Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico

CAPÍTULO 32

Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico

 

PERGUNTA: — Alguns médiuns queixam-se do seu insu­cesso quando desenvolviam a mediunidade nas mesas car­decistas, alegando que se desenvolveram rapidamente assim que passaram a freqüentar os terreiros. Que dizeis a isso?

RAMATÍS: — Embora respeitando o método de desen­volvimento mediúnico nos terreiros, que é bastante diferente e até oposto ao que se processa na área do Espiritismo codifi­cado por Alian Kardec, devemos dizer que em ambos os casos o êxito não depende de maior ou menor desembaraço ou agi­tação física, mas sim é dependente do conteúdo espiritual superior que o médium cardecista ou o “cavalo” de Umbanda tenham podido acumular e consolidar no seu espírito.

A mediunidade, e principalmente a de prova, não é um dom concedido pelo Alto para ser aproveitado de qualquer modo e a qualquer preço, com o fito de “salvação” urgente da humanidade terrena. Ela é um recurso, ou seja, um acréscimo divino concedido prematuramente para a melhoria espiritual do próprio candidato a médium, geralmente bastante endivi­dado pelas suas imprudências do pretérito. Em conseqüência, o que importa não é a quantidade do tempo que ele precisa despender para o seu desenvolvimento, mas é a qualidade espiritual aprimorada, conseguida durante o exercício ou o comparecimento à sessão mediúnica.

Que vale um desenvolvimento mediúnico rápido e fenomênico, se o médium ainda nada possui de útil e bom para ofertar ao próximo? Porventura, não seria insensatez oferecer-se uma taça vazia àquele que agoniza de sede? Desde que a faculdade mediúnica não é banho miraculoso capaz de transformar instan­taneamente o seu portador num sábio ou num santo, mas sim uma hipersensibilidade perispiritual prematura nos médiuns em prova, ela deve ser desenvolvida em perfeita concomitância com a recuperação espiritual do seu próprio agente, pois ele é o mais necessitado e também é aquele que pode ser o mais beneficiado. Como o desenvolvimento mediúnico não consiste numa série de movimentos rítmicos, algo parecidos à ginástica físi­ca muscular, o candidato a médium encontra no ambiente de trabalho espirítico a oportunidade valiosa de apurar os seus atributos angélicos, muito antes de tomar-se um inter­mediário fenomênico dos espíritos desencarnados.

Na sua freqüência assídua à sessão mediúnica e ante a influência benfeitora da oração e dos ensinamentos evangé­licos, ele terá ensejo de dominar muitos impulsos viciosos e moderar os sentimentos irascíveis e indisciplinados. Com­provando a imortalidade da alma, através dos espíritos comunicantes, também elevará o seu tom psíquico, dinami­zando sua fé nos propósitos da vida espiritual. No serviço de irradiação aos enfermos o médium ativa as próprias células cerebrais, enquanto desenvolve melhor o senso crítico e ajui­zamento no julgar as coisas ao defrontar-se com os motivos de angústia e de perturbação dos espíritos sofredores, que são alvo dos esclarecimentos benfeitores do doutrinador.

 

PERGUNTA: — Mas não é louvável a ansiedade de todo médium em comunicar o mais breve possível o pensamento dos espíritos desencarnados, a fim de cumprir o seu dever espiritual e fortalecer-se sob a proteção do guia para enfrentar os óbices da vida humana?

RAMATIS: — Embora sem comunicar diretamente o pen­samento dos espíritos dos falecidos, ele há de incorporar inúme­ros valores no seu acanhado patrimônio espiritual, muito antes da aflitiva idéia fixa de ser médium para receber o guia ou “fazer a caridade”, à guisa de acadêmico diplomado para exercer determinada profissão no mundo profano. Junto à mesa carde­cista, o aspirante a médium não desfruta só do seu desenvolvi­mento mediúnico; ele também afina o seu sentimento fraterno em favor dos necessitados, assim como conquista novas amiza­des benfeitoras, tomando a mente receptiva aos conhecimentos técnicos sobre a mediunidade e aos princípios salutares da dou­trina espírita. Mesmo antes de exercer o seu mandato mediúni­co, ele desembaraça a língua na cooperação ao doutrinador da noite e apura o seu juízo no entendimento psicológico da vida, para servir tanto aos “mortos” como aos “vivos”.

Esperançoso de que a sua mediunidade há de eclodir dum momento para outro, o candidato então persevera pacientemente na freqüência assídua à sessão mediúnica. Deste modo, aproveita centenas de horas exercendo ativida­de benfeitora e em atitude louvável, evitando consumi-las no jogo vicioso, no anedotário indecente, na palestra fútil, na crí­tica injusta, na discussão política ou no despeito desportivo, e que sempre deixam na alma os resíduos tóxicos psíquicos. Evita, assim, a ingestão de alcoólicos, protela a tirania do cigarro, vence a ociosidade mental e não desperdiça o tempo precioso à escuta da novela radiofônica xaroposa ou então na leitura da revista barata e lacrimosa.

Acontece, infelizmente, que o futuro candidato a médium, ainda inconsciente das virtudes e dos atributos superiores que já incorporava aos poucos em seu patrimônio espiritual e graças à demora do seu desenvolvimento mediú­nico, deixa-se dominar pela impaciência e abandona o banco de sua escola espiritual preliminar, decidido a promo­ver a eclosão miraculosa de sua faculdade, embora seja ati­vada por estímulos inoportunos e fora de tempo.

Confundindo, de início, aprimoramento psíquico com dinamismo muscular ou espasmo físico, ele já se acredita senhor absoluto do poder medianímico, passando a solver os problemas dificultosos alheios muito antes de conseguir o seu próprio equilíbrio espiritual. Eufórico pela manifestação feno­mênica que se processa à periferia do seu corpo carnal, confiante em que o seu provável guia doravante lhe fornecerá, sem o menor esforço, tudo o que lhe requisitar, descura-se então do estudo, da pesquisa e de sua própria recuperação espiritual. Paradoxalmente, mais tarde faltar-lhe-á o tempo para atender à sua própria penúria no imo da alma, ante a multiplicidade de problemas que se põe a resolver junto de criaturas por vezes mais ricas de conhecimentos do que ele.

Algumas vezes o médium pseudamente desenvolvido é um indivíduo que mal se livrou de incômoda fascinação do Além-Túmulo, quando não se trata apenas de um portador de neurose crônica à conta de mediunidade diagnosticada por outro médium incipiente. Então, aos primeiros pruridos na sua organização psico-física, ele põe-se a receitar e a distribuir passes fora do ambiente onde mal se reajusta, e que logo abandona zangado com as advertências prudentes dos seus companheiros mais experientes. Há os que, embora ainda exsudem fluidos enfermos por todos os poros e incapazes de atender às necessidades imprescindíveis de sua própria famí­lia, atiram-se aflitos e afoitos ao trabalho mediúnico para o qual ainda não possuem credenciais nem se encontram devi­damente preparados, a fim de cumprir a “todo pano” a missão espiritual de que se supõem seriamente investidos.

 

PERGUNTA: — Sabemos de alguns confrades que viviam acionados por espíritos cuja atuação ainda mais se agravava nos dias determinados para os trabalhos mediúni­cos. No entanto, assim que eles se assentavam junto à mesa cardecista, para o devido desenvolvimento, a influência do Além cessava-lhes instantaneamente. Porventura não seria justo que eles tentassem o seu desenvolvimento em outro ambiente ou mesmo sob métodos diferentes, mas capazes de ajudá-los à mais breve eclosão de sua faculdade?

RAMATÍS: — Os guias, certas vezes, costumam apelar para os irmãos menores, ou seja, espíritos de fluidos mais espessos e constritivos, que então projetam periodicamente certa carga fluídica aflitiva e constritiva nos seus pupilos encarnados e desinteressados das coisas espirituais. Estes, assim que são alvo dessas cargas fluídicas incomodativas, põem-se em campo à procura de lenitivo, desconfiados de sofrer algo detestável ou perigoso na sua rede nervosa. Inquietos e aflitos, efetuam a tradicional “via sacra” pelos consultórios médicos, sem lograr resultados proveitosos, colecionando os mais exóticos diagnósticos e entregando-se à ingestão de tóxicos medicamentosos a granel.

Visitam abalizados psiquiatras e neurologistas, subme­tem-se à psicanálise ou narcoanálise, passam por toda sorte de radiografias e exames de laboratórios, sem conseguir solu­cionar o seu problema tão incomum e complicado. Alguns amigos mais afins os advertem de que se trata de algum pro­blema psíquico, talvez a eclosão de mediunidade, e sugerem-lhes o recurso ao Espiritismo. Mas o credo, a convicção ateís­ta ou o diploma acadêmico os impedem, por vezes, de solici­tar os préstimos tão humildes dos médiuns espíritas.

Finalmente, depois do cansaço físico e dos gastos vulto­sos, o paciente aceita o indesejável diagnóstico de que pode ser um médium em potencial e precisa desenvolver-se na ses­são espírita, a fim de livrar-se dos fluidos agressivos que o põem enfermo e desesperado. Então o guia, que planejara situar seu pupilo negligente, sarcástico e ateísta, no ambien­te espiritista, tudo faz para encaminhá-lo às obras funda­mentais da doutrina e desenvolver-lhe propósitos espirituais mais sadios para o seu melhor aproveitamento da existência física. Depois que verifica a presença assídua do seu tutela­do aos trabalhos mediúnicos para obter a cura psíquica, onde há de receber esclarecimentos úteis para o seu espírito embrutecido, suspende-lhe as cargas fluídicas coercivas e periódicas, que o forçavam a procurar o ambiente espírita enfraquecendo-lhe a orgulhosa convicção ateísta.

No entanto, o pupilo recuperado em sua saúde e livre do “peso” e da “angústia” nervosa que o acometiam antes, desa­parece das sessões mediúnicas e das reuniões evangélicas, retomando à antiga situação improdutiva e indolente. Não tarda, pois, a esquecer o seu velho caso doloroso, alegando entre os amigos que fora vítima de alguma alucinação nervosa ou neurose acidental, cuja manifestação mórbida teria desaparecido graças aos efeitos retardatários dos medica­mentos prescritos pelos médicos.

Mas o seu guia está atento. Eis que o tutelado irrespon­sável não tarda a sentir novamente o mesmo fenômeno estranho e incomodativo, a mesma angústia e descontrole psíquico anterior; reaparecem-lhe as cargas fluídicas agres­sivas que o obrigam a freqüentar, outra vez, o mesmo círcu­lo de amizade espírita ou submeter-se à disciplina do desen­volvimento mediúnico que já o aliviara. Ignora ele que, ao fugir do ambiente doutrinário, que atendia à sua carência espiritual, passou a sofrer da mesma carga fluídica coerciva das entidades mais rudes a serviço do seu guia. E, para que ele continue a freqüentar regularmente o centro espírita onde hauria conhecimentos e apurava o seu sentimento embrutecido, essa atuação mais forte e agressiva registra-se justamente no próprio dia do trabalho mediúnico.

Mas acontece que alguns desses candidatos bastante inconscientes de suas próprias necessidades espirituais e aflitos por se libertarem o mais cedo possível do incômodo psíquico, lançam-se à procura de ambientes ou de trabalhos que os desenvolvam às pressas, embora eles ainda engati­nhem em espírito. Ignorando que a sua própria recuperação espiritual é mais importante do que os poderes medianími­cos em sua manifestação fenomênica, o inquieto candidato a médium passa a confundir trejeitos físicos incontroláveis com aprimoramento mediúnico, em oposição ao programa superior delineado pelo seu guia.

Sem dúvida, o generoso mentor espiritual não logra outra saída que a de deixar seu pupilo atuando no ambiente que ele considera mais simpático e favorável para si, no qual só lhe interessam o êxito da fenomenologia mediúnica e a libertação mais breve do seu incômodo psíquico. Malgrado não seja essa a solução desejada pelo guia para o seu versátil tutelado, ele prefere vê-lo situado em ambiente de menor aproveitamento espiritual, mas que o livra, por algum tempo, da sua atuação viciosa e censurável no mundo profano.

 

PERGUNTA: — Suponhamos que o médium freqüente um ambiente espírita cardecista atrasado, em que os seus dirigentes sejam incultos, negligentes e demasiadamente ortodoxos, e onde o seu desenvolvimento estaciona por falta de novos estímulos. Não deve esse médium procurar outro meio mais favorável para lograr o seu objetivo?

RAMATÍS: — O progresso da faculdade mediúnica, já o dissemos, é fruto do esforço próprio, da perseverança e da tenacidade. O médium estudioso, pesquisador incansável dos preceitos superiores da vida imortal, é interessado em todos os esforços educativos da Ciência e da Filosofia do mundo, não tarda em superar o ambiente acanhado de que participa, tomando-se elemento útil e sábio que, invertendo os papéis, passa a esclarecer os próprios companheiros mais ignorantes. O esclarecimento da razão e o aprimoramento espiritual são tarefas tanto de médiuns, doutrinadores e diri­gentes, como também de adeptos espíritas. Os que ficarem na dependência do progresso dos companheiros, aguardan­do comodamente a colaboração alheia e o esclarecimento mecânico de fora, não há dúvida de que terminarão cristali­zados sob condenável estagnação espiritual.

O próprio Jesus efetuou convite aos seus discípulos para que tomassem de suas cruzes e o seguissem, mas não os arrastou com o fito de angelizá-los fora de tempo e violentar-lhes a ascese espiritual. E o médium que se descura de sua urgente renovação interior e do seu aprimoramento intelectivo estaciona improdutivamente nas comunicações mediúnicas mais chãs e batidíssimas, desinteressando o próprio público no ambiente onde pontifica tão mediocremente. E, quando percebe que já não o lisonjeiam nem atribuem qualquer importância às suas mensagens, revelações rotineiras e insossas, muda-se para outro ambiente à procura de “corrente mais afim”, ou onde lhe prestem a homenagem digna de sua “missão sacrificial” no mundo. Sem dúvida, ele confunde sua pobreza espiritual com a deficiência do meio onde atua, atribuindo a sua própria estagnação espiritual à falta de conhecimento do comando superior por parte dos seus confrades. Todos os trabalhadores da seara espírita precisam instruir-se de modo eficiente. Mas para isso, não basta ler e reler exclusivamente as obras espíritas e dispor-se a enfrentar um público cada vez mais ávido de conhecimen­tos evolutivos em todos os setores da vida humana. Inúmeras fontes educativas espiritualistas e muitas obras que tratam das últimas conquistas da Ciência, Filosofia e Psicologia ajudam o espírita a disciplinar sua mente, ajuizar seus impulsos ocultos que se projetam do subconsciente na tentativa de escravizar a alma às suas investidas inferiores.

 

PERGUNTA: — É contraproducente a ansiedade de quase todos os médiuns neófitos em receber logo o seu guia, a fim de participar proveitosamente no serviço da caridade espirita? Não é a receita mediúnica, o passe espírita ou a revelação dos desencarnados a característica básica de

médium desenvolvido?

RAMATÍS: — Somos de parecer que a manifestação súbi­ta do espírito-guia não é suficiente para despertar no médium os tesouros de amor que porventura ele ainda não tenha reve­lado no trato cotidiano com o próximo. O sentimento carido­so, que faz participar e sofrer pela desdita alheia, não pode ser despertado ou merecer a assistência das almas excelsas se a própria criatura desejosa de fazer o bem não se esforça para despertar em si mesma o prazer de servir e amar.

Caridade, em sua essência absoluta, é a emoção estética amorosa da alma angelizada; é sensibilidade espiritual fruto natural do grau evolutivo do ser, que então produz o bem pelo exercício espontâneo do próprio bem, mas absolutamente isento de qualquer interesse pessoal e mesmo da própria ansiedade utilitarista de alcançar o céu. Francisco de Assis, Vicente de Paula, Paulo de Tarso, Buda, Ghandhi e o Amado Jesus, assim como determinados apóstolos e cristãos massa­crados, provaram realmente a grandiosidade do sentimento de caridade, pois não só viveram entregues ao serviço do amor ao próximo, como também se sacrificaram em holo­causto heróico sem qualquer preocupação de lucro espiritual.

 

PERGUNTA: — Cremos, no entanto, que o desejo de fazer o bem e ser útil ao próximo, como objetivo esperançoso dos médiuns em desenvolvimento, é sempre intenção louvável e estímulo para o futuro serviço de caridade; não é assim?

RAMATÍS: — Mas é evidente que esse sentimento de caridade deve ser permanente no indivíduo e manifestado como um estado natural da alma que dispense qualquer clima religioso ou ambiente espiritista para ser praticado, e sem depender de quaisquer influências exteriores. Será de pouca valia a febre dos médiuns em fazer a caridade no receituário mediúnico distribuindo passes, recebendo desencarnados sofredores ou devotando-se às campanhas filantrópicas, se depois fracassarem nos atos e nas coisas mais simples.

Muitas vezes, no trajeto entre o lar e o centro espírita onde pretendem fazer benefícios ao próximo, há médiuns que deixam de cumprir os atos mais singelos de amor ao próximo. Aqui, fal­tam com a caridade amistosa para com o amigo de infância empobrecido e viciado, que à distância os fitou receoso como o cão surrado; ali, são rudes para com o condutor de veículo cole­tivo que, exausto e neurastênico, demorou no troco ou estacio­nou além do ponto indicado; acolá, acoimam de gatuno o mer­ceeiro que se equivocou no peso, ou censuram o vagabundo ou o embriagado que o Alto lhes situou no caminho para experi­mentar-lhes a temperatura do coração. Esse descaridoso espírito de crítica vai desde a censura contra os freqüentadores de bares, as prostitutas infelizes e os mendigos que exploram a caridade pública, até às acusações levianas de peculato aos servidores públicos ou críticas acerbas às instituições religiosas adversas.

À espera do ônibus ou do elevador, os candidatos à pres­tação da caridade protestam vivamente contra o aumento injusto do pão, do leite, da carne e as negociatas censuráveis dos açambarcadores do povo. Mas não deixam de desperdi­çar dinheiro em cigarros, alcoólicos ou futilidades dispensá­veis na vida humana, vícios que, se forem abandonados, beneficiarão até a saúde orgânica. Há longas discussões com o fornecedor que altera o preço do azeite, do queijo ou do feijão, mas cessam todos os protestos diante do ourives que anuncia o custo astronômico da pedra preciosa destinada a ornamentar a vaidade humana.

Sem dúvida, justificam-se a crítica sadia e o protesto justo contra o império do roubo, do crime e da corrupção adminis­trativa, assim como a censura pela indiferença das autorida­des com relação ao problema do menor abandonado, da juventude transviada ou da mulher desamparada. Mas, em nosso caso, referimo-nos especialmente àqueles que, assumin­do graves responsabilidades no ambiente espírita e ensejando o desenvolvimento mediúnico para servir ao próximo, contra­dizem-se com freqüência e alternam os “momentos caridosos” com outros “momentos descaridosos”.

Isso não os ajuda a conseguir os bons fluidos nem apurá-los para o passe espírita, para a irradiação aos enfer­mos e fluidificação da água curadora, pois, ao se movimen­tarem pela vida em comum, contaminam-se facilmente com os tóxicos gerados pela intolerância, cólera, maledicência, irritação ou pelo desamor ao próximo.

PERGUNTA: — Há fundamento na afirmação de certos doutrinadores espíritas de que os médiuns na fase do seu desen­volvimento, e que ainda não receberam seus guias, conservam suas auras sujas dos maus fluidos dos espíritos sofredores?

RAMATÍS — Nos bons trabalhos mediúnicos os espíri­tos perturbados ou sofredores baixam sob o controle e os cuidados do guia da casa. E, quando se retiram do equipo mediúnico, os técnicos do “lado de cá” higienizam-lhes o perispírito e procuram dissolver-lhes quaisquer fluidos ou miasma ali deixados.

Evidentemente, o que mais suja a aura dos encarnados ainda é o depósito de fluidos deletérios alimentados pelos vícios, pelos pensamentos obscenos, coléricos ou maledicentes, que depois cimentam as bases para as entidades malfeitoras concretizarem os seus propósitos perniciosos no mundo físico. O espírito sofredor pode causar mal-estar e macular o perispí­rito do médium na hora de sua comunicação, mas as infiltra­ções e interferências pervertidas, que se manifestam pela mente indisciplinada ou pelos desejos impuros, passam a se constituir em manchas lodosas definitivas, que dificilmente se desinte­gram em quem as produziu.

Jesus esteve em contato com nossas mazelas e fluidos torturados do orbe terráqueo, mas nem por isso ele desafini­zou-se com a natureza sublime do Espírito Santo, que lhe orientava os passos no mundo e lhe nutria o espírito com as energias do Alto.

 

PERGUNTA: — Quais os fatores mais eficientes para auxiliarem o desenvolvimento dos médiuns nos trabalhos espíritas cardecistas?

RAMATÍS: — Desde que o desenvolvimento mediúnico não é ginástica física, como já dissemos, e seu êxito depende muitíssimo do apuro do intelecto e do sentimento do médium, é evidente que, além do treino disciplinado junto à mesa espí­rita, o candidato a médium deve procurar incessantemente o seu esclarecimento espiritual. É tempo de extinguir-se o velho tabu de que não tem importância o médium’ ser analfabeto, desde que ele seja humilde e de boas intenções. Sem dúvida, há casos em que a mediunidade floresce com desusado sucesso em certas criaturas incultas e humildes, capazes de cumprir louvavelmente o seu mandato mediúnico, porque não se afas­tam de modo algum da prática evangélica.

No entanto, o médium que, além de possuir bons sentimen­tos e alimentar propósitos superiores na sua tarefa mediúnica, ainda for estudioso da doutrina espírita e culto no trato com outras fontes de educação espiritual do mundo, certamente há de converter mais facilmente o próximo, quer pela sua humil­dade afetuosa, quer pela argumentação intelectual superior. Nas palestras, conferências, estudos e comunicações mediúni­cas no seio espirítico, os seus responsáveis devem exigir um padrão de conhecimento e cultura que não empobreça a divul­gação dos postulados doutrinários em público.

 

PERGUNTA: — Que dizeis sobre a formação de escolas para a orientação e o desenvolvimento disciplinado de médiuns? Há quem censure qualquer movimento ou prag­mática no seio do Espiritismo, capaz de roubar a esponta­neidade mediúnica e artificializar-lhe a prática.

RAMATÍS: — Infelizmente, ainda predomina entre mui­tos espíritas um sistematismo cabeçudo por parte dos médiuns e dirigentes de sessões, que confundem a sua ortodoxia enfer­miça com a linhagem iniciática da doutrina. Em sua ignorân­cia, bastante generalizada, eles defendem a retidão, a imutabi­lidade e a disciplina das leis que Deus criou para reger os fenô­menos da vida em toda sua manifestação no Cosmo e, parado­xalmente, exigem a incúria, o empirismo, a indisciplina e a sur­presa para o desenvolvimento da faculdade mediúnica.

Se a própria flor, que se supõe abrir-se espontaneamente à luz do Sol, é acontecimento resultante de milhares de pro­cessos e reações técnicas disciplinadas por leis inteligentes, que lhe regem desde o eclodir da semente até o quimismo da cor, por que a mediunidade, que é faculdade complexa de relação entre o mundo espiritual e a matéria, deve prescindir de qualquer roteiro científico, educativo ou técnico? Obvia­mente, ela exige tratamento e controle científico tão eficaz quanto qualquer outra manifestação da vida oculta, uma vez que também se subordina a leis inteligentes e definitivas, que não podem ser contrariadas pela vontade humana.

Além do seu treino psíquico e de sua garantia evangélica, o êxito da mediunidade requer a cultura, a disciplina e o con­trole consciente, em concomitância com a exigência da doutri­na espírita no seu tríplice aspecto de Ciência, Filosofia/ e Reli­gião. Se a evangelização é assunto íntimo e espontâneo do can­didato a médium, já o seu desenvolvimento mediúnico requer a sessão especializada e a direção do instrutor apto, a fim de se evitar o abastardamento dos princípios lógicos e sensatos com que Allan Kardec cimentou a base da doutrina espírita.

Em conseqüência, é sempre aconselhável a escola de médiuns ou os cursos disciplinados que devem graduar os candidatos pela sua competência e responsabilidade, pois, embora a mediunidade seja faculdade que, na opinião cândi­da e ortodoxa de alguns espíritas, deva desenvolver-se espontaneamente, ela requer a experimentada assistência técnica e o controle inteligente, para evitar-se o ridículo e o rebaixa­mento nas relações espirituais. Inúmeros médiuns cujo desen­volvimento se processou à revelia de qualquer orientação sadia e sensata, em vez de exaltarem ou justificarem a sensa­tez dos postulados espíritas, ainda mais os ridicularizam e lançam o desânimo até nas criaturas mais esperançosas.

 

PERGUNTA: — Alguns confrades espíritas condenam a escola de médiuns, porque temem que os cursos especializa­das do mediunismo terminem por induzir à mercantilização da faculdade mediúnica. Argumentam, também, contra o perigo dos diplomas, das insígnias de mérito ou graduações ao gosto acadêmico do mundo profano, capaz de criar nova casta de sacerdotes ou uma hierarquia espírita. Que dizeis?

RAMATÍS: — Aliás, não preconizamos a criação de qual­quer classe de sacerdotes médiuns subordinada à hierarquia de chefes, subchefes ou acólitos de menor envergadura, copian­do-se os vícios comuns das religiões seculares, que sustentam os seus dignitários às expensas do povo.

Referimo-nos unicamente à necessidade de o médium corrigir e educar sua imaginação desatinada, sem desprezar a disciplina, a técnica e a cultura da vida material e para evi­tar os tabus e as convicções ingênuas, que o situam à mar­gem do programa e das realizações do mundo terreno.

A escola de médiuns sob o controle das federações e ins­tituições espíritas de responsabilidade e juízo claro é o recur­so aconselhável para o desenvolvimento mediúnico sem o empirismo dispersivo, assim como também proporciona o ensejo das argüições e dos “testes”, que comprovam o conhe­cimento e o progresso do médium em relação aos postulados espíritas que ele pretende divulgar e proteger. O curso mediú­nico disciplinado livra o médium dos datismos, das estultices, das frivolidades, dos exotismos e das manifestações excêntri­cas, que se antepõem à lógica e à prudência espirítica.

Os cursos elementares, preparatórios e conclusivos da pedagogia mediúnica não só auxiliam o aperfeiçoamento teórico e prático do médium, desenvolvendo-lhe também o entendimento psicológico dos fenômenos do subconsciente, como lhe apura a capacidade de oratória e o manuseio cor­reto da palavra em público.

É lamentável que o índice crescente de médiuns incul­tos e sem a compreensão psicológica de suas tarefas em público sirvam de motivo para os adversários inescrupulo­sos zombarem do Espiritismo. Os leigos mal-intencionados costumam tecer críticas injustas contra a doutrina, depois de colherem o material censurável nos exotismos, nas banalida­des filosóficas, exortações tolas ou revelações excêntricas, que os médiuns incultos e presunçosos transmitem à conta de mensagens importantes.

 

PERGUNTA: — Certa vez ouvimos abalizado espírita ale­gar que o Espiritismo progrediu satisfatoriamente em um sécu­lo de atividades, sem precisar recorrer às escolas de médiuns, por cujo motivo tal iniciativa atual é perfeitamente dispensável.

RAMATíS: — Se na atualidade os homens se agrupam e disciplinam para proteger suas profissões mais humildes, instituindo-se desde a academia de barbeiros até a faculda­de para especialização de física nuclear, por que motivo a mediunidade não há de merecer um tratamento sensato, um roteiro sadio e progressivo, a fim de treinar os médiuns à dis­tância dos escolhos e das decepções próprias das tentativas empíricas e desordenadas? O homem moderno disciplina-se até para escovar os dentes e lograr a melhor higiene bucal. No entanto, a prática mediúnica, que serve de ligação entre o mundo das forças ocultas e incontroláveis e a matéria impotente, deve ser abandonada ao juízo esdrúxulo do pri­meiro conselheiro ignorante?

O médium, na maioria das vezes, é pobre, inculto e one­rado por doloroso carma, a debater-se desarvorado contra as investidas maquiavélicas do Além-Túmulo. Quase sempre enfrenta problemas dificultosos e dramáticos no seio do lar, ou então a descrença ou a censura da parentela adversa ao Espiritismo. Sem disciplina espiritual interior, sem o conhecimento suficiente da maneira como se manifesta sua facul­dade mediúnica e que lhe sacode brutalmente o psiquismo, ele ainda é alvo da crítica fácil dos fiscais ortodoxos da dou­trina. Caso sobreviva com êxito no mar revolto de suas con­tradições e angústias, prestando favores e ajudando um público sedento de soluções para os seus interesses comuns será fonte de louvores, respeitado e desejado à mesa de todos os lares. Mas, se o infeliz tomba exausto e massacrado pela própria ignorância, pelas dificuldades domésticas e desorien­tações maquiavélicas do Além, julgam-no imediatamente um perdulário dos bens divinos, decaído da espiritualidade e vítima da sua própria presunção, vaidade, orgulho, interesse ou indiferença às sábias advertências dos seus confrades.

A escola de médiuns, portanto, é abençoado “oásis” onde os médiuns de boa vontade poderão mitigar a sede de escla­recimentos, de conforto e de amparo para a sua “via-crucis” ainda tão mal compreendida pelos seus próprios compa­nheiros de doutrina.

 

PERGUNTA: — Refletindo sobre vossas explicações acer­ca do mediunismo, cremos que ainda é muito dificultoso para os guias desenvolverem satisfatoriamente seus futuros médiuns; não é assim? Que dizeis quanto ao processo de desenvolvimento de médiuns, como se costuma fazer à luz da doutrina espírita codificada por Kardec?

RAMATíS: — Nem sempre os guias prevêem qual seja o êxito e aproveitamento nas suas relações futuras com os seus pupilos ou candidatos a médiuns em serviço espiritual na Terra. Embora os medianeiros, em geral, “desçam” para a carne depois de efetuar mil promessas de absoluto devota-mento ao serviço mediúnico na matéria e renúncia às ilusões sedutoras e sensuais da vida física, são poucos os que resistem às vicissitudes humanas ou dominam os prazeres deletérios. Alguns tombam desamparados por falta de recursos econômi­cos; outros debilitam suas forças espirituais arrasados pelas paixões viciosas; alguns desanimam diante da tarefa mais simples; outros esgotam-se no trabalho desordenado.

Assim, enfrentando todas as probabilidades hostis no labor espiritual junto à Terra, os guias precisam estudar pre­viamente o ambiente fluídico onde devem operar através dos encarnados que lhes servirão de medianeiros. Analisam os fluidos ambientais, as auras perispirituais e as correntes magnéticas que poderão influir na receptividade mediúnica; investigam desde as amizades terrenas, e quanto ao tipo dos espíritos desencarnados que poderão influir futuramente em suas comunicações doutrinárias.

Malgrado esse trabalho inteligente, exaustivo e cuidadoso, dos mentores desencarnados, o programa espiritual em des­censo para a matéria continua a sofrer os mais variados trope­ços, cuja maior porcentagem vai até ao fracasso, ante a impe­rícia, a má vontade, a negligência, a vaidade e os interesses dos médiuns esquecidos do seu compromisso pré-reencarnatório. A obra benfeitora ideada no Espaço retarda-se na sua transferên­cia para o mundo físico, pois, embora os guias sejam argutos e inteligentes, nem por isso são oráculos infalíveis e capazes de prever as fraquezas, a enfermidade, a rebeldia, o desânimo e a desconfiança dos seus medianeiros futuros.

O trabalho do bem, na Terra, ainda é duvidoso e imprevi­sível, pois além de laboratório corretivo do espírito, trata-se de um planeta geologicamente instável e que se sincroniza perfei­tamente com a discórdia, o sensualismo, a cupidez, o egoísmo e a crueldade dos seus habitantes.

 

PERGUNTA: — Poderíeis dar-nos vossa opinião a res­peito do que seria mais sensato no ajuste dos novos candi­datos recém-chegados ao serviço mediúnico?

RAMATÍS: — Sempre é aconselhável que o candidato ao desenvolvimento mediúnico, e elemento novo na reunião mediúnica, primeiramente se mantenha na expectativa, sem participar diretamente do trabalho, num estágio de um ou mais meses, a fim de que possa avaliar a sua própria eletivi­dade ou antipatia para com o ambiente ou seus componentes. Assim, evita-se o dispêndio de tempo inutilmente no serviço de intercâmbio espiritual e o constrangimento da presença de um elemento novo ainda desafinado à “corrente mediúnica”, ou mesmo desinteressado do seu progresso espiritual. Depois de um período de observação ou aclimatação ao novo ambiente, o candidato então poderia ser admitido, enqua­drando-se à disciplina peculiar da casa espírita que ele já encontra organizada e independente de sua cooperação.

Em trabalhos de maior capacidade intelectiva e entendi­mento doutrinário, convém que os seus diretores procedam a “testes” elementares com referência aos novos elementos, a fim de selecionarem os que manifestam a faculdade de modo mais positivo, espontâneo e certo, por cujo motivo exigem maior urgência no seu desenvolvimento. Os demais elementos, cujo mediunismo não se define e se confunde facilmente com as perturbações nervosas, a histeria, o puro animismo ou fenô­menos neuro-vegetativos, devem aguardar melhor localização psíquica, a fim de se evitar a perda de tempo em tentativas empíricas e sem resultados úteis para o futuro.

Há que distinguir, pois, entre o “doente” que se enquadra especificamente na terminologia patogênica da medicina aca­dêmica, o qual será improdutivo junto à mesa mediúnica, e o médium cujo psiquismo destrambelhado pode levá-lo ao dese­quilíbrio mental. Reconhecemos que a maioria das moléstias da carne tem sua origem nas perturbações do psiquismo des­governado, podendo ser curadas em trabalhos especializadas e sob a égide da doutrina espírita. No entanto, não se justifica forçar o desenvolvimento mediúnico de um epiléptico na ses­são de desenvolvimento, o qual pode encontrar o seu alívio ou sua cura na sessão de passes, receituário mediúnico ou mesmo trabalhos de irradiação fluídica à distância.

Aliás, o médium de prova é espírito onerado com dívidas pretéritas, o qual, em geral, só se conforma com o desenvolvi­mento mediúnico depois de muitas perturbações e sofrimen­tos. Em conseqüência, a sua adaptação psíquica a qualquer ambiente espírita deve ser feita gradativamente, até que ele se harmonize e se ajuste satisfatoriamente à equipe de trabalho.

FIM DE MEDIUNISMO DE RAMATIS

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico