A função dos Guias Espirituais

CAPÍTULO 29

A função dos guias
e as obrigações dos médiuns.

PERGUNTA: — Alguns médiuns com os quais temos tido contato em vários Estados do país deixaram transparecer-nos que são missionários em tarefa sacrificial a favor do progres­so da humanidade. Alguns deles queixaram-se do mundo adverso da Terra, onde se sentem desajustados, mas precisam desempenhar o seu serviço messiânico. Que dizeis disso?

RAMATIS: — Os médiuns, em sua generalidade, são cria­turas portadoras de grandes débitos do passado. Em vidas pregressas abusaram do poder e da influência magnética so­bre os encarnados, servindo-se de sua inteligência avançada para concretizar empreendimentos mercenários e quase sem­pre de absoluto interesse pessoal. Muitos fugiram aos compro­missos assumidos para com o povo ou despenharam-se nos abismos da vaidade, do orgulho ou da vingança impiedosa.

Mas, apesar da correção com que se distinguem no de­sempenho de sua tarefa mediúnica, não é difícil identificar-lhes os resquícios prejudiciais do pretérito e a exagerada sus­ceptibilidade que ainda manifestam no trato com o próximo. Há médiuns que se irritam facilmente quando são contraria­dos; buscam as primeiras posições, exigem o comando dos trabalhos espíritas e estimam profundamente o prestígio pes­soal no ambiente de que participam. Sentem-se humilhados quando devem se submeter a outros confrades de menor en­vergadura cultural, e tudo fazem para fugir das situações que os conservem no anonimato. Raros submetem-se à disciplina sensata dos postulados codificados por Allan Kardec, e alguns deles alegam que os seus princípios já passaram do tempo.

Mesmo quando se trata de espíritos inteligentes e cultos, o amor próprio ainda lhes grita profundamente no âmago da alma quando recebem qualquer advertência alheia. Algu­mas vezes reproduzem na seara espírita os atos insensatos do passado em novas cópias-carbono, e os mais exaltados e inconformados afastam-se imediatamente dos labores espi­ríticos onde predomina a disciplina doutrinária cardeciana. Mais tarde, por espírito de desforra ou de rebelde persona­lismo, eles preferem cultivar exotismos mediúnicos à distân­cia dos postulados espíritas já consagrados por um século de experimentação. Os mais abespinhados e soberbos rompem as algemas disciplinadoras de sua vaidade e orgulho, e des­forram-se protestando que não foram suficientemente com­preendidos nas suas “boas intenções”.

No passado, eles pontificavam das altas posições políti­cas ou sociais, impondo sua vontade aos menos aquinhoados de inteligência e deixavam de cumprir as promessas demagó­gicas que arrebatavam multidões. Então a Lei Justiceira os obriga hoje a servir às massas que subestimaram e aguilhoa-os com insistência, a fim de saldarem suas dívidas pregressas para com a contabilidade divina. Poucos médiuns reconhe­cem-se em prova e reparação cármica, pois a maioria consi­dera a obrigação mediúnica como sendo fruto de sua eleva­da graduação espiritual ou eleição missionária, esquecendo-se de que missionários, na realidade, foram Antúlio, Hermes, Buda, Crisna, João Batista, Francisco de Assis, Allan Kardec, Ghandi e, acima de todos, o inconfundível Jesus.

 

PERGUNTA: — Mas o fato de os médiuns se convencerem de que são missionários a serviço do Alto não os ajuda a substituírem suas inclinações inferiores pelo serviço benfeitor ao próximo? Convictos disso eles se devotam à aplicação de passes, aos receituários, à doutrinação de sofredores e multi­plicam esforços para fazer a caridade”. Estamos certos?

RAMATÍS: — O Bem tem múltiplas formas e, quanto ao mérito das realizações humanas, não nos preocupemos, pois Jesus saberá distinguir o joio do trigo. Mas é evidente que a prestação da caridade só é sublime e louvável quando na intimidade da alma já existe a qualidade crística do pra­zer espontâneo de servir ao próximo. Algumas vezes pode­mos acender luzes nos corações alheios e, paradoxalmente, findamos nossas vidas na escuridão do descaso íntimo. Exaurindo-nos para atender aos pedintes de todas as espé­cies que, na maioria das vezes, são criaturas em busca de so­luções fáceis pela via mediúnica, nem por isso ficamos deso­brigados de extinguir as sorrateiras paixões que ainda po­dem morar em nossas almas. O serviço a favor do próximo, embora seja de valor, não dispensa da higienização espiri­tual aquele que o realiza.

Quando o cruel Saulo se transformou em Paulo, o sublime apóstolo dos gentios decidiu-se em primeiro lugar a dar cabo do “homem velho”, isto é, extinguir a velha e vaidosa persona­lidade humana e fazer ressurgir o”homem novo” da individua­lidade angélica. Os magníficos serviços cristãos que os médiuns podem prestar à humanidade, convictos de que são missioná­rios a serviço do Alto, não os eximem de purificarem o seu pró­prio espírito, pois não basta atenderem criaturas aflitas ou pra­ticar a caridade a “todo pano”. Antes de tudo precisam com­provar, em si mesmos, se realmente usufruem da emoção espi­ri tual de servir o próximo por sincero prazer, ou se se trata apenas do desejo egoísta de alcançar o céu.

Os médiuns que se gabam no labor espetacular de fazer a caridade por obrigação cármica e sem a força íntima do amor espiritual são candidatos à desilusão produzida pelas cinzas dos fogos de artifício. O bem há de ser feito pelo pró­prio bem, sem qualquer interesse ou noção de dever; é um estado espiritual de dedicação em favor de outrem; comove quem o recebe e rejubila quem o pratica. É um ato essencial do espírito e se degrada quando praticado sob o interesse da personalidade própria. A caridade pode ser puro artificialis­mo, mesmo naqueles que a praticam para cumprir missões do Alto. O Bem, em sua verdadeira essência, dispensa os es­tímulos externos que lhe roubam a espontaneidade; ele só é válido pelo prazer íntimo de servir.

 

PERGUNTA: — Há fundamento no costume de alguns guias lisonjearem os seus médiuns, destacando-lhes o servi­ço mediúnico como sacrificial empreendimento em favor da humanidade? Já ouvimo-los solicitar aos presentes que orem e ajudem os seus medianeiros a cumprir a sua missão espinhosa na matéria.

RAMATÍS: — Os protetores desencarnados ou filiados às instituições espirituais de comunicações com a Terra, e responsáveis pelos seus pupilos em tarefas mediúnicas, reco­nhecem perfeitamente o perigo de os exaltarem no trabalho de intercâmbio com os desencarnados. Conforme já vo-lo dissemos, com raras excepções, os médiuns em atividades na Crosta são criaturas em “prova” e não missionárias eleitas, por cujo motivo é conveniente evitar-lhes os elogios extem­porâneos e capazes de avivar-lhes a vaidade e criar a falsa superioridade espiritual. Os guias e mentores sensatos evi­tam sistematicamente a imprudência de fazerem reflorescer nos seus sensitivos o velho personalismo, que no pretérito os atirou por terra sob o guante das paixões e das veleidades humanas. No serviço mediúnico, há o perigo de se criar nova classe de “eleitos” e vaidosa hierarquia religiosa.

Desde que os médiuns, em sua maioria, são espíritos que abusaram da inteligência, da cultura, do poder ou da riqueza em vidas pregressas, tomados da vaidade, do orgulho e do in­teresse material, qualquer louvor imprudente e prematuro pode acordar-lhes a escória adormecida na intimidade da alma imperfeita. Os guias esclarecidos já se consideram satis­feitos quando podem conservar os seus medianeiros à distân­cia das entidades das sombras, que sorrateiramente procuram infiltrar-se em todos os movimentos mediúnicos invigilantes e atiçam a vaidade dos médiuns, procurando convencê-los de que são missionários abnegados a serviço do Alto.

 

PERGUNTA: — E como se explicam os elogios tão co­muns, que alguns guias de certa notoriedade costumam fa­zer aos seus médiuns?

RAMATÍS: — Caso não partam de algum espírito levia­no, irresponsável ou maquiavélico, interessado em subverter o propósito sensato do trabalho mediúnico, tais elogios po­dem provir dos próprios médiuns sob o domínio de algum complexo de narcisismo. Reconhecemos que nem sempre esse auto-elogio é feito deliberadamente, por vaidade, exibi­cionismo ou ansiedade de prestígio entre os seus admirado­res. Em geral, porém, tudo é fruto da ignorância.

 

PERGUNTA: — Toda pessoa candidata a médium tem o seu guia já designado desde o berço de nascimento?

RAMATÍS: — Na verdade, todos os seres possuem o seu guia espiritual desde o berço de nascimento, o qual a tradição religiosa sempre designou como anjo de guarda que protege a criatura e lhe inspira as boas ações. Em alguns casos, o espíri­to que deve renascer na matéria com a prova da mediunidade solicita de outro espírito amigo, com autorização do Alto, que o proteja e guie no denso cipoal de dificuldades próprias da vida física. Outras vezes, os guias são atraídos naturalmente pelos médiuns em desenvolvimento mediúnico, porque ambos possuem gênios semelhantes e se aproximam pelos laços da simpatia espiritual. Os guias também podem ser designados posteriormente, no Espaço, muito tempo depois da encarnação dos seus pupilos, assim como outros se ligam ao médium que lhes ofereça oportunidade de progresso no intercâmbio recí­proco de idéias e no serviço mediúnico benfeitor.

Mas o guia, em geral, é sempre o espírito amigo portador de qualidades e aptidões que o médium só possui embriona­riamente. Assim, o êxito do seu pupilo, na matéria, também se reflete benfeitoramente sobre si. Há casos em que o guia acompanha o médium durante séculos e ao qual se sente liga­do por longo afeto, pois prontificou-se a situá-lo definitiva­mente à sombra salvadora do Cristo. No entanto, todo êxito nesse serviço de socorro e orientação espiritual aos médiuns encarnados sempre depende de estes cooperarem espiritual­mente, pois, em geral, deixam-se dominar pela teimosia, pela irascibilidade ou pelos vícios, que tecem uma cortina de flui­dos perniciosos entre eles e as intuições do Alto.

 

PERGUNTA: — Às vezes os médiuns anunciam a substituição do seu guia habitual por outro espírito afim, e o primeiro despede-se em determinada noite no Centro Es­pírita. Isso é razoável, ou o guia deve acompanhar o seu médium até o dia de sua desencarnação?

RAMATíS: — Em certos casos, o espírito encarnado na Crosta necessita de esclarecimentos especiais, desenvolve de­terminado objetivo científico ou possui intelecto excepcio­nal, requerendo então a assistência de outros espíritos mais competentes do que aquele que o guia desde o berço. Deste modo, ninguém se encontra desamparado da proteção do Alto, mas atraindo sempre para junto de si as almas que vi­bram no mesmo padrão espiritual. Essa proteção só se reduz quando é o próprio guiado quem cria condições psíquicas ou fluídicas que hostilizem a ação do seu protetor.

Certas vezes o guia do médium precisa retornar à maté­ria, a fim de prosseguir no seu aprimoramento espiritual. Doutra feita, ausenta-se para associar-se a serviços mais ele­vados em esfera próxima, ou então precisa atender outra alma de sua maior afinidade e compromisso cármico em re­nascimento no mundo físico. Se o médium é muito estudio­so e devotado sinceramente ao serviço do Cristo, obviamen­te ele acelera o seu progresso espiritual, requerendo por ve­zes outro orientador espiritual com melhores credenciais e experiência, que há de suprir-lhe as perspectivas mais am­plas e os novos conhecimentos buscados pelo seu espírito.

 

 

PERGUNTA: — Seria possível que algum médium logras­se tal progresso na sua vida terrena, que o fizesse superar o seu `guia” espiritual em conhecimento ou experiência?

RAMATíS: — Na realidade, quem mais pode progredir no trato carnal é o médium, desde que estude, experimente e apure sua conduta espiritual. O guia num sentido geral é mais o fruto da amizade espiritual pré-reencarnatória, da res­ponsabilidade recíproca assumida em vidas anteriores, ou então conseqüente de determinação do Alto. Em conseqüên­cia, variam as aptidões, o entendimento e o poder espiritual dos guias entre si. Alguns são muitíssimo semelhantes aos seus próprios pupilos encarnados, levando-lhes vantagem só porque estão em liberdade no Além e conhecem antecipada­mente as necessidades, os objetivos e as probabilidades de êxito dos seus guiados. Eles assim visualizam com mais segu­rança a realidade espiritual que os encarnados percebem confusamente, pois estes, habitando a carne, perdem conside­rável parte de sua memória pregressa e visão do Além.

O médium muito intelectivo, mas débil moralmente, pode ser guiado por um espírito humilde e boníssimo, cujo objetivo é despertar-lhe as virtudes superiores. No entanto, o médium de elevado índice moral, mas pobre de intelecto, por vezes é orientado por alma de menor coeficiente espiritual, mas de boa intenção e valiosa inteligência. Em ambos os casos, a influên­cia é recíproca e de bons resultados. O guia boníssimo recebe os estímulos inteligentes do seu médium, que lhe apuram o co­eficiente mental, enquanto noutro extremo o orientador de in­telecto avançado, mas de poucas virtudes, influencia-se pela força das disposições morais elevadas do seu tutelado.

O médium estudioso, boníssimo e criterioso, devotado aos objetivos espirituais superiores e ardente pesquisador do mistério da vida, é capaz de elevar-se ao nível mental do seu tutor espiritual, e mesmo fazer jus à orientação de outra en­1 idade mais graduada na escala sideral.

 

PERGUNTA: — Conhecemos trabalhos espíritas, públicos ou caseiros, em que só baixam espíritos de elevado renome, o que é muito apregoado pelos seus componentes, que conside­ram isso como um alto índice de segurança espiritual do am­biente. Acontece que tais adeptos da doutrina, impressiona­dos por essas entidades tão prestigiosas, nada mais realizam sem consultá-las previamente. Poderíamos saber se todos esses médiuns e confrades podem estar realmente sob a égide de espíritos superiores e de merecida confiança?

RAMATIS: — Conforme já vos explicamos alhures, sendo o animismo o fundamento das práticas mediúnicas, ele influi em todas as comunicações de espíritos desencarna­dos, variando de acordo com a capacidade intelectual, o sen­so lógico ou a imaginação dos médiuns. Sendo raros os mé­diuns, cultos, sonambúlicos ou intuitivos de absoluta segu­rança espiritual em todas as suas comunicações mediúnicas, é sempre conveniente conhecer-se a porcentagem da atuação do desencarnado em relação às idéias preconcebidas dos medianeiros. Não aconselhamos aos adeptos espíritas abdi­carem do seu senso comum e aceitarem incondicionalmente as regras e sugestões impostas pelos espíritos desencarna­dos, embora prestigiosos, pois, quase sempre, é o próprio médium travestido de mentor espiritual que interfere forte­mente, fazendo recomendações anímicas.

Podeis notar que, se o médium anímico é um indivíduo prepotente, ortodoxo ou sisudo na sua vida em comum, coincide ser o seu guia também severo, ríspido e sectarista, tecendo advertências graves e sentenciosas. Há casos em que alguns médiuns abusam da auto-suficiência e, por se consi­derarem perfeitamente hábeis ou capacitados para resolver todas as consultas solicitadas, passam a pontificar animica­mente, levando seus desacertos ou erros pessoais, depois, à responsabilidade do guia.

Muitos espíritas estranham o fato de que certos espíri­tos tolerantes e afetuosos quando se comunicam por deter­minado médium, depois se tornem ríspidos, exigentes e se­veros ao se manifestarem através de outro medianeiro. Evi­dentemente, em tal caso, ou o médium impõe sobre o espíri­to a sua própria personalidade anímica, ou então trata-se de outra entidade que se serve abusivamente da identidade alheia para impressionar os seus ouvintes. Não existindo ne­nhuma polícia astral responsável pelo conteúdo ou pureza das comunicações dos “mortos” para os “vivos”, no intercâm­bio com o Além, é bastante avultada a intromissão de espiritos perturbadores em assuntos que não lhes competem, os quais eles deturpam de modo leviano e maldoso.

No “lado de cá” também proliferam os supostos guias, que tudo pretendem saber. Eles ditam gravemente as regras mais tolas aos encarnados, alimentam velhas superstições e transmitem mensagens triviais à conta de revelações inco­muns. Exploram a vaidade dos médiuns presunçosos ou ad­versos ao estudo; fazem deles instrumentos de escritos vul­gares e prenhes de lugares comuns, produzindo material que depois só serve para os adversários cultos ridicularizarem a prática mediúnica.

Esses são inimigos comuns e declarados do progresso da doutrina espírita, pois reconhecem-na capaz de libertar as consciências algemadas às paixões da matéria e livrar os infe­lizes do vampirismo repulsivo do astral inferior. Algumas ve­zes, até homens de bom senso e estudiosos do Espiritismo dei­xam-se fascinar pelas invenções e exortações banais desses pseudos “guias”, que as proferem sob incontrolável verborra­gia, repleta de sentenças pomposas de puro efeito infantil.

 

PERGUNTA: — Que aconselhais quanto a essa situa­ção, em que se confundem tão facilmente os falsos e os ver­dadeiros guias?

RAMATÍS: — Allan Kardec já esclareceu perfeitamente essa situação no “Livro dos Médiuns”. As suas conclusões sensatas e os seus comentários esclarecedores sobre a natu­reza, a ação e o objetivo dos espíritos mistificadores, são de molde a instruir qualquer espírita quanto à sua atitude mais certa. Trata-se de entidades que se aproveitam facilmente do interesse particular, da vaidade ou da ingenuidade dos mé­diuns presunçosos que desprezam as advertências alheias e as intuições dos seus amigos espirituais. Geralmente profe­rem longos discursos e dão exaustivas mensagens sem nexo à conta da alta filosofia espiritualista, e não se pejam de as­sinalar com o nome de espíritos santificados pelo serviço cristão da Terra. No intercâmbio com o Além é preciso man­ter o raciocínio desperto e evitar o sentimentalismo improfícuo, analisando com absoluta isenção de ânimo as lamurio­sas mensagens mediúnicas, cujo conteúdo duvidoso seja fir­mado por nomes pomposos. A malícia, a má intenção e a le­viandade de certos espíritos rondam-vos constantemente.

Não vos aconselhamos a desconfiança descabida para com as recomendações sadias e sensatas que vos oferecem as almas bem intencionadas. No entanto, não vos esqueçais de que a árvore boa só se conhece pelos seus frutos bons. Sede prudentes e sensatos no intercâmbio com o Além, cujo mundo vibra noutra dimensão e escapa à aferição positiva dos vossos sentidos. Quando Jesus se referiu à atuação dos espíritos na matéria, recomendou que fôssemos “mansos” como as pombas, mas “prudentes” como as serpentes! Não é conveniente culti­var-se o intercâmbio com os desencarnados tal como se fazia no passado, no tempo das sibilas, dos oráculos e das vestais, em que tanto os escravos quanto os imperadores ou reis aceitavam submissamente os conselhos mais desconcertantes e as revela­ções mais tolas atribuídas aos deuses da época.

Não deveis aceitar sem um exame acurado tudo que os espíritos ventilam para a Terra, como se realmente os desen­carnados fossem oráculos infalíveis. Em qualquer campo de atividade e experimentação do espírito, é preciso permanecer acordado para raciocinar e resolver os problemas pelo pró­prio esforço. Às vezes é mais produtivo o equívoco que depois de corrigido indica o caminho certo, do que a condição de es­tropiado mendigo à mercê de todos os conselhos alheios, que tanto podem ajudá-lo, como também prejudicá-lo.

O abuso do “guiísmo”1 na seara espírita pode terminar por conduzir os seus adeptos comodistas e sem iniciativas particulares a um fanatismo ridículo e enfermiço. A vida fí­sica tem por função principal desenvolver o raciocínio, a vontade e o entendimento do ser, por cujo motivo as indaga­ções e rogativas em excesso, aos desencarnados, nem sempre encontram o guia disponível e de plantão para dar o conse­lho certo. Quase sempre, à espreita da rogativa trivial, há o espírito adverso que se insinua pela brecha vulnerável da ne­gligência humana, semeando aflições aos incautos pedinchõ­es, que supõem o movimento espírita algo parecido a uma cooperativa de consumo.

 

PERGUNTA: — Como entendermos esse abuso do “guiismo” na seara espírita?

RAMATíS: — A vida terrena é escola de educação espi­ritual, já o repetimos várias vezes. O orbe terráqueo também pode ser comparado a um vasto laboratório de ensaios aper­feiçoativos, em que o quimismo da boa vontade e da renún­cia catalisa no espírito a sua qualidade angélica e desenvol­ve-lhe o raciocínio para o entendimento consciente do Uni­verso. E o Espiritismo, inspirado pelo Alto, e de importante influência no século atual, na hora profética dos “tempos chegados”, servirá de ótimo roteiro para a ascensão mais breve da alma imperfeita.

Mas os terrícolas, julgando que a doutrina deve paranin­far as mais absurdas rogativas, ao modo de pródiga “agência de informações”, para solver os assuntos mais frívolos, trans­formam os seus guias em corretores desencarnados, com a obrigação de resolverem-lhes com urgência todos os proble­mas do mundo de César. Obviamente, enquanto atrofiam o seu discernimento espiritual pela fuga da experimentação fí­sica, isolam-se dos espíritos sensatos e responsáveis pelo seu progresso espiritual, submetendo-se cegamente aos guias.

Em conseqüência, as entidades galhofeiras e capciosas, que se aproveitam da oportunidade favorável, passam a substituir os guias sensatos e prudentes, influindo sobre os encarnados e pontificando levianamente com respeito a to­dos os assuntos do mundo material. As criaturas que não se exercitam nas vicissitudes da vida humana muito menos po­derão atender às tarefas difíceis e resolver os problemas complexos que as esperam no além-túmulo. Lastimavelmen­te, elas atravessam a vida terrena com a mente enferrujada pelo desuso, anotando sentenças, conselhos e indicações fá­ceis que as eximam das complicações cotidianas.

 

 

PERGUNTA: — Quando os espíritos são evocados com insistência para atender a todas as solicitações prosaicas dos seus admiradores ou pupilos encarnados, porventura se irritam ou se afastam de nós, magoados e decepcionados?

RAMATÍS: — Já imaginastes o absurdo que constitui­ria o fato de parentes e amigos dos administradores ou au­toridades públicas os chamarem a todo instante para eles opinarem sobre o tempero favorável à feijoada completa, a escolha do traje mais apropriado para o chá-dançante, ou sobre qual deveria ser a cor mais apropriada para a cera do assoalho de peroba? Indubitavelmente, esses homens de res­ponsabilidade pública mostrar-se-iam surpresos e até choca­dos ante tais solicitações tão infantis, só lhes cabendo um re­curso: deixar-vos sem resposta e entregues ao próprio esfor­ço para a resolução de coisas tão triviais.

Os bons espíritos procuram socorrer e orientar os encar­nados independentemente de qualquer interesse ou determi­nação superior — fazem o bem pelo bem, mas devem aten­der somente àqueles que realmente estão interessados na sua reforma espiritual. Eles não se submetem à função de­preciativa de oráculos graciosos ou informantes ridículos das famílias terrenas despreocupadas dos objetivos sérios da vida, e que os evocam com assiduidade para resolver os as­suntos mais triviais da vida humana. Vivem assoberbados com o serviço de proteção aos desencarnados que ainda se debatem em dificuldades no Além, por cujo motivo só em­pregam o seu precioso tempo nas obras que produzem resul­tados benéficos e definitivos nas almas atribuladas, enquan­to se afastam das consultas imprudentes e fruto da negligên­cia dos encarnados.

Em conseqüência, os espíritos laboriosos e socorristas não se irritam nem se mostram magoados pelas solicitações absurdas, cômodas e inconvenientes dos seus tutelados da Terra, mas, ao verificarem a inutilidade do seu esforço para elevar-lhes o padrão espiritual, deixam-nos, para orientar e servir a outros mais sensatos. E, como já vos dissemos ante­riormente, a vaga então é preenchida imediatamente pelas entidades mistificadoras e irresponsáveis que, adotando no­mes pomposos e consagrados pela história religiosa, passam a satisfazer a vaidade, o interesse e os caprichos tolos dos seus consulentes comodistas.

E a situação ainda é mais grave para os encarnados que não visam objetivos sérios no intercâmbio mediúnico, por­que os espíritos levianos, gozadores e ociosos, por eles atra­ídos, em geral se subordinam à vasta organização de gênios do mal sediada no astral inferior. Eles atuam desapercebida­mente na vanguarda, anotando os caracteres precários e as deficiências espirituais dos encarnados, para minar-lhes as forças morais através do enfraquecimento da fé na imortali­dade da alma.

 

 

PERGUNTA: — Desde que a renúncia e o amor são o apa­nágio das almas angélicas, como é que os espíritos benfeitores e amigos afastam-se de nós, só porque em nossa ignorância espiritual somos tolos e interesseiros no intercâmbio mediúni­co? Quantas vezes, nós, encarnados, toleramos as incon­gruências, as solicitações interesseiras e absurdas das crian­ças, e as atendemos em suas indagações tão frívolas, sem as censurarmos? Que vos parece esta nossa consideração?

RAMATÍS: — Os espíritos bons servem desinteressada­mlente aos seus entes queridos ainda encarnados, ajudando-os a carregar o seu fardo cármico durante a jornada física. Mas a bondade e o heroísmo não devem incentivar a impru­dência de atenderem a todos os interesses dos seus simpati­zantes encarnados, pois a própria bondade, para ser útil, na maioria das vezes deve ser amparada pela sabedoria.

Há casos em que os guias, embora contrafeitos no seu sentimento, precisam adotar providências draconianas con­1 ri os seus protegidos e deixá-los à mercê de sua própria ex­periência dolorosa. Malgrado se diga que é preferível a bon­dade sem a sabedoria à sabedoria sem a bondade. Às vezes bondade pode tornar-se insensata por alimentar a indisciplina ou a confusão.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico