Aproveitamento anímico

CAPITULO 20

O aproveitamento anímico
nas comunicações mediúnicas

 

PERGUNTA: — Sob vossa opinião, como encarais o problema angustioso de todo médium em desenvolvimen­to, qual seja o animismo?

RAMATIS: — Naturalmente não pretendemos endossar os abusos de imaginação, os exotismos e as excentricidades dos médiuns avessos ao estudo; presunçosos, interesseiros ou exibicionistas. Reconhecemos, no entanto, a interferência ou associação de idéias no médium consciente, porque no seu esforço para lograr a passividade no transe, ele toma o con­teúdo de sua alma como sendo manifestação alheia. Nem todos abusam do animismo sob propósitos condenáveis ou para fins vaidosos, por cujo motivo não aconselhamos a desis­tência do desenvolvimento mediúnico, só porque a interferên­cia do médium perturba a transparência cristalina das comu­nicações dos espíritos desencarnados.

Se o virtuosismo do músico tem início no solfejo da singela escala musical “dó-ré-mi”, a eloqüência do orador requer fundamento do “a b c” e o estro do poeta firma sua principal base no balbuciar da palavra infantil, certamen­te que o êxito mediúnico também se apóia inicialmente nos percalços do animismo.

 

 

PERGUNTA: — Alguns médiuns experientes e com vários anos de serviço junto à seara espírita ainda alimentam duas vidas a respeito de suas comunicações mediúni­cas, certos de que tudo aquilo que transmitem é apenas de sua própria alma. Os mais escrupulosos alimentam desejos de abandonar a tarefa mediúnica, a fim de não iludirem o público com pseudas comunicações que nada têm a ver com espíritos desencarnados. Que nos dizeis?

RAMATIS: — O médium não é boneco vivo, insensível e de manejo mecânico, mas sim uma organização ativa com voca­bulário próprio e conhecimentos pessoais adquiridos pela sua experiência e cultura humana. Além de tudo, é alma guardan­do em sua memória forjada nas existências pregressas a síntese dos seus esforços para a ascese espiritual. E quando se trata de médiuns conscientes ou semiconscientes, só lhes resta a tarefa de vestir e ajustar honesta e sinceramente as idéias e as frases que melhor correspondem ao pensamento que lhes é manifesto pelos espíritos desencarnados através do seu contato perispiri­tual. Deste modo, os comunicantes ficam circunscritos quase que totalmente à vontade e às diretrizes intelectuais e emotivas do seu intérprete encarnado, o qual fiscaliza, observa e até modifica conscientemente aquilo que foi incumbido de dizer Lembra o mensageiro terrestre que ouve o recado para trans­mitir verbalmente a outrem, mas na hora de cumprir sua tare­fa tem de usar de suas próprias palavras para comunicá-lo. No caso, tanto o mensageiro como o médium são intérpretes do pensamento alheio e por isso influem com o seu temperamen­to, engenho e cultura nas mensagens que traduzem, resultando disso os textos lacônicos ou prolixos, precisos ou truncados.

Só o médium com propósitos condenáveis é que poderia ter remorsos de sua interferência anímica, pois nesse caso tratar-se-ia realmente de uma burla à conta de mediunismo. Não é passível de censura aquele que impregna as mensa­gens dos espíritos com forte dose de sua personalidade, mas o faz sem poder dominar o fenômeno ou mesmo distingui-lo da realidade mediúnica. É tão sutil a linha divisória entre o mundo espiritual e a matéria, que a maioria dos médiuns conscientes e bisonhos dificilmente logra perceber quando predomina o pensamento do desencarnado ou quando se trata de sua própria interferência anímica.

Só depois de alguns anos de trabalho assíduo na seara mediúnica, estudos profícuos, afinada sensibilidade mediú­nica, muita capacidade de auto-crítica e introspecção freu­diana é que o médium logra dominar e distinguir com êxito o fenômeno anímico(1). Com o exemplo que já vos expusemos anteriormente nesta obra, sobre a hipótese de um só assunto ser ventilado por quatro médiuns intuitivos, de cultura e temperamentos diferentes, cremos que já podeis avaliar a diferença anímica sem destruir a autenti­cidade do pensamento do espírito comunicante.

 

 

PERGUNTA: — No entanto, os mentores espirituais não poderiam orientar os médiuns sobre o meio de extin­guirem completamente o animismo nas comunicações mediúnicas?

RAMATIS: — Não aconselhamos que se procure eli­minar deliberadamente o fenômeno anímico no intercâm­bio com o Além, pois isso ainda dificultaria mais o desen­volvimento mediúnico e as comunicações doutrinárias aos próprios médiuns, uma vez que os guias não objetivam a criação de autômatos mediúnicos, espécie de “robôs” acio­náveis à distância. A mediunidade é um meio para se atin­girem objetivos excelsos por parte de encarnados e desen­carnados, por cujo motivo não dispensa a educação, o afi­namento moral, a cultura do seu próprio intérprete e tam­bém o seu despertamento espiritual. É mais importante para o bom “guia” o progresso intelectivo, o desembaraço e a integração evangélica do seu médium, do que mesmo o êxito brilhante de sua manifestação mediúnica. O mentor espiritual sábio e sensato muitas vezes protela as revela­ções extemporâneas do Além, pelo seu pupilo ansioso do seu próprio destaque pessoal, para que este em primeiro lugar se revele pela modéstia sensata do homem evangeli­zado. O médium, como uma criatura de responsabilidade pessoal para com a família e a sociedade, acima de tudo deverá aprender a caminhar pelos seus próprios pés, no tocante ao entendimento da vida imortal e procurar ser útil ao próximo.

O que muito preferimos em nossos médiuns ainda é o serviço cristão incondicional, aliado ao estudo sincero da espiritualidade. Satisfaz-nos a revelação da ternura, a prá­tica da benevolência e da tolerância, a cultura da honesti­dade e a manifestação da humildade, pois, malgrado sejam mesmo anímicos para as mensagens dos desencarnados, serão os nossos mais louváveis intérpretes, em incessante comunicação benfeitora à luz do dia. Não exaltamos o médium sonambúlico e absolutamente inconsciente do que transmite, incapaz mesmo de interferir animicamente, se ele é profundamente desperto para a prática dos vícios degradantes e o trato das paixões perigosas. Quando dorme em transe sonambúlico é o servidor inconsciente, mas acordado pode ser a manifestação anímica do mal.

 

PERGUNTA: — Podeis explicar-nos melhor esse assunto?

RAMATIS: — Mesmo na vida física é necessário ajustar-se cada profissional à tarefa ou responsabilidade que favore­ça o melhor êxito ou eficiência para alcance dos objetivos em foco. Um militar, por exemplo, explicaria com muito mais fidelidade a eficiência do plano estratégico elaborado pelo general comandante do que um sacerdote a quem fosse dele­gada essa incumbência, pois este tem na vida uma finalidade oposta. Diante de um mecânico e um abalizado pensador, é evidente que ninguém hesitaria em escolher este último para explicar os conceitos mais recentes da Filosofia.

Da mesma forma, o espírito do médico desencarnado logrará mais êxito ao se comunicar com o mundo material se dispuser de um médium que também seja médico. E , mesmo que, modestamente, dispense a terminologia acadê­mica para se expressar, ele sempre há de sentir mais segu­rança e facilidade em exprimir-se por quem dispõe dos mesmos recursos que usufruía a sua personalidade no mundo físico. Não há dúvida de que basta uma grande afi­nidade espiritual entre um espírito altamente intelectuali­zado e um médium inculto, para ser viável qualquer mani­festação mediúnica entendível ao vosso mundo. Mas é indiscutível que essa comunicação mediúnica ainda há de apresentar maior sucesso desde que também possa ser recebida por outro médium de nível intelectual superior.

Quando o médium e o espírito manifestante afinizam­se pelos mesmos laços intelectivos e morais, ou coincide semelhança profissional, as comunicações mediúnicas tor­nam-se flexíveis, eloqüentes e nítidas. O mesmo fato suce­de no receituário mediúnico, pois, quando o médium tam­bém é médico, ele não só facilita muitíssimo as prescrições dos desencarnados, como as fiscaliza, evitando qualquer aberração ou aceitação de medicamento contra-indicado. O mesmo sucede, portanto, entre os espíritos desencarna­dos e o médium que os recepciona, recrudescendo o entu­siasmo, a coerência e clareza do assunto em exposição, quando entre ambos também há similaridade de conheci­mentos, gostos e intenções.

 

PERGUNTA: — Os espíritos de responsabilidade e obje­tivos superiores costumam evitar os médiuns muito aními­cos ou mesmo tentam vencer-lhes o animismo?

RAMATIS: — Os espíritos guias e benfeitores utilizam-se dos médiuns conforme a necessidade de aproveitamento dou­trinário aos encarnados. Existem médiuns que são eficiente­mente apropriados para as identificações seguras de espíritos desencarnados. Alguns servem melhor para os esclarecimen­tos doutrinários e outros desfrutam a faculdade de transmitir com êxito as revelações importantes do Além. Mas os médiuns, em sua generalidade, são intuitivos e não podem libertar-se completamente do animismo, que apenas Varia mais ou menos de intensidade neste ou naquele médium. Quando os mentores espirituais precisam fornecer provas insofismáveis da sobrevivência espiritual a certos “são tomés” encarnados, socorrem-se do medianeiro mais apropriado para o caso, ou seja, o médium de incorporação, pelo qual os espí­ritos desencarnados podem escrever tão exatamente como o faziam em vida, fornecendo detalhes convincentes de sua imortalidade. Doutra feita, também podem se servir do médium de fenômenos físicos, que proporciona a voz direta, as materializações, os transportes ou desmaterializações de objetos, a confecção de moldes de parafina, que sirvam para abalar os “vivos” tão desconfiados.

Para as revelações ou predições de importância, que depois de concretizadas comprovem aos encarnados a exis­tência de um plano espiritual inteligente, os espíritos dão pre­ferência ao médium que já possua algo do dom profético, mesmo em sua vida particular. Se houver necessidade de aba­lar as convicções negativistas de alguém que, depois de con­vertido, possa ser útil na seara espírita, mas sendo necessária uma argumentação eficiente e irrefutável, os guias escolhem o médium eloqüente, desembaraçado e senhor de vasta cultura espírita, o qual melhor atende a esse objetivo.

Os espíritos não se preocupam em eliminar radicalmente o animismo nas comunicações espíritas, porque o seu escopo principal é o de orientar os médiuns aos poucos, para as maio­res aquisições espirituais, morais e intelectivas, a ponto de poderem endossar-lhes depois as comunicações anímicas como se fossem de autoria dos desencarnados.

 

PERGUNTA: — Por que motivo o médium intuitivo às vezes sente-se sozinho durante a sua comunicação mediúnica, notando que lhe foge o pensamento do espíri­to comunicaste, que parece abandoná-lo? Subitamente interrompe-se-lhe o curso das idéias que lhe fluíam espon­taneamente pelo cérebro, sem que ele possa cogitar do seu desfecho. Que dizeis sobre isso?

RAMATIS: — Quando durante a transmissão mediú­nica as idéias, os pensamentos, a índole e os conhecimen­tos do médium coincidem com o assunto que o espírito ins­pira, ele transmite com segurança, enche-se de entusiasmo e torna-se eloqüente, porque expõe aquilo que já lhe é familiar. Mas, assim que entre o médium e o espírito se processarem desajustes em matéria de conhecimentos, for­mam-se hiatos na mensagem mediúnica.

Por isso, ele deve manter-se em condições de poder atender ao apelo do Alto, transformando-se num instru­mento mediúnico flexível, culto e desembaraçado, pronto a transferir aos encarnados a mensagem com o melhor pro­veito espiritual. O médium sensato, estudioso e serviçal compreende que não é bastante submeter-se ao transe mediúnico junto à mesa espírita em noites programadas, para cumprir satisfatoriamente o seu mandato pois, mesmo em estado de vigília e sob o inteligente treinamen­to do seu guia, ele pode recepcionar as mensagens de favo­recimento ao próximo, transmitindo o conselho, a sugestão e a orientação espiritual mais certa.

Daí, também, a intermitência que por vezes ocorre na comunicação do médium, visto que em certo momento os seus guias ou protetores o deixam “falar sozinho”, como dizeis, obrigando-o assim a mobilizar urgentemente os seus próprios recursos intelectuais e apurar o mecanismo da mente, a fim de não decepcionar o público. Sob a direção e o controle do guia do médium, os espíritos comunicantes suspendem então o fluxo das idéias que lhe transmitiam pelo cérebro perispiritual, o qual é obrigado assim a unir os elos vazios da comunicação, demonstrando até que ponto é capaz de expor a mensagem espiritual sem distorcê-la ou fragmentá-la na sua essência doutrinária. /

Essa ação imprevista, que obriga o médium a convocar todos os seus valores intelectivos e morais, para fazer a cober­tura da “fuga” do pensamento do espírito comunicante, é algo parecida àquilo que acontece ao orador desprevenido e obri­gado a falar em público, o qual se vê obrigado a rapidíssima aceleração mental, para não cometer fiasco. Embora esse ino­pinado recurso do guia constranja e atemorize o médium, pouco a pouco adquire ele o treino preciso para prelecionar de “improviso” e compensar o vazio das idéias que compõem a sua comunicação mediúnica, não demorando a ser o elemento útil e capaz de atender, a qualquer momento, à neces­sidade de orientar e servir ao próximo.

 

PERGUNTA: — Naturalmente, durante esses hiatos provocados pelos espíritos comunicantes, através do médium intuitivo, eles obrigam-no a agir pelo seu puro “animismo”. Não é assim?

RAMATIS: — Convém conceituar melhor o assunto, pois nesse caso não se processa a interferência anímica num sen­tido prejudicial, mas, na realidade, o que se evidencia ao público é a bagagem intelectual, o temperamento psíquico e moral do médium, que então “fala sozinho”. Ele fica entregue provisoriamente a si mesmo e sem poder fugir ao impulso da comunicação, tanto quanto o escolar que é argüido em época de exames. O médium precisa então socorrer-se de suas pró­prias concepções filosóficas, morais e espirituais, para preen­cher sozinho os intervalos propositais criados pelo espírito comunicante. É verdadeiramente um “teste” a que ele se sub­mete sob orientações espirituais proveitosas, em que deverá comprovar o que já assimilou, até aquele momento, das lei­turas doutrinárias, qual o seu índice filosófico de julgamento e apreciação da vida humana e a sua capacidade de orientar o próximo entre as paixões animais. Certas vezes as comuni­cações mediúnicas podem ser truncadas propositadamente pelos orientadores do médium, a fim de se comprovar o seu grau de segurança e saber como se portaria no caso de inter­ferência, intromissão ou mistifórios de entidades mal inten­cionadas, que por vezes se infiltram entre os sensitivos invi­gilantes à guisa de mentores espirituais.

Sob tal processo de pedagogia espiritual, o médium encoraja-se e não tarda a esposar pessoalmente, nas suas relações cotidianas, o conteúdo espiritista e a sugestão evangélica que assimilou obrigatoriamente sob o treino hábil do seu guia. Isso ainda mais o anima para o estudo, ajuda-o a desenvolver o senso de crítica superior e de argu­mentação junto aos amigos, e o fortalece definitivamente para a defesa dos postulados do Espiritismo.

O treino mediúnico e o aprendizado imprevisto da doutrina, no intercâmbio com o Além, habilitam o médium a explanar em vigília, e com clareza, os assuntos doutriná­rios sobre os quais for argüido, sem temer as indagações sérias ou mesmo as perquirições capciosas dos adversários. As idéias depois multiplicam-se e os conceitos felizes domi­nam-lhe a mente treinada, graças às situações imprevistas e aos hiatos que se vê obrigado a preencher sozinho duran­te suas comunicações mediúnicas. E assim, cresce a con­fiança do seu guia e de outros espíritos de alta estirpe espi­ritual, que pouco a pouco o credenciam com maior respon­sabilidade no exercício de sua mediunidade. No entanto —convém frisar — os espíritos mentores desinteressam-se completamente de aplicar este método de ensino espiritual aos médiuns levianos, iletrados ou preguiçosos.

 

PERGUNTA: — Mas também é possível que o médium comunique convicto de que seu guia está presente e, no entanto, o faça sozinho. Não é verdade?

RAMATIS: — O médium é criatura demasiadamente sensitiva, centro de convergência de inúmeros fenômenos do mundo oculto de que participa, mas que em geral igno­ra. É a porta entreaberta para o “lado de cá” e dificilmente ele distingue, no limiar do transe psíquico, quando é a sua emotividade, a sua formação intelectual ou o seu tempera­mento psicológico o que o domina nesse momento. Em conseqüência, é possível que, pelo hábito de “passividade mediúnica”, às vezes comunique “sozinho”, sinceramente convicto de o fazer sob a ação dos desencarnados.

Mas não vos precipiteis em acusá-lo de completamen­te anímico, mistificador ou de má fé, pois isso pode acon­tecer com os mais excelentes medianeiros do Além. Já vos explicamos o treino a que os guias inteligentes submetem os seus médiuns intuitivos, cortando-lhes a fluência de comunicação para obrigá-los a prosseguir com seus pró­prios recursos intelectuais e morais. Há casos em que eles apenas fornecem o “tema” apropriado à comunicação mediúnica da noite, envolvendo o médium com os fluidos identificadores da sua presença espiritual e inspirando-lhe as primeiras idéias para depois deixarem-no comunicar sozinho até o fim dos trabalhos. Comprovando em seguida que a comunicação prossegue corretamente no seu curso objetivado, afastam-se do sensitivo em transe e, à distân­cia, apreciam-lhe a comunicação anímica sobre o tema essencial, que o médium desenvolve exclusivamente com seus recursos. Ao encerrar-se a preleção, o guia se aproxi­ma, firmando-a com sua personalidade conhecida.

Os espíritos protetores rejubilam-se quando comprovam que o seu pupilo já exerce de modo sensato e satisfatório o seu comando psíquico, tornando-se capaz de esclarecer e doutrinar o público à maneira de orador exímio, em vez de simples “robô” que transmite mecanicamente as mensagens dos espíritos desencarnados, mas sem a convicção espiritual daqueles que comunicam inteligentemente.

 

PERGUNTA: — Todos os espíritos Protetores usam desse recurso de aproveitamento anímico para aperfei­çoar os seus médiuns?

RAMATIS: — O médium sensato, laborioso e culto alcança tal êxito na sua tarefa mediúnica, que é bastante ao seu guia dar-lhe o toque fluídico familiar e delinear-lhe o tema que deve expor ao público, para a comunicação fluir espontaneamente e submissa ao programa de esclarecimen­to delineado pelos mentores da casa ou da instituição espí­rita. Esse treino de aprimoramento moral e desenvolvimen­to intelectivo, sob a direção do guia, sensibiliza o psiquismo do médium e o ajuda a sublimar gradativamente a sua facul­dade para a conquista natural da mais bela mediunidade do ser humano, que é a Intuição Pura. Então, no futuro, ele dis­pensa o ternário e a idéia central delineada pelo seu próprio guia, pois já entreabre a sua mente ao contato definitivo com a Mente Divina e transforma-se no canal precioso do qual, em alta sensibilidade, flui para os encarnados a orien­tação exata para o curso da vida imortal.

Deixa de ser o intérprete que exige o comando alheio para cumprir o serviço mediúnico obrigatório, porque já expõe o fruto de sua alta sabedoria e aprimoramento moral através do raciocínio cimentado pela segurança de sua graduação espiritual. Muitas vezes ultrapassa o seu próprio índice de conhecimento e vibra emotivamente acima do sentimentalismo humano, transformando-se no sensitivo que faz fluir a revelação sideral para a matéria, sem incorporar os espíritos desencarnados.

Nessa condição de elevada conquista espiritual, em que sua alma busca pessoalmente o conhecimento e a realidade angélica, vibrando em uníssono com as mentes diretoras do orbe, através da Intuição Pura, o médium intuitivo natural não perturba as revelações do Alto com os pruridos intelec­tivos do mundo transitório da matéria. Não é o instrumento ostensivamente mediúnico, que às vezes é acionado por espí­ritos desencarnados de recursos espirituais ainda mais pobres do que os dele, porém antena viva sintonizada per­manentemente com a Fonte Criadora da Vida.

Eis por que todos os espíritos protetores, sensatos e inteligentes, esforçam-se muitíssimo para desenvolver os dons morais, a espontaneidade pessoal e o desembaraço de oratória nos seus médiuns, ensejando-lhes experiências imprevistas e surpresas que os obrigam à mobilização imprevista de recursos de sua própria alma, para manter o prosseguimento da comunicação mediúnica. Mas ao mesmo tempo os ajudam a ser criaturas utilíssimas a qual­quer momento, em vez de servirem exclusivamente sob a atuação dos desencarnados nas mesas espíritas.

 

PERGUNTA: — Considerando a utilidade desse apro­veitamento anímico na prática mediúnica, não seria mais interessante criarem-se escolas, para oradores espíritas, dispensando-se assim o concurso dos médiuns intuitivos que, no fim de conta, são incentivados pelos seus guias para “falar sozinhos” nas sessões mediúnicas? Desde que se devotassem frontalmente à oratória não poderiam corresponder mais diretamente aos ideais do seu guia, sem a dificuldade das intermitências nos trabalhos mediúnicos?

RAMATIS: — Com o tempo esse fenômeno também poderia se inverter, isto é, os ótimos oradores terminariam sendo inspirados ou acionados pelos espíritos responsáveis pelas doutrinações, revelações e advertências espirituais ao homem encarnado. O fato de os guias sensatos e sábios trei­narem os seus médiuns para mais tarde eles assumirem sozi­nhos a responsabilidade das comunicações espirituais, não tem por finalidade transformá-los em médiuns exclusivamen­te anímicos, em vez de bons intermediários mediúnicos. O que os preocupa, em essência, é o aperfeiçoamento dos médiuns intuitivos, de modo a que possam reduzir os equívocos, as vacilações e os tradicionais datismos, que tanto sacrificam o ritmo e a veemência das mensagens espirituais e façam o público vibrar e sentir o calor da vida imortal.

Em virtude do treino anímico construtivo e bem orien­tado pelo seu mentor, o médium mostra-se tão eficiente quando transmite o pensamento dos desencarnados, quan­to no momento em que é convidado a “falar sozinho”. É o medianeiro seguro e capaz pelo qual flui facilmente o pen­samento dos espíritos elevados sem as impurezas da perso­nalidade transitória, assim como o filtro escoa a água lím­pida para mitigar a sede. Em face de ainda ser bem redu­zido o número de médiuns e espíritas que realmente estu­dam os compêndios esclarecedores da vida imortal, na ins­tituição espírita de que fizer parte um médium anímico, mas culto, inteligente e insaciável na busca incessante de novos conhecimentos, não há dúvida de que mesmo “falan­do sozinho” durante as comunicações dos desencarnados, ele ainda é a fonte mais proveitosa para o progresso de todos os freqüentadores.

A criação de escolas para oradores, no ambiente espírita, sem dúvida traria imensos benefícios para a propaganda e exposição pública dos seus postulados doutrinários; mas isso não extinguiria o dom mediúnico dos intuitivos nem seria necessário para ensiná-los a”falar sozinho”, embora lhes trouxesse imensa vantagem. Acontece que, por mais sábio e efi­ciente que seja o orador exímio, o médium ainda é a criatura adaptada ao contato perispiritual dos desencarnados, pois nasceu com a faculdade para essa realização. Quando eficien­te, é a antena viva à disposição dos mentores que advertem, orientam e protegem a humanidade.

 

 

PERGUNTA: — Deduzimos de vossas considerações que o estudo e o aprimoramento moral do médium intui­tivo são a condição imprescindível para assegurar-lhe facilidade em “falar sozinho”. Não é assim?

RAMATIS: — O médium já identificado com os seus deveres mediúnicos jamais se considera com os mesmos direitos à vida folgazona do cidadão comum, que vive preocupadíssimo em nutrir-se, vestir, dormir, procriar e fugir espavoridamente da morte física. O serviço mediúni­co, útil e amoroso, exige a abdicação de todos os vícios, paixões e frivolidades do mundo provisório de César, por­que o seu objetivo é transmitir os valores do mundo do Cristo. Raramente o médium logra atender com êxito e ao mesmo tempo a ambos esses mundos de natureza tão opos­ta, pois o mundo do Cristo é sem os atavios da personali­dade humana, requerendo a simplicidade, a renúncia, a decência, a honestidade, o pensamento casto e os senti­mentos altruístas, que constituem o temperamento espiri­tual da alma superior. O mundo de César, no entanto, é laboratório de experimentações humanas, onde as criatu­ras se digladiam na insana luta de acumular tesouros, glo­rificar-se politicamente e usufruir de todos os prazeres e paixões que lhe satisfaçam a sede de gozo carnal.

 

PERGUNTA: — Alguns médiuns intuitivos, nossos conhecidos, queixam-se de que em suas comunicações mediúnicas, malgrado o esforço que empregam para domi­nar o fenômeno, não conseguem evitar a influência de cer­tas leituras cotidianas, cujo assunto, então, mescla-se depois às mensagens dos desencarnados. Eles não opõem duvida quanto à veracidade do fenômeno mediúnico em que são intermediários, mas lamentam a impossibilidade de vencer a interferência anímica. Que aconselhais?

RAMATIS: — Algumas vezes a interferência anímica, que os bons médiuns acreditam ser prejudicial em suas comunicações, representa apenas o cimento coesivo e um ajuste providenciado pelos guias, com o intuito de se lograr mais sucesso na mensagem mediúnica da noite. Alguns guias costumam preparar seus médiuns com certa anteci­pação, quando desejam transmitir mensagem de importân cia para o público ou endereçada a alguém de sua estima. Por isso, lhes inspiram as leituras e os aproximam de pes­soas que podem avivar-lhes o mesmo assunto a ser ventila­do posteriormente na instituição espírita. Através dos recursos providenciados à luz do dia, os guias asseguram a coerência da comunicação mediúnica, cimentando a idéia fundamental em foco para o êxito doutrinário ou como advertência ao público.

Daí, pois, as surpresas de alguns freqüentadores que, ao ouvirem o guia da casa prelecionar através do médium, verificam que ele trata de assuntos, advertências ou escla­recimentos que lhes tocam em particular e que muitas vezes os fazem abandonar certas atitudes perigosas culti­vadas na vida física. Doutra feita, o dirigente dos traba­lhos, ao fazer a escolha do tema da noite, abre o Evange­lho na página providencialmente exata e que inspira alguém presente e aflito a solucionar o seu problema dolo­roso de maneira mais sensata e proveitosa.

 

 

PERGUNTA: — Esse processo de os médiuns enxerta­rem as comunicações mediúnicas da noite com assuntos fortuitos contidos durante o dia é um sistema adotado por todos os guias?

RAMATIS: — Isso acontece de acordo com a necessi­dade dos freqüentadores ou ouvintes das instituições espí­ritas. Normalmente os guias familiares reúnem-se no Espa­ço e deliberam quanto à tese mais apropriada a ser exposta para o esclarecimento coletivo do público que provavel­mente freqüentará a sessão em que eles poderão atuar. Depois de escolhido o médium mais afim e capacitado para o caso, procuram associar-lhe toda sorte de pensamentos por meio de palestras e leituras que possam consolidar a tese escolhida. Em conseqüência, o médium intuitivo em vigília, embora ignore o mecanismo de que participa, ter­mina incorporando idéias, assuntos e leituras que poste­riormente hão de se transformar em subsídios para o com­plemento da mensagem mediúnica.

No entanto, não se trata de um sistema adotado comu­mente por todos os guias, mas apenas de um recurso de que lançam mão para assegurar o êxito de certas comuni­cações mediúnicas que devem operar profundas transfor­mações nos seus ouvintes.

 

PERGUNTA: — Poderíeis dar-nos algum exemplo desse caso?

RAMATIS: — Suponhamos que determinado guia espi­ritual se interesse em conduzir à sessão mediúnica o seu pupilo encarnado, o qual, embora não seja espírita, se mani­festa propenso a conhecer a doutrina. É evidente que tudo ele fará para o seu protegido freqüentar qualquer trabalho espírita onde não se critica habitualmente o Catolicismo, o Protestantismo ou demais credos religiosos, a fim de não extinguir, de início, a chama de simpatia que já nutre para com os postulados espíritas. Sob tal condição, o guia espiri­tual procura o médium de sentimentos universalistas, inca­paz do sarcasmo contra os esforços alheios na busca da ver­dade e avesso às discussões que promovem a separação entre os homens. E para maior segurança e êxito do seu pro­grama de conversão do seu pupilo à doutrina espírita, então • cerca o médium escolhido de todo carinho, de sugestões favoráveis e “coincidências” que se constituem no acervo capaz de abalar o candidato à doutrinação espírita.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico