Marcha gradual do Espiritismo

Marcha gradual do Espiritismo. Dissidências e entraves

27 DE ABRIL DE 1866

(Paris, em casa do sr. Leymarie, méd. sr. L…)

Caros condiscípulos, o que é verdadeiro deve ser; nada pode se opor à irradiação de uma verdade; às vezes, pode-se velá-la, torturá-la, fazer nela o que fazem os teredos nos diques holandeses; mas uma verdade não é edificada sobre estaca: ela corta o espaço; está no ar ambiente, e se pôde deslumbrar uma geração, há sempre encarnações novas, de recrutamentos da erraticidade que vêm trazer germes fecundos, outros elementos, e que sabem atrair para eles todas as grandes coisas desconhecidas.

Não vos apresseis muito, amigos; muitos dentre vós gostariam de ir a vapor, e nesse tempo de eletricidade, correr como ela. Esqueceis as leis da Natureza, gostaríeis de ir mais depressa do que o tempo. Refleti, no entanto, o quanto Deus é sábio em tudo. Os elementos que constituem o vosso planeta sofreram uma longa e laboriosa criação; antes que pudésseis existir, foi necessário que tudo se constituísse segundo a aptidão de vossos órgãos. A matéria, os minerais, fundidos e refundidos, os gases, os vegetais, pouco a pouco harmonizados e condensados, a fim de permitir a vossa eclosão sobre a Terra. É a eterna lei do trabalho que não cessou de reger os seres inorgânicos, como os seres inteligentes.

O Espiritismo não pode escapar a essa lei, à lei da criação. Implantado sobre um solo ingrato, é preciso que haja suas más ervas, seus maus frutos. Mas também, cada dia se roçam, se arrancam, se cortam os maus ramos; o terreno se surriba insensivelmente, e quando o viajor, fatigado das lutas da vida, encontrar a abundância e a paz à sombra de um fresco oásis, virá estancar a sua sede, enxugar seus suores, nesse reino lenta e sabiamente preparado; ali o rei é Deus, esse dispensador generoso, esse igualitário judicioso, que sabe bem que o trajeto a seguir é doloroso, mas fecundo; penoso, mas necessário; o Espírito formado na escola do trabalho, dela sai mais forte e mais apto para as grandes coisas. Aos desfalecidos ele diz: coragem; e como esperança suprema, deixa entrever, mesmo aos mais ingratos, um ponto de atraso, ponto salutar, caminho demarcado pelas reencarnações.

Ride das vãs declamações: deixai falar os dissidentes, berrar aqueles que não podem se consolar por não serem os primeiros; todo esse pequeno ruído não impedirá o Espiritismo de fazer invariavelmente o seu caminho; é uma verdade, e, como um rio, toda verdade deve seguir o seu curso.

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Índice de Obras Póstumas de Allan Kardec

  1. Deus
  2. A Alma
  3. Criação
  1. O perispírito, princípio das manifestações
  2. Manifestações visuais
  3. Transfiguração. Invisibilidade
  4. Emancipação da alma
  5. Aparições de pessoas vivas. Bicorporeidade
  6. Dos médiuns
  7. Da obsessão e da possessão
  1. Fonte das provas da natureza do Cristo
  2. A divindade do Cristo está provada pelos milagres?
  3. Divindade de Jesus está provada pelas suas palavras?
  4. Palavras de Jesus depois de sua morte
  5. Dupla natureza de Jesus
  6. Opinião dos Apóstolos
  7. Predições dos profetas concernentes a Jesus
  8. O Verbo se fez carne
  9. Filho de Deus e filho do homem
  1. Doutrina Materialista
  2. Doutrina Panteísta
  3. Doutrina Deísta
  4. Doutrina Dogmática
  5. Doutrina Espírita

Segunda Parte

  1. Considerações preliminares
  2. Dos cismas
  3. O chefe do Espiritismo
  4. Comissão Central
  5. Instituições acessórias e complementares da comissão central
  6. Extensão da ação da comissão central
  7. Os estatutos constitutivos
  8. Do programa de crenças
  9. Caminhos e meios
  10. Allan Kardec e a nova constituição