Fazer pedidos aos Guias Espirituais

CAPÍTULO 30

O peditório aos amigos do espaço
(Fazer pedidos aos Guias Espirituais)

 

PERGUNTA: — Haverá algum perigo em nos entregar­mos à orientação de qualquer desencarnado serviçal para solução de nossos problemas particulares, uma vez que confiemos em suas boas intenções?

RAMATÍS: — Em singelo exemplo, lembramo-vos que seria bastante insensato e imprudente o santo amoroso, mas inábil que, movido por um sentimento generoso, resolvesse conduzir a fogosa parelha de cavalos atrelada a pesada car­ruagem repleta de crianças, com o risco de causar trágico acidente pela sua absoluta ignorância no comando do veícu­lo. Da mesma forma, certos espíritos bons e serviçais, mas inexperientes, transformam-se em procuradores incondicio­nais dos encarnados, atendendo-lhes toda sorte de impru­dências e resolvendo-lhes todos os problemas materiais.

Os homens que se entregam facilmente à orientação de qualquer desencarnado serviçal, sem identificar-lhe a gra­duação espiritual e conhecer-lhe a competência, podem até perder a dose de bom senso que é peculiar ao ser humano em comum. Muitos seres surpreendem-se quando, após a sua desencarnação, certificam-se da graduação medíocre de alguns dos seus pseudos guias, que estavam sempre pron­tos para atender aos pedidos mais absurdos da Terra.

 

PERGUNTA: — Devemos supor, então, que só os espíritos de graduação elevada podem orientar-nos satisfatoriamente?

RAMATÍS: — Alguns espíritos desencarnados e de pouca graduação espiritual ainda permanecem muito liga­dos às atividades terrenas. Assim, podem servir-vos com certo êxito nas soluções de alguns problemas adstritos ao mundo carnal, pois infiltram-se com mais facilidade nos ambientes físicos e apercebem-se das intenções dos encarna­dos. Deste modo, prevêem alguns acontecimentos e orientam seus inquietos consulentes para realizarem o melhor negócio material; opinam quanto ao noivado da moça casadoira, advertem sobre as amizades inconvenientes à família, indi­cam o emprego para o rapaz negligente ou aconselham a mudança dos seus pupilos para bairro mais favorável.

No entanto, não resta dúvida de que, neste caso, trata-se de almas bem intencionadas e carinhosas, que tudo fazem por servir e também por melhorar o seu padrão espiritual. Mas, evidentemente, a sua bondade e a sua ternura se tor­nam até prejudiciais, porque alimentam a preguiça, o inte­resse e a cobiça dos terrícolas. Mas são os próprios encarna­dos os principais culpados por essa situação em que alguns espíritos bondosos, pacíficos e serviçais ficam presos afetiva e ingenuamente à teia sedutora que lhes estendem da Terra sob o interesse oculto. Através de rogativas descabidas, a mente encarnada e subvertida pelo interesse enlaça o espíri­to desencarnado bom e invigilante, transformando-o em um corretor em atividade no mundo astral, convocado a todo instante para suprir a inexaurível mendicância espiritual exercida na matéria.

É acontecimento muito comum nos terreiros de Umban­da, onde muitos freqüentadores buscam apenas solucionar ;is suas tricas particulares, transformando os pretos-velhos e humildes, os caboclos prestativos e os silvícolas ingênuos em seus “escravos psíquicos”. O verbo “pedir” passa a ser empre­gado sem qualquer cerimônia, disfarçado pelas mais afeta­das demonstrações de carinho e gratidão dos encarnados, constituindo verdadeiro suborno espiritual destinado a comover os corações generosos do Além.

Os terrícolas paralíticos da espiritualidade exploram a magnanimidade e a piedade desses espíritos bondosos, since­ros e serviçais para solucionarem desde a transferência do chefe indesejável da repartição, ou a mudança urgente do vizi­nho ranzinza, até o adjutório para a eleição do político manho­so, que promete “ajudar os pobres”, assim que seja eleito. Aqui, o militar graduado convoca os préstimos do Pai Velho para obter melhor promoção e menos serviço; ali, a senhora balou­çante de jóias e de frivolidades roga providências imediatas para o silvícola hercúleo obrigar seu mando a retomar ao lar, embora ela oculte os caprichos, as zangas e os ciúmes que o afastaram; acolá, o filho de Ogum exige que o seu protetor movimente o requerimento de aposentadoria prematura no instituto, retido por algum funcionário zeloso. Assim, organi­zam-se trabalhos especiais para se encaminhar um processo em juízo, ou faz-se a evocação urgente do preto-velho para aconselhar a mocinha teimosa e malcriada, ou pede-se então a presença do caboclo rude e sincero para chamar a atenção do caçula birrento e avesso às obrigações escolares.

A falange é chamada às pressas para atender com passes, descargas ou medicamentos-urgentes desde o chefe da casa, vitimado por forte choque hepático em seguida a opíparo ban­quete de carne de suíno, até à mocinha possessa que, depois de três dias de carnaval frenético, é subjugada por teimoso folião desencarnado que, através de sua mediunidade, ainda tenta festejar o carnaval na quarta-feira de Cinzas.

 

PERGUNTA: — Mas é censurável o fato de nossos ami­gos desencarnados ajudarem-nos tanto quanto possível na solução dos problemas e nas vicissitudes de nossa existên­cia? Porventura Deus exige que na vida física primeira­mente tenhamos de sofrer equívocos, para só então mere­cermos a solução espiritual justa e exata? Não se poderia considerar isso um requinte sádico do próprio Criador?

RAMATÍS: — Os espíritos desencarnados e de boa índole tudo fazem para ajudar os seus parentes, amigos e admiradores encarnados e os mais heróicos devotam-se em auxiliar os seus próprios desafetos e adversários, praticando o Amor que realmente salva o homem. Mesmo quando não as evocam nas sessões mediúnicas ou no seio dos lares, essas almas de boas intenções dedicam-se a ajudar aqueles que merecem auxílio nos seus problemas aflitivos. Mas não é lícito que por isso devam pactuar com a ociosidade, o capri­cho e o comodismo tão comuns ainda entre os terrícolas irresponsáveis, para só então justificarem o seu afeto de gra­duação espiritual. É de senso comum que se os pais não podem afastar os filhos da senda do vício ou dos prazeres perigosos, pelo menos evitam apoiá-los e atendê-los em suas solicitações ilícitas.

Da mesma forma, os espíritos inteligentes não atendem às rogativas que podem anular o discernimento e a livre ini­ciativa dos encarnados, ou incitá-los à mendicância com os desencarnados mal intencionados. Conforme diz o conceito, que “a função faz o órgão”, é claro que a falta de exercício do raciocínio termina por ofuscar a mente do homem, assim como a fuga de experimentação dos problemas comuns da vida física também cristaliza a acuidade espiritual na esca­lonada sideral.

Mas Deus não exige que seus filhos primeiramente se equivoquem no trato do mundo material, para só então dar-lhes o apoio ou o discernimento espiritual. O principal obje­tivo da experimentação humana, mesmo quando surgem os equívocos, é sempre o de desenvolver no espírito a capacida­de de raciocínio e torná-lo conscientemente atilado e recep­tivo à evocação do Alto. Os espíritos estóicos enfrentam a existência humana com ânimo e boa vontade, porque reco­nhecem a necessidade de apurar o seu tom espiritual para a sua mais breve integração à humanidade angélica. Não nos consta, na história da vida de Jesus, que ele tenha invocado assiduamente os anjos para que lhe resolvessem os assuntos corriqueiros. A sua rogativa era sempre feita em favor dos deserdados da sorte e nunca em seu próprio benefício.

 

PERGUNTA: — Quais os recursos ou providências que os guias adotam para nos ajudar na jornada terrena?

RAMATIS: — Já vo-lo dissemos; os espíritos prudentes e benfeitores procuram despertar as energias superiores de vossa alma, muito antes de só ajudar-vos a acumular fortuna. Preferem mesmo retardar-vos a saúde física, se isso puder livrar-vos de qualquer excesso ou abuso nocivo à harmonia espiritual. O seu principal escopo é ajudar-vos a dominar o orgulho, a vaidade, a crueldade, o ódio, a avareza ou a deso­nestidade, o que infelizmente só o conseguis através das difi­culdades materiais ou pelo sofrimento redentor.

Embora esses amigos desencarnados vos amem profun­damente, nem por isso devem assumir o papel de “camelô” da espiritualidade, comprometendo-se a descobrir-vos os negócios excusos, as empreitadas desonestas ou facilidades censuráveis. Malgrado tenham sido às vezes vossos parentes carnais, depois da morte física reconhecem o enorme prejuí­zo gerado pelo devotamento fanático aos familiares encarna­dos, quando estes ainda persistam em’ abdicar do esforço próprio para exercer um intercâmbio mediúnico puramente interesseiro.

 

PERGUNTA: — Conseqüentemente, os guias não nos podem ajudar na solução dos problemas materiais, mas apenas assistir ao nosso desenvolvimento espiritual e à recuperação moral; não é assim?

RAMATÍS: — Os guias nunca vos deixam sem assistên­cia espiritual, seja qual for a necessidade de vossa vida. Mesmo em relação aos problemas comuns da vida cotidiana, alguém do “lado de cá”, sempre vos presta a cooperação desin­teressada. Mas isso é feito através da via-inspirativa ou da sugestão benfeitora, em que vos fica o mérito da boa escolha, de acordo com o vosso discernimento espiritual.

Sob qualquer hipótese, os protetores só vos inspiram nos negócios honestos e nas realizações benfazejas, e afas­tam propositadamente os seus pupilos das transações lucra­tivas, quando disso possam resultar prejuízos materiais ao próximo. Eles evitam-vos toda vantagem ou conforto da vida carnal, desde que tal coisa possa agravar-vos a dívida cármica com conseqüente prejuízo para o espírito imortal.

São sempre inescrupulosas as rogativas que alguns cató­licos, espíritas, umbandistas ou outros religiosos fazem aos seus guias, orixás ou santos, para que os ajudem a vender objetos defeituosos, coisas desvalorizadas ou efetuar transa­ções incorretas, assim como saber quem pode ter surrupia­do o talher de prata ou ludibriado-lhes no troco. Os desen­carnados sensatos não aceitam, no Além, a função de Inves­tigadores de Polícia à procura dos penduricalhos da maté­ria. Quando vos inspiram é para agirdes unicamente no sen­tido do bem, pois o seu principal escopo é livrar-vos do com­prometimento espiritual que mais tarde pode lançar-vos nos charcos pestilentos do mundo astral.

 

 

PERGUNTA: — Poderíeis esclarecer-nos melhor quanto à maneira dos nossos guias nos favorecerem espiritualmen­te, embora sejamos prejudicados materialmente?

RAMATÍS: — Suponhamos que desejais vender um automóvel defeituoso e desvalorizado, que impressiona pela sua aparência, mas que só causará prejuízos ao comprador inexperiente. Então apresentam-se dois homens interessados em sua compra, um deles aceita o veículo pelo preço exorbi­tante, enquanto o outro oferece importância perfeitamente compatível com o seu exato valor. Intimamente, credes que o vosso guia espiritual há de ajudar-vos a realizar o melhor negócio, isto é, em que vendereis o automóvel defeituoso pelo preço mais alto. No entanto, o vosso protetor, interessa­do na redução do vosso fardo cármico e progresso espiritual, não há de pactuar com o negócio desonesto feito com pre­juízo alheio. Desde que lhe seja possível intervir, ele tudo fará para que o automóvel depreciado seja vendido justa­mente àquele que oferece o menor preço, porém o mais justo e com menor prejuízo alheio.

 

PERGUNTA: — Considerando-se que o homem peca ao gerar um pensamento desonesto, porventura ficará isento de culpa espiritual, porque o guia impediu o seu protegido de efetivar uma transação excusa que já havia deliberado em sã consciência? A intenção clara de realizar um negó­cio desonesto não bastaria para um agravo espiritual?

RAMATIS: — Realmente, o homem comete pecado só em emitir um pensamento ruinoso. Mas é evidente que o espírito que projeta negócios ilícitos já é naturalmente de índole pecadora, quer ele execute ou não a transação deso­nesta. A sua deficiência espiritual não se comprova unica­mente porque ele pensa ou tenta negócios desonestos. Isso é fruto natural do seu temperamento, do seu grau psíquico, de sua índole psicológica, que então o induzem a proceder de modo irregular. Mas se o guia evita que o seu pupilo prati­que qualquer ação ilícita, ele também o livra de sofrer a colheita danosa no futuro. O pensamento ruinoso traz pre­juízos e estigmatiza espiritualmente o seu próprio autor, mas só depois de materializado é que então exige a reparação total do prejuízo.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico