Encarnações dos Apóstolos

CAPÍTULO 28

Aspectos psicológicos das encarnações
de apóstolos e líderes do cristianismo

 

PERGUNTA: — Que dizeis sobre certos médiuns ou con­frades espíritas que se acreditam a reencarnação de após­tolos ou destacados líderes do Cristianismo?

RAMATíS: — Não é impossível a hipótese de alguns apóstolos ou discípulos de Jesus encontrarem-se encarnados no Brasil. Não há dúvida de que muitos seguidores e con­temporâneos de Jesus regressam mais tarde à carne, a fim de fazerem brotar as sementes cristãs lançadas há dois mil anos. Alguns deles assim o fizeram para conseguir melhor graduação espiritual, pois não houve o milagre de se verem transformados instantaneamente em seres angélicos, apenas porque conviveram à sombra do Sublime Rabi. Freqüentan­do novamente a escola terrena, é evidente que eles também assumiram outras configurações humanas e viveram perso­nalidades e raças diferentes daquelas com que a história sagrada os consagrou no advento do Cristianismo.

Malgrado tivessem sido outrora os apóstolos Thiago, Bartolomeu, Simão, Felipe, João ou André, mais tarde tive­ram de retornar à Terra assumindo posições de realce ou de serviço humilde e anônimo no vosso mundo. Sob outros nomes, algumas vezes destacaram-se no cenário material em serviço redentor, tal como lhes aconteceu na Judéia sob a orientação do Divino Amigo. Mas muitas vezes só o mundo espiritual chegou a conhecer-lhes a obra meritória e louvoulhes o devotamento ao Bem. Alguns em novas encarnações talvez se chamaram José, Giácomo, Estanislau, Hanz, Jack Ahmed ou Jean, vivendo personalidades humanas de some­nos importância para o mundo, mas de profunda influência na transformação dos seus próprios espíritos. Que importa a configuração provisória da personalidade terrena no mundo físico, quando só o conteúdo espiritual definitivo é que diplo­ma o ser para as glórias da vida angélica?

 

PERGUNTA: — No entanto, conhecemos bons trabalha­dores espíritas que intimamente acreditam ter sido alguma dessas personalidades históricas do Cristianismo, mas que estão certos de não terem habitado a Terra depois de sua última existência apostolar. Que dizeis?

RAMATÍS: — É certo que na área da experimentação espírita ainda enxameam as reencarnações de Marcos, João, Mateus, Felipe, Thiago, Lucas, João Batista ou Paulo de Tarso, assim como as de Verônica, Martha, Maria Magdale­na etc., que se sentem investidos de novas tarefas messiâni­cas na revivescência do Cristianismo. Muitos deles vivem inquietos e ansiosos, aguardando o momento sublime em que a “luz súbita” deverá eclodir-lhes no espírito e lançá-los pelo mundo em defesa dos postulados de Jesus. Pedro, o apóstolo, Paulo de Tarso ou João Batista, que se supõem reencarnados na atualidade, também se esforçam para não trair a mesma índole, o mesmo temperamento e a contextu­ra psicológica com que a história sagrada os pôs em evidên­cia no passado.

Assim, embora vivendo outras personalidades emoldu­radas no século atômico, os novos Pedros reencarnados tam­bém são sizudos, os Paulo de Tarso são dinâmicos e amigos das “epístolas”, tentando as peregrinações exaustivas para sustentar o alicerce do novo movimento salvacionista. As novas cópias de João Batista, o precursor do Mestre, guar­dam a mesma severidade de outrora e anatematizam os pecados do mundo moderno, tal como o fazia esse grande e austero espírito.

No entanto, os estudiosos sensatos e argutos da fenome­nologia mediánica surpreendem-se confusos, descobrindo que, embora todos os velhos seguidores de Jesus se mostrem reencarnados na atualidade, eis que, paradoxalmente, ainda continuam a “baixar” nas sessões espíritas, manifestando a mesma personalidade da época do advento do Cristianismo. Paulo de Tarso, Pedro, Marcos, João Evangelista, Lucas, Magdalena, João Batista, Estevam, Felipe, Thiago, Timóteo, e outros pioneiros da obra do Cristo Jesus, tanto vivem encarnados na Terra, cumprindo novas missões à sombra amiga do Espiritismo, como também não cessam de se comunicar pelos médiuns eufóricos dessa preferência espiri­tual tão honrosa.

Deste modo, multiplicam-se, tanto na Terra quanto no Espaço, os mesmos apóstolos e discípulos de Jesus, deixando perplexos os neófitos espíritas, que ainda desconhecem a com­plexidade do mecanismo da mediunidade e ignoram a inter­venção fácil da mente indisciplinada na sugestão messiânica.

 

PERGUNTA: — E que dizeis das comunicações mediú­nicas, tão comuns em certos trabalhos espíritas, atribuídas a destacados espíritos que lideraram as filosofias ou reli­giões de outros povos? É viável, por exemplo, a comunicação rotineira, nos centros espíritas, das personalidades de Moi­sés, Sócrates, Ramacrisna, Maomé, Zoroastro, Platão, Con­fúcio ou Ghandhi, quando se trata de trabalhos mediúni­cos do Ocidente?

RAMATÍS: — Não é impossível a comunicação, mas, advertimo-vos, seria muito incomum, raríssima e unicamen­te em casos excepcionais, porquanto esses líderes de povos e raças têm o seu tempo devotado a empreendimentos coleti­vos e de suma importância. Não os justificaria nem os com­pensaria o deslocarem-se de seus planos siderais para aten­der a assuntos rotineiros da matéria. Eles viveram persona­lidades adequadas aos costumes, às idéias e às experimenta­ções de sua época tradicional, como espíritos que se lança­ram na corrente evolutiva da vida física para atender às necessidades espirituais de raças, povos e coletividades, e não a indivíduos ou grupos isolados.

 

PERGUNTA: — Considerando a ternura e o amor que esses líderes espirituais sempre demonstraram para com o seu povo e demais criaturas, não poderiam eles manifestar-se em nossas tertúlias mediúnicas ou espíritas, a fim de também orientar-nos quando estivéssemos sincera e hones­tamente interessados em nosso progresso espiritual? Não poderiam Buda, Confúcio, Crisna, Platão, Sócrates ou Ghandhi trazer-nos ensinamentos espirituais, uma vez que os seus pensamentos e suas obras já se encontram bastante conhecidos e divulgados no Ocidente?

RAMATIS: — Repetimo-vos que, em virtude de o Espí­rito Cósmico de Deus ser a fonte eterna de nossas vidas, cuja Individualidade Divina se manifesta através das personali­dades microcósmicas das figuras humanas, nada é impossí­vel de acontecer no seio do Cosmo, onde Ele permanece eter­namente integrado em sua Obra. Se for de proveito espiri­tual que tais líderes do passado devam confabular convosco no seio dos trabalhos espíritas, não há dúvida de que eles assim o farão debaixo das orientações do Alto.

Se é de senso comum que o general não deve substituir o soldado na tarefa comum de transmitir o recado singelo de campanha, e o imperador não desce à rua para discutir com o varredor o modo mais prático de empunhar a vassoura na limpeza da cidade, por que, então, os espíritos líderes e ins­trutores de raças ou povos, submetidos a outros condiciona­mentos psicológicos e costumes diversos, devem transmitir-vos aquilo que a parentela desencarnada ou os protetores familiares mais afins ao vosso entendimento podem dizer-vos com muito mais êxito? Os espíritos do vosso nível espi­ritual, portadores de hábitos semelhantes aos do ambiente da vossa experimentação, humana, estão muito mais aptos para vos advertirem ou orientarem no plano das necessida­des domésticas ou espirituais. As almas que passam pela Terra cumprindo atividades incomuns e invulgares, instruindo e orientando o crescimento espiritual de povos e raças, não podem dispender o seu precioso tempo na solução de assuntos individuais e corriqueiros.

A lei que rege os movimentos de ascensão espiritual tam­bém regula na economia do Cosmo os dispêndios excessivos. Em conseqüência, mesmo nos intercâmbios mediúnicos a ser­viço da coletividade, é designado o instrutor espiritual que atue e produza os benefícios de conformidade com a estrita exigência do momento, sem desperdiçar os conhecimentos que os seus ouvintes ainda não podem assimilar. Se considerais iló­gica a requisição de Arquimedes para substituir o modesto professor primário e ensinar os princípios rudimentares da aritmética, por que achais sensato que Confúcio, Buda, Zoroastro, Platão ou Ghandhi devam abandonar suas tarefas importantíssimas para sugerir-vos o despertamento das virtu­des primárias dos vossos espíritos? Isso será conseguido com melhor êxito pela atuação de entidades ao nível das vossas necessidades ambientais e treinadas na rotina de vossa vida em comum. Os líderes e os guias espirituais da humanidade, após o abandono do corpo físico, ainda continuam influen­ciando do Além o progresso das mesmas raças e povos que lideraram na Terra, cumprindo um programa que muitas vezes é decorrência de séculos de labor.

 

PERGUNTA: — Entretanto, nas obras de Allan Kardec existem várias comunicações atribuídas a esses luminares do Senhor. Devemos guardar reserva no assunto?

RAMATIS: — As comunicações de espíritos de alta estir­pe sideral, que se registram nas obras fundamentais do Espi­ritismo, não significam intervenções acidentais e discutíveis, mas representam as diretrizes doutrinárias e definitivas para o progresso espiritual coletivo. Em vez de comunicações par­ticulares destinadas a orientar indivíduos ou grupos isolados, elas significam o cimento coesivo de uma doutrina de orienta­ção espiritual definitiva e destinada a toda a humanidade. Por isso, Hermes, Crisna, Lao-Tseu, Zoroastro, Rama, Buda e o Divino Jesus influenciaram-lhe a alma, por algum tempo, embora Kardec tivesse de atuar na França, isto é, no Ociden­te, preso a uma severa disciplina científica. Esses luminares do Senhor não foram evocados para atender, em suas mensagens, às trivialidades humanas ou promover soluções fáceis de âmbito doméstico, mas a sua manifestação firmou os postula­dos da Doutrina Espírita com o aval do Espírito Superior.

PERGUNTA: — Porventura poderá causar prejuízos à doutrina espírita o fato de seus adeptos julgarem-se, erro­neamente, a encarnação de apóstolos ou de outras perso­nalidades famosas do passado? Os espíritos superiores, quando os vivos alardeiam que são sua reencarnação ter­rena, poderão sofrer quaisquer dissabores devido a essa emulação?

RAMATÍS: — As personalidades apostolares consagra­das pela história religiosa não podem sofrer nenhum prejuí­zo quando os encarnados supõem-se ingenuamente os seus “sósia” espirituais. Graças ao seu índice elevado de com­preensão das fraquezas humanas, elas são imunes às atitu­des censuráveis ou ingênuas daqueles que, querendo imitar-lhes a personalidade do passado, apenas praticam grosseira mistificação. É certo, entretanto, que algumas criaturas, por se convencerem de que foram santos ou apóstolos à sombra de Jesus, beneficiam-se bastante com isso, porque empregam todos os seus esforços e vigiam todos os seus atos, a fim de não desmentirem a “linha psicológica” do modelo-padrão que julgam ter sido outrora.

 

PERGUNTA: — Poderíeis nos esclarecer melhor esse assunto?
RAMATÍS: — Os seres que se julgam a nova encarnação de Paulo de Tarso procuram ser dinâmicos, decididos e corajosos, assim como o era o apóstolo dos gentios. Alguns encetam tarefas e peregrinações fatigantes para divulgar os postulados do Espiritismo, porque o crêem realmente como o Cristianismo redivivo, em que devem compartilhar, tal como em sua suposta, vida messiânica do passado.

À semelhança da atividade dos apóstolos e discípulos de Jesus, eles também dispersam-se pelos vários recantos da Terra em que nasceram, a fim de cumprir as “missões” que lhes foram designadas pelo Alto.

Daí, pois, o motivo por que os pressupostos apóstolos ou santos reencarnados repetem como cópia-carbono os mes­mos gostos, gestos e temperamentos dos seus modelos preté­ritos. Assim, pois, os novos João Batistas também são sizu­dos, excomungam a riqueza e os prazeres deletérios. Há os que deixam crescer a barba e os cabelos e a sua linguagem áspera condena as paixões do mundo, tal como o fazia o severo precursor do Divino Mestre. Os Marcos, Mateus ou Lucas devoram páginas do Evangelho e procuram assenho­rear-se do conteúdo que julgam ter redigido outrora, habili­tando-se para citar qualquer versículo esclarecedor a qual­quer momento.

Alguns ainda oferecem resistência contra a idéia íntima ou sugestão alheia de terem sido este ou aquele contempo­râneo de Jesus. Mas, quando chegam a aceitar tal situação, já não o fazem por sua exclusiva culpa, porém devido à pre­cipitação de muitos companheiros invigilantes, que aliciam coincidências e ajustam semelhanças de temperamento, tra­balho e objetivos, convencendo-os de que são realmente o espírito apostolar. É o que acontece também com referência à provável reencarnação de Allan Kardec, pois só no Brasil dezenas de lidadores espíritas presumem-se a reencarnação do espírito do codificador do Espiritismo. Justamente por­que Allan Kardec deveria retornar à carne em princípios deste século, conforme predisse em certa obra’, alguns pró­ceres espíritas, médiuns consagrados alimentam a esperança de ser a sua nova encarnação.

Justifica-se tal acontecimento pela facilidade do dom da empatia que predomina nas pessoas sensíveis, e principal­mente nos médiuns, sempre prontos a viver a personalidade que mais admiram. Mas, em face dessa multiplicação de apóstolos e lidadores do Cristianismo, em número muito além da conta real de sua existência, os mentores espirituais aconselham aos médiuns a modéstia, a humildade e cons­tante autocrítica, a fim de não crescerem na sua intimidade as flores ridículas que enfeitam a vaidade humana.

1 — Obras Póstumas: “A Minha Volta”- Edição da Federação Espírita Brasileira. 252 – 253

 

PERGUNTA: — O Alto censura a convicção desses encarnados em se julgarem a encarnação de apóstolos, líderes espirituais e destacados cooperadores de Jesus?

RAMATÍS: — Desde que Deus é o “pano de fundo” de toda consciência humana, não vemos razões para as criatu­ras se preocuparem com o tipo de personalidade humana que deveriam ter vivido outrora, uma vez que todos nós fomos agraciados com a mesma força divina, que tanto ali­menta os grandes seres, quanto os pequeninos. A personali­dade terrena que se recorta no mundo físico ainda é a casca, o invólucro exterior e que dispensa imitação, porquanto todos os homens podem revelar a mesma glória e o mesmo poder, que vêm do espírito e não da carne. Só a ingenuida­de, a exaltação pessoal ou a contradição interior podem impor essa ansiedade da alma em ter sido alguém famoso no cenário terreno. Há muito “joão ninguém”, que passa incóg­nito pelo mundo terreno, capaz de superar os mais famosos personagens de outrora, porque já abrange maior porção da Divindade e fez eclodir mais luz em sua consciência.

Não podemos censurar os encarnados que, julgando-se a encarnação de almas apostolares, deixam-se absorver por um ideal messiânico de semear o Bem, enquanto, para justi­ficar as figuras pregressas que imitam, abandonam as pai­xões perigosas, asseiam-se moralmente, estudam, trabalham e tornam-se úteis a si e ao próximo. Analisando esses acon­tecimentos à sombra amiga do Espiritismo, desejamos somente advertir contra o exagero, que então pode semear confusões e ridículos à conta da doutrina. É conveniente, pois, evitar-se tudo o que não passa de insensatez ou exotis­mo, que depois atribuem à responsabilidade espirítica, pois os adversários inescrupulosos sempre criticam as institui­ções benfeitoras do mundo pelos atos claudicantes dos seus adeptos invigilantes.

Certas criaturas que se julgam ser a encarnação de João Batista, por exemplo, e que, para o justificar, são estóicas, sentenciosas e severas, esquecem-se de que o sizudo precur­sor de Jesus já deve ter mudado o seu temperamento espiri­tual no curso de novas encarnações terrenas. Talvez, na atua­lidade, ele seja menos agressivo para com os pecadilhos do mundo e mais tolerante para com a riqueza material, culti­vando noções mais otimistas com relação à vida física. É provável que ele se tenha destacado na literatura, no teatro ou na filosofia, produzindo obras de elevado alcance moral e educativo e também afinado o seu humor, deixando um laivo de jovialidade naquilo que germinou na sua mente mais complacente. À medida que se popularizam os concei­tos iniciáticos do Oriente, e que o homem mais compreende o divino mistério do “Eu Sou” e da imanência do Criador em toda sua obra, ele melhor compreende que os pecados do mundo são as fases transitórias do incessante processo de angelização para todos os seres. Ninguém se perderá no seio do Cosmo, e todas as criaturas serão eternamente venturo­sas, pois não há privilégios ou deferências especiais na meta­morfose angélica, mas apenas a destinação implacável de serem todas felizes.

 

 

PERGUNTA: — Gostaríamos que nos explicásseis com maiores detalhes o que significa a “linha psicológica” do personagem do passado, a que aludistes com referência a nova encarnação do mesmo espírito.

RAMATÍS: — É evidente que qualquer personagem his­toricamente famoso ou santificado possuiu um conjunto de idéias, sentimentos e determinações particulares que o tor­naram diferente de outra qualquer criatura submetida à mesma experimentação psicológica. Costumes, preferências morais, temperamento artístico e capacidade intelectiva que ele possuía faziam-no reagir de um modo peculiar no ambiente onde vivia, em relação aos demais seres. Essa sín­tese viva que os cientistas da Terra consideram o espírito humano ou a sua vida mental projetada no mundo, nós, espíritos desencarnados, a consideramos não apenas no curso precário de uma existência física, mas estudamo-la em cada nova encarnação. A ciência terrícola considera a “linha psicológica” tão somente em relação à vida que se inicia no berço físico e termina no sepulcro. Nós, porém, considera­mo-la como a memória pregressa forjada há milênios e que constitui a bagagem do espírito imortal.

A “linha psicológica”, portanto, é a marca ou o cunho pessoal que caldeia definitivamente a personalidade exterio­rizada no tempo e no espaço do mundo de formas. Assim, entre os vários espíritos de grande renúncia, do passado, que realizaram um trabalho incomum em favor da revelação espiritual, cada um deles ainda se distingue particularmente porque apresenta uma “linha psicológica” diferente. Paulo de Tarso, por exemplo, se encarnado entre vós, ter-se-ia carac­terizado pela renúncia aos bens do mundo e a favor do pró­ximo. Psicologicamente ele se distinguiria pelo seu dinamis­mo, pela combatividade e o heroísmo nas suas peregrinações sacrificiais. Entretanto, Francisco de Assis e Buda apresenta­riam uma outra linha psicológica, pois, enquanto o primei­ro foi poesia e humildade, Buda personificou a inteligência ilimitada e o domínio espiritual sobre a mente ilusória.

Em conseqüência, os que se julgam a encarnação de deter­minado personagem historicamente conhecido no passado também devem revelar muito de sua emotividade, virtudes, heroísmos ou pecadilhos, pois, se tal não se der, obviamente há uma verdadeira “quebra” na linha psicológica entre o espírito que viveu outrora e o que se supõe encarnado atualmente.

 

PERGUNTA: — Como poderíamos entender, com algum exemplo, o que significa essa “quebra” da linha psicológica do personagem do passado?

RAMATIS: — Seria uma quebra da linha psicológica e um desmentido da nova encarnação do mesmo espírito, se um indivíduo prepotente e rico se convencesse de que fora anteriormente Francisco de Assis. Francisco de Assis renunciou em absoluto aos interesses no mundo material e jamais regressaria à carne como prepotente ou com o intuito de acumular fortuna, competir comercialmente ou colecionar propriedades transitórias. Em várias existências anteriores, ele já buscava a sua alforria da vida física e, na última roma­gem terrena, pôde extinguir completamente o desejo de gozo na matéria.

Quando a natureza angélica do espírito passa a predomi­nar sobre a personalidade transitória terrena, ele perde o gosto e o entusiasmo em se destacar no mundo provisório, cuja maior glória não vale o minuto de paz que se pode usu­fruir no reino do Cristo. Eis por que um indivíduo arguto, uti­litarista, negociante cioso e industrial hábil não se ajusta ao porte espiritual de Francisco de Assis, que é todo renúncia e pobreza absoluta, em vivência exclusiva para o bem alheio.

Revendo-se as encarnações anteriores de Francisco de Assis, e examinando-se as suas personalidades terrenas, veri­fica-se que não há incoerência nem truncamento em sua linha psicológica, pois o seu tipo espiritual identifica-se per­feitamente com os personagens que ele já vivera anterior­mente. Ele fora Samuel, o profeta puro, místico e poeta, que mais tarde retorna à Terra como João Evangelista. Posterior­mente encarna-se como Francisco de Assis, em cuja existên­cia confirma o imenso amor que já nutria pelo Mestre Jesus e ratifica a sua linha psicológica de renúncia e bondade. Em tal caso, portanto, não há quebra nessa linha psicológica, pois as três personalidades vividas nos dois milênios manifestam a mesma estrutura íntima espiritual e temperamento, embo­ra mais evolutiva no decorrer do tempo.

Enquanto seria psicologicamente absurdo que Francis­co de Assis retomasse à Terra na personalidade de um rica­ço sovina ou Ghandi viesse a encarnar a figura egocêntrica e belicosa de um déspota, já não existe quebra da linha psi­cológica quando se verifica que Moisés foi Abrão, Nostrada­mus foi Isaías, Einstein foi Demócrito, Napoleão foi César e Alexandre, Frei Fabiano de Cristo foi Anchieta e Ruy Barbo­sa foi José Bonifácio.

 

PERGUNTA: — Então não há possibilidade de algum encarnado de hoje ter sido Paulo de Tarso, João Batista, Lucas, Marcos ou Matheus? Seria impossível algum deles encontrar-se atualmente na Terra, quiçá no Brasil?

RAMATÍS: — Sem dúvida, isso não é impossível. Aliás, alguns espíritos laboriosos, da época de Jesus, realmente operam no Brasil em favor da doutrina espírita e devotados ao serviço cristão. Mas, justamente por serem espíritos sin­ceros, humildes, heróicos e serviçais, os verdadeiros Paulo de Tarso, Estevam, João Batista ou demais apóstolos de Jesus serão os últimos a crer que foram realmente essas entidades tão destacadas, no advento do Cristianismo. Já se confirmou, na Terra, que o homem, quanto mais sábio ou mais santo, tanto mais é humilde e bom, pois a sua ampla visão da rea­lidade cósmica sugere-lhe o fim da “fila” dos favores e das vaidades do mundo material.

 

 

PERGUNTA: — As criaturas que se julgam falsamente a encarnação de famosas entidades apostólicas ou históricas do passado podem sofrer prejuízos depois que desencarna­rem? Porventura, ao comprovarem o seu equívoco, no Além, serão tomadas de grande decepção?

RAMATÍS: — Não sofrem prejuízos espirituais aqueles que, embora iludidos e supondo-se erradamente a encarna­ção de apóstolos ou santos do passado, houverem vivido de modo digno e justo. Depois da morte corporal, a tranqüili­dade do espírito não depende absolutamente da raça, confi­guração física ou condição material em que viveu na Terra; o que realmente lhe garante a ventura espiritual é o serviço prestado ao próximo e a conduta moral esposada na sua romagem física. As personalidades que se substituem pelas formas físicas nas sucessivas encarnações sâo meros aciden­tes que marcam as etapas do aperfeiçoamentp da consciên­cia espiritual no contato com o mundo planetário. Signifi­cam as contas coloridas de um colar dispersas no tempo e no espaço, e que, no entanto, ligam-se definitivamente pelo fio da individualidade eterna.

As almas caritativas e regradas não sofrem no Além, mesmo quando se tenham julgado erroneamente a cópia-carbono de um Paulo de Tarso, Marcos, João ou Pedro; e se porventura imitaram tanto quanto possível a conduta, o brio, o coeficiente de luta e de renúncia que foram as virtu­des proverbiais dos seus modelos do passado, é evidente que também lhes será ainda de melhor aproveitamento a exis­tência física. É preferível o homem julgar-se a encarnação de um espírito benfeitor do passado e, por isso, imitar devota­damente o padrão de vida abençoado que ele cultivou no mundo, a entregar-se a uma existência indigna e animaliza­da, embora assim o faça consciente de sua própria persona­lidade. Envidando esforços heróicos para não desmentir o modelo superior do pretérito, muitas criaturas logram maior êxito na sua graduação espiritual, embora lhes seja oportu­no e de bom senso não caírem em absurdos messiânicos, que só representam a vaidade humana.

 

 

PERGUNTA: — Cremos que nos médiuns o impulso mís­tico é mais vigoroso do que no homem comum; não é assim? Isso talvez os leve a se sentirem ligados às missões espirituais e aos missionários que mais se distinguiram no mundo, convictos de que também já desempenharam ativi­dades excelsas no pretérito.

RAMATÍS: — É preciso não confundir esse impulso mís­tico e louvável com os estímulos da personalidade egocêntri­ca, tola ou vaidosa, que podem ser explorados facilmente pelos espíritos astuciosos das sombras. A auto-fascinação ou o fanatismo por uma idéia, embora benfeitora, também pode atrofiar o sentido de crítica interior e alterar o comando psí­quico, fazendo a criatura confundir o bom senso com o ridí­culo. Isso pode torná-la alheia aos preceitos sensatos da vida humana e ainda rebelde às advertências fraternas dos que tentam despertá-la da obstinação prejudicial. Mesmo no seio do Espiritismo, algumas criaturas muito presumidas ou que se julgam auto-suficientes, às vezes se isolam na concha de sua vaidade e do seu amor-próprio, confundindo suas “obrigações cármicas” com as “missões divinas”.

Poucos médiuns e adeptos espíritas se conformam em ter sido no passado figuras paupérrimas e desconhecidas, que viveram jungidas às tarefas _mais servis e prosaicas. Eles ainda necessitam dos atavios e das gloriólas efêmeras do mundo material, a fim de exaltarem a sua personalidade humana e compensarem os sonhos e os ideais que ainda não puderam-realizar. Não há desdouro na criatura pelo fato de considerar-se a encarnação de algum apóstolo ou discípulo devotado de Jesus, no passado, mas ser-lhe-á grande a decep­ção no Além, caso tenha vivido existência censurável e con­trária à conduta ilibada do seu predecessor.

direita-seta

Próximo

esquerda-seta

Anterior

escola-decor

Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico