Animismo

CAPÍTULO 19

Algumas observações sobre animismo.

 

PERGUNTA: — Que devemos entender por animismo, no tocante às comunicações mediúnicas da seara espírita?

RAMATÍS: — Animismo, conforme explica o dicionário do vosso mundo, é o “sistema fisiológico que considera a alma como a causa primária de todos os fatos intelectivos e vitais”.

O fenômeno anímico, portanto, na esfera de atividades espíritas, significa a intervenção da própria personalidade do médium nas comunicações dos espíritos desencarnados, quando ele impõe nelas algo de si mesmo à conta de mensa­gens transmitidas do Além-Túmulo. Assim, quando os afi­cionados do Espiritismo afirmam que determinada comuni­cação mediúnica foi “puro-animismo” querem explicar que a alma do médium ali interveio com exclusividade, tendo ele manifestado apenas os seus próprios conhecimentos e con­ceitos pessoais, embora depois os rotulasse com o nome de algum espírito desencarnado.

Essa interferência anímica inconsciente, por vezes, é tão sutil, que o médium é incapaz de perceber quando o seu pensamento intervém ou quando é o espírito comunicante que transmite suas idéias pelo contato perispiritual.

 

PERGUNTA: — Porventura não considerais o animismo um percalço indesejável nas comunicações espíritas?

RAMATÍS: — Servindo-nos dos médiuns da Terra, curvamo-nos imensamente gratos ao Pai pelo ensejo de poder­mos inspirá-los em favor da ventura, do bem e da alegria dos seres humanos. Por isso não desprezamos a oportunidade dos médiuns anímicos quando eles nos interpretam a seu modo pessoal, desde que conservem a idéia central e autên­tica daquilo que lhes incutimos na alma.

 

PERGUNTA: — Então a comunicação do médium com­pletamente anímico não passa de mistificação inconscien­te; não é assim?

RAMATÍS: — Quando o médium não tem o intuito de enganar os que o ouvem, não podeis admitir a mistificação inconsciente. A comunicação anímica é decorrente da falsa suposição íntima de a criatura julgar-se atuada por espíritos, por cujo motivo transmite equivocadamente suas próprias idéias. A mistificação, no entanto, é fruto da má intenção.

 

PERGUNTA: — No conceito da mediunidade, o médium anímico tem algum valor positivo?

RAMATÍS: — A criatura anímica, quando em transe, pode revelar também o seu temperamento psicológico, as suas alegrias ou aflições, suas manhas ou venturas, seus sonhos ou derrotas. Desde que essa manifestação anímica, à guisa de mediunidade, se manifeste pelo transe conturbado e assinalada por cenas dolorosas, fatos trágicos ou detestá­veis, então trata-se de médium desajustado ou doente, que necessita mais de amparo e orientação espiritual, para domi­nar as impressões mórbidas do subconsciente, do que mesmo de desenvolvimento mediúnico. Algumas vezes ele transmite animicamente os fatos mórbidos que o impressio­naram na infância ou mesmo as cenas trágicas vividas na existência pregressa, como se fossem a história de espíritos infelizes desencarnados. As emersões freudianas da termino­logia psicanalítica também são responsáveis por algumas dessas supostas manifestações intempestivas e conturbadas, em que os médiuns excessivamente anímicos e sugestioná­veis pressupõem manifestações do Além-Túmulo.

 

PERGUNTA: — Supondo-se um médium anímico que, embora só transmitindo o que é de si e à conta de manifes­tação de espíritos, seja tão culto, sensato e de conduta moral irrepreensível, que exponha os seus pensamentos em alto teor intelectivo e espiritual, como poderíamos classifica-çâo na tese anímica?

RAMATÍS: — Nesse caso é criatura que supera a maio­ria dos médiuns, pois, se é inteligente, de moral superior e sen­sível à vida espiritual angélica, não deixa de ser um médium intuitivo-natural, um feliz inspirado que pode absorver dire­tamente na Fonte Divina os mais altos conceitos filosóficos da vida imortal e as bases exatas da ascese espiritual.

Ao contrário da criatura exclusivamente anímica, que só oferece um conteúdo pobre e superficial na sua passivida­de psíquica, o intuitivo natural chega a pressentir a própria transformação do futuro e reconhece com absoluta seguran­ça quais os valores evolutivos da mais alta espiritualidade. Domina o fenômeno de sua auscultação espiritual e dirige-o desperto e consciente, em apreciável coerência garantida pela sensatez do seu intelecto superior. No entanto, o médium anímico mas inculto, sugestionável, enfermiço ou moralmente falho é a vítima passiva de suas próprias idéias fixas, das emersões da memória pregressa e das sugestões anímicas medíocres. Facilmente ele há de tomar por mani­festação de espíritos desencarnados tudo aquilo que se patenteia à superfície de sua mente e sob a influência de qualquer clima catalisador de animismo.

 

PERGUNTA: — Aludis a um clima “catalisador de ani­mismo”; não é assim? Como poderíamos entender essa vossa referência?

RAMATÍS: — O ambiente de uma sessão espírita, por exemplo, é um clima adequado para favorecer a associação de idéias, a emersão do subconsciente ou o ajuste das impressões do dia nas criaturas mais sugestionáveis, que assim se confundem a ponto de se crerem mediunizadas pelos espíritos. Ali tudo converge para “catalisar”, ou seja, acelerar o conteúdo psicológico, a bagagem freudiana, os automatismos incontroláveis no médium excessivamente anímico. Ele sugestiona-se para o transe anímico já no ingresso à atmosfera tradicional do ambiente espiritista; o seu subconsciente excita-se à meia-luz, pela abertura dos trabalhos, sob a leitura do Evangelho ou dos temas mediú­nicos. As instruções do doutrinador, o convite para os médiuns se concentrarem e receberem o guia ou os sofredo­res, tudo isso funciona à guisa de um clima “catalisador”, que aciona inadvertidamente a maquinaria psíquica da cria­tura ansiosa por ser médium e desafogar seus dramas e angústias íntimas, que erroneamente a fizeram crer como sendo fruto da influência de espíritos sofredores.

Além das condições que aceleram a mente do médium anímico, ele pode dar largas à sua imaginação desenfreada até pela presença de algum espírito desencarnado, às vezes um seu comparsa do passado, que por isso também se ligou às próprias aflições morais e dores que o dominam durante o transe anímico.

A aproximação dos espíritos junto aos seres encarnados assinala-se por várias formas de pressentimento, modificação do campo magnético ou sensações psíquicas estranhas, que também podem se enlear facilmente com outros fenômenos próprios da vida física, confundindo-se a criatura anímica com o médium. É muito difícil distinguir se um espírito está se comunicando ou se é o médium que se põe a interferir animi­cemente, pois no entrosamento entre ambos se processa acen­tuada oscilação vibratória, espécie de “focalização” e “desfoca­lização” alternadas, o que só é passível de controle ou observa­ção segura pelos espíritos desencarnados e competentes.

 

PERGUNTA: — O médium totalmente anímico pode tornar-se um médium de comunicação dos espíritos desen­carnados?

RAMATÍS: — Por que não? O animismo, como mani­festação da alma do ser, também é sensibilidade psíquica, tal como a faculdade mediúnica, que é o meio para a comunicação dos espíritos desencarnados. Em conseqüência, o médium anímico também tende à eclosão do fenômeno mediúnico, em face de sua hipersensibilização psíquica, cumprindo-lhe estudar e procurar distinguir quando real­mente é o seu espírito quem comunica e quando se trata de entidade do Além. Além disso, ele precisa evitar a cristaliza­ção da mente nos quadros familiares que costumava comu­nicar animicamente; e isso só é possível pelo estudo, pesqui­sa e consulta aos mais experimentados.

O médium totalmente anímico é sempre a vítima passiva do seu próprio espírito, que pensa e expõe sua mensagem par­ticular sem qualquer interferência exterior. O médium propria­mente dito, mesmo quando obsidiado, ainda é um medianeiro, um instrumento das intenções ou dos desejos de outrem.

Mesmo quanto ao médium totalmente anímico, ainda se poderiam estabelecer duas classificações, isto é, o anímico passivo, que é vítima absoluta de suas próprias idéias e impressões, e o anímico ativo, capaz de perquirir os aconte­cimentos e os fenômenos da vida oculta, para depois expô-los em nome de terceiros.

 

PERGUNTA: — Quais são os fatores mais responsáveis pela cristalização do “animismo puro” de alguns médiuns, que só transmitem mensagens sugeridas pelos acontecimen­tos da vida cotidiana?

RAMATÍS: — É o automatismo psicológico, em particu­lar, um dos estados de alma bastante influente nas manifes­tações anímicas, em que o subconsciente comanda as idéias ou os fatos que afloram ao cérebro do médium, impondo-os à conta de manifestação de espíritos do Além. Em tal condi­ção, o médium assume a personalidade alheia e passa a viver facilmente o temperamento, os sentimentos ou o caráter das criaturas que ele conheceu pessoalmente ou pelos relatos históricos, deixando-se empolgar pelo desejo de imitá-los.

 

PERGUNTA: — Poderíeis nos esclarecer, com algum exemplo mais objetivo, quanto a essa influência do automatismo psicológico nos. médiuns anímicos?

RAMATÍS: — Alguns médiuns, por exemplo, embora não sejam completamente anímicos, deixam-se empolgar em demasia pela vida dos apóstolos ou dos seguidores do Mestre Jesus, vivendo impressões íntimas que, mais tarde, passam a comunicar à guisa de manifestações mediúnicas daqueles que tanto admiram.

Os grandes líderes, profetas, santos, escritores, artistas, governadores, ministros e demais personalidades que se des­tacam no cenário do mundo material exercem profunda impressão nos médiuns muito anímicos, fazendo-os rotular os seus próprios guias com esses nomes tão em evidência na história religiosa ou literatura profana. Outros, devido à excessiva imaginação muito ativada na sua mocidade, quan­do se deixavam arrebatar pelos romances de aventuras decalcados da história, vivem no transe mediúnico essas impressões excitantes e que se sobrepõem, às vezes, à iden­tidade e ao assunto dos espíritos comunicantes.

O Egito dos faraós, a Grécia dos filósofos, a Itália dos doges e dos césares, a França dos aventureiros de capa e espada, ainda vibram com forte vitalidade na mente da maioria das pessoas e, portanto, dos médiuns. Principalmen­te a França exerceu forte influência na alma dos leitores de aventuras; os personagens mais célebres de sua história ainda se movem na sua retina, emoldurados pelo vulto da Notre Dame, do Sena, da praça da Greve, do pátio dos mila­gres, das tabernas de Paris ou à sombra da tétrica guilhoti­na. Os guardas de Richelieu ou de Mazzarino, em luta acir­rada com os mosqueteiros do Rei, através das páginas de Dumas, ainda lançam o fulgor das espadas ou o brilho dos seus punhais na memória dos leitores mais emotivos. No período monárquico alinham-se em fila Luiz XIV e Luiz XV, Catarina e Maria de Médicis, La Vallière, Du Barry, Pompadour, Maria Antonieta ou os Guise. A República surge recortando as figuras de Robespierre, Napoleão, Marat, Danton, Fouché, Madame Roland, Delfin de França, Desmoulin e outros.

O automatismo psicológico, ou personalismo, que domi­na profundamente na subconsciência do ser, estratifica com o tempo as imagens mais simpáticas e que produziram maior impressão nas criaturas sugestionáveis, fazendo-as emergir por associação de idéias ou devido ao clima psíqui­co adequado.

E o médium anímico, muito indisciplinado em suas emo­ções e entontecido pelas imagens que bailam na sua mente descontrolada, não tarda em transferir para o ambiente espi­rítico as personalidades que mais o impressionaram na exis­tência, dando-lhes vida triste, heróica ou desafortunada. Através de supostas comunicações mediúnicas do Além, os personagens exaltados nos romances aventurescos e de fundo histórico ainda continuam a se manifestar com insistência em certos trabalhos mediúnicos, impondo as mesmas carac­terísticas que há séculos deveriam ter possuído em vida. Aqueles que a história romanceada os descreveu heróicos, benfazejos ou despreendidos,”baixam” nas sessões espíritas a cumprir missões elevadas e que condizem perfeitamente com o seu caráter e temperamento tradicionais. Mas os que a pena do escritor os retratou tiranos, cruéis, falsos, maquiavé­licos ou cúpidos também se apresentam nas sessões espíritas corroídos pelo remorso ou pelas dores, ou então jurando vin­gança e prorrompendo em ameaças contra os que pretendem doutriná-los.

Os vultos trágicos da Revolução Francesa só no territó­rio brasileiro já foram doutrinados dezenas de vezes, pois determinado número de médiuns ainda não conseguiu liber­tar-se completamente da fascinação exercida na sua mente pelas leituras românticas e históricas, cujos personagens excitam-lhes a memória e interferem animicamente nas comunicações dos espíritos, impondo-se, por vezes, com foros de profunda realidade.

 

PERGUNTA: — Quereis dizer que todas as comunica­ções em nome desses personagens históricos são apócrifas?

RAMATÍS: — Embora esses médiuns muito anímicos sejam vítimas de sua própria exaltação psíquica, agindo sem ma intenção, é óbvio que alguns espíritos que a história des­tacou pela sua turbulência, crueldade ou maquiavelismo, ainda curtem o remorso de suas aventuras ignóbeis ou dos crimes execráveis comparecendo a certos trabalhos espíritas sem qualquer modificação espiritual. O que queremos é ape­nas advertir quanto aos prejuízos da imaginação indiscipli­nada dos médiuns anímicos, que revivem nas sessões mediú­nicas a figura de certos personagens históricos e aventures­cos, cuja índole e temperamento, quase sempre, são apenas a suposição daquilo que os autores que os descreveram em seus romances imaginaram terem eles sido na realidade.

 

PERGUNTA: — Mas os apóstolos e servidores de Jesus, tão benfazejos e bondosos, tidos como guias e protetores de tantos médiuns no Brasil, porventura também não se comunicam sempre com a Terra?

RAMATÍS: — Não opomos dúvida quanto à possibili­dade de alguns médiuns serem inspirados ou tutelados por alguns dos apóstolos ou discípulos que viveram à sombra do Mestre Jesus. Mas desejamos relembrar-vos que a ascensão sidérea é incessante e os espíritos, quanto mais conscientes de suas necessidades íntimas, com mais urgência procuram a retificação do seu passado imprudente, buscando integrar-se à freqüência vibratória mais alta, por cujo motivo acele­ram o seu programa reencamatório junto à escola eficiente da matéria.

É o caso dos apóstolos e demais discípulos de Jesus que, provavelmente, já mudaram de personalidade humana diver­sas vezes. Em conseqüência, quando não se trata de animis­mo de alguns médiuns desavisados dessa realidade, ou das mistificações propositadas de entidades galhofeiras, eles se apresentam nas sessões espíritas manifestando-se pela última personalidade que cultuaram na Terra, em vez de ainda per­sistirem na velha forma apostolar. Considerando-se que o espírito estaciona, mas não retrograda no seu curso evoluti­vo, é evidente que aqueles espíritos que se movimentaram na Terra sob o invólucro dos apóstolos de Jesus, ao retomarem posteriormente, em novas encarnações, terão desenvolvido ainda mais as suas qualidades angélicas espirituais. Em con­seqüência, se realmente fizerem questão de se manifestar mediunicamente sob qualquer identificação pessoal, também hão de preferir apresentar-se com os préstimos mais evolvi­dos da última existência. Não é impossível que alguns após­tolos se tomem os guias de certos médiuns; e por isso quan­tas vezes atrás do nome de um João ou Antônio, sem muita expressão brilhante, esconde-se em feliz anonimato um Mar­cos, Mateus, Lucas ou Felipe!

Nenhum espírito é impedido, deliberadamente, de se comunicar com a Terra, caso possua os veículos dos mundos mental-concreto e astral que o liguem à matéria; mas dese­jamos frisar-vos com certa advertência, que, se os apóstolos já mudaram algumas vezes de personalidade terrena, obvia­mente também abandonaram a velha figura apostolar para apresentar-se sob a identidade mais recente cultuada na Terra. Cumprimos, assim, o dever de escoimar a prática mediúnica do Espiritismo de quaisquer motivos que, mais tarde, possam carrear-lhe o ridículo ou a censura do adver­sário. É muito melhor ao médium usufruir a singeleza da presença de um guia que lhe ministre lições de amor, tole­rância e humildade sob o dístico simples de “um amigo”, do que mesmo afirmar a presença de apóstolos no serviço mediúnico, mas oferecendo aforismos vazios e sem nenhum proveito espiritual.

 

 

PERGUNTA: Sob vossa opinião será impossível a comunicação de um Marcos, João, Mateus, Lucas ou Paulo de Tarso?

RAMATÍS: — De modo algum a achamos impossível, desde que para isso exista o médium afinizado aos mesmos propósitos e idéias superiores que eles esposam. Importa-nos frisar que justamente os espíritos mais elevados e conscientes de sua condição espiritual são os que mais apreciam o ano­nimato e procuram esconder sua identidade sob pseudônimos singelos, quando se comunicam com a Terra. É o caso de João Evangelista que, tendo sido Samuel, o profeta puro da Bíblia, retomou à carne no século XII como Francisco de Assis, por cujo motivo, se realmente ele estivesse preocupado em salientar sua figura mais lisonjeira do mundo físico, tam­bém se apresentaria nos trabalhos mediúnicos com esta últi­ma personalidade mais evidente na sua linhagem espiritual.

Os grandes líderes espirituais preferem o anonimato em suas manifestações mediúnicas, evitando nutrir o senso de superioridade nos médiuns, que se envaideceriam com a sua presença gloriosa. Sob a figura humilde, amorosa e iletrada do preto-velho ou do “joão ninguém”, muitas vezes esconde-se um espírito fúlgido, do Senhor, tudo fazendo para não humilhar os demais médiuns que não usufruem de sua alma angélica. Os anjos não descem à Terra para com suas luzes afrontarem os pecadores, mas vestem-se ao nível dos seres humanos que pretendem ajudar1.

 

PERGUNTA: — Porventura todos esses guias, como Francisco de Assis, os apóstolos e demais figuras de relevo do Cristianismo, são apócrifos? Os médiuns que os recebem estarão iludidos?

RAMATÍS: — Não vos esqueçais do que notificamos antes. Tais almas podem “inspirar” os medianeiros terrenos, intuí-los mesmo para que prossigam no serviço espiritual sob o paraninfo de seus nomes consagrados junto ao Mestre Jesus. Todo desejo e objetivo de recuperação espiritual é ime­diatamente assistido pelo Alto e, conseqüentemente, paranin­fado por grupos de espíritos que operam sob a égide de deter­minado “santo” ou apóstolo consagrado. Mas é preciso que os médiuns despertem para o bom senso, lembrando-se de que tais almas não podem viver-lhes às costas solucionando qui­zilas domésticas e proferindo máximas lacrimosas, que devam justificar-lhes a personalidade terrena.

1 — Ver explicação detalhada no cap. XXVIII.

 

PERGUNTA: — Temos notado que em certos trabalhos mediúnicos, quando não está presente o médium principal e outro médium então deve receber o guia de tradição da casa, cria-se uma aura de constrangimento pela grande diferença com que este se apresenta em seu retrato psico­físico mediúnico. Como se explica isso?

RAMATíS: — O fenômeno é explicável, pois no reino espiritual, onde vivemos, importam mais as idéias, os senti­mentos e as características de sabedoria e entendimento ínti­mo da alma, enquanto as configurações pessoais ou os tipos humanos permanecem em situação secundária. Na Terra expressa grande valor a personalidade humana com seus ascendentes biológicos e as tradições de família, porque os encarnados ainda vivem a sensação de uma única vida. Raros estão plenamente convictos de que detrás do organismo físi­co, com suas expressões peculiares, o espírito eterno e imutá­vel, embora mude de organismo carnal, sempre há de mani­festar as mesmas idéias e sentimentos que tiver cultivado.

Os desencarnados, no entanto, mantêm outra concepção da vida, porque podem comprovar a variedade de corpos e fisionomias de que um mesmo espírito se utiliza nas suas peregrinações pelo mundo físico, sem fragmentar a sua ver­dadeira individualidade através dos aspectos provisórios da personalidade terrena. É o que acontece nas comunicações mediúnicas; o guia da casa fica conhecidíssimo e familiari­zado pelo palavreado, tom de voz, expressões fisionômicas e até cacoetes do médium que o manifesta comumente. Expõe-lhe as idéias e os conceitos espirituais, mas é recorta­do à visão e audição do público pela personalidade do seu medianeiro, do que resulta o guia ter muito do médium e a ele se assemelhar.

 

 

PERGUNTA: — Nesse caso, como se pode ter confiança nos conselhos e nas respostas dos guias, quando necessita­mos realmente orientar-nos através da personalidade do médium consultado?

RAMATÍS: — No aprendizado espírita, sob qualquer hipótese, o mais aconselhável é a criatura devotar-se corajo­samente ao estudo, à auscultação psíquica e enfrentar os equívocos e os óbices naturais de sua experiência espiritual no contato com a matéria. É necessário evitar o julgamento antecipado, a premeditação religiosa ou firmar quaisquer conceitos doutrinários em definitivo, quando ainda não se podem comprovar os seus fundamentos lógicos e sensatos. Muitos aforismos, postulados e recomendações que trazem o endosso de distinguido espírito, por vezes são apenas senten­ças sem proveito espiritual e fruto do médium anímico.

Certo espírito laborioso já vos disse em determinada obra mediúnica:”0 homem que já viveu um dia com o Cristo pode­rá caminhar um século com a humanidade”. Evite-se, portan­to, transformar o Espiritismo em agência de informações, mesmo que se trate do melhor trabalho mediúnico ou do médium em que se deve confiar. É conveniente não se anular o esforço próprio em qualquer circunstância da vida, pois Jesus foi indiscutivelmente claro e incisivo quando, seguindo à nossa frente, arrostou os escolhos da estrada terrena, adver­tindo-nos sabiamente: “Toma a tua cruz e segue-me”.

Naturalmente só vos poderia ser possível conhecer a individualidade exata do guia com que vos simpatizais, se pudésseis ouvi-lo através de um médium neutro, absoluta­mente esclarecido e dotado de invulgar senso de autocrítica. Então ele poderia transmitir o pensamento do seu mentor tão facilmente quanto o leito do regato deixa manar a água límpida da nascente.

As inconveniências e as decepções mais comuns na seara espírita ainda são mais próprias da imprudência dos neófitos ignorantes do mecanismo da mediunidade, que por isso têm os médiuns na conta de oráculos infalíveis e capa­zes de solver todos os problemas complexos da vida. No entanto, o médium, como ser humano e por isso imperfeito, é o instrumento em afinação para as grandes causas futuras, o mensageiro em aperfeiçoamento, e não o “abre-te-sésamo” para as soluções mais excêntricas.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico