Expiações terrestres

CAPÍTULO VIII

Expiações terrestres

Marcel, o menino do nº 4 – Szymel Slizgol – Julienne-Marie, a mendiga – Max, o mendigo – História de um criado – Antonio B – Letil – Um sábio ambicioso – Charles de Saint-G …, idiota – Adélaide-Marguerite Gosse – Clara Rivier – Françoise Vernhes – Anna Bitter – Joseph Maître, o cego

 

MARCEL, o menino do nº 4

Havia num hospital de província um menino de 8 a 10 anos, cujo estado era difícil precisar. Designavam-no pelo nº 4. Totalmente contorcido, já pela sua deformidade inata, já pela doença, as pernas se lhe torciam roçando pelo pescoço, num tal estado de magreza, que eram pele sobre ossos. O corpo, uma chaga; os sofrimentos, atrozes. Era oriundo de uma família israelita. A moléstia dominava aquele organismo, já de oito longos anos, e no entanto demonstrava o enfermo uma inteligência notável, além de candura, paciência e resignação edificantes. O médico que o assistia, cheio de compaixão pelo pobre um tanto abandonado, visto que seus parentes pouco o visitavam, tomou por ele certo interesse. E achava-lhe um quê de atraente na precocidade intelectual. Assim, não só o tratava com bondade, como lia-lhe quando as ocupações lho permitiam, admirando-se do seu critério na apreciação de coisas a seu ver superiores ao discernimento da sua idade. Um dia, o menino disse-lhe: – “Doutor, tenha a bondade de me dar ainda uma vez aquelas pílulas ultimamente receitadas.” Para quê? replicou-lhe o médico, se já te ministrei o suficiente, e maior quantidade pode fazer-te mal… –

“É que eu sofro tanto, que dificilmente posso orar a Deus para que me dê forças, pois não quero incomodar os outros enfermos que aí estão. Essas pílulas fazem-me dormir e, ao menos quando durmo, a ninguém incomodo.”

Aqui está quanto basta para demonstrar a grandeza dessa alma encerrada num corpo informe. Onde teria ido essa criança haurir tais sentimentos? Certo, não foi no meio em que se educou; além disso, na idade em que principiou a sofrer, não possuía sequer o raciocínio.

Tais sentimentos eram-lhe inatos: – mas então por que se via condenado ao sofrimento, admitindo-se que Deus houvesse concomitantemente criado uma alma assim tão nobre e aquele mísero corpo instrumento dos suplícios?

É preciso negar a bondade de Deus, ou admitir a anterioridade de causa; isto é, a preexistência da alma e a pluralidade das existências.

Os últimos pensamentos desta criança, ao desencarnar, foram para Deus e para o caridoso médico que dela se condoeu. Decorrido algum tempo, foi o seu Espírito evocado na Sociedade de Paris, onde deu a seguinte comunicação (1863):

“A vosso chamado, vim fazer que a minha voz se estenda para além deste círculo, tocando todos os corações. Oxalá seu eco se faça ouvir na solidão, lembrando-lhes que as agonias da Terra têm por premissas as alegrias do céu; que o martírio não é mais do que a casca de um fruto deleitável, dando coragem e resignação.

“Essa voz lhes dirá que, sobre o catre da miséria, estão os enviados do Senhor, cuja missão consiste na exemplificação de que não há dor insuperável, desde que tenhamos o auxílio do Onipotente e dos seus bons Espíritos. Essa voz lhes fará ouvir lamentações de mistura com preces, para que lhes compreendam a harmonia piedosa, bem diferente da de coros de lamentações mescladas com blasfêmias.

“Um dos vossos bons Espíritos, grande apóstolo do Espiritismo, cedeu-me o seu lugar por esta noite. (1) Por minha vez, também me compete dizer algo sobre o progresso da vossa Doutrina, que deve auxiliar em sua missão os que entre vós encarnam para aprender a sofrer. O Espiritismo será a pedra de toque; os padecentes terão o exemplo e a palavra, e então as imprecações se transformarão em gritos de alegria e lágrimas de contentamento.”.

(1) Santo Agostinho, pelo médium com o qual habitualmente se comunica na Sociedade.

– P. Pelo que afirmais, parece que os vossos sofrimentos não eram expiação de faltas anteriores…

R. – Não seriam uma expiação direta, mas asseguro-vos que todo sofrimento tem uma causa justa. Aquele a quem conhecestes tão mísero foi belo, grande, rico e adulado. Eu tivera turiferários e cortesãos, fora fútil e orgulhoso. Anteriormente fui bem culpado; reneguei Deus, prejudiquei meu semelhante, mas expiei cruelmente, primeiro no mundo espiritual e depois na Terra. Os meus sofrimentos de alguns anos apenas, nesta última encarnação, suportei-os eu anteriormente por toda uma existência que ralou pela extrema velhice. Por meu arrependimento reconquistei a graça do Senhor, o qual me confiou muitas missões, inclusive a última, que bem conheceis. E fui eu quem as solicitou, para terminar a minha depuração.

Adeus, amigos; tornarei algumas vezes. A minha missão é de consolar, e não de instruir. Há, porém, aqui muitas pessoas cujas feridas jazem ocultas, e essas terão prazer com a minha presença. Marcel..

Instruções do guia do médium

Pobrezinho sofredor, definhado, ulceroso e disforme! Nesse asilo de misérias e lágrimas, quantos gemidos exalados! E como era resignado… e como a sua alma lobrigava já então o termo dos sofrimentos, apesar da tenra idade! No além-túmulo, pressentia a recompensa de tantos gemidos abafados, e esperava! E como orava também por aqueles que não tinham resignação no sofrimento, pelos que trocavam preces por blasfêmias!

Foi-lhe lenta a agonia, mas terrível não lhe foi a hora do trespasse; certo, os membros convulsos contorciam-se, oferecendo aos assistentes o espetáculo de um corpo disforme a revoltar-se contra a sorte, nessa lei da carne que a todo o custo quer viver; mas, um anjo bom lhe pairava por sobre o leito mortuário e cicatrizava-lhe o coração. Depois, esse anjo arrebatou nas asas brancas essa alma tão bela a escapar-se de tão horripilante corpo, e foram estas as palavras pronunciadas: “Glória a vós, Senhor, meu Deus!” E a alma subiu ao Todo-Poderoso, feliz, e exclamou: “Eis-me aqui, Senhor; destes-me por missão exemplificar o sofrimento… terei suportado dignamente a provação?”

Hoje, o Espírito da pobre criança avulta, paira no Espaço, vai do fraco ao humilde, e a todos diz: – Esperança e coragem. Livre de todas as impurezas da matéria, ele aí está junto de vós a falar-vos, a dizer-vos não mais com essa voz fraca e lastimosa, porém agora firme: “Todos que me observaram, viram que a criança não murmurava; hauriram nesse exemplo a calma para os seus males e seus corações se tonificaram na suave confiança em Deus, que outro não era o fim da minha curta passagem pela Terra.” Santo Agostinho.

SZYMEL SLIZGOL

Este não passou de um pobre israelita de Vilna, falecido em maio de 1865. Durante 30 anos mendigou com uma salva nas mãos. Por toda a cidade era bem conhecida aquela voz que dizia: “Lembrai-vos dos pobres, das viúvas e dos órfãos!” Por essa longa peregrinação Slizgol havia juntado 90.000 rublos, não guardando, porém, para si um só copeque. Aliviava e curava os enfermos; pagava o ensino de crianças pobres; distribuía aos necessitados a comida que lhe davam.

A noite, destinava-a ele ao preparo do rapé, que vendia a fim de prover às suas necessidades, e o que lhe sobrava era dos pobres. Foi só no mundo, e no entanto o seu enterro teve o acompanhamento de grande parte da população de Vilna, cujos armazéns cerraram as portas.

Sociedade de Paris, 15 de junho de 1865

Evocação: Excessivamente feliz, chegado, enfim, à plenitude do que mais ambicionava e bem caro paguei, aqui estou, entre vós, desde o cair da noite. Agradecido, pelo interesse que vos desperta o Espírito do pobre mendigo, que, com satisfação, vai procurar responder às vossas perguntas.

– P. Uma carta de Vilna nos deu conhecimento das particularidades mais notáveis da vossa existência, e da simpatia que tais particularidades nos inspiram nasceu o desejo de nos comunicar convosco. Agradecemos a vossa presença, e, uma vez que quereis responder-nos, principiaremos por vos assegurar que mui felizes seremos se, para nossa orientação, pudermos conhecer a vossa posição espiritual, bem como as causas que determinaram o gênero de vida que tivestes na última encarnação.

– R. Em primeiro lugar, concedei ao meu Espírito, cônscio da sua verdadeira posição, o favor de vos transmitir a sua opinião, com respeito a um pensamento que vos ocorreu quanto. à minha personalidade. E reclamo previamente os vossos conselhos, para o caso de ser falsa essa minha opinião.

Parece-vos singular que as manifestações públicas tomassem tanto vulto, para homenagear a memória do homem insignificante que soube por seu Espírito caridoso atrair tal simpatia. Não me refiro a vós, caro mestre, nem a ti, prezado médium, nem a vós outros verdadeiros e sinceros espíritas; falo, sim, para as pessoas indiferentes a crença, pois, nisso, nada houve de extraordinário. A pressão moral exercida pela prática do bem, sobre a Humanidade, é tal que, por mais materializada que esta seja, inclina-se sempre, venera o bem, a despeito da sua tendência para o mal.

Agora, as perguntas que, da vossa parte, não são ditadas pela curiosidade, mas simplesmente formuladas no intuito de ampliar o ensino. Visto que disponho de liberdade, vou, portanto, dizer-vos, o mais laconicamente possível, quais as causas determinantes da minha última existência.

Faz muitos séculos, vivia eu com o título de rei, ou, pelo menos, de príncipe soberano. Dentro da esfera do meu poder relativamente limitado, em confronto com os atuais Estados, era eu, no entanto, absoluto senhor dos meus vassalos, como dos seus destinos, e governava-os tiranicamente, ou antes digamos o próprio termo como algoz.

Dotado de caráter impetuoso, violento, além de avaro e sensual, podeis avaliar qual deveria ter sido a sorte dos pobres seres sujeitos ao meu domínio. Além de abu-sar do poder para oprimir o fraco, eu subordinava empregos, trabalhos e dores ao serviço das próprias paixões. Assim, impunha uma dízima ao produto da mendicidade, e ninguém poderia acumular sem que eu antecipadamente lhe tomasse uma cota avultada, dessas sobras que a piedade humana deixava resvalar para as sacolas da miséria. E mais ainda: a fim de que não decrescesse o número de mendigos entre os meus vassalos, proibia aos infelizes darem aos amigos, parentes e fâmulos necessitados a parte insignificante do que ainda lhes restava. Em uma palavra, fui tudo quanto se pode imaginar de mais cruel, em relação ao sofrimento e à miséria alheia. No meio de sofrimentos horrorosos, acabei por perder isso a que chamais – vida, tanto que minha morte era apontada como exemplo aterrador a quantos como eu, posto que em menor escala, tinham o mesmo modo de pensar.

Como Espírito, permaneci na erraticidade durante três e meio séculos, e, quando ao fim desse tempo compreendi que a razão de ser da reencarnação era inteiramente outra que não a seguida por meus grosseiros sentidos, obtive à força de preces, de resignação e de pesares a permissão de suportar materialmente os mesmos sofrimentos que infligira, e mais profundamente sensíveis que os por mim ocasionados. Obtida a permissão, Deus concedeu que por meu livre-arbítrio aumentasse os sofrimentos físicos e morais. Graças à assistência dos bons Espíritos, persisti na prática do bem, e sou-lhes agradecido por me terem impedido de sucumbir sob o fardo que tomara. Finalmente, preenchi uma existência de abnegação e caridade, que por si resgatou as faltas de outra, cruel e injusta. Nascido de pais pobres e cedo orfanado, aprendi a ganhar o pão numa idade em que muitos consideram incapaz o raciocínio.

Vivi sozinho, sem amor, sem afeições, e desde o princípio suportei as brutalidades que para com outros havia exercido.

Dizem que as somas por mim esmoladas foram todas destinadas ao alívio dos meus semelhantes: – É um fato inconcusso, ao qual, sem orgulho nem ênfase, devo acrescentar que – muitíssimas vezes, com sacrifício de privações relativamente imperiosas, aumentava o beneficio que me permitiam fazer à caridade pública. Desencarnei calmamente, confiando no valor da minha reparação, e sou premiado muito mais do que poderiam ter cogitado as minhas secretas aspirações. Hoje sou feliz, felicíssimo, podendo afirmar-vos que todos quantos se elevam serão humilhados, como elevados serão todos quantos se humilharem.

– P. Tende a bondade de dizer-nos em que consistiu a vossa expiação no mundo espiritual, e quanto tempo durou, a contar da vossa morte até ao momento da atenuação por efeito do arrependimento e das boas resoluções. Dizei-nos também o que foi que provocou a mudança das vossas idéias, no estado espiritual.

– R. Essa pergunta desperta-me muitas recordações dolorosas! Quanto sofri eu… Mas não, que me não lamento: – apenas recordo!… Quereis saber a natureza da minha expiação? Pois ei-la na sua terrível hediondez:

Carrasco que fui de todos os bons sentimentos, fiquei por muito, por longo tempo preso pelo perispírito ao corpo em decomposição. Até que esta se completasse, vime corroído pelos vermes – o que muito me torturava! e quando me vi liberto das peias que me prendiam ao instrumento do suplício, mais cruel suplício me esperava!… Depois do sofrimento físico, o sofrimento moral muito mais longo. Fui colocado em presença de todas as minhas vítimas. Periodicamente, constrangido por uma força superior, era eu levado a rever o quadro vivo dos meus crimes. E via física e moralmente todas as dores que a outrem fizera sofrer! Ah! meus amigos, que terrível é a visão constante daqueles a quem fizemos mal! Entre vós, tendes apenas um fraco exemplo no confronto do acusado com a sua vítima. Aí tendes, em resumo, o que sofri durante três e meio séculos, até que Deus, compadecido da minha dor e tocado pelo meu arrependimento, solicitado pelos que me assistiam, permitisse a vida de expiação que conheceis.

– P. Algum motivo particular vos induziu à escolha da última existência, subordinada à religião israelita?

– R. Não escolhi por mim só, mas ouvi o conselho dos meus guias. A religião de Israel era uma pequena humilhação a mais na minha prova, visto como em certos países a maioria dos encarnados menosprezam os judeus, e principalmente os judeus mendicantes.

– P. Na Terra, com que idade começastes a vossa obra de expiação? Como vos ocorreu o pensamento de vos desobrigar das resoluções previamente tomadas? Ao exercerdes tão abnegadamente a caridade, teríeis a intuição das causas que a isso vos predispunham?

– R. Meus pais eram pobres, porém inteligentes e avaros. Moço ainda, eu fui privado da afeição e carinhos de minha mãe. A perda desta me causou tanto maior e fundo pesar, quanto meu pai, dominado pela avidez de ganhos, me abandonava por completo. Quanto aos meus irmãos, todos mais velhos do que eu, não pareciam aperceber-se das minhas mágoas. Foi um outro judeu quem, movido por sentimento mais egoístico do que caritativo, me recolheu em sua casa e me ensinou a trabalhar. O que isso lhe custara era largamente compensado pelo meu trabalho, aliás excedente multas vezes às minhas forças. Mais tarde, liberto desse jugo, trabalhei por minha conta; mas em toda parte, no trabalho como no repouso, perseguia-me a saudade de minha mãe, e, à medida que avançava em anos, a lembrança desse ser mais fundamente se me gravara na memória, lamentando em demasia a perda do seu amor e do seu zelo. Não tardou fosse eu o único dos meus, pois a morte em breve, dentro de meses, ceifou-me toda a família. Então, principiou a manifestar-se-me o modo pelo qual havia de passar o resto da vida. Dois dos meus irmãos deixaram órfãos, e eu, comovido pela recordação do que como órfão sofrera, quis preservar os pobrezinhos de uma juventude igual à minha.

Não produzindo o meu trabalho o suficiente para sustentá-los a todos, comecei a pedir esmola, não para mim, mas para outros. A Deus não aprazia visse eu o resultado, a consolação dos meus esforços, e assim foi que também os pobrezinhos me deixaram para sempre.

Eu bem via o que lhes faltava – era a mãe. Resolvi, pois, pedir para as viúvas infelizes que, sem poderem trabalhar para si e seus filhinhos, se impunham privações fatais, que acabavam por matá-las, legando ao mundo pobres órfãos abandonados e votados aos tormentos que eu mesmo suportara.

A esse tempo contava eu 30 anos, e nessa idade, saudável e vigoroso, viram-me pedir para a viúva e para o órfão. Penosos me foram os primeiros passos, a suportar mais de um epíteto deprimente; quando, porém, se certificaram de que eu realmente distribuía pelos pobres o que recebia; quando souberam que a essa distribuição ainda ajuntava as sobras do meu trabalho; então, adquiri certo conceito que não deixava de me ser grato.

Durante os 60 e alguns anos dessa peregrinação terrena, nunca deixei de atender à tarefa que me impusera. Também jamais a consciência me fez sentir que causas anteriores à existência fossem o móbil do meu proceder. Um dia somente, e antes de começar a pedir, ouvi estas palavras:

“Não façais a outrem o que não quiserdes que vos façam.”

Surpreendido pelos princípios gerais de moralidade contidos nessas poucas palavras, muitas vezes parecia-me ouvi-las acrescidas com estas outras: – “Mas fazei, ao contrário, o que quiserdes que vos façam.” Tendo por auxiliares a lembrança de minha mãe e dos meus próprios sofrimentos, continuei a trilhar uma senda que a minha consciência dizia ser boa.

Vou terminar esta longa comunicação, dizendo: – Obrigado!

Imperfeito ainda, sei, contudo, que o mal só acarreta o mal, e de novo, como já o fiz, dedicar-me-ei ao bem para alcançar a felicidade. Szymel Slizgol.

JULIENNE-MARIE, a mendiga

Na comuna de Villate, perto de Nozai (Loire-Inferior), havia uma pobre mulher de nome Julienne-Marie, velha, enferma, vivendo da caridade pública. Um dia caiu num poço, do qual foi tirada por um conterrâneo, A…, que habitualmente a socorria. Transportada para casa, aí desencarnou pouco tempo depois, vítima desse acidente. Era voz geral que Julienne tentara suicidar-se. Logo no dia do seu enterro, a pessoa que lhe acudira, e que era espírita e médium, sentiu como que um leve contacto de pessoa que estivesse próxima, sem que procurasse explicar-se a causa desse fenômeno. Ao ter ciência do trespasse de Julienne-Marie, veio-lhe ao pensamento a visita possível do seu Espírito. A conselho dum seu amigo da Sociedade de Paris, a quem tinha informado da ocorrência, fez a evocação com o fito de ser útil ao Espírito, não sem que pedisse previamente o conselho dos seus protetores, que lhe deram a seguinte comunicação:

“Poderás fazê-lo e com isso lhe darás prazer, conquanto se torne desnecessário o benefício que tens em mente prestar-lhe.

“Ela é feliz e inteiramente devotada aos que se lhe mostraram compassivos. Tu és um dos seus bons amigos; ela quase que te não deixa e contigo se comunica muitas vezes, sem que o saibas. Cedo ou tarde os serviços são recompensados, e, quando o não sejam pelo próprio beneficiado, sê-lo-ão pelos que por ele se interessam, antes e depois da morte. Se acaso o Espírito do beneficiado não tiver ainda reconhecido a sua nova situação, outros Espíritos, a ele simpáticos, vêm dar o testemunho de sua gratidão.

“Eis aí o que te pode explicar a sensação que tiveste no dia mesmo da passagem de Julienne-Marie.

“Agora, será ela a auxiliar-te na prática do bem. Lembra-te do que disse Jesus: Aquele que se humilhar será exaltado. Tu verás o serviço que esse Espírito poderá prestar-te, desde que lhe peças assistência com o intuito de ser útil ao próximo.”

Evocação: – Boa Julienne, sei que sois feliz e é tudo quanto desejava saber; isso não impede, porém, que de vós me lembre muitas vezes, bem como de não vos esquecer nas minhas preces.

– R. Tem confiança em Deus, procura inspirar aos teus doentes uma fé sincera, porque assim alcançarás sempre o que desejares. Não te preocupes jamais com a recompensa, porque ela será sempre superior ao que podes esperar. Deus sabe recompensar justamente a quem se dedique ao alívio dos seus irmãos, inspirado por absoluto desinteresse. A não ser assim, tudo é ilusão, é quimera. É preciso ter fé antes de tudo, pois de outro modo nada se conseguirá. Lembra-te desta máxima e ficarás admirado dos seus resultados. Os dois doentes que curaste são a prova do que te afirmo, pois, no estado em que estavam, só com remédios nada terias conseguido. Quando implorares permissão a Deus para que os bons Espíritos te transmitam fluidos benéficos, se não sentires um estremecimento involuntário, é que a tua prece não foi bastante fervorosa para ser ouvida. É só nestas condições que a prece pode tornar-se valiosa. Nem outra coisa resulta de dizer: “Deus Todo-Poderoso, Pai de bondade e misericórdia infinita, permiti que os bons Espíritos me assistam na cura de… Tende piedade dele, Senhor; restitui-lhe a saúde, porque, sem vós, eu nada posso fazer. Seja feita a vossa vontade.” Tens feito bem em não desdenhar os humildes; a voz daquele que sofreu resignadamente as misérias desse mundo, é sempre ouvida, e nenhum serviço deixa jamais de ser recompensado. Agora, uma palavra a meu respeito, confirmativa do que acima te disse: O Espiritismo te explica a minha linguagem de Espírito, sem que aliás me seja preciso entrar em minúcias a tal respeito. Outrossim, julgo inútil falar-te da minha existência anterior. A situação em que me conheceste na Terra far-te-á compreender e julgar as precedentes encarnações, nem sempre isentas de mácula. Condenada a uma existência miserável, enferma, inválida, mendiguei em toda a minha vida. Não acumulei dinheiro, e na velhice as parcas economias não passavam de uma centena de francos, reservados para a hipótese de ficar chumbada no leito, entrevada.

Deus, julgando suficiente a expiação e a prova, deu-lhes um termo, libertou-me da vida terrestre sem sofrimentos, porquanto não me suicidei, como a princípio julgaram.

Desencarnei subitamente à borda do poço, quando a Deus enviara da Terra a minha última prece. Depois, pela declividade do terreno, meu corpo resvalou naturalmente.

Não sofri ao dar-se o meu trespasse, e sou feliz por ter cumprido a minha missão sem vacilações, resignadamente. Tornei-me útil na medida das minhas forças, evitando sempre prejudicar os meus semelhantes. Hoje recebo o prêmio e dou graças a Deus, ao nosso Divino Mestre, que mitiga o travo das provações, fazendo-nos esquecer, quando encarnados, as faltas do passado, ao mesmo tempo que nos põe sobre o caminho almas caridosas, outros tantos auxiliares que atenuam o peso, o fardo das nossas culpas anteriores. Persevera tu também, que, como eu, serás recompensado. Agradeço-te as boas preces e o serviço que me prestaste. Jamais o esquecerei. Um dia nos tornaremos a ver e muitas coisas te serão explicadas, coisas cuja explicação hoje seria extemporânea. Fica certo somente da minha dedicação, de que estarei ao teu lado sempre que de mim precisares para aliviar os que sofrem.

A mendiga velhinha. Julienne-Marie.

Nota – Evocado a 10 de junho de 1864, na Sociedade de Paris, o Espírito Julienne ditou a mensagem seguinte:

“Caro presidente: obrigada por quererdes admitir-me ao vosso centro. Previstes, sob o ponto de vista social, a superioridade das minhas antecedentes encarnações, pois, se voltei à Terra com a prova da pobreza, foi para punir-me do vão orgulho com o qual repelia os pobres, os miseráveis. Assim, passei pela pena de talião, fazendo-me a mais horrenda mendiga deste país; mas, ainda assim, como que para certificar-me da bondade de Deus, nem por todos fui repelida: e esse era todo o meu temor. Também foi sem queixumes que suportei a provação, pressentindo uma vida melhor, da qual não mais tornaria ao mundo do exílio e da calamidade. Que ventura a desse dia em que a nossa alma rejuvenescida pode franquear a vida espiritual para aí rever os seres amados! Sim, porque também amei e considero-me feliz pelo encontro dos que me precederam.

“Obrigada a A…, esse bom amigo que me facultou a expressão do reconhecimento. Sem a sua mediunidade eu não lhe poderia provar, agradecida, que minha alma não se esquece das benéficas influências de um coração bondoso, qual o seu, recomendando-lhe que procure progredir em sua divina crença. Já que ele tem por missão regenerar as almas transviadas, que fique bem certo do meu auxílio. E eu posso retribuir-lhe pelo cêntuplo o que por mim fez, instruindo-o na senda que percorreis. Agradecei ao Senhor o permitir que os bons Espíritos vos orientem, a fim de animardes o pobre nas suas mágoas, e deterdes o rico em seu orgulho. Capacitai-vos de quanto é vergonhosa a repulsa para com os infelizes, servindo-vos o meu exemplo, a fim de evitardes o retorno à Terra, em expiação de faltas, nas dolorosas posições sociais que vos coloquem tão baixo a ponto de serdes considerado escória da sociedade. Julienne-Marie.”

Transmitida a A… esta comunicação, ele por sua vez obteve a que se segue, o que é aliás uma confirmação:

– P. Boa Julienne, uma vez que é vosso desejo auxiliar-me com os vossos conselhos, a fim de que me adiante em nossa santa Doutrina, vinde comunicar-vos comigo, certa de que me esforçarei por aproveitar-vos os ensinamentos. – R. Lembra-te da recomendação que vou fazer e não te afastes dela jamais. Procura sempre ser caridoso na medida de tuas forças; compreendes a caridade tal como deve ser praticada em todos os atos da vida. Não tenho necessidade, por conseguinte, de aconselhar-te uma coisa da qual podes tu mesmo ser o juiz; todavia, dir-te-ei que sigas a voz da consciência, a qual jamais te enganará, desde que a consultes sinceramente. Não te iludas com as missões a cumprir; pequenos e grandes, cada qual tem a sua missão. Penosa foi a minha, porém, eu fazia jus a tal punição, em conseqüência das precedentes existências, como confessei ao bom presidente da Sociedade-máter, de Paris, que um dia vos há de congregar a todos. Esse dia vem menos longe do que supões, pois o Espiritismo caminha a passos largos, apesar de todos os óbices que se lhe antepõem. Segui, pois, sem temores, fervorosos adeptos; segui, que os vossos esforços serão coroados por outros tantos êxitos. Que vos importa o que de vós possam dizer? Colocai-vos acima da critica irrisória, a qual recairá sobre os próprios adversários do Espiritismo.

Ah! os orgulhosos! julgam-se fortes pensando poder aniquilar-vos, mas… bons amigos, tranqüilizai-vos e não receeis enfrentá-los, porque são menos invencíveis do que porventura possais supor. Dentre eles, há muitos receosos de que a verdade lhes venha deslumbrar os olhos. Esperai, que acabarão por vir auxiliar a coroação da obra. Julienne-Marie.

Nota – Aqui está um fato repleto de ensinamentos. Quem se dignar meditar sobre estas três comunicações, nelas encontrara condensados todos os grandes princípios do Espiritismo.

É uma justiça essa que está ao alcance de todos.

Profundo pensamento é também esse que atribui as calamidades coletivas à infração das leis divinas, porque Deus castiga os povos tanto quanto os indivíduos. Realmente, pela prática da caridade, as guerras e as misérias acabariam por ser eliminadas. Pois bem, a prática dessa lei conduz ao Espiritismo e, quem sabe, será essa a razão de ter ele tantos e tão acérrimos inimigos? As exortações desta filha, aos pais, serão acaso as de um demônio?

FRANÇOISE VERNHES

Esta era cega de nascimento e filha de um rendeiro das cercanias de Tolosa. Faleceu em 1855, aos 45 anos.

Ocupava-se constantemente com o ensino do catecismo aos meninos, preparando-os para a primeira comunhão.

Mudado o catecismo, nenhuma dificuldade lhe sobreveio em ensinar o novo, por conhecê-los ambos de cor. De regresso de longa excursão em tarde invernosa, na companhia de uma tia, era-lhe preciso atravessar sombria floresta por caminhos lamacentos. Fazia-se mister a maior precaução para que as duas mulheres se não despenhassem nos fossos. Nesta contingência, querendo a tia dar-lhe a mão, ela disse: “Não vos incomodeis comigo, não corro risco algum, visto como tenho aos ombros uma luz que me guia. Segui-me, pois, que serei eu a conduzir-vos.” Assim terminaram a jornada sem acidente, conduzindo a cega a tia que tinha bons olhos.

Evocação em Paris, em maio de 1865:

– P. Quereis dizer-nos que luz seria essa a guiar-vos naquela noite trevosa e só vista por vós? – R. Quê! Pois as pessoas como vós, em contínuas relações com os Espíritos, têm necessidade de explicação sobre tal fato? Era o meu anjo de guarda quem me guiava.

– P. Essa era também a nossa opinião, mas desejávamos vê-la confirmada. Mas sabíeis naquela ocasião que era o vosso anjo de guarda quem vos conduzia? – R. Confesso que não, posto acreditasse numa intervenção do céu. Eu orara por tanto tempo para que o Pai celestial se apiedasse de mim… É tão cruel a cegueira… Sim, ela é bem cruel, mas também reconheço ser justa.

“Aqueles que pecam pelos olhos, por eles devem ser punidos; e assim deve suceder quanto a todas as outras faculdades do homem, que o levam ao abuso. Não procureis, portanto, nos inúmeros sofrimentos humanos, outra causa que lhes não seja a própria e natural, a expiação.

“Esta, contudo, só é meritória quando suportada com humildade, podendo ser suavizada por meio da prece, pela atração de influências espirituais que, protegendo os réus da penitenciária humana, lhes infundam esperança e conforto.

– P. Dedicada ao ensino das crianças pobres, tivestes dificuldade em adquirir os conhecimentos do catecismo, quando o mudaram? – R. Ordinariamente, os cegos têm outros sentidos duplos, se assim se pode dizer. A observação não é uma das menores faculdades da sua natureza.

“A memória lhes é qual armário onde se colocam coordenados, e para sempre, os ensinos referentes às suas aptidões e tendências. E porque nada do exterior pode perturbar esta faculdade, o seu desenvolvimento pode ser notável, pela educação. Quanto a mim, agradeço a Deus o haver-me concedido que tal faculdade me permitisse preencher a missão que levava, junto dessas crianças, e que constituía também uma reparação do mau exemplo que lhes dera em anterior existência. Tudo é assunto sério para os espíritas; basta, para afirmá-lo, olhar ao derredor deles. Os meus ensinos lhes seriam porventura mais úteis do que se se deixassem levar pelas sutilezas filosóficas de certos Espíritos, que se divertem com lisonjear-lhes o orgulho em frases tão bombásticas quão vazias de sentido.

– P. Pela vossa conduta terrena, tivemos uma prova do vosso adiantamento morai, e agora, pela vossa linguagem, temos a de que esse adiantamento também é intelectual. – R. Muito me resta por adquirir; há, porém, muita gente que na Terra passa por ignorante, só porque tem a inteligência embotada pela expiação. Com a morte se rasga o véu, e freqüentemente os ignorantes são mais instruídos do que os desdenhosos da sua ignorância. Crede que o orgulho é a pedra de toque para o conhecimento dos homens.

“Todos os que possuírem coração acessível à lisonja, demasiado confiante na sua ciência, estão no mau caminho; em geral são hipócritas e, portanto, desconfiai deles.

“Sede humildes qual o foi o Cristo e, como ele, com amor carregai a vossa cruz, a fim de subirdes ao reino dos céus. Françoise Vernhes.”

ANNA BITTER

A perda de um filho adorado é motivo de acerbo pesar; ver, porém, o filho único, alvo de todas as esperanças, depositário de todas as afeições, definhar a olhos vistos e sem sofrimentos, por causas desconhecidas, por um desses caprichos da Natureza que zombam da Ciência e, depois de esgotar todos os recursos, não haver por compensação uma esperança sequer; suportar essa angústia de todos os momentos, por longos anos, sem lhe prever o termo, é um suplício cruel que a fortuna agrava em vez de suavizar, dada a impossibilidade de vê-la fruída pelo ente adorado.

Esta era a situação do pai de Anna Bitter, que por isso se entregou a um íntimo desespero. O caráter se lhe exasperava ante tal espetáculo, a cortar-lhe o coração, e cujas conseqüências não poderiam deixar de ser fatais, ainda que indeterminadas. Um amigo da família, adepto do Espiritismo, julgou dever interrogar a respeito o seu protetor espiritual, e obteve a seguinte resposta:

“Muito desejo explicar-te o caso que ora te preocupa, mesmo porque sei que a mim não recorres por curiosidade indiscreta, mas pelo interesse que te merece aquela pobre criança, e ainda porque, crente na justiça divina, tu só terás a ganhar com isso. Todos os que acarretam sobre si a justiça do Senhor devem curvar a fronte sem maldições nem revoltas, porque não há castigo sem causa. A pobre criança, cuja sentença de morte fora suspensa por Deus, em breve deverá regressar ao nosso meio, visto como mereceu a divina compaixão; quanto ao seu pai, esse homem infeliz, tem de ser punido na sua única afeição mundana, visto haver zombado da confiança e dos sentimentos de quantos o rodeiam. Por momentos o seu arrependimento tocou o Onipotente e a morte sustou o golpe sobre o ente que lhe é tão caro; mas, para logo veio a revolta, e o castigo sempre acompanha a revolta. Em tais condições, é felicidade ainda o ser punido nesse mundo! Meus amigos, orai por essa pobre criança, cuja juventude vai dificultar-lhe os últimos momentos. Nesse ser a seiva é tão abundante, que, apesar do seu depauperamento orgânico, a alma terá dificuldade em se lhe desprender. Oh! orai… Mais tarde ela também vos auxiliará e consolará, visto que o seu Espírito é mais adiantado do que os que a rodeiam. Para que o seu desprendimento seja auxiliado, coube-me, como graça especial do Senhor, o poder orientar-vos a respeito.”

Nota – Depois de haver expiado o insulamento, morreu o pai de Anna Bitter. A seguir, damos de uma e outro as primeiras comunicações imediatas às respectivas desencarnações:

Da filha. – “Obrigado, meu amigo, à vossa intercessão por esta criança, bem como por terdes seguido os conselhos do vosso bom guia. Sim. Graças às vossas preces, mais fácil me foi deixar o invólucro terrestre, porque meu pai… Ah! esse não orava, maldizia! Entretanto, não lhe quero mal por isso: – conseqüência da grande ternura que me votava. A Deus rogo que lhe conceda luzes antes de morrer; e, quanto a mim, o incito e animo, porque me assiste a missão de lhe suavizar os últimos momentos. Vezes há nas quais parece que um raio de luz divina baixa até ele e o comove; contudo, isso não passa de fugaz clarão, que para logo o deixa entregue às primitivas idéias. Ele tem consigo um gérmen de fé, mas tão sufocada pelos mundanos interesses, que só poderá vingar por meio de novas e mais cruéis provações. Pelo que me diz respeito, apenas cumpria suportar um resto de prova, de expiação, e assim é que ela não foi nem muito dolorosa nem muito difícil. A minha singular enfermidade não acarretava sofrimentos; eu era como que instrumento da provação de meu pai, o qual, por me ver em tal estado, sofria mais do que eu mesma. Além disso, eu tinha resignação e ele não. Hoje sou recompensada. Deus, graciosamente, abreviou-me a estada na Terra – o que aliás lhe agradeço. Feliz entre os bons Espíritos que me cercam, todos cumprimos satisfeitos as nossas obrigações, mesmo porque a inatividade seria um cruel suplício.”

O Pai (um mês depois da morte). – Evocando-vos, temos por fim nos informarmos da vossa situação no mundo dos Espíritos e ser-vos úteis na medida das nossas forças. – R. O mundo dos Espíritos? Não o vejo… O que vejo são homens conhecidos, que comigo não se preocupam e tampouco me deploram a sorte, antes parecendo-me contentes de se verem livres de mim.

– P. Mas fazeis uma idéia exata da vossa condição? – R. Perfeitamente: por algum tempo julguei-me ainda no vosso mundo, mas hoje sei muito bem que não mais lhe pertenço.

– P. Por que, então, não podeis divisar outros Espíritos que vos rodeiam? – R. Ignoro-o, conquanto tudo esteja bem claro em torno de mim.

– P. Ainda não vistes a vossa filha? – R. Não, ela está morta; procuro-a, chamo por ela inutilmente. Que vácuo horrível que a sua morte me deixou na Terra! Morrendo, julgava encontrá-la, mas nada! O insulamento sempre e sempre! ninguém que me dirija uma palavra de consolação e de esperança. Adeus, vou procurar minha filha.

O guia do médium. – Este homem não era ateu nem materialista, mas daqueles que crêem vagamente, sem se preocuparem de Deus e do futuro, empolgados como são pelos interesses terrenos. Profundamente egoísta, tudo sacrificaria para salvar a filha, mas também sem o mínimo escrúpulo sacrificaria os interesses de terceiros em seu proveito pessoal. Por ninguém se interessava, além da sua filha. Deus o puniu da forma como o vistes, arrebatando-lhe da Terra a consolação única; e como ele se não arrependesse, o seqüestro subsiste no mundo espiritual. Não se interessando por ninguém aí, também aqui ninguém por ele se interessa. Permanece só, insulado, abandonado, e nisso consiste a sua punição. Mas, que faz ele em tais conjunturas? Dirige-se a Deus? Arrepende-se? Não: murmura sempre, blasfema até, faz, em uma palavra, o que fazia na Terra. Ajudai-o, pois, pela prece como pelo conselho, a desanuviar-se da sua cegueira.

JOSEPH MAÎTRE, o cego

Pertencia à classe mediana da sociedade e gozava de modesta abastança, ao abrigo de quaisquer privações. Os pais o destinavam à indústria e deram-lhe boa educação, porém, aos 20 anos, ele perdia a visão. Com perto de 50, veio finalmente a falecer, isto em 1845. Dez anos antes, fora acometido por outra enfermidade que o deixou surdo, de modo que só pelo tato mantinha relações com o mundo dos encarnados. Ora, não ver, já é um suplício; não ver e não ouvir é duplicado suplício, principalmente para quem depois de fruir as faculdades de tais sentidos tiver de suportar essa dupla privação. Qual a causa de sorte tão cruel? Certo não era a sua última existência, sempre moldada numa conduta exemplar. Assim é que sempre foi bom filho, possuidor de caráter meigo e benévolo, e, quando por cúmulo de infelicidade se viu privado da audição, aceitou resignado, sem um queixume, esta prova. Pela sua conversação, pressentia-se na lucidez do seu Espírito uma inteligência pouco comum. Pessoa que o conhecera, na presunção de que poderia receber instruções úteis, evocou-lhe o Espírito e obteve a seguinte mensagem, em resposta às perguntas que lhe dirigira:

(Paris – 1863)

“Agradeço, meus amigos, o terdes lembrado de mim. Pode ser que tal se não desse independente da suposição de proveito da minha comunicação, mas, ainda assim, estou certo de que motivos sérios vos animam e eis porque com prazer atendo ao chamado, uma vez que, por feliz, me é permitido orientar-vos. Assim possa o meu exemplo avolumar as provas assaz numerosas que os Espíritos vos dão da justiça de Deus. Cego e surdo me conhecestes, e para logo vos propusestes saber a causa de tal destino.

“Eu vo-lo digo: Antes de tudo, importa dizer que era a segunda vez que eu expiava a privação da vista. Na minha precedente existência, em princípios do último século, fiquei cego aos 30 anos, em decorrência de excessos de todo o gênero que, arruinando-me a saúde, me enfraqueceram o organismo. Note-se que era já isso uma punição por abuso dos dons providenciais de que fora largamente cumulado. Ao invés, porém, de me atribuir a causa original dessa enfermidade, entendi de acusar a Providência, na qual, aliás, pouco cria. Anatematizei Deus, reneguei-o, acusei-o, acrescentando que, se acaso existisse, devia ser injusto e mau, por deixar assim penar as criaturas. Entretanto, eu deveria dar-me ainda por feliz, isento como estava de mendigar o pão, à feição de tantos outros míseros cegos como eu. Mas é que eu só pensava em mim, na privação de gozos que me impunham. Influenciado por idéias tais, que o cepticismo mais exaltava, tornei-me frenético, exigente, numa palavra, insuportável aos que comigo privavam. Além disso, a vida era-me um moto-contínuo, pois que eu não pensava no futuro – uma quimera. Depois de esgotar baldamente os recursos da Ciência e reputada impossível a cura, resolvi antecipar a morte: suicidei-me. Que despertar, então, que foi o meu, imerso nas mesmas trevas da vida! Contudo, não tardou muito o reconhecimento da minha situação, da minha transferência para, o mundo espiritual. Era um Espírito, sim, porém, cego. A vida de além-túmulo tornava-se-me, pois, a realidade! Procurei fugir-lhe, mas em vão… Envolvia-me o vácuo. Pelo que ouvia dizer, essa vida deveria ser eterna, e com ela a minha situação. Idéia horrenda! Eu não sofria, mas impossível é descrever as angústias e tormentos espirituais experimentados. Quanto teriam eles durado? Ignoro-o… Mas, quão longo me pareceu este tempo! Extenuado, fatigado, pude finalmente analisar-me a mim mesmo, e compreendi o ascendente de um poder superior, que sobre mim atuava, e considerei que se essa potência podia oprimir-me, também poderia aliviar-me. E implorei piedade. A proporção que orava e o fervor se me aumentava, alguém me dizia que a minha situação teria um termo. Por fim se fez a luz e extremo foi o meu arroubo de alegria ao entrever as claridades celestes, distinguindo os Espíritos que me rodeavam, sorrindo, benévolos, bem como os que, radiosos, flutuavam no Espaço. Ao querer seguir-lhes os passos, força invisível me reteve. Foi então que um deles me disse: “O Deus que negaste teve comiseração do teu arrependimento e permitiu-nos te déssemos a luz, mas tu só cedeste pelo sofrimento, pelo cansaço. Se queres participar desta felicidade aqui fruída, forçoso é provares a sinceridade do teu arrependimento, as boas disposições, recomeçando a prova terrestre em condições que te predisponham às mesmas faltas, porque esta nova provação deverá ser mais rude que a outra.” Aceitei pressuroso, prometendo não mais falir. Assim voltei à Terra nas condições que sabeis. Não me foi difícil compreender a situação, porque eu não era mau por índole; revoltara-me contra Deus, e Deus me puniu. Reencarnei trazendo a fé inata, razão por que não murmurei, antes aceitei a dupla enfermidade, resignado, como expiação que era, oriunda da soberana justiça. O insulamento dos meus derradeiros anos nada tinha de desesperador, porquanto me bafejava a fé no futuro e na misericórdia de Deus. Demais, esse insulamento me foi proveitoso, porque durante a longa noite silenciosa a minha alma mais livremente se alçava ao Eterno, entrevendo o infinito pelo pensamento. Quando, por fim, terminou o exílio, o mundo espiritual só me proporcionou esplendores, inefáveis gozos. O retrospecto ao passado faz que me julgue muito feliz, relativamente, pelo que dou graças a Deus; quando, porém, olho para o futuro, vejo a grande distância que ainda me separa da completa felicidade.

Tendo já expiado, ainda me faltava reparar. A última encarnação só a mim aproveitou, pelo que espero recomeçar brevemente por existência que me permita ser útil ao próximo, reparando por esse meio a inutilidade anterior. E só assim me adiantarei na boa senda, sempre franqueada aos Espíritos possuídos de boa-vontade.

Amigos, eis aí a minha história; e se o meu exemplo puder esclarecer quaisquer dos meus irmãos encarnados, de modo a evitarem a má ação que pratiquei, terei por principiado o resgate da minha dívida. Joseph.”

FIM DE O CÉU E O INFERNO DE ALLAN KARDEC

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Índice de O Céu e o Inferno

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PRIMEIRA PARTE – DOUTRINA

CAPÍTULO I – O porvir e o nada
CAPÍTULO II – Temor da morte
CAPÍTULO III – O céu
CAPÍTULO IV – O inferno
CAPÍTULO V – O purgatório
CAPÍTULO VI – Doutrina das penas eternas
CAPÍTULO VII – As penas futuras segundo o Espiritismo
CAPÍTULO VIII – Os anjos
CAPÍTULO IX – Os demónios
CAPÍTULO X – Intervenção dos demônios nas modernas manifestações
CAPÍTULO XI – Da proibição de evocar os mortos

SEGUNDA PARTE – EXEMPLOS
CAPÍTULO I – O passamento
CAPÍTULO II – Espíritos felizes
CAPÍTULO III – Espíritos em condições medianas
CAPÍTULO IV – Espíritos sofredores
CAPÍTULO V – Suicidas
CAPÍTULO VI – Criminosos arrependidos
CAPÍTULO VII – Espíritos endurecidos
CAPÍTULO VIII – Expiações terrestres