A castidade dos médiuns

CAPÍTULO 27 

Considerações sobre a castidade
por parte dos médiuns.

 

PERGUNTA: — A continência sexual, por parte do médium que presta serviço aos espíritos superiores, ajuda-o a melhorar o seu desempenho mediúnico? Isso apura-lhe o psiquismo e o favorece para o melhor intercâmbio vibrató­rio com os seus comunicantes?

RAMATÍS: — É de senso comum que Deus não estatuiu o ato sexual como uma prática deprimente e capaz de rebai­xar o ser humano quando precisa cumprir os seus deveres procriativos. É função técnica importantíssima para a conti­nuidade da vida física nos orbes planetários, ensejando o aca­salamento das forças criadoras do mundo espiritual com as energias instintivas do mundo da carne. Não é função impu­ra ou censurável, quando desempenhada com esse objetivo nobre. Constitui-se, pois, no processo prodigioso que mate­rializa e plasma na face do planeta a vida em todas as suas manifestações animais, ensejando a instrumentação de que o espírito necessita para apurar o seu raciocínio e entendimen­to espiritual. Não há dúvida de que o mais certo, perante as leis de alta espiritualidade, seria a relação sexual exercida somente em função procriadora, nas épocas devidamente apropriadas para o êxito da nova vida.

No entanto, o temperamento instintivo dos homens terre­nos, ainda instável no limiar da vida animal e do mundo angélico, acicata-os à procura de gozos às vezes insaciáveis e os escraviza às paixões violentas, transformando o ato sexual numa fonte contínua de prazeres que retarda a ventura espi­ritual. O comportamento sexual do homem terreno ainda é muito aberrativo e desatinado, em face de sua incapacidade para governar o seu instinto animal inferior, mormente se se levar em conta que o animal, entidade primitiva, é um fiel seguidor das leis da procriação. Narra-vos a história o para­doxo de espíritos lúcidos, geniais e boníssimos, que desceram ao nível mais degradante da escala sexual, sem poder domi­nar a força primitiva do instinto animal desgovernado.

Mas não se pode condená-los por isso, pois mesmo as almas com certa prevalência espiritual sobre o físico, na sua atividade incomum na propagação dos valores superiores, por vezes são apanhadas de surpresa pela força inflamante da carne, que já supunham superada. Mesmo para o santo descido das alturas do Paraíso, Jesus lançou a sua imorre­doura recomendação:”Orai eVigiai”. Embora os vícios ou as paixões residam na própria alma e se projetem no cenário físico através da carne, a vida exige que o espírito comande a matéria, em cujo trabalho nem sempre consegue lograr o êxito espiritual desejado. Algumas almas de grau superior perturbam-se no trato com o potencial vigoroso das forças sexuais, embora depois sofram terrivelmente em sua cons­ciência já desperta e se mostrem desapontadas para consigo mesmas. Lembram a hipótese de um homem que, vestindo um traje branco e precisando descer à mina de carvão, con­tamina-se pelo pó de carvão toda vez que se descuida.

Alguns espíritos benfeitores e regrados, quando do seu retorno às esferas paradisíacas, curtem a dor veemente do seu comportamento sexual contraditório no mundo físico. Embora se tenham devotado a todas as formas do Bem, não puderam controlar os ascendentes biológicos que os impe­liam à satisfação sexual desatinada. Em face do seu grau sideral, e devido ao sincero exame crítico de suas próprias consciências, tiveram de reconhecer a sua debilidade no trato aberrativo da prática sexual no mundo físico.

No entanto, ser-lhes-ia ainda mais prejudicial o falso puritanismo da contenção sexual semelhante à panela de pressão sem válvula de escape. O homem pode enganar a si mesmo, mas não consegue ludibriar a Deus, que forma o pano de fundo de sua consciência. Nenhum espírito pode furtar-se ao aguilhão sexual, que o fere incessantemente, exi­gindo-lhe o máximo esforço para não ser arrastado sob o desamparo espiritual. No campo da atividade sexual, o homem não pode julgar o próximo, pois a contenção, que muitas vezes se supõe ser virtude louvável, é apenas conse­qüência do medo, da ausência de circunstâncias favoráveis, ou devido à noção pecaminosa da tradição religiosa. Rarís­simas criaturas poderão afirmar, em sã consciência, que resistiriam sexualmente a todas as seduções e oportunidades que para isso lhes oferecesse a vida humana, terminando os seus derradeiros dias em sadia castidade.

Mas o certo é que, enquanto o homem não se conformar com a realidade de que o prazer sexual é somente um espas­mo orgânico de importante função biológica, ele há de ser escravo da vida física. De acordo com as leis que regulam as afinidades eletivas, os encarnados arregimentam compa­nheiros bons ou comparsas detestáveis do Além, conforme se sintonizem às freqüências vibratórias mais altas ou mais baixas, que lhes inspirarão os desejos, os pensamentos e atos. Os prazeres deletérios ou os vícios insidiosos da carne são multiplicadores de freqüência astral inferior, espécie de operação baixa que só consome o pior combustível do ser, e o impermeabiliza às elevadas sugestões do Alto.

Em conseqüência, o médium, como intermediário mais sensível com o mundo oculto, não pode gozar a proteção espiritual superior, caso ainda seja o escravo incontrolável das paixões animais inferiores. Então há de ser como a ave que, embora possua asas, não consegue voar porque seus pés estão atolados na lama.

 

PERGUNTA: — Quais seriam as vossas considerações a respeito do ato sexual como fonte de prazer, o que ainda é uma fraqueza tão comum na humanidade terrena?

RAMATÍS: — Sem dúvida, reconhecemos que Deus pal­pita na intimidade de toda sua obra, assim como permane­ce no seio da maior virtude e também no do pior pecado, uma vez que o homem é fruto de sua própria essência. O fato de o homem ainda fazer do ato sexual um prazer comum não é afronta odiosa a Deus, pois Ele não se ofende pelos equívocos ou pecados de seus filhos ainda ignorantes de sua realidade espiritual. Inibidos de usufruir os prazeres eleva­dos e duradouros do espírito, porque ainda lhes falta a capa­cidade psíquica para tal cometimento, os terrícolas subli­mam a sua ansiedade de gozo e ventura no epicurismo pra­zenteiro do ato sexual.

Todos os indivíduos movimentam-se em contínuo pro­cesso de aperfeiçoamento e em cada um vai se operando a transformação mais lenta ou mais célere para melhor. Deus não cria homens ao simples toque de um capricho, mas apura-lhes a consciência de modo a que eles mesmos possam desenvolver suas qualidades divinas inatas e preferir o que lhes pareça melhor. Em conseqüência, se o terrícola se satis­faz no intercâmbio das sensações animais, é porque ainda não atingiu a fase em que se tomará sensível aos prazeres definitivos do espírito angélico. Não se lhe pode exigir dife­rente atuação enquanto ainda lhe, falte o dom para a percep­ção psíquica superior e a graduação espiritual capaz de com­pensar-lhe em espírito os gozos primitivos da vida carnal.

O seu pecado, pois, não é um acinte ou ato de provoca­ção à Divindade, mas o fruto dos seus impulsos inferiores sem a força de controle espiritual. A criatura humana vive à procura do melhor prazer e da maior ventura, o que lhe é um direito de berço e a impulsiona continuamente para a realização consciente de si mesma. Reza o conceito humano que Deus é a Perfeição e, por isso, seus filhos também são marcados pelo desejo de alcançar o melhor e o mais perfei­to, certos de que a Verdade é encontrável em algum tempo. Os seres humanos então se deixam atrair pela magia do sexo, gozam e sentem-se transitoriamente compensados nessa mútua relação física, em que compensam no prazer fugaz da carne a ansiedade de ventura espiritual.

Mas o laboratório terreno possui todos os recursos para despertar e graduar a consciência do homem sideral, liber­tando-o pouco a pouco das amarras da carne transitória. O prazer sexual, portanto, após a compreensão consciente do homem e da mulher sobre a realidade espiritual, também será relegado para condição inferior e superado pelos valo­res definitivos da vida imortal. No tempo justo, os terrícolas sentir-se-ão saturados por esse prazer físico efêmero, que é um ardil da natureza para manter a continuidade da vida nos mundos materiais. E compreenderão que a verdadeira felicidade não é fruto das contrações e dos espasmos da carne mas, acima de tudo, provém do intercâmbio com as coisas siderais.

 

PERGUNTA: — Mas pressupomos que essa atitude irre­gular do homem, no tocante à suas relações sexuais, mere­ce a censura dos espíritos regrados. Não é assim?

RAMATÍS: — Não nos cabe censurar o terrícola pela sua contradição sexual, pois isso ele o faz na tentativa de encontrar o “melhor” para si; e se ainda confunde o prazer do corpo efêmero com o prazer do espírito eterno, tomamos a repetir-vos: isso é devido à sua imaturidade espiritual. O corpo físico é o instrumento de que a alma se serve para lograr o seu aperfeiçoamento, assim como o aluno alfabetiza-se e adquire o conhecimento através do material escolar. Obviamente, se o homem aberra do uso do seu organismo carnal, que é o seu banco escolar educativo no mundo físico, não só se candidata às enfermidades comuns terrenas, como ainda impregna-se dos fluidos inferiores da animalidade, que o isolam cada vez mais da inspiração do Alto.

Principalmente o médium — que é a ponte sensível e o instrumento de relação entre a matéria e o Invisível, destina­do a cumprir o serviço espiritual a favor do próximo e de si mesmo — precisa proteger-se da infiltração inferior e poupar o seu corpo físico para o êxito de sua tarefa incomum.

Todo gasto excessivo de forças sexuais destrói os elementos preciosos da vida psíquica, responsáveis pela ligação entre o mundo superior e a Terra, por cuja falta o homem é empurrado cada vez mais para o submundo do instinto ani­mal inferior. Em sentido oposto, a economia e o controle das energias sexuais, quando disciplinadas pela mente, benefi­ciam extraordinariamente o médium. O fluido criador, quando acumulado sem a violência da contenção obrigató­ria, purifica-se pelo contato com as vibrações apuradas do espírito. Esse magnetismo vitalizante, poupado das glându­las sexuais, depois funde-se ao fluido superior emanado do “chacra” coronário, irriga o cérebro e clareia a mente, des­pertando a função da glândula pineal à altura do “chacra” frontal e favorecendo a visão psíquica do mundo interior.

Os abusos da prática sexual enfraquecem o cérebro, pois tanto o homem como a mulher exteriorizam a parte positi­va e negativa da força sexual, que os órgãos responsáveis usam para a procriação. A maior parte das criaturas ignora que certa porcentagem dessa força constrói e alimenta o cérebro, por cujo motivo o seu gasto excessivo pode afetar a memória e retardar o raciocínio, enquanto o bom uso puri­fica as emoções e os pensamentos. Certas criaturas que abu­sam de afrodisíacos para multiplicar a prática sexual, em geral terminam enfermiças, imbecilizadas e retardadas, apresentando as síndromes “parckisionianas”, devido ao esgotamento dos fluidos sexuais imprescindíveis à nutrição das células cerebrais.

Mas é necessário considerar que a castidade não pode ser fruto de uma reação exclusiva da mente, pois refreando as atividades do corpo, de modo algum o espírito consegue resolver um problema que só desaparece pela sua melhoria espiritual. Toda virtude deixa de ser virtude assim que a criatura delibera cultivá-la como algo à parte de si mesma, e que ainda exige vigilância contínua para se manter cons­tante. O homem que procura ser modesto e, para isso, vigia todos os seus atos, preocupado em não decepcionar o próxi­mo, na verdade termina cultivando a vaidade de ser modes­to! Da mesma forma, não vos tomareis castos porque cultivais a castidade; mas isso o sereis quando, pela renovação íntima do vosso espírito, então fordes casto sem vos preocu­pardes em ser castos!

A contenção sexual forçada não passa de uma delibera­ção artificial e inútil, que acumula as energias procriativas mas não as extingue. E acumular não é libertação, mas ape­nas transferência obrigatoria de ação, tal como sob a tran­qüilidade aparente da panela de pressão esconde-se o vapor perigoso do seu interior. Algumas criaturas que depois de certo tempo abandonam os conventos e as instituições onde se costuma sufocar o desejo sexual e se anatematiza o mundo profano, por vezes tornam-se bem piores do que aquelas que não fazem restrições morais. Elas apenas se continham, impedidas nos seus desregramentos e deslizes então recalcados pelo preconceito do ambiente em que per­maneciam. Mas, assim que romperam as amarras das con­venções religiosas ou da moral compulsória, mergulharam violentamente na tempestade sensual, que já lhes rugia na intimidade descontrolada da alma.

 

 

PERGUNTA: — Poderíeis nos dizer se a libertação do sexo, na matéria, basta para elevar o espírito às esferas espi­rituais, isentando-o das reencarnações físicas?

RAMATIS: — O sexo ainda é a última porta a fechar-se para o homem que procura libertar-se do ciclo doloroso das reencarnações físicas, o que só conseguirá, já o dissemos, quando se tomar casto, mas sem a preocupação doentia de ser casto. Isso será fruto natural do seu aprimoramento espi­ritual, em vez de forçada sufocação da chama interior, que persistirá latente sob as cinzas da vontade imposta draco­nianamente. A castidade forçada é o cérbero terrível que ainda mais excita o desejo insatisfeito e acicata a mente incontrolada. Somente compreendida como processo pro­criativo, e não como desejo reprimido, a contenção sexual beneficia o homem e principalmente o médium, extinguin­do-lhe a ansiedade da relação física. O desejo lúbrico deve­rá desaparecer pela compreensão consciente de que o ato sexual, antes de ser uma ação prazenteira, é função biológi­ca de reprodução na matéria.

Oxalá o médium bem intencionado já se dê por satisfeito com as suas relações conjugais, evitando as aventuras conde­náveis fora do lar e as ligações deprimentes com o psiquismo torturado das infelizes mercadores da carne. Os prostíbulos, sob qualquer hipótese, são cisternas de fluidos intoxicastes, os quais aderem à tessitura delicada do perispírito, criando con­dições eletivas para atuar os obsessores e os vampiros egres­sos das sombras do astral inferior. O médium que se entrega às aventuras sexuais menos dignas transforma-se no traço de união entre o astral trevoso e o lar em que vive, carreando para este as emanações nocivas e as perturbações, que são fru­tos do seu mau comportamento sexual. Os miasmas, os baci­los e vírus psíquicos da degradação do sexo terminam por povoar-lhe o ambiente familiar, ali instalando-se a enfermida­de, a angústia e a desarmonia que caracteriza as noitadas tris­tes e trágicas dos ambientes de prostituição.

Mas é evidente que só a libertação do sexo, na matéria, não basta para elevar o espírito às esferas espirituais, caso ele ainda esteja algemado à crueldade, à vingança, à cupidez ou avareza, o que ainda o põe em sintonia com o astral inferior.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico