Comunicações perversivas

CAPÍTULO 16

As comunicações perversivas pela tiptologia

 

PERGUNTA: — Qual a manifestação mais característica dos espíritos perversos, quando se comunicam pela tiptologia?

RAMATÍS: — Os espíritos perversos, levianos e escarnecedores enleiam os encarnados com respostas incompletas e ditam frases tolas à conta de assuntos importantes. Algumas vezes obrigam os componentes do trabalho tiptológico a lon­gas esperas e imobilizam a mesinha enquanto se riem à soca­pa da perplexidade e indecisão incomodativa que causa. Eles fazem escrever as mesmas palavras inúmeras vezes; produzem ditados paradoxais, compõem farsas históricas, revelações exóticas e predizem acontecimentos contraditórios. Um dos seus habituais prazeres é o de atiçarem a curiosidade dos assistentes, para depois deixá-los a meio caminho.

Os mais pervertidos aproveitam-se da incipiência, da leviandade ou do interesse vulgar dos presentes e, através da mesinha, compõem palavras e frases obscenas. Os mais cruéis transmitem falsos avisos de morte e semeiam a aflição entre os que os recepcionam, prevendo enfermidades atro­zes; para os doentes eles receitam remédios extravagantes e beberagens nocivas, à conta de sábias prescrições médicas.

Certas vezes induzem os seus admiradores às adorações idólatras e os incentivam na crença de parvoíces religiosas; doutra feita, recomendam o uso de talismãs ridículos, de insígnias tolas ou de orações misteriosas. Despreocupados de qualquer conseqüência futura, eles fazem profecias levia­nas; asseguram excelentes promoções para os militares, pre­dizem extraordinários sucessos políticos ou excelentes tran­sações no comércio. Nenhum escrúpulo os detém, pois, con­forme já vos explicamos nesta obra, quando lhes aparece o ensejo oportuno, indicam tesouros enterrados e traçam roteiros confusos para mortificarem aqueles que tolamente se lançam à aventura infrutífera.

 

PERGUNTA: Em alguns trabalhos tiptológicos, conhe­cemos espíritos solícitos que atendiam aos interesses pessoais solucionavam problemas que beneficiavam grandemente os seus consulentes. Qual o interesse deles nesse caso?

RAMATÍS: — Como não há regra sem exceção, mesmo no Além, às vezes existe o merecimento cármico da criatura para ser atendida diretamente nas suas solicitações triviais ou mesmo de interesse material. No entanto, afora esses casos acidentais, há que vigiar a intromissão de espíritos irresponsáveis, galhofeiros ou imprudentes que, completa­mente equivocados naquilo que ensinam, dispõem-se a orientar os seus consulentes levianos.

Não há dúvida de que a continuidade do intercâmbio mediúnico, para fins de proveito material, há de atrair para

ambiente os espíritos ociosos, petulantes e interesseiros, que ainda se apegam fanaticamente às tradições personalis­tas e às formas do mundo físico. Eles são solícitos, mas sem escrúpulos; cuidam de todas as tricas e quizilas da parente­la consulente, enquanto também aceitam e sugerem qual­quer incumbência que possa amolecer as fibras dos seus simpatizantes incautos. Não se recusam a atender às evoca­ções assíduas que lhes fazem os interessados; colocam-se ser­viçalmente à disposição da família e dos seus amigos, opi­nando quanto ao dia favorável para se fazer a viagem de turismo, ou sobre a vizinha com quem convém interromper a amizade.

Habilmente evitam perder a simpatia daqueles que os consultam, e para isso só lhes ministram orientações agradáveis e afastam as responsabilidades espirituais. Os conflitos na família, as indisposições temperamentais e os seus peca­dos são transferidos para a culpa de outrem; há sempre o vizinho invejoso, o “mau olhado”, a mediunidade em eclosão ou o serviço maléfico contrário, que então passam a justificar todas as inânias. A tudo atendem e tudo prometem; são solí­citos no servir e hábeis no desfibrar as almas invigilantes.

 

PERGUNTA:— Não seria conveniente que os guias escla­recessem os encarnados a esse respeito, a fim de reduzir a interferência tão perniciosa desses espíritos mefistofélicos?

RAMATÍS: — A principal culpa dessa situação lamen­tável ainda cabe aos próprios encarnados, que se transfor­mam em consulentes levianos no seu ingresso à seara espíri­ta, passando a considerá-la simples agência de informações e assistência à lei do menor esforço. E assim não tardam a aparecer os “gentis” professores e tutores das sombras, que não hesitam em minar as reservas sublimes do espírito encarnado, desabituando-o de qualquer reflexão mental ou experimentação educativa. No campo da espiritualidade, eles transformam os seus simpatizantes em inúteis “robôs” que, em seguida à morte do corpo, comparecem ao “lado de cá” à semelhança do bugre ignorante lançado no turbilhão das metrópoles. E ainda lhes acontece o pior, pois, indagan­do dos seus antigos “mentores” tiptológicos e procurando-lhes o amparo no Além, tomam-se alvo das suas mais impie­dosas chacotas e sarcasmos.

 

 

PERGUNTA: Tendes nos informado dos espíritos perversos, levianos, escarnecedores, cruéis e obscenos que, como ignorantes, zombam dos encarnados nos trabalhos de tiptologia. Também nos explicastes a existência de espíritos solícitos, simpáticos e que servem habilmente, com o fito de amolecer as fibras da alma encarnada. Porventura, em tais trabalhos também não comparecem certos espíritos de avançada inteligência e poderes, mas devotados ao mal?

RAMATÍS: — Esses espíritos são os mais daninhos e diabólicos na função de subverter as convicções espirituais dos encarnados, pois conseguem fazer passar as suas realiza­ções maquiavélicas como se fossem serviços prestados pelas entidades benfeitoras e de responsabilidade. Gênios do sub­mundo espiritual, com a mente extraordinariamente desen­volvida e sabendo manejar com sucesso algumas energias do mundo oculto, também operam com certa facilidade no campo da fenomenologia mediúnica ectoplásmica. O seu principal intuito é o de fascinar e decepcionar os homens que só se interessam pelos fenômenos que os “convencem” através da prova dos sentidos físicos, enquanto cessam a indagação interior e deixam de adaptar-se aos princípios do Cristo. Então ateam o entusiasmo da crença transitória nos encarna­dos descuidados de sua introspecção espiritual e ávidos de sensações exóticas, produzindo-lhes fenômenos mediúnicos invulgares, que os impressionam.

No entanto, decorrido certo tempo de treino fascinador, essas entidades passam a agir sub-repticiamente; semeiam as contradições mediúnicas e pouco a pouco levam os seus pró­prios admiradores à desconfiança e à profunda descrença, desmentindo os próprios fenômenos e as revelações que pro­duziram anteriormente. Pérfidos em suas intenções, condu­zem então o trabalho mediúnico para a vulgaridade, a con­fusão e a dúvida, enquanto pela via intuitiva levam os encar­nados à completa incredulidade daquilo que assistiram à conta de manifestações do mundo espiritual.

 

 

PERGUNTA: Quais as providências que esses espíri­tos empregam para alcançar os seus objetivos subversivos?

RAMATÍS: — Já vo-lo dissemos antes; são gênios do submundo espiritual, argutos ao extremo, profundos psicó­logos a par das vulnerabilidades humanas e contradições freudianas dos encarnados. Assim, planejam com muita capacidade e prevêem com segurança o curso do seu progra­ma mefistofélico, pois desde o princípio de sua atuação dei­xam assinalados nos fenômenos ou comunicações mediúni­cas determinadas arestas e hiatos, que depois servirão de

base para, associados às evocações mentais dos assistentes, incentivá-los à descrença ou suspeita.

Operam de modo a que os fatos manifestos de modo invulgar sejam mais tarde explicados pela regência natural das leis do mundo físico, ou se ajustem perfeitamente à suspei­ta de mistificação ou animismo dos médiuns. Em suma: eles induzem à crença entusiasta no fenômeno incomum e na rea­lidade dos espíritos imortais, mas depois proporcionam indi­retamente os meios de os encarnados chegarem a conclusões pessoais que expliquem tudo sem a intervenção do Além.

Inescrupulosos, atuam diretamente no médium sob o seu controle, e o levam no transe a mistificar de modo inconscien­te na sessão mediúnica, logrando causar grande decepção entre os freqüentadores neófitos e ainda inseguros na crença espírita, que assim apagam a última chama de esperança na imortalidade. E então desaparece o tom espiritual de inter­venção extraterrena para impor-se a explicação humana pela tese do puro animismo ou da intervenção mistificadora.

 

PERGUNTA:Ainda gostaríamos de fazer-vos mais uma pergunta: É muito comum a intervenção perniciosa desses espíritos de avançado poder e intelecto nos trabalhos de fenômenos mediúnicos, ou isso é apenas acidental? Qual o proveito compensador que eles obtêm na complexa atua­ção contra os encarnados?

RAMATÍS: — Nenhuma entidade irresponsável ou má, mesmo que poderosa, intervém nos trabalhos mediúnicos onde dominam os princípios evangélicos do Cristo, aliados aos desejos sinceros de ascensão espiritual dos seus compo­nentes. Isso só acontece quando os encarnados pretendem transformar os espíritos comunicantes em seus “corretores” dos interesses humanos. Moisés, conforme relata a Bíblia, já em época tão recuada viu-se obrigado a proibir o intercâm­bio mediúnico dos hebreus com os desencarnados, tal era o índice vulgar das relações de ambos, que só cuidavam das satisfações do corpo físico e matavam os estímulos ascensio­nais da alma.

Os gênios das sombras, portanto, só alcançam êxito entre os encarnados avessos à sua própria reforma espiritual, e que da vida física nada mais pretendem do que usufruir o “me­lhor” possível através dos sentidos físicos. Os médiuns que se descuidarem de sua vigilância espiritual, ficam sujeitos à mis­tificação inconsciente provocada pelos desencarnados ines­crupulosos. Muitos trabalhos mediúnicos, após brilhantes sucessos fenomênicos, fracassaram semeando as mais cruéis decepções entre os seus integrantes, em face da intervenção de espíritos de má fé, que se aproveitaram da decadência moral e mediúnica dos sensitivos e puderam fazê-los mistifi­car inconsciente ou até, conscientemente.

Os responsáveis pelas hordas do astral inferior, que movem desesperada ofensiva contra os prepostos do Cristo, sabem que é conveniente neutralizar em definitivo a crença que desperta nas almas laboriosas e inteligentes e que, depois de totalmente convertidas, se transformam em efi­cientes colaboradores da espiritualidade. Sem dúvida, o pro­gresso espiritual de inúmeras criaturas teria se estagnado, se os gênios do mal tivessem podido atrofiar, em seu início, o germe sublime da crença que empolgou Allan Kardec, quan­do teve contato com as mesinhas dançantes. Quantos médiuns excelentes abandonaram as primeiras experiências benfeitoras da eclosão mediúnica, porque os interventores do astral inferior conseguiram minar-lhes as convicções pela tese do animismo improdutivo e da mistificação condenável.

É por isso que vários entusiastas, amigos dos fenômenos físicos da tiptologia e demais trabalhos mediúnicos inco­muns, alegam que abandonaram o Espiritismo ainda mais descrentes do que antes de participarem dos seus trabalhos práticos. Lamentam o seu velho entusiasmo, a sua crença ingênua nos médiuns e nos supostos espíritos, cuja existência eles haviam comprovado pela “certeza” dos sentidos físicos, para depois tudo ruir espetacularmente pelo animismo, mis­tificação e burla dos medianeiros mercenários. Ignoram, no entanto, que se recolheram desiludidos à sua própria intimi­dade egotista e atrofiaram o último interstício da sua visão imortal sob a direção dos magos ardilosos das sombras, que assim fecharam-lhes em definitivo a porta entreaberta para o “lado de cá”. Através de um golpe maquiavélico, eles provo­cam o fenômeno mediúnico incomum, para negarem a exis­tência da própria alma que o produz.

Essas criaturas queixosas e decepcionadas com a doutri­na espírita e a sua prática mediúnica são as que ainda não se converteram intimamente à fenomenologia evangélica do Cristo. Assim como o clarão súbito da luz ilumina, mas depois ofusca, os espíritos subversivos apenas convenceram-nas, abrindo-lhes os olhos, de surpresa, para depois as cega­rem com a areia cáustica da definitiva descrença. Sempre é mais proveitoso que o homem “sinta” o espírito imortal em si mesmo, para depois tentar vê-lo ou apalpá-lo pela exteriori­dade da fenomenologia dos sentidos físicos, pois, se a intui­ção é qualidade intrínseca da alma, a visão física é apenas uma decorrência provisória dos olhos de carne.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico