação». (Êxodo, 32, 1-10). O bezerro de ouro simboliza a tentação sempre renovada de divinizar os desejos materiais, quer seja a riqueza, o prazer sensual ou o poder. O bezerro será um dos ídolos de Baal*, contra os quais os profetas se insurgirão ao longo da história de Israel (I Reis, 12,28) e da humanidade.

BIBLIOTECA
A biblioteca é a nossa reserva de saber, como um tesouro disponível. Nos sonhos a biblioteca é geralmente uma alusão aos conhecimentos intelectuais, ao saber livresco. Entretanto, nesses sonhos encontramos às vezes um velho e misterioso livro de magia, geralmente banhado de luz, que simboliza o conhecimento, no sentido pleno do termo, isto é, a experiência vivida e registada.

BICICLETA
A bicicleta aparece frequentemente nos sonhos do imaginário moderno. Evoca três características: a) meio de transporte movido pela pessoa que o usa, ao contrário dos outros veículos, que são movidos . por uma força exterior. O esforço pessoal e individual afirma-se, com a exclusão de qualquer outra energia, para determinar o movimento para a frente; b) o equilíbrio é assegurado apenas pelo movimento para a frente, exactamente como na evolução da vida exterior ou interior; c) só uma única pessoa de cada vez pode montar nela, Esta pessoa faz, portanto, de cavaleiro solitário (a bicicleta de dois assentos é a outra questão). Como o veículo simboliza a evolução em marcha, o sonhador monta no seu inconsciente e avança pelos seus próprios meios, em vez de se descontrolar por estagnação, neurose ou infantilismo. Pode contar consigo mesmo e assumir a sua independência. Assume a personalidade que lhe é própria, não estando subordinado a ninguém para ir aonde quiser. Nos sonhos a bicicleta raramente indica uma solidão psicológica ou real, por excesso de introversão, egocentrismo e individualismo que impeça a integração social: corresponde a uma necessidade normal de autonomia.

BIGORNA
Entre os Bakitaras ou Banioros (Nordeste do Congo, na zona sudanesa), a bigorna é considerada como mais uma esposa do ferreiro”. É levada para a sua choça e acolhida pela sua primeira mulher, com o ritual reservado à entronízação de uma segunda esposa; a bigorna é aspergida e realizam-se os ritos para que ela venha a ter muitos filhos (CLIM). A bigorna assemelha-se à feminilidade, ao princípio passivo, de onde surgirão as obras do ferreiro, o princípio masculino. Na Grã-Cabília, a bigorna simboliza a água, e é colocada sobre um tronco de freixo; o freixo representa a montanha, assim como a bigorna representa a água. Bater na bigorna é regar a terra (SERP, 252). Também neste caso, a bigorna aparece como um princípio passivo que deve ser fecundado. O ferreiro”, tal como o raio”, será o princípio activo e fecundante.

BINDU
O bindu (termo sânscrito: gota, símbolo do absoluto; em tibetano: Thi-gle) é materializado pelo ponto central do vajra”, É a imagem da unidade incomensurável sob a forma de ponto final da integração, assim como de ponto de partida de toda a meditação profunda. Nesta gota flamejante está compreendido um espaço infinito resplandecente do brilho de inúmeros sóis (EYTA). O bindu tem igualmente o sentido de germe e de semente. É o sêmen transmutado interiormente pelo homem. Designa o ponto de onde partem o espaço interior e o espaço exterior e no qual eles se tornam UM. E também o «Senhor além do Estado» com o corpo formado por fulgurações e que reside num Chacra* superior. Está ligado à luz azul celeste da Sabedoria do Dharmadatu, puro elemento de consciência que emana do coração de Yalrucana, o Dhyani-Buda no centro da Mandala, Procede da Vaculdade” infinita, como o espírito em que repousam todas as coisas. Este grão de luz, viva como uma estrela, é formada pela união do prana, sopro vital, da essência do nosso espírito e do princípio consciente. O seu aspecto denomina- se Felicidade; a sua natureza, claridade; a sua essência, vacuidade (Lama Guendun).

BISONTE
Tendo sido a principal fonte de alimentação e de couro para as tribos de caçadores da América do Norte, o bisonte era um símbolo de abundância e de prosperidade. Esta sua função manteve-se, mesmo depois do quase desaparecimento da espécie. É o que podemos ver ainda nos ritos dos lavradores sedentários, nos quais o bisonte é associado à espiga de milho (cerimónia Hako dos índios Pawnees).

BOCA
Abertura por onde passam o sopro, a palavra e o alimento, a boca é o símbolo do poder criador e, muito particularmente, da insuflação da alma, Órgão da palavra (verbum, logos) e do sopro (spiritus), simboliza também um grau elevado de consciência, uma capacidade organizadora através da razão. Mas este aspecto positivo, como qualquer símbolo, tem o seu reverso. A força capaz de construir, animar, ordenar e elevar é também capaz de destruir, matar, confundir e rebaixar: a boca derruba tão depressa como edifica os seus castelos de palavras. É mediação entre a situação em que um ser se encontra e o mundo inferior ou superior para o qual ela o pode levar. A boca, na ieonografia universal, é representada tanto pelas fauces do monstro como pelos lábios do anjo; ela é ao mesmo tempo a porta dos infernos e a do paraíso. Os Egípcios, quando alguém morria, praticavam um rito chamado a abertura da boca. Este rito destinava- se a tornar todos os órgãos do defunto aptos a desempenharem as suas novas funções. A operação era colocada sob os auspícios de Anúbis e praticada, no dia do funeral, num corpo cuidadosamente preparado. O sacerdote sem, especialmente qualificado, toca no rosto do defunto duas vezes com uma pequena enxó (chamada grande-de-magia) e uma vez com um formão ou com pinças (chamados os dois divinos); a seguir, abre a boca com um buril em forma de coxa de boi e um dedo de ouro. Esta cerimónia assegura ao morto a faculdade de proferir a verdade, de justificar-se diante do tribunal dos deuses (psicostasia”) e de recebera nova vida. Um disco solar colocado sobre a boca revela que a própria vida do Deus Sol, Ra, é partilhada pelo defunto. Dali em diante, ele é chamado a receber o alimento celeste (ERMR, 308; PIED, 334, 401). O Livro dos Mortos do Egipto antigo contém orações como esta: Devolve-me a minha boca para falar … Havia sociedades secretas nas quais as cerimónias de iniciação religiosa exigiam que o postulante fosse primeiro amordaçado, na presença dos dignitários; um pontífice retirava-lhe a mordaça depois de ter passado com êxito as primeiras provas. A cerimónia do encerramento da boca simbolizava a obrigação de respeitar rigorosamente a lei do arcano (do segredo), de não abrir a boca senão com a autorização da sociedade, de não difundir senão o ensinamento directamente recebido da boca dos mestres. Algumas esculturas do Sul da Gália representam umas cabeças sem boca. Quando o file (poeta-adivinho) irlandês Morann, filho do usurpador Cairpre, nasceu, o pai ordenou que ele fosse lançado à água: não tinha boca. Esta ausência de boca deve certamente estar relacionada eom a eloquência, a poesia ou a expressão do pensamento. O vocabulário céltico conhecido não permite descobrir o seu simbolismo com mais precisão. A palavra encontra-se na antroponímia e na toponímia (por exemplo, Genava, Genebra, literalmente: boca do rio) (OGAC, 7, 99). Assim como o cego é dotado de clarividência, também o homem sem boca é o orador, o poeta de uma linguagem diferente da vulgar. Ao observar que, em muitas tradições, a boca e o fogo estão associados (línguas de fogo do Pentecostes, dragões a vomitarem fogo, a lira de ApoIo, o deus-Sol, etc.), C. G. Jung vê uma ligação sinestésica, uma relação profunda entre boca e fogo. Por exemplo, ao utilizar-se tanto a expressão «boca de incêndio» como «boca de água». Estas são duas das principais características do homem: o uso da palavra e o uso do fogo. Ambas procedem da sua energia psíquica (mana). O simbolismo da boca vai beber nas mesmas fontes do simbolismo do fogo e apresenta igualmente o duplo aspecto do deus indiano da manifestação, Ágni, criador e destruidor. A boca desenha também as duas curvas do ovo primordial: a que eorresponde ao mundo de cima, com a parte superior do palato, e a que corresponde ao mundo de baixo, com o maxilar inferior. É também o ponto de partida ou de convergência de duas direcções, simboliza a origem das oposições, dos contrários e das ambiguidades.

BODE
Exactamente como o carneiro*, o bode simboliza a força genésica e vital, a libido, a fecundidade, Mas esta semelhança torna-se por vezes uma oposição: pois se o carneiro é sobretudo diurno e solar, o bode, por sua vez, é a maioria das vezes nocturno e lunar; e enfim, ele é antes de mais nada um animal trágico, pois deu, por razões que nos escapam, o seu nome a uma forma de arte: Iiteralmente, «tragédia» significa «canto do bode», e era, originalmente, o canto com que se acompanhava ritualmente o sacrificio de um bode nas festas de Dioniso. Era a este deus que o animal estava especialmente consagrado: era a sua vítima preferida (Eurípides, Bacantes, 667). Não esqueçamos que o sacrificio de uma vítima implica todo um processo de identificação. Dioniso tinha-se metamorfoseado em bode quando teve de fugir para o Egipto na altura em que Tífon atacou o Olimpo e dispersou os deuses amedrontados durante a sua luta com Zeus. Aliás, foi ter a um país onde os santuários eram erigidos a um deus cabra ou bode, e a quem os Gregos chamaram deus Pã; os hieródulos prostituíam- se com bodes. Era um rito dc assimilação das forças reprodutoras da natureza, do poderoso impulso de amor pela vida. Tal como o carneiro, a lebre* e o pardal, era consagrado a Afrodite, e servia-lhe de montada, bem como a Dioniso e a Pã, divindades que por vezes também se cobriam com uma pele de bode. A sua virtude sacrificial aparece também na Bíblia, onde o bode do sacrificio mosaico serve para expiar os pecados, desobediências e impurezas dos filhos de Israel. Imolará o bode da expiação pelo pecado do povo, e levará o sangue para o outro lado do véu, fazendo com esse sangue o mesmo que fez com o sangue do novilho: aspergi-lo-á sobre o propiciatário e diante do propiciatório (Levítico, 16, 15-16). Nada há, portanto, de espantoso que, devido a um profundo deseonhecimcnto do símbolo c a uma pcrversão do sentido do instinto, se tenha fcito tradicionalmente do bode a própria imagem da luxúria (Horácio, Epodos, 10,23). E eis o aspecto trágico. Libidinosus, diz o poeta latino deste bode lascivo que ele pretende imolar às Tempestades, como se a libido se identificasse com os dcsregramcntos sexuais e com a violência da força gcncsíaca, Nesta perspectiva, o bode, animal mal cheiroso, torna-se um símbolo de abominação, de reprovação ou, como diz Louis Claude de Saint-Martin, de putrefacção e de iniquidade. Animal impuro, totalmente absorvido pela sua necessidade de procriar, o bode não é senão um signo de maldição que adquire toda a sua força na Idade Média; o diabo, deus do sexo, é então apresentado sob a forma de bode. Nas narrativas edificantes, a presença do demónio tal como a do bode é assinalada por um cheiro forte e acre. Os bodes colocados à esquerda, na altura do juízo final, representam os malvados, os futuros condenados. Na arte, vê-se por vezes um bode à frente de um rebanho de cabras. Neste caso, pode designar os poderosos, graças ao dinheiro ou ao renome, que empurram os fracos para o mau caminho. O Satã com cabeça de bode da imaginaria cristã é, segundo Grillot de Givry (GRIA, 66-67), o Mendes do Egipto decadente, combinação do fauno, do sátiro e do egipã tende a tornar-se lima síntese definitiva da antidivindade. O bode é também, tal como a vassoura, a montada das feiticeiras que se dirigem ao Sabat, A Irlanda designa, com o termo geral de goborehlnd, cabeças de cabras (ou de bodes), um certo número de seres inferiores, feios e disformes, aparentados com a categoria, mais geral ainda, dos Fomoire*. Este triunfo do aspecto nefasto ou nocturno do símbolo faz do bode, finalmente, a imagem do macho em perpétua erecção, para o qual, para o acalmar, é preciso três vezes oitenta mulheres. É o homem que desonra a sua grande; barba de patriarca com copulações antinaturais. E aquele que desperdiça o precioso germe da reprodução. Imagem do desgraçado que se torna digno de lástima por causa dos vícios que não consegue dominar, do homem repugnante, o bode representa o ser que se deve evitar tapando o nariz. Os tabus sexuais e os grandes medos da Idade Média cristã não conseguiram, no entanto, eliminar completamente os aspectos positivos deste símbolo, como o provam inúmeras tradições populares: assim, uma tradição mediterrânica, já assinalada por Plínio e ainda recentemente atestada, atribui ao sangue do bode uma influência extraordinária e, principalmente, o poder de temperar maravilhosamente o ferro. Aliás, ele representa o animal-fetiche que capta o mal e as ini1uências perniciosas, carregando com todas as desgraças que ameaçam uma aldeia. Nas aldeias existe sempre um bode que desempenha o papel de protector; não se deve aborrecê-lo nem bater-lhe, pois ele intercepta todos os males que chegam tal como o pára-raios atrai e canaliza o raio. Quanto mais barbudo e malcheiroso ele for, mais eficiente ele é. Há sempre um outro preparado para o substituir quando ele morrer. Na África, uma lenda peul apresenta o bode com a sua dupla polaridade: como um símbolo da força gencsíaca e da força tutelar. Coberto de longos pêlos, o bode é signo de virilidade; mas um signo maléfico, pois todo o seu corpo está coberto de pêlos; torna-se então a imagem da lubricidade. A lenda africana de Kaydara descreve um bode barbudo: Ele girava em volta de um cepo, sobre o qual subia. descia e voltava a subir sem parar. A cada subida. o macho caprino ejaculava sobre o cepo. como se copulasse com uma cabra; apesar da considerável quantidade de esperma que derramava, não conseguia de modo algum deter o seu ardor viril (ver corno”, cabelos”, pêlos”), Esta lenda explica o facto de por vezes, na classificação dos seres, o bode representar uma tentativa de união entre o animal e a planta, tal como o coral fica no meio entre a planta e o animal, e o morcego liga a ave e o mamífero. Porém, é ainda a Índia védica que dá ao aspecto negativo do símbolo na Europa cristã um contrapeso suliciente, ao identificar o bode, animal do sacrificio védico, com Ágni, deus do fogo: O bode é Àgnl;o bode é o esplendor; … o bode afasta para longe as trevas … Ó bode, sobe ao céu dos homens pios; … o bode nasceu do esplendor de Ágni (Atharva Veda, 9, 5, VEDV, 263)
O bode surge como símbolo do fogo genesíaco, fogo sacrificial, do qual nasce a vida, a vida nova e santa: por isso serve de montada ao deus Ágni, o regente do Fogo. Toma-se, então, um animal solar revestido de três qualidades fundamentais, ou guna, como a cabra”, Santo e divino para uns, satânico para outros, o bode é claramente o animal trágico que simboliza a força do impulso vital, ao mesmo tempo generoso e facilmente corruptível.

BODE EXPIATÓRIO
Na Bíblia, é no Levítico que se menciona pela primeira vez o bode expiatório. Na altura da Festa da Expiação, o Grande Sacerdote recebia dois bodes oferecidos pelas personalidades mais importantes. Um era imolado, o outro recuperava a liberdade de acordo com um sorteio, mas uma liberdade entorpecida por todos os pecados do povo. Um dos bodes, mantido à porta do Tabcrnáculo, era de facto carregado com todos os pecados, e a seguir levado … para o deserto e abandonado; segundo outras versões, era atirado para um precipício. Aarão deverá oferecer o bode sobre o qual caiu a sorte para o Senhor, apresentando- o em sacriflcio pelo pecado; e o bode, sobre o qual caiu a sorte para Azazel, deverá ser apresentado vivo diante do Senhor, a fim de fazer a expiação sobre ele e ser enviado a Azazel, no deserto (Levítico, 16, 5- 10). O rito de enviar o bode a Azazel apresenta uma característica arcaica, que não é própria da legislação mosaica. Azazel é o nome de um demónio habitante do deserto, terra maldita onde Deus não exerce a sua acção fecundante, terra de relegação para os inimigos de Javé. O animal enviado não é sacrificado a Azazel; o bode enviado para o deserto, onde mora o demónio, representa unicamente a parte demoníaca do povo, o seu peso dos seus pecados; ele leva este peso para o deserto, local de castigo. Entretanto, um outro bode é verdadeiramente sacrificado a Javé, segundo um rito de transferência cxpíatória, Um bode é sacrificado a Javé pelo pecado do povo; a aspersão do seu sangue é interpretada como uma purificação. Pelo contrário, o bode expíatório, carregado com os pecados do povo, sofre a prova de ser banido, afastado, relegado; simboliza assim a condenação e a rejeição do pecado, a sua partida é uma ida sem volta. Este sentido de purificação encontrá-lo-cmos no costume segundo o qual o leproso oferecia duas aves, sendo uma delas sacrificada e a outra aspergida eom o sangue da vítima, mas imediatamente era solta, viva (Levittco, 14, 4-7). O mal é levado pelo bode expiatório; deixa de ser uma carga para o povo pecador. Um homem é chamado bode expiatôrio na medida em que carrega com as faltas de outrem, sem que seja feito qualquer apelo à Justiça, sem que possa apresentar a sua defsa e sem que tenha sido legitimamente condenado. A tradição do bode expiatório é quase universal; encontra-se em todos os continentes e estende- -se até ao Japão. Representa esta tendência profunda do homem a projectar a sua própria culpabilidade sobre outrem e a satisfazer assim a sua própria consciência, que tem sempre necessidade de um responsável, um castigo, uma vítima.

BODHISATTVA
Este termo sânscrito (em tibetano: Diang tchub sempa) significa aquele cujo espírito é desperto e que age com coragem. O Bodhisattva é o ser ideal que se deve tomar, por compaixão para com os homens, não só adepto do Mahayana como também do Vajrayana (Grande Veiculo e Veículo de Diamante). Contrariamente ao arhat (santo) que atinge a salvação graças à ascese pessoal, sem se preocupar com os outros,·o bodhísattva que venceu o Eu dedica a sua realização ao bem dos seus semelhantes; prestes a atingir o nirvana, a sua grande sabedoria e a sua infinita compaixão ditam-lhe que não deve renunciar ao mundo, onde ele renascerá. Apesar de esta realização o libertar do samsara, nele se manifesta perpetuamente para afelicidade de todos os seres (KALE). Chenrezi (Avalokitesvara), sempre jorrando luz e compaixão, é o exemplo típico do Bodhisattva. Ao realizar a recitação do seu mantra, Om mani padme hung, transmutam- se todas as aparências, todos os sons e todos os pensamentos impuros nos aspectos puros correspondentes (Kalou Rimpoché). Chenrezi, bodhisattva de compaixão, aparece muitas vezes nos thankas (tecidos pintados) de origem tibetana; surgido de um disco lunar, num lótus branco, irradia quintuplos raios de luz. Tem quatro braços; duas das suas mãos estão juntas, e as duas outras seguram um rosário de cristal e uma flor de lótus branca. Eupaumé (Amithaba), o Buda de luz infinita, coroa a sua cabeça. Muitas vezes, Chcnrczi é representado com mil braços destinados a socorrer os inúmeros seres imersos em aflições; em cada uma das suas palmas está aberto o olho da sabedoria. A origem dos seus onze rostos está ligada a uma das suas meditações sobre o sofrimento universal, cuja intensidade, juntamente com a imensidade da sua tarefa, fez rebentar a sua cabeça. Amithaba reconstituiu- Ihe dez cabeças, para que ele actuasse em todas as direcções, e acrescentou-lhe a sua, cor de laranja, no cimo. A face azul escura que ela tem mostra uma expressão de cólera terrível que indica com que violência por vezes o Bodhisattva exerce a sua compaixão, para enfrentar as forças do mal (KALE). Existe também uma figura feminina do Bodhisattva. Kurukulla, protectora do amor e divindade de submissão (originária das Índias Ocientais, onde um monte tem o seu nome), é identificada com Vénus. A Tara do Vajrayana é uma das suas manifestações pacíficas; o seu nome significa aquele que permite a passagem tal como a estrela da manhã a atravessar o céu para se tomar a estrela do pastor que vela sobre o destino dos homens e lhes permite transpor as trevas. Este Bodhisattva feminino do Vajrayana, também chamado a grande libertadora, não representa um ser exterior, mas sim um aspecto do Eu transmutado. Tal como a maior parte das divindades do budismo tântrico tibetano, também ela simboliza, portanto, uma vitória sobre o Eu, isto é, sobre a confusão que nos impele a apropriar-nos da energia de forma egocêntrica, personificação feminina da Sabedoria, Tara mantém estreitamente abraçado Amithaba, Buda de luz infinita, enquanto ele, impávido, abençoa todos os seres. Se as Tara têm uma aparência pacífica, Kurukulla é uma deusa escarlate e colérica, maravilhosa emanação do Vazio, que dança sobre cadáveres e puxa o seu arco, como Eros, para indicar totalmente o machado de guerra sem o qual nenhuma libertação é possível. É a energia pura, cercada de chamas, que procura a mais alta felicidade do amor. Os seus mais fervorosos devotos pretendem alcançar as suas boas graças. Aqui misturam-se e sobrepõem-se aspirações de salvação e intenções mágicas e eróticas (TUCK).

BOI-BÚFALO
o contrário do touro*, o boi é um símbolo de bondade, calma e força pacífica; de capacidade de trabalho e de sacrificio, escreve Devoucoux a propósito do boi da visão de Ezequiel e do Apocalipse. No entanto, este boi poderia confundir-se com um touro. Mas existem alguns aspectos simbólicos e suas interpretações que os dintinguem. A cabeça de boi do imperador Chennong, inventor da agricultura, e a de Tche-yeu parecem ser também cabeças de touro (a mesma caracter, niu, serve para designar os dois animais). O boi Ápis de Mênfis, hipóstase de Ptah e de Osíris, não será também ele um touro? A mesma palavra servia para designar todos os bovídeos, O seu carácter lunar não é, a este respeito, determinante. O boi, e mais ainda o búfalo, auxiliares preciosos do homem, são respeitados em toda a Ásia oriental. Servem de montada aos sábios, particularmente a Lao-tse, na sua viagem em direcção às fronteiras do oeste. De facto, existe na atitude destes animais um aspecto de doçura e de desprendimento que evoca a contemplação. As estátuas de bois são frequentes nos templos xintoístas. Porém, na China antiga, um boi de barro representava o frio, que se expulsava na Primavera, para favorecer a renovação da natureza; trata- -se de um emblema tipicamente yin. O búfalo é mais rústico, mais pesado, mais selvagem. A iconografía hindu faz deic a montada c o emblema de Yama, divindade da morte. Também no Tibete o espírito da morte tem cabeça de búfalo. No entanto, entre os Gelugpas seita dos Barretes Amarelos o Bodhisaftva Manjushri, destruidor da morte, é também representado com uma cabeça de búfalo. O búfalo é a representação clássica do asura (titã) Ma- Iaesha, vencido e decapitado por Candi (aspecto de Uma ou Durga). É possível que este búfalo, que gosta dos pântanos, seja relacionado com a humidade e seja vencido pelo solou pela seca. De facto, às vezes na Índia sacrifica-se um búfalo no fim da estação das chuvas. Mas o asura é representa também, na iconogratia, com forma humana e libertando-se progressivamente da forma animal decapitada; o que possui um significado de ordem espiritual. Entre as populações montanhesas do Victanme, para quem o sacrificio do búfalo é o acto religioso essencial, este animal é respeitado como um ser humano. A sua morte ritual faz dele o enviado, o intercessor da comunidade junto dos Espíritos superiores (DAMS, DANA, DEVA, EVAB, FRAL, GRAR, HERV, MALA, OGRJ, PORA). Para os Gregos, o boi é um animal sagrado. É muilas vezes imolado em sacrificio: o termo «hecatombe» significa «sacrifício de cem bois». É consagrado a determinados deuses: ApoIo tinha os seus bois, que Hcrmes lhe roubou; este último só conseguiu fazer-se perdoar pelo seu furto, por este sacrilégio, quando deu a Apoio a lira que ele tinha inventado, feita de pele e . nervos de boi esticados sobre uma carapaça de tartaruga. O Sol tem os seus bois, de uma brancura imaculada e chifres dourados; quando os companheiros de Ulisses, famintos, comem carne de boi na ilha de Trinácia, apesar da proibição do seu chefe, morrem todos; apenas Ulisses, que se absteve de comer, ‘escapa à morte. Bois sagrados eram mantidos pela família dos Búziges, destinados a comemorar o trabalho inicial de Triptólemo, na altura dos ritos da lavoura sagrada que se celebravam nos mistérios de Elêusis. Em todo o norte de África, o boi é também um animal sagrado, oferecido em sacrifieio, ligado a todos os ritos de trabalho e de fecundação da terra (GRID, SECH, SERP). Sem dúvida, devido a este carácter sagrado, das suas relações com a maioria dos ritos religiosos, como vítima ou como sacrificador (quando, por exemplo, abre o sulco na terra), o boi foi também o símbolo do sacerdote. Por exemplo, segundo uma interpretação incerta (LANS, B, 163), os bois de Gérion, o gigante de três cabeças, seriam os sacerdotes do delfismo primitivo, de que Gérion era o pontífice supremo; este teria sido derrotado e morto por Héracles; o culto délfico teria sido depois renovado. Pseudo Dionísio Areopagita resume o simbolismo do boi nestes termos: afigura do boi indica aforça e a potência, o poder de fazer sulcos intelectuais para receber as fecundas chuvas do céu. ao passo que os chifres simbolizam a força conservadora e invencível (PSEO, 242). Existe uma divindade gaulesa, Damona, guia do protector das águas termais Borvo, ou Apoio Borvo, e cujo nome contém o tema céltico que designa geralmente os bovinos, damo Mas o boi não tinha-no mundo celta, um simbolismo independente, à excepção do simbolismo cristão usual. No entanto, as lendas galesas testemunham a existência de bois primordiais. Os dois principais são os do Hu Gadarn, personagem mítica, que foi o primero a chegar à ilha da Bretanha, com a nação dos Cynry (Galeses). Antes da chegada destes últimos, na Bretanha só havia ursos, lobos, castores e bois de grandes chifres. O Lebor Gabala (Livro das Conquistas) refere-se assim, mas sem qualquer outra indicação, aos bois míticos. O boi desempenharia então um papel análogo ao do herói civilizador. (CHAB, 127-128; Myfyrian Archaeology of Wales, 400, I; OGAC, 14, 606-609).

BOLHA
A bolha de ar ou de sabão a bolha azul que o meu sopro aumenta, escreve Victor Hugo simboliza a criação leve, efémera e gratuita, que estoira repentinamente sem deixar rasto; nada mais do que a delimitação arbitrária e transitória de um pouco de ar. Nesta mesma perspectiva, o Budismo faz da imagem da anitya, a impermanência do mundo manifestado: Aquele que olha para o mundo como se olha para uma bolha de ar, lê-se no Dhammapada, nunca será capaz de ver o reino da morte. Um outro sutra garante que os fenômeas da vida podem ser comparados a um sonho, um fantasma, uma bolha de ar, lima sombra, ao orvalho cintilante, ao clarão do relâmpago … Texto que, sem dúvida, tem em vista o tratado taoista T’ai-yi kin-hua tsong thce quando ensina que, em relação ao Tao, o Céu e a Terra são uma bolha de ar e uma sombra. Não escreveu Joubert, mais próximo de nós, que o mundo é uma gota de ar? (GRIF).

BOLSA
A bolsa da vida, esta expressão enigmática (seror hahayim, em hebraicoj), só aparece uma vez na Bíblia, em I Samuel, 25, 29, no seguinte contexto: Se alguém te perseguir 011 conspirar contra a tua vida, a alma do meu senhor permanecerá na bolsa da vida junto do Senhor, teu Deus, enquanto a vida dos teus inimigos será agitada e lançada para longe, como a pedra de uma funda. A bolsa designa o lugar onde o princípio da vida é conservado, com uma conotação evidente de salvação (vcr Eclesiástico, 8, 16). Esta representação é semelhante à do Livro da vida, que aparece no Salmo 69, 29 (cf. Isaias, 4,3; Daniel, 12, 1; Apocalipse, 3, 5; 20, 12); a inscrição do nome de um indivíduo no livro equivale à sua salvação, assim como a irradiação do nome significa a sua condenação (DORH, 52). O sentido exacto desta expressão recebeu uma iluminação directa devido a uma descoberta arqueológica recente: um texto cuneiforme extraído do lugar mesopotâmico de Nuzi, o actual Yorgan-Tépé, perto de Kerkuk, utiliza o mesmo termo (a raiz s-r-r) para designar a acção de construir uma lista de contabilidade, neste caso um inventário de gado (ElSB). Este valor contabilista do termo encontra-se também nos textos bíblicos, onde exprime muitas vezes o acto de conservar o dinheiro numa bolsa (ver Génesls, 42, 35; Provérbios, 7, 20; Ageu, I, 6), ou qualquer outro género precioso num saquinho (ver Cântico dos Cânticos, I, 13: uma bolsa de mirra). Este termo está também relacionado com o costume de conservar os manuscritos enrolados dentro de um jarro, como é atestado pelas descobertas de Qumrân dos célebres manuscritos do mar Morto (VUIO). E faz-se, sem dúvida, alusão a este mesmo costume num oráculo do profeta lsaías (8, 16), que faz supor a transmissão do enslnamcnto profético, desde há muito, através duma tradição escrita, pelo menos parcial. Porém, noutros textos, onde se diz que se encerram e se põem em reserva os pecados do povo (ver Oseias, 13, 12) ou de uma pessoa (Job, 14, 17), o aspecto jurídico deste acto é claramente sublinhado: trata-se aqui de conservar as acções de uma pessoa, e que testemunharão a favor ou contra ela no dia do Juízo (CAZJ). No entanto, este tema ético representa apenas um aspecto secundário deste símbolo, cujo significado fundamental continua a ser o de protecção e salvação concedidas por Deus. Esta imagem conheceu uma longa história, desde a época bíblica até aos nossos dias, perpetuando-se através dos textos culturais e das inscrições funerárias: – entre as primeiras, um verso de Qumrân afirma a confiança total do salmista em Deus durante a perseguição. O texto exprime-se assim (I º Hôdâyôth, 2, 20): Dou-te graças, Senhor! Pois tu puseste a minha alma na bolsa da vida e tu me protegeste de todas as ciladas do Abismo. (DUPE,221) – ao passo que muitas inscrições funerárias judias, principalmente no norte da Alemanha, atestam ainda hoje a permanência deste tema de esperança em Deus, mesmo para além dos limites da existência humana (JACT, 185-186).

BOLSA DE ÁGUAS
O saco amniótico, a que normalmente se chama «bolsa de águas», apareçe como um sinal de boa sorte para o recém-nascido. E também um sinal de ordem espiritual que se manifesta sob outras formas para os adultos. O espírito é invisível e nada o pode atingir, o envolvimento significa ao mesmo tempo a invisibilidade e o espírito. Cobrir alguém com um manto é tornar esse alguém invisível e protegê-lo da infelicidade (JUNM). Da mesma forma, a bolsa protectora afirma a espiritualidade e põe-na em segurança: garante duplamente o invisível.

BORBOLETA
Nós consideramos imediatamente a borboleta como um símbolo da ligeireza e da inconstância. A ideia da borboleta a queimar-se no candeeiro não é so nossa: Como as borboletas que se precipitam para a sua morte na chama brilhante, lê-se no Bhagavad- -Gíta (li, 29) assim os homens correm para a sua perdição … Graça e ligeireza, a borboleta é, no Japão, um emblema da mulher; mas duas borboletas representam a felicidade conjugal. Ligeireza subtil: as borboletas são espíritos viajantes; a sua vinda anuncia uma visita, ou a morte de alguém próximo. Um outro aspecto do simbolismo da borboleta baseia-se nas suas metamorfoses: a crisálida é o ovo que contém a pontencialidade do ser; a borboleta que dele sai é um símbolo de ressurreição. E também, se se preferir, a saída do túmulo. Um simbolismo deste tipo é utilizado no mito de Psique+ , que é representada com asas de borboleta. E também no de Yuan-k’o, o Imortal jardineiro, cuja esposa lhe ensina o segredo o segredo do bicho-da-seda e que talvez seja ela própria um bicho-da-seda. Pode parecer paradoxal que a borboleta sirva, no mundo sino-vietnamita, para exprimir um voto de longevidade: esta identificação resulta de uma homofonia, dois caracteres com a mesma pronúncia (t’ie) que significam, respectivamente, borboleta e idade avançada, septuagenário, Além disso, a borboleta é por vezes associada ao crisântemo, para simbolizar o Outono (DURV, GUEM, KALL, OGRJ).
No Tochmare Etaine, ou Corte de Etain, narrativa irlandesa do ciclo mitológico, a deusa, esposa do deus Mider e símbolo da soberania, é transformada numa poça de água pela primeira esposa do deus, que é ciumenta. Porém, desta poça nasce, pouco tempo depois, uma lagarta que se transforma numa maravilhosa borboleta, e a que o texto irlandês às vezes chama mosca; porém, o simbolismo é eminentemente favorâveI. Os deuses Midcr, depois Engus, recolhem-na e protegem-na: E esta lagarta transforma-se depois numa mosca púrpura. Era do tamanho da cabeça dum homem, e era a mais bela que já houve no mundo. O som da sua voz e o bater das suas asas eram mais suaves que as gaitas de fole, as harpas e os cornos. Os seus olhos brilhavam como pedras preciosas na escuridão. O seu odor e o seu perfume faziam passar a sede e a fome a quem quer que ficasse perto dela. As gotinhas que ela lançava das suas asas curavam todos os males, todas as doenças e todas as pestes na casa aonde ela fosse. O símbolismo é o da borboleta, o da alma desembaraçada do seu invólucro carnal, tal como no simbolismo cristão (CHAB, 847-851), e transformada em benfeitora e bem-aventurada. Para os Astecas, a borboleta é um símbolo da alma, ou do sopro vital, saído da boca do agonizante. Uma borboleta brincando por entre as flores representa a alma de um guerreiro caído no campo de batalha (KRIR, 43). Os guerreiros mortos acompanham o Sol na primeira metade do seu percurso visível, até ao meio-dia; depois, descem à terra sob a forma de colibris ou de borboletas (KRIR, 61). Todas estas interpretações derivam provavelmente da associação analógica da borboleta com a chama, das suas cores e do bater das asas. Assim, o deus do fogo, para os Astccas, usa como emblema um peitoral chamado borboleta de obsidiana. A obsidiana*, como o sílex, é uma pedra* de fogo; sabe-se que ela forma também a lâmina das facas dos saeril1cios. O Sol, na Casa das Águias ou Templo dos Guerreiros, era representado por uma imagem dc borboleta. Símbolo do fogo solar e diurno, e, por esta razão, da alma dos guerreiros, a borboleta é também para os Mexicanos um símbolo do sol negro, atravessando os mundos subterrâneos durante o seu percurso nocturno. Por isso, é um símbolo do fogo ctoniano oculto, ligado à noção de sacrificio, morte e ressurreição. E, portanto, a borboleta de obsidiana, atributo das divindades ctonianas, associadas à morte. Na glíptica asteca, torna-se um substituto da mão, como um signo do número cinco, número do Centro do Mundo (SOUC). Um apólogo dos Balubas e dos Luluas do Kasai (Zaire central) ilustra ao mesmo tempo a analogia alma-borboleta e a passagem do símbolo para imagem. O homem, dizem eles, segue, da vida à morte, o ciclo da borboleta: na sua infância, é uma pequena lagarta, e uma grande lagarta na sua maturidade; torna- -se crisálida na velhice, e o seu túmulo é o casulo donde sai a sua alma, que levanta voo sob a forma de borboleta; a postura de ovos desta borboleta é a expressão da sua rcincarnação (FOVA). Do mesmo modo, a psicanálise moderna vê na borboleta um sím- 11010 de renascimento. Uma crença popular da Antiguidade greco-romana dava igualmente à alma que abandona o corpo dos mortos a forma duma borboleta. Nos frescos de Pompeia, a Psique é representada como uma jovem alada, semelhante a uma borboleta (GRID). Esta crença encontra- se também entre alguns povos turcos da Ásia central que sofreram uma influência iraniana e para os quais os defuntos podem aparecer de noite sob a forma de borboleta (RARA, 254).

BOSTEIRO
O simbolismo deste escaravelho é visto, na Irlanda, apenas no seu lado mau. No ciclo do Ulster, uma personagem de alto nível, Dubthaeh Doei Tenga, é também chamado Dubthach, o da língua de bosteiro, porque maneja facilmente a injúria e a sua alcunha é uma metáfora baseada na cor escura do animal. No texto da Morte dos Filhos de Tuireann, diz-se que um bosteiro rói as entranhas do rei Nuada, de quem os três médicos filhos de Diancecht (ApoIo) vêm cuidar (OGAC, 16, 233-234, CHAB, 900-907). Este bosteiro que rói as entranhas do rei pode ser entendido no sentido fisico, como a lepra, ou no sentido moral, eomo um vício. Os filhos do Apolo celta tanto são médicos da alma como do corpo (ver Escaravelho*).

BRAÇO
O braço é o símbolo da força, do poder, do socorro concedido, da protecção. É também o instrumento da justiça: o braço secular inflige aos condenados o seu eastigo. Os ombros, o braço e as mãos, segundo o Pseudo- -Dionísio Areopagita, representam o poder de fazer, de agir e de actuar (PSEO, 239). Nos hieróglifos egípcios, o braço é o símbolo geral da actividade. O deus indiano, Brama, que preside às actividades da manifestação, é representado com quatro rostos e quatro braços, para significar a sua actividade omnipresente e todo-poderosa; do mesmo modo, Ganesha*, com cabeça de elefante, deus da ciência, é representado com quatro braços. O Xiva dançante tem uma auréola de múltiplos braços. O braço é um dos meios da eficácia real enquanto impulso, equilíbrio, distribuição ou mão de justiça. O termo irlandês utilizado nos textos mitológicos designa, aliás, a mão (Iam) propriamente dita. O rei-sacerdote Nuada, que teve um dos seus braços cortado na primeira batalha de Mag Tured, não pôde reinar mais e foi substituído pelo usurpador Bres (um Fomoire*) cujo reinado foi desastroso. Os nobres da Irlanda exigiram a Bres a restituição da soberania, Nuada pôde subir ao trono depois de o médico Diancecht lhe ter feito a prótese de um braço de prata (metal real por excelência). Um relevo irlandês da época cristã representa Nuada a segurar o seu braço cortado com a sua mão válida. Uma parte do esquema mitológico encontra-se também a lenda bretã de São Mélar (ou Mc\oir) na Alta Bretanha (Ogac, 13,286-289, 58; 16,233-234, CEL T, 6,425 s), O braço, e sobretudo o antebraço com a mão estendida, é considerado pelos Bambaras como o prolongamento do espírito. Mas o cotovelo, fonte da acção, é de essência divina. No gesto elementar pelo qual o homem leva o alimento à boca, o antebraço, meio termo entre o cotovelo e o boca, simboliza o papel do espírito, mediador entre Deus e o Homem. Daí a importância simbólica do côvado*, que mede a distância do Homem a Deus. O côvado bambara mede vinte e dois dedos, número que corresponde à totalidade das categorias da criação e, por isso, representa o Universo. Por isso os Bambaras dizem que o côvado é a maior distância do mundo. Esta distância, que separa o homem do seu criador, só é coberta pelo braço, isto é, pelo espírito, porque este ter por medida o próprio número da criação (ver vinte e dois*). Um provérbio bambara diz também que a boca nunca consegue morder o cotovelo, para exprimir a qualidade transcendental de Deus (ZAHB). Este mesmo simbolismo explica o facto de, para os Bambaras, o gesto de pôr o braço para detrás das costas exprimir a submissão do homem à vontade divina. Os braços levantados significam, na Iiturgia cristã, a imploração da graça do alto e a abertura da alma às mercês divinas. A propósito do KA* egípcio, André VireI destaca o sentido fundamental do gesto: os braços; erguidos expimem um estado passivo. receptivo. E a acção corporal cedendo o lugar à participação espiritual. A abertura dos braços é. em relação à cabeça do faraô, aquilo a abertura dos chifres é em relação à cabeça do animal sagrado. Em ambos os casos, a abertura condtciona e significa a recepção das forças cósmicas: o céu do Homem participa do céu do Universo (VIRI, 133). Os braços levantados das pessoas que se rendem, prisioneiros de guerra ou criminosos presos, são, evidentemente, uma medida de precaução imposta pelo vencedor, para que o adversário não se sirva de anuas escondidas. Mas, no fundo, significam também um acto de submissão, um apelo à justiça ou á clemência: o vencido entrega-se à vontade do vencedor. Renuncia a defender-se. E o gesto próprio da rendição, do abandono. Quem o faz toma-se passivo, entregue à vontade do seu senhor.

BRANCA DE NEVE (ver Alquimia)

BRANCO
Tal como o preto, a sua cor oposta, o branco pode situar-se nas duas extremidades da gama cromática. Absoluto e sem outras variações que as que vão do fosco ao brilhantes, o branco significa ora a ausência, ora a soma das cores. Por isso às vezes coloca-se ora no início ora no fim da vida diurna e do mundo manifesto, o que lhe confere um valor ideal, assimptótico. Mas o fim da vida o momento da morte é também um momento transitório, na chame ira do visivel e do invisível, e por isso um outro ponto de partida. O branco candidus é a cor do candidato, isto é, daquele que vai mudar a sua condição (os condidatos àsfunções públicas vestem-se de branco). E, portanto, normal que, na coloração dos pontos cardeais, a maior parte dos povos tenha feito do branco a cor do Este e do Oeste, isto é, dos dois pontos extremos e misteriosos onde o Sol astro do pensamento diurno nasce e morre todos os dias. Nestes dois casos, o branco é um valor limite, assim como as duas extremidades da linha infinita do horizonte. É uma cor de passagem, no mesmo sentido em que se fala de ritos de passagem; e é, justamente, a cor privilegiada destes ritos, com os quais se operam as mutações do ser, segundo o esquema clássico de qualquer iniciação: morte e renascimento. O branco do Oeste é o branco mate da morte, que absorve o ser e o introduz no mundo lunar, frio e feminino; conduz à ausência, ao vazio nocturno, ao desaparecimento da consciência e das cores diurnas. O branco do Este é o do retorno: é o branco da alvorada, de quando a abóbada celeste reaparece, vazia de cores ainda, mas rica do potencial de manifestação, de que o microcosmo e o macrocosmo se recarregaram, como uma pilha eléctrica, durante a sua passagem pelo ventre nocturno, fonte de toda a energia. Um desce do brilho à opacidade, o outro sobe da opacidade ao brilho. Em si mesmos, estes dois instantes, estas duas brancuras, estão vazios, suspensos entre ausência e presença, entre Lua e Sol, entre as duas faces do sagrado, entre os seus dois lados. Todo o simbolismo da cor branca e dos seus usos rituais ressalta desta observação da natureza, a partir de qual todas as culturas humanas edificaram os seus sistemas filosóficos e religiosos. Um pintor como W. Kandinsky, para quem o problema das cores ultrapassava largamerite o problema da estética, exprimiu-se, sobre este tema, melhor do que ninguém: O branco, que muitas vezes é considerado como uma não-cor … é como que o símbolo de 11m mundo onde todas as cores, enquanto propriedades de substâncias materiais. se desvaneceram … O branco actua sobre a nossa alma como o silêncio absoluto … Este silêncio não está morto, transborda de possibilidades vivas … É um nada cheio de alegria juvenil ali, melhor dizendo, um nada anterior a qualquer nascimento, anterior li qnalquer começo. Talvez a Terra tenha ressoado assim. branca efria, no tempo dos glaciares. É impossível descrever melhor a alvorada. Em todo o pensamento simbólico, a morte precede a vida, sendo todo o nascimento um renaseimento. Por isso, o branco é primitivamente a cor da morte e do luto. E ainda o é em todo o Oriente, tal como o foi durante muito tempo na Europa, principalmente na corte dos reis de França. Sob o seu aspecto nefasto, o branco \ivido é oposto ao vermelho: é a cor do vampiro que procura, precisamente, o sangue – condição do mundo diurno que dele fugiu. É a cor da mortalha, de todos os espectros, de todas as aparições; a cor – ou melhor, a ausência de cor -, do anão Alberico, o Albericho dos Nibelungos, rei dosAlbos ou dos Elfos (DONM, 184). E a cor das almas do outro mundo, e isto explica o facto de o primeiro homem branco que apareceu entre os Bantos do sul dos Camarões ter sido chamado Nango-Kon o fantasma-albino que fez com que todas as populações que encontrava primeiro fugissem, e depois, já seguras quanto às suas intenções pacíficas, começassem a vir ter com ele para lhe pedirem notícias dos seus familiares falecidos, e que ele evidententcmente conheceria, pois vinha do país dos mortos … Muitas vezes, observa M. Eliade, nos ritos de iniciação. o branco é a cor da primeira fase, a da luta contra a morte (ELIC, 32). Ou melhor, diríamos nõs, a da partida para a morte. Neste sentido, o Oeste é branco para os Astecas, cujo pensamento religioso, como se sabe, considerava a vida humana e a coerência do mundo como inteiramente condicionadas pelo percurso do Sol. O Oeste, onde desaparece o astro do dia, era chamado a casa da bruma; representava a norte, isto é, a entrada no invisível. Por isso, os guerreiros todos os dias imolados para garantia da regeneração do Sol eram conduzidos ao sacrificio ornados com penas brancas (SOUM) e calçados com sandálias brancas (THOH) que, isolando-os do solo, eram suficientes para demonstrar que eles já não eram deste mundo, mas também ainda não do outro. O branco, dizia-se, é a cor dos primeiros passos da alma, antes do voo dos guerreiros sacrificados (SOUM). Da mesma forma, todos os deuses do panteão astcca, cujo mito celebra um sacrifício seguido de rcnascimento, usvam ornamentos brancos (SOUM). Por sua vez, os índios Pucblo situam o branco, pelas mesmas razões, no Este, como o confirma o facto de o Este, no seu pensamento, abranger as ideias de Outono, terra profunda e religião (MULR, 279, segundo CUSHING e TALS). Cor do Este, neste sentido, o branco não é uma cor solar. Também não é a cor da aurora, mas sim a da madrugada, esse momento de vazio total, entre a noite e o dia, em que o mundo onírico cobre ainda toda a realidade: o ser está nele inibido, suspenso numa brancura côncava e passiva; é por esta razão que é o momento das buscas, dos ataques por surpresa e das execuções das penas de morte, para a qual uma tradição ainda existente manda que o condenado vista uma camisa branca, que significa submissão e disponibilidade, tal como a roupa branca dos comungantes e da noiva que se dirige para a cerimônia do seu casamento; recebe o nome de vestido de noiva, mas seria mais correcto chamar vestido daquela que se dirige para o casamento. Uma vez efectuado o casamento, o branco cederá o lugar ao vermelho, da mesma forma que a primeira manifestação do despertar do dia sobre o pano de fundo da alvorada fosca c neutra como um lençol, será constituída peJo aparecimento de Vénus, a vermelha, Seguidamente falar- -se-á do dia de núpcias. É na brancura imaculada do campo operatório que o bisturi do cirurgião fará jorrar o sangue vital. É a cor da pureza, que não é, originariamente, uma cor positiva, manifestando que alguma coisa foi assumida, mas sim uma cor neutra, passiva, mostrando apenas que nada foi ainda realizado: este é, precisamente, o sentido inicial da brancura virginal, e a razão pela qual as crianças, no ritual cristão, são sepultadas na terra envoltas num sudário branco ornado com flores brancas. Na África Negra, onde os rituais iniciáticos condicionam toda a estrutura da sociedade, o branco de caulim branco neutro é a cor dos jovens circuncidados, durante todo o tempo do seu retiro; besuntam com eJe o rosto, e às vezes o corpo todo, para mostrar que estão momentaneamente fora do corpo social: no dia em que se reintegram como homens completos e responsáveis, o branco dos seus corpos cederá o lugar ao vermelho, Tanto na África como na Nova Guiné, as viúvas, que são provisoriamente postas fora da comunidade, cobrem o rosto com um branco neutro; simultaneamente, na Nova Guiné, cortam um dedo da mão, mutilação cujo significado simbólico é evidente: amputam- se do falo que as havia despertado na altura do segundo nascimento que fora o seu casamento, para regressar ao estado de latência, imagem da indiferenciação original, que é branca como o ovo cósmico dos órficos; e assim a sua desesperança remete-as para a espera de um novo despertar. Porque, como se vê, esta brancura neutra é uma brancura matricial, maternal, uma fonte que toque de vara deverá despertar. Dela emanará o primeiro líquido nutritivo, o leite, com um rico potencial vital ainda não expresso, repleto ainda de sonho, o leite que o lactente bebe antes mesmo de ter entreaberto os olhos para o mundo diurno, o leite cuja brancura é a brancura do lírio e do lótus, imagens também do devir, do despertar rico em promessas, em virtualidades; o leite, luz da prata e da Lua que, na sua redonda plenitude, é o arquétipo da mulher fecunda, promissora de riqueza e de auroras. Desta forma, progressivamente, dá-se uma mudança; e tal como o dia sucede à noite, assim o espírito se desperta e proclama o esplendor de uma brancura que é a da luz diurna, solar, positiva e masculina. Ao cavalo branco do sonho, portador de morte, sucedem- -se os cavalos brancos de Apoio que o homem não consegue fixar sem ficar ofuscado. . A valorização positiva do branco que se segue está igualmente ligada ao fenómeno iniciático. Não é atributo do postulante ou do candidato que avança em direcção à morte, mas sim daquele que se reergue e renasce vitorioso da prova. É a toga viril, símbolo de afirmação, de responsabilidades assumidas, de poderes tomados e reconhecidos, de renascimento concluído, de consagração. Nos primeiros tempos do Cristianismo, o baptismo rito iniciático era chamado Iluminação. E era depois de ter pronunciado os seus votos que o novo cristão, nascido para a verdadeira vida, envergava, segundo as palavras do Pseudo Dionísio, as vestes de uma deslumbrante brancura, pois, acrescenta o Areopagita, ao escapar, por lima firme e divina constância, aos ataques das paixões e ao aspirar com ardor à unidade, o que nele havia de desregrado entra na ordem, o que nele havia de defeituoso torna- se belo, e ele resplandece com toda a luz de lima vida pura e santa (PSEO, 91). Este branco positivo é, entre os Celtas, a cor reservada à classe sacerdotal: os druidas vestiam-se de branco. Exceptuando os sacerdotes, só o rei, cuja função confina com a do sacerdócio, e que é um guerreiro encarregado de uma missão religiosa excepcional, tem direito a vestes brancas. O rei Nuada tinha por metal simbólico a prata, cor real. A menos que sejam reis, todas as personagerns vestidas de branco na epopeia celta são drnidas ou poetas, membros da classe sacerdotal. Em gaulês, vindo-s, adjectivo que entra em múltiplas composições, devia significar branco e belo; no irlandês médio, find era ao mesmo tempo branco e santo: a expressão in drong Ilnd, o bando branco, era utilizada na hagiografia para designar os anjos; em britónico (gal: gwyn, bre: gwenn) a palavra significava ao mesmo tempo branco e bem-aventurado (LERD 27-28). No budismo japonês, a auréola branca e o lótus branco estão associados ao gesto do punho do conhecimento do grande Iluminador Buda, em oposição ao vermelho e ao gesto de concentração. O branco, cor iniciadora, toma-se, na sua acepção diurna, a cor da revelação, da graça, da transfiguração que deslumbra, ao mesmo tempo que desperta o entendimento e o ultrapassa: é a cor da teofanía, cujo vestígio se mantém em volta da cabeça de todos os que conheceram Deus, sob a forma de uma auréola de luz que é precisamente a soma de todas as cores. Esta brancura triunfal só pode aparecer nos pontos mais elevados. Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e levou- -os só a eles, a um monte elevado. E transfigurou-se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma sobre a terra as poderia branquear assim. Apareceu-lhes E/ias juntamente com Moisés e ambos falavam com Ele (Marcos, 9, 2-5). Elias é o mestre do princípio vital simbolizado pelo fogo, e a sua cor é o vermelho; Moisés, segundo a tradição islâmica, está associado ao foro íntimo da pessoa, eujo cor é o branco, o branco oculto da luz interior, luz do sirr, o segredo, o mistério fundamental no pensamento sulista. Encontra-se também entre os Sufistas a relação simbólica entre o braneo e o vermelho. O branco é a cor essencial da Sabedoria, vinda das origens e vocação do futuro do homem; o vermelho é a cor do ser misturado com as obscuridades do mundo prisioneiro dos seus entraves; assim é o homem sobre a terra, arcanjo purpurado. Branco, eu SOIl-Oem verdade; eu sou um Sábio muito antigo cuja essência é luz … Mas eu também sou projectado no Poço escuro … Observa o crepúsculo e a alvorada … é um momento intermédio; um lado virado para o dia, que é brancura, outro lado virado para a noite, que é negrura; daí a púrpura do crepúsculo da manhã e do crepúsculo da tarde. (CORE, 247). Solar, o branco toma-se o símbolo da consciência diurna desabrochada, que morde a realidade: para os Bambaras, os dentes brancos são o símbolo da inteligência (ZAHD, ZAHB). Aproxima-se, portanto, do ouro, e isto explica a associação destas duas cores na bandeira do Vaticano, através da qual se afirma na terra o reino do Deus cristão.

BRONZE
Liga de diferentes metais, principalmente de estanho e prata com cobre, o bronze surge simbolicamente da união de contrários, pois os primeiros destes metais associam-se à Lua e à água, c o último ao Sol e ao fogo. Daí a ambivalência e o carácter violentamente conllitivo das duas faces do seu simbolismo. Metal eminentemente sonoro, ele é, em primeiro lugar, uma voix, por um lado a do canhão, por outro a do sino, vozes contrárias, isso sim, mas também terríveis e potentes. Hesíodo descreve em termos assustadores a terceira raça dos homens, a raça de bronze, caracterizada pela sua falta de moderação: E Zeus, pai dos deuses, criou uma terceira raça de homens perecíveis, raça de bronze, muito diferente da raça de prata, filha dos freixos, terrível e poderosa. Estes apenas sonhavam com os trabalhos lamentosos de Ares e com actos sem moderação. Não comiam pão; o seu coração era como o aço rígido; aterrorizavam. Poderosa era a sua força, invencíveis os braços unidos aos ombros nos seus corpos vigorosos. As suas armas eram de bronze, de bronze as suas casas, com bronze lavravam, pois o negro ferro não existia. Estes homens sucumbiram sob os seus próprios braços e partiram para a morada bafienta do Hades arrepiante, sem deitar nome sobre a terra. A negra morte apanhou- -os, por mais terríveis qye eles fossem, e abandonaram a resplendecente luz do Sol. (Os Trabalhos e os Dias, a partir da tradução francesa de Paul Mazon, Les Belles-Lettres, Paris, 1928, p. 90). Metal dos actos de força e de violência, na mitologia de Hesíodo, é-o também na filosofia da evolução desenvolvida por Lucrécia: o bronze, cuja resistência se presta melhor aos esforços violentos (Sobre a Natureza das Coisas, 1270). Metal sagrado, o bronze foi utilizado nos instrumentos de culto desde a antiguidade até ao budismo e ao cristianismo. Entre os Hebreus, a serpente de bronze encimava os estandartes (Números, 21, 9), e bastava olhar para ela para não morrer da picadura da serpente ardente; era exposta no templo como símbolo da protecção divina; entre eles ainda, os quatro cantos do altar dos holocaustos eram cobertos com chifres de bronze: o criminoso que se agarrasse a eles ficava salvo de qualquer castigo”, De bronze eram também os vasos que tilintavam ao vento nos bosques sagrados de Zeus em Dodona; de bronze era o palácio de Hefesto, as portas dos templos, o tecto do templo de Vesta, a primeira estátua romana de Ceres, as taças das libações sagradas; de bronze era, para os Egípcios, a abóbaba celeste (Vou para o céu, atravesso o firmamento de bronze, diz uma fórmula do Livro dos Mortos). De bronze, para os Romanos, era a navalha de rapar o cabelo dos sacerdotes e o arado que traçava os limites de um campo ou de uma nova cidade. Este metal duro era um símbolo de incorruptibilidade e imortalidade, bem como de injustiça inflexível; a abóbada celeste era de bronze porque era impenetrável como este metal, e também porque este metal está ligado às forças uranianas mais transcendentes, aquelas cuja voz ressoa como o trovão, inspirando nos homens um sentimento de respeito e temor. Todo o anjo é terrível, dizia Rilke, e é exactamente à maneira desse anjo que o bronze é terrível. Para nos damos conta disso basta ouvir soar nalgum lugar o pesado sino duma catedral. Foi precisamente a ressonância excepcional desta . liga que fez com que Fama, a deusa da Reputação, a escolhesse para construir o seu palácio no cimo duma montanha (OVIM, p. 32). Aqui temos de novo a dualidade do símbolo, pois Fama, no seu palácio que devolve, amplificando-as, as palavras que lá chegam, vive rodeada pela Credulidade, pelo Erro, pela Falsa Alegria, pelo Terror, pela Sedição e pelos Falsos Rumores (GRID, 157). Dual e, por conseguinte, também ambivalente,.é o símbolo contido na lenda da corça de pés de bronze, tal como o da sandália de Empédocles, igualmente de bronze. Pode ser que o metal simbolize, nestes casos, uma separação da condição terrestre e da corrupção. Se o Etna, em cuja cratera o filósofo ter-se-ia lançado, rejeitou a sua sandália de bronze, foi para que a sua doutrina, consideraram os Antigos, se mantivesse imarcescível sobre a terra, enquanto o seu autor era admitido na sociedade dos deuses. A sua doutrina seria imortal entre os homens, tal como ele o era entre os deuses. O pé de bronze da corça é ambivalente: tanto pode significar a separação da terra corrompida graças a este metal duro e sagrado como o entorpecimento da corça, ligeira e pura por natureza, através do peso dos desejos terrenos: por um lado, sublimação da natureza; por outro, depravação. Trata-se do carácter bipolar do símbolo. De uma forma mais simples, sublinha a fuga desvairada da corça* infatigável, esquivando-se às perseguições dos caçadores: corrida perpétua e sagrada da virgem indomável. Nos textos irlandeses há grande número de referências a armas, utensílios e jóias de bronze. Este metal simboliza a força militar, apesar de indicar também um estado antigo de civilização material (Idade do Bronze). Há, no entanto, um problema com o findruine, ou bronze branco, pois não se sabe bem se esta expressão designa o latão ou o electro. É provável que os Irlandeses a aplicassem tanto a um como ao outro. Segundo a tradição grega, foi o primeiro rci de Chipre, Cíniras, vindo provavelmente de Biblos, quem terá inventado o trabalho do bronze (GRlD, 93). O palácio de Fama, a deusa da Reputação, foi construído totalmente em bronze. está sempre aberto e devolve as palavras que lhe chegam. ampltflcando- -as. A Fama vive rodeada pela Credulidade. pelo Erro. pela Falsa Alegria. pelo Terror. pela Sedição e pelos Falsos Rumores e. do seu palácio. vigia o mundo inteiro (GRlD, 157). Esta lenda utiliza uma propriedade muito conhecida do bronze, a sua sonoridade; daí a sua utilização no fabrico dos sinos. Segundo Hesíodo, a raça de bronze é terrível e poderosa. Um dos últimos representantes na terra desta raça de bronze terá sido Talo, personagem da lenda cretense que tanto era considerado um ser humano como um autómato de bronze, semelhante a um robô, e que terá sido fabricado por Hefesto ou por Dédalo, o engenheiro- arquitecto do rei Minos. Este Talo de bronze era criatura aterradora. Fora encarregado por Minos de impedir que os estrangeiros entrassem em Crcta e que os habitantes da ilha saíssem. Bombardeava os infractores com enormes pedras, ou, pior ainda, levando os seus corpos metálicos ao rubro, perseguia, apertava com os seus braços e queimava os culpados. Foi para escapar dele que Dédalo teria fugido da ilha pelo ar. Porém, observação importante, Talo era invulnerâvel em todo o corpo, excepto na parte inferior da perna. onde se encontrava uma pequena veia. fechada por uma cavilha … Medeia. com os seus encantamentos. con- &eglIiurasgar esta veia e Talo morreu (GRlD, 435). E este foi o fim da raça de bronze. O que há aqui digno de realce é esta vulncrabilidade na parte inferior da perna, tal como em Aquílcs, que só era vulnerável no calcanhar. É o indicador de uma fraqueza psíquica e .oral. É singular que todo o poder energético do robô de bronze tenha saído por este canal, uma vez que foi aberto pela maga, Poderemos ousar dizer que Talo simboliza a energia de baixa condição, inteiramente submetida aos encantos da magia, fosse ela a da ciência e da arte de um Dédalo, de um Hefesto ou de uma Medeia?

brunilde, valkirias

Brunilde

BRUNILDE
Uma das Valquírias*, virgem que vive escondida por detrás de uma intransponível cortina de chamas e que apenas se entregará a um herói predestinado pelos deuses. Ela mata quem procura enganá-la. Alguns intérpretes pretenderam ver na virgem adormecida. libertada por um guerreiro luminoso. um símbolo da terra entorpecida que o Sol vem despertar (LBDP). De uma forma mais profunda, ela representa, sem dúvida, o objecto maravilhoso e inacessível de um desejo desmedido: aquele que sente este desejo morre de não poder satisfazê-lo, por não ser capaz de ultrapassar as provações necessárias. Aquele que julga atingir o objecto do desejo através de um subterfúgio, de dispensaria as provações reais, apenas alcança um objecto degradado, que já não é o objecto do seu desejo, que já não responde à sua expectativa. Brunilde foi também comparada a Ártemis (Diana), às Amazonas, virgens guerreiras, que apenas sonham rivalizar com os homens nos seus combates e nas suas caçadas. Wagner vê nela a heroína … que permite a passagem do divino ao humano e a recapitulação final do mundo no divino. Ela é a valquíria que renuncia ao paraíso dos deuses e dos heróis para viver entre os homens, onde poderá conhecer o amor. Ela desobedece ao deus Wotan*, seu pai. Mas este amor finalmente elevá-la-á da condição humana e introduzí-la-á num novo paraíso. Simboliza a renúncia ao melhor de si mesmo por amor e o valor redentor de um semelhante sacrificio. Nascida de um deus, Brunilde representa um aspecto da divindade; unida ao homem, um aspecto da humanidade. É o duplo conhecimento do céu e da terra, do poder e da fraqueza, da alegria e da dor, da vida e da morte, cujo segredo está no amor. A sua revelação e os seus gestos, dominados por uma busca de amor, libertam a humanidade da tirania do ouro e do poder. Eu era. eu sou eterna no arrebatamento do desejo.

BUCÉFALO
Nome dado ao cavalo de Alexandre, o Grande. Indomável, só aceitava ser montado pelo seu dono. Tinha medo da sua sombra e só atacava virado para o sol. Dobrava os joelhos diante de Alexandre, e depois corria com um ímpeto infatigável. Foi morto no decurso duma batalha sangrenta e o rei edificou uma cidade em volta do seu túmulo. Simboliza o servidor de um só amo, que se dedica a ele até à morte e que, mais profundamente talvez, compartilha as suas ambições e até as suscita. Tal como Bucéfalo,que ficava imobilizado ou se empinava perante a sua sombra, Alexandre não podia viver à sombra de seu pai, Filipe, rei da Macedónia. Este discípulo de Aristóteles tinha necessidade de horizontes mais vastos que os da sua província natal, da luz da glória; e esta foi a sua cavalgada fantástica em direcção ao sol nascente até à India, passando pela Pérsia; da mesma forma, Bucéfalo apenas se deixava conduzir na direcção do sol. É o animal solar que dedica todo o seu ímpeto aos maiores empreendimentos; destaca-se como uma estrela no céu.

BUCENTAURO
Ser fabuloso, metade homem, metade touro, da mitologia grega. Trata-se de um Centauro que, em vez de ter um corpo de cavalo, tinha um corpo de touro e uma cabeça de homem. O seu simbolismo é o mesmo do Centauro, com a variante introduzi da pelo corpo de touro. O Centauro simboliza a dualidade fundamental do homem: matéria-espírito, instinto-razão. Porém, o cavalo representaria antes o ímpeto do instinto, e o touro representaria a sua potência fecundante. O combate de Hércules contra o Ccntauro é o arquétipo de todos os combates contra a predominância dos instintos e contra toda a forma de opressão e de obsessão. Faz lembrar o de Teseu contra o Minotauro*. Este nome, Bucentauro, foi dado à galera veneziana, toda revestida de ouro, que o Dogc utilizava todos os anos no dia da Ascensão para comemorar o casamento de Veneza com o mar. Os remadores conduziam a embarcação até ao canal do Lido, ondc o Doge lançava ao mar um anel” de ouro, enquanto pronunciava estas palavras: Nós te desposamos, Mar, e eis aqui o penhor do nosso verdadeiro e perpétuo senhorio. Não há dúvida que a figura da proa da galera era uma escultura em forma de Bucentauro, para simbolizar a prosperidade de Vcneza, vinda do seu domínio sobre o mar. O mar era a força fecundante do touro, a cabeça humana de Veneza sabia dominar.

BÚFALO (ver Boi)

BUFÃO (ver Palhaço)
Nalguns textos irlandeses, o bufão é o equivalente do druida, com o qual o seu nome tem, aliás, em irlandês, uma relação homónima (drui, genitivo druida e druth, genitivo druith, bujão). Trata-se, evidentemente, apenas de uma paródia (OGAC, 18, 109- 111). Sim, mas uma paródia muito significativa, uma paródia da pessoa, do eu, revcladora da dualidade de todos os seres e da sua própria face de bufão, No convívio dos reis, nos cortejos triunfais, nos dramas da comédia, a personagem do bufão está sempre presente. Ele é a outra face da realidade, aquela que a situação adquirida faz esquecer e para a qual se chama a atenção. Uma das características do bufão é a de exprimir num tom grave coisas anódinas e num tom de brincadeira as coisas mais graves. O bufão encama a consciência irónica. Se se mostra obediente, é ridicularizando a autoridade por um excesso de solicitude. Se nos recorda as nossas excentricidades e os nossos erros, fá-lo inclinando-se obsequiosamente. Para além da sua aparência cósmica, percebe-se a consciência dilacerada. Bem compreendido e assumido como um duplo* de si mesmo, o bufão é um factor de progresso c de equilíbrio, sobretudo quando desconcerta, pois obriga a procurar a harmonia interior num nível de intcgração superior. Não é simplesmente uma personagem cómica, é a expressão da multiplicidade íntima da pessoa e das suas discordâncias ocultas. Por vezes o bufão é condenado à morte por crime de lesa-majestade ou lesa-sociedade, executado, sacrificado; ou então, serve de bode* expiatório. Com efeito, a história mostra-o associado à vítima nos ritos sacrificiais. É o indicador de uma fraqueza moral, de uma involução espiritual do carrasco. A sociedade ou a pessoa não é capaz de assumir-se totalmente: imola na vitima a parte incómoda de si mesma. Alguns fenómenos racistas são, a este respeito, característicos, quer se trate de Negros, de Amarelos, de Brancos, de Peles-vermelhas ou de Judeus. Tende-se a travestir em bufões os membros da raça oprimida e não nos apercebemos que rejeitamos uma parte de nós mesmos quando tentamos rejeitar o outro. Pois o primeiro movimento perante o bufão é o de não nos solidarizarmos com ele. Mas ele não pode ser eliminado pela violência, nem por um ridículo acrescido. Tudo o que ele representa deve ser integrado numa ordem nova, mais compreensiva, mais humana. O bufão rejeitado e condenado simboliza uma paragem na evolução ascendente.

BULA
Adornos que os jovens romanos usavam, como medalhões, e de que faziam oferenda aos deuses, quando depunham a toga pretexta ou quando se casavam. Formada por duas placas côncavas justapostas, que tanto podiam ser de ouro como de missangas, a bula continha fórmulas mágicas e tinha um poder protector: símbolo de um poder tutelar com o qual o portador pretende conciliar-se e insígnia do triunfador. O nome Bula, dado às cartas pontificias a partir do séc. lI, provém do facto de se afixar um sêlo de chumbo de forma redonda no pergaminho; o mesmo nome designava também os autos dos soberanos. O simbolismo da bula provém da sua forma esférica, que manifesta perfeição astral, soberania e autonomia.

BURACO
Símbolo da abertura para o desconhecido: o que desemboca no outro lado (o além, em relação ao concreto) 011 que desemboca no oculto (o além, em relação ao que aparece) … O buraco permite que uma linha passe através de outra linha (coordenadas do plano dimensional)… (VIRI, 44). No plano do imaginário, o buraco é mais rico de significado que o simples vazio: é plenamente cheio de todas as potencialidades daquilo que pode preencher ou passar pela sua abertura; é como a espera ou a repentina revelação de uma presença. É do buraco aberto no crânio de Zeus por uma machadada desferida por Hefesto que sai a deusa da Inteligência, Atena. O buraco pode ser considerado simbolicamente como a via do parto natural da ideia (VIRI, 95). Existe entre ele e o vazio a mesma diferença que entre a privação e o nada. Esta distinção é tão verdadeira que o buraco aparece como símbolo de todas as virtualidades. A este respeito, está ligado aos símbolos da fertilidade no plano biológico, e da espiritualização, no plano psicológico.
Os Índios viam nele ao mesmo tempo a imagem do órgão feminino, por onde passa o nascimento para o mundo, e uma porta” do mundo, por onde a morte permite que nos escapemos às leis de cá de baixo. O disco de jade” chinês, Pi, é exactamente um símbolo do céu como outro mundo. O buraco possui assim um duplo significado imanente e transcendental, abre o interior ao exterior, abre o exterior ao outro.

BURRO (Burrinba)
Se o burro é, para nós, o símbolo da ignorância, isso é apenas o caso particular e secundário de uma concepção mais geral que faz dele, quase universalmente, o emblema do obscuro, e até das tendências satânicas. Na Índia, serve de montada para divindades exclusivamente funestas, e principalmente para Nulrrlt», guardiào da região dos mortos, e para Kalaratrí, aspecto sinistro de Devi. O asura Dhenuka tem a aparência de um burro. No Egipto, o burro vermelho é uma das entidades mais perigosas que a alma encontra na sua viagem post mortem; é o que a expressão popular francesa malvado como um burro vermelho tende, curiosamente, a confirmar. Este animal poderia também ser identificado com a besta escarlate do Apocalipse (Guénon). No esoterismo ismaelita, o burro de Dajjal é a propagação da ignorância e da impostura, por causa do Iiteralismo escrito, que toma difícil a vinda da visão interior. Objectar-se-á com a presença do burro no presépio e com o seu papel aquando da entrada de Cristo em Jerusalém. Mas Guénon fez ver que, no primeiro caso, se opõe ao boi, tal como as tendências maléficas se opõem às tendências benéficas, e que representa, no segundo caso, essas mesmas forças maléficas vencidas, dominadas pelo Redentor. Poder-se-ia, também, atribuir um papel totalmente diferente à montada de Jesus triunfante. Na China, aliás, o burro branco é algumas vezes a montada dos Imortais. Na cena do dia de Ramos, trata-se de facto de uma burrinha, distinção que tem muita importância. No mito do falso profeta Balaão, o papel da burrinha é claramente benéfico, e Monsenhor Dccoucoux não hesita em fazer dela o símbolo do conhecimento, da ciência tradicional, o que marca uma inversão completa do símbolo inicial. Dever-se-à ver, neste facto, um simbolismo iniciático nas honras reservadas ao burro por ocasião da festa dos loucos medieval? No entanto, em toda esta festa existe um aspecto de paródia, de inversão provisória dos valores, que apareee como essencial e nos envia para as noções primeiras. Trata-se, observa Guénon, de uma canalização de tendências inferiores do homem caído, tendo em vista limitar os efeitos nefastos, em suma, daquilo a que a terminologia moderna chamaria uma libertação controlada: o acesso momentâneo do burro ao coro da igreja é a imagem disso. Se se quiser falar aqui de ciência sagrada, seria ainda como inversão e derrisão, Por um luciferanismo de carnaval, o burro satânico é substituído pela burrinha do conhecimento (CORT, DEVA, CUES, MALA). O burro como Satã, ou como Besta, significa o sexo, a Iíbido, o elemento instintivo do homem, uma vida que se desenvolve toda no plano terreno e sensual. O espírito cavalga a matéria que lhe deve ser submissa, mas que por vezes escapa à sua condução. É conhecido o romance de Apuleio, O Asno de Ouro, ou Metamorfoses. Narra as transformações de um tal Lúcio, desde o quarto perfumado de uma cortesã sensual até à contemplação mística diante da estátua de Ísis. Uma sequência de metamorfoses ilustram a evolução espiritual de Lúcio. A sua transformação em asno é, diz Jean Beaujeu, comentando estas passagens, a manifestação concreta, o efeito visível e o castigo da sua entrega total ao prazer da carne. A segunda metamorfose, a que lhe restitui as suas figura e personalidade humanas, não é somente uma manifestação clarissima do poder salvador de Ísis, mas significa a passagem da infelicidade, das volúpias medíocres, da escravidão das mãos do azar cego, para a felicidade sobrenatural e para o serviço da divindade todo-poderosa e providencial; trata-se de uma verdadeira ressurreição, da ressurreição interior. De novo humano, Lúcio pode prosseguir no caminho da salvação, empenhar-se no caminho da pureza, ter acesso às mais sublimes iniciações. Efectivamente, ele não entra na intimidade divina senão depois de uma série de provações cada vez mais exaltantcs, e depois de se ter despojado de asno e se ter revestido de homem. A expressão orelhas de burro provém da lenda segundo a qual Apoio transformou as orelhas do rei Midas em orelhas* de burro, pois o rei preferira os sons da flauta de Pã à música do templo de Delfos. Este preferência indica, em linguagem simbólica (as orelhas de burro), a procura de seduções sensíveis em vez das harmonia do espírito e da predominância da alma. Na sua descrição da Descida aos Infernos, Pausânias nota a presença, perto de carneiros negros, vítimas de sacrificios, de um homem sentado; a inscrição dá-lhe o nome de Ocno; é representado fabricando uma corda de junco: uma burrinha, que está perto dele, come esta corda à medida que ele a entrança. Conta-se, diz Pausânias, que este Ocno era um homem muito trabalhador, que tinha uma mulher muito gastadora, de forma que ela gastava logo em comida tudo o que ele juntava trabalhando (10, .28-31). A alusào é transparente, pelo menos em relação à mulher. Mas o seu enigmático marido também não é destituído de interesse, já que completa o simbolismo do texto, O seu nome significa: hesitação, indecisão. A sua presença neste contexto convida a ver nele o símbolo de lima fraqueza, e até mesmo de 11mvício: a hesitação que leva a não tomar partido e a nunca concluir os seus empreendimentos (Jean Defradas). Sob esta luz, o simbolismo da cena conjugal toma-se inteiramente transparente. A arte do Renascimento pintou diversos estados de alma com os traços do burro: o desencorajamento espiritual do monge, a depressão moral, a preguiça, a incompetência, a teimosia, uma obediência um pouco animal (TERS, 28-30). Os alquimistas vêem no burro o demónio de três cabeças; uma representa o mercúrio, a outra o sal e a terceira o enxofre, os três princípios materiais da natureza: o ser obstinado.
No entanto, nalgumas tradições o burro aparece como um animal sagrado. Desempenha um papel importante nos cultos apolíneos: em Delfos, eram oferecidos burros em sacrificio. Um burro carregou com a arca que serviu de berço a Dioniso, a quem este animal era também consagrado. Segundo uma outra tradição, este sacrificio de burros seria de origem nórdica: Ninguém saberia, nem por mar nem por terra, encontrar o maravilhoso caminho que conduz às festas dos Hiperbóreos. Outrora, Perseu, chefe dos povos, sentou-se à mesa dos Hiperbóreos e entrou nas suas moradas; encontrou-os sacrificando ao Deus magnificas hecatombes de burros; os seus banquetes e as suas homenagens não deixam de ser para Apoio a mais viva alegria, e Apoio sorri ao ver como sobe até ele a lubricidade dos animais que eles imolam! (Píndaro, Décima Pítica, trad. francesa de Aimé Puech, Les Belles-Lettres, Paris, 1931, p. 147). Em Aristófanes (As Rãs) o escravo de Baco diz aos seu senhor, que lhe põe um fardo às costas: E eu sou o burro que carrega os mistérios. Talvez esta cena não passe dum escárnio. Mas o burro transportador de mistérios não é uma imagem isolada; é também intcrpretado como símbolo do rei ou do poder temporal. O burro selvagem, o onagro, simboliza os ascetas do Deserto”, os solitários. A razão disso está, sem dúvida, no facto de o chifre do onagro não poder ser atacado por qualquer água venenosa. A queixada do burro tem reputação de ser extremamente dura: Sansão conseguiu matar mil inimigos servindo-se de uma queixada de burro. O burro está relacionado com Saturno, o segundo sol, que é a estrela de Israel. Por isso houve, nalgumas tradições, uma identificação entre Javé c Saturno. Isto talvez explicasse o facto de, sendo Cristo o filho do Deus de Israel, algumas caricaturas satíricas terem representado os crucificados com cabeça dc burro. A burrinha simboliza a humildade e o jumento, a humilhação. Ricardo de S. Victor dirá que o homem tem necessidade dc compreender o sentido dado à burrinha, a fim dc penetrar na humildade, tornando-se vil aos seus próprios olhos (De gen. paschate PL, 196, 1062-1064 e Sermões e opúsculos espirituais, Paris, 1951,89). Se Cristo quis sentar-se em tais montadas – dirá Ricardo de S. Víctor – foi para mostrar a necessidade da humildade. Daí o texto: sobre quem, pois, repousa o meu espírito, diz o Profeta, senão sobre o humilde, sobre o pacifico, sobre aquele que treme perante as minhas palavras (Provérbios, 16, 18). Monta a burrinha aquele que se exercita nas práticas da humildade verdadeira, interiormente, perante Deus; mas montar o filho da burrinha é mostrar-se atento aos deveres da verdadeira humilhação, exteriormente, perante o próximo (Id., Opúsculos e Sermões, p. 95). A burrinha é aqui um símbolo de paz, de pobreza, de humildade, de paciência c de coragem, e é geralmente apresentada na Bíblia como favorável: Samuel parte à procura de burrinhas perdidas, Balaão é instruído pela sua burrinha que o avisa da presença de um anjo de Javé; José conduz Maria e Jesus no lombo duma burrinha para o Egipto, a fim de fugir às perseguições de Herodes; antes da sua Paixão, Cristo faz a sua entrada triunfante em jerusalém montado numa burrinha.

BUXO
O buxo, consagrado na Antiguidade a Hades ou a Cíbele, era e continua a ser um símbolo ao mesmo tempo funerário e de imortalidade, porque permanece sempre verde. Este significado está relacionado com o uso do buxo no dia de Ramos, nos países nórdicos, em vez das palmas”, preferidas nos países quentes, e com o facto de se plantar buxo nas campas. Além disso, como também tem uma madeira dura e compacta, o buxo simboliza também a firmeza, a perseverança: daí a sua utilização na confecção dos malhetes das lojas maçónicas (DEVA, ROMM). Devido à sua dureza, os Antigos faziam chicotes, piões, pentes, flautas e, sobretudo, tabuinhas. Estas eram cobertas com uma camada de cera e podia-se, depois, escrever sobre uma base sólida. Os Gauleses divinizaram o buxo, símbolo de eternidade. Por outro lado, por ter sido classificado entre os arbustos infernais. era comummente visto como um símbolo de esterilidade. Por isso, os Antigos tinham muito cuidado para não o apresentarem nos altares de Vénus, deusa popular do amor, por medo de perderem, com uma tal oferenda, as suas faculdades viris. Porém, pensa Lanoé-Villêne, isso não era mais do que uma superstição, e creio que, pelo contrário. no princípio. as árvores cuja folhagem se mantinha verde durante o Inverno devem ter sido primeiro consagradas a Afrodite, pois a cor verde foi-lhe sempre atribuída de lima forma especial (LANS, B, 222). Realmente, nada surpreende que o mesmo arbusto fosse consagrado a Afrodite, a Cibele, a Hades e simbolizasse ao mesmo tempo o amor, a fecundidade e a morte, dado que é a imagem do ciclo da vida.

BÚZIO (ver Concha)
É uma concha marinha da qual a mitologia grega faz nascer Afrodite*. Esta concha é também, na mesma mitologia, o atributo dos Tritões. Vemos, aqui, dois aspectos do seu simbolismo: a sua relação com as águas primordiais e o seu uso como instrumento de música, ou melhor, como produtor de som. O som que emite, perceptível de longe, inspira o terror, foi por isso que outrora foi utilizada na guerra. O capítulo inicial do Bhagavad Gita está cheio de ecos dessa medonha barulheira: Abalando o Céu e a Terra, este barulho extraordinário que dilacerou o coração dos amigos de Dhritar ashtra. Num tal contexto, os limites do abalo cósmico, a dilaceração do espírito tem certamente um papel preparatório à experiência espiritual militante (cármica) que se exprime na obra. Seja num papel idêntico, seja no da evocação do som primordial (ver Aum), ao qual regressaremos, a concha-búzio é também utilizada pelos brâmanes e pelos lamas tibetanos, e até pelos Maoris, no decurso das suas cerimónias. A concha tibetana, misturada com outros instrumentos, é expressamente utilizada para agitar e aniquilar o mental, preparatórios da percepção interior do som natural da Verdade. Aliás, o som da concha é interiormente percebido nalgumas experiências ióguicas. Nas cerimónias funerárias, o búzio é colocado ao lado da efígie do morto para indicar a função do som e do ouvido, importante no Bardo. Saído do mar, o búzio está relacionado com o elemento Água, e daí a sua atribuição a Varuna, senhor das Águas·. Nesse caso, como naquele em que figura entre os oito nidhi (tesouros) do rei Chakravarti ou de Sbri, ele é associado ao lótus·. Esta atribuição participa sem dúvida da dominação do universo pelo som produzido pelo búzio. Mantém também relações com a água e a Lua (sendo o lótus de natureza solar): o búzio é branco, cor da lua cheia. Na China, era utilizada uma grande concha para tirar a água da Lua, isto é, o orvalho celeste, mas também o elemento yin; o yang, o fogo, era tirado do Sol com a ajuda de um espelho metálico. A concha evoca também a ostra perlífera e a pérola que dela se extrai: a concha significa, então, a orelha, com a qual se parece tanto que até a parte externa da orelha recebe o nome de concha; órgão da percepção auditiva, instrumento da percepção intelectual; a pérola é, então, a palavra, o Verbo. Este é, segundo Burckhardt, o sentido da concha representada em certos nichos de oração da arta muçulmana. Notemos, ainda, na Roseraie du Mystêre, de Shabestari: A concha é a palavra proferida; a pérola é a ciência do coração. Nestas perspectivas, a concha simboliza a atenção à Palavra. Na Índia, o búzio é, essencialmente, um atributo de Vixnu, princípio conservador da manifestação; o som e a pérola são conservados na concha. A conha é também a própria Lakshmi, fortuna e beleza, a shakti de Vixnu. Poder-se-ia, sem dúvida, explicar assim a representação pela concha -documentada no Cambodja – da slagrama, contrapartida do llnga xivaíta, Além disso, a concha é por vezes considerada, na Índia, como complementar da vajra (raio), complementarismo assumido no Tibete pelo sino”, A concha é, portanto, o aspecto relativamente passivo, receptivo, de um princípio, do qual o vajra representa o aspecto activo. São, no budismo, a Sabedoria e o Método. Um texto dos Upanixades faz do búzio de Vixnu o emblema dos cinco Elementos; ele é, ao mesmo tempo, nascido dos cinco e origem dos Elementos, que são a especificação da noção do eu, da consciência individual (ahmkara). Signitica, então, a origem da manifestação, o que é confirmado pela sua relação com as águas primordiais e pelo seu desenvolvimento em espiral a partir de um ponto central. Diz-se, além disso, que a concha encerra os vedas durante os períodos pralaya, que separam dois ciclos de manifestação. Contém, portanto, o germe, as possibilidades de desenvolvimento do ciclo futuro. O germe é também o som primordial, o monossílabo aum*. Algumas tradições conduzemos três elementos do monossílabo a um elemento espiral* (o búzio), um ponto* (o germe que ele contém) e uma linha direita (o desenvolvimento das possibilidades contidas no invólucro da concha). A concha simboliza as grandes viagens, as grandes evoluções, interiores e exteriores (BURA, CORT, BHAB). O búzio, como todas as conchas, está ligado ao arquétipo: lua-água, gestação-fertilidade. Para os Maias, o búzio transporta a terra nascente nas costas do crocodilo monstruoso a emergir das águas cósmicas e principalmente ao Jaguar”; grande deus do interior da terra, que, como o grande corcodilo*, transporta às costas. Por extensão, também simboliza o mundo subterrâneo e as suas divindades. (THOH).