Influência anímica

CAPÍTULO 21

A influência anímica na abertura
dos trabalhos mediunicos

 

PERGUNTA: — Que dizeis dos médiuns que sempre ini­ciam os seus trabalhos mediúnicos usando fórmulas ou palavreado particular, espécie de prefixos sem qualquer sentido doutrinário e vazios de significação, tais como estas frases: ‘fiquem convosco as bênçãos das infinitas alturas”, “baixem as luzes dos pés de Deus sobre vós”, “que a bandei­ra branca coroe vossas cabeças” ou “o manto da humilda­de se desfolhe sobre vossos ombros”? Trata-se de convenções particulares dos espíritos comunicantes, ou apenas de fruto do animismo dos médiuns?

RAMATIS: — Isso é mais comum entre os candidatos a médiuns, em desenvolvimento mediúnico, ou próprio daque­les que se cristalizaram num mediunismo improdutivo. Cer­tos vícios anímicos propagam-se por vários médiuns, que na fase do seu desenvolvimento os copiaram do médium prin­cipal da instituição espírita onde iniciaram seus primeiros passos para o despertamento de sua faculdade. Trata-se, neste caso, de um animismo coletivo, próprio de determina­dos trabalhos espíritas doutrinários ou mediúnicos ainda incipientes.

Quando os candidatos a médiuns têm a sorte de se colo­car sob a direção de outros médiuns estudiosos, sensatos e avessos às fórmulas, aos símbolos, às chaves ou ao fraseado pomposo, eles também desenvolvem sua faculdade sem as excrescências anímicas que tanto obscurecem ou ridiculari­zam a prática mediúnica. Há médiuns que, devido ao estu­do incessante das obras espíritas e indagações esclarece do- ras, progridem tão rapidamente no primeiro ano do seu exercício mediúnico, que ultrapassam em conhecimentos e experiências aquilo que os seus companheiros comodistas, preguiçosos, displicentes ou sectaristas não conseguem em 20 anos de trabalho. Estes últimos vivem repetindo- as comunicações fastidiosas tantas vezes repisadas, usando dos velhos chavões e da eloqüência sentenciosa de sempre, enquanto permanece vazio de qualquer proveito espiritual o conteúdo do que transmitem.

Pensando que o desenvolvimento mediunico se resume na exclusiva operação de “receber” espíritos desencarnados, eles se habituam à mesma chapa mediúnica usada há vários anos, enquanto se cristalizam mim animismo improdutivo, que impede os guias de expor qualquer assunto novo aos encarnados, pela impossibilidade de atravessarem o paredão granítico de um condicionamento tão pobre de recursos intelectivos e de conhecimentos espirituais.

Daí o caso desses longos fraseados sem sentido lógico, que os médiuns repetem de modo lacrimoso ou sob afetada eloqüência quando abrem os trabalhos espíritas. Tal como acontece nos demais setores da vida humana, os “calouros” sempre imitam os veteranos, coisa que também é justificável no ambiente espirítico. Os candidatos a médium e os neófi­tos do ambiente espírita raramente conhecem as obras de Alian Kardec, Leon Denis, Gabriel Delanne, Ernesto Bozza­no, Paulo Gibier, Dale Owen, William Crookes, César Lom­broso, Albert de Rochas, Aksakoff e outros aos quais seria extenso reportarmo-nos, mas suficientes para os esclarece­rem de modo a se extirparem os ridículos, as trivialidades e as manifestações mediúnicas que contrariam o bom senso. Em conseqüência, aos displicentes só lhes resta seguir ao pé da letra tudo aquilo que observam no médium desenvolvido e instrumento do guia diretor dos trabalhos do Centro Espí­rita. Em face do “tabu” inescrutável, espécie de dogma espícita, de que tudo aquilo que o guia diz ou ensina deve ser observado religiosamente, tal como os fiéis católicos seguem o padre, os médiuns novatos também aceitam cegamente e sem qualquer pesquisa corajosa o que expõe o médium senhor do trabalho, que também pode ensinar tolices à guisa de conceitos de elevada filosofia espiritual. Em conseqüên­cia, em breve surge o animismo coletivo, resultando em cópias fiéis dos mesmos chavões, habituais de aberturas de trabalho, das preleções pomposas, dos cacoetes mediúnicos e os tons de voz dramática e altissonante.

 

 

PERGUNTA: — É razoável essa imitação por parte dos médiuns “novos”, no desenvolvimento mediúnico?

RAMATÍS: — Isso é humano e bastante justificável, pois metade da humanidade gostaria de imitar a outra metade. É de regra geral que, em qualquer experiência no mundo, os neófitos se guiem pelos veteranos, porque desco­nhecem o caminho e, assim, precisam seguir as pegadas dos que lhes vão à frente. O artista, a cantora, o escritor ou ora­dor famosos seguem pela vida acompanhados do cortejo de imitadores que, nessa ansiosa emulação, também buscam a mesma fama e celebridade. É certo que alguns dos imitado­res, com o decorrer do tempo, também conseguem impor-se por alguma criação original; mas, de início, o candidato inci­piente precisa apoiar-se naqueles que já alcançaram o êxito.

Acontece o mesmo no campo da mediunidade, em que os novatos procuram assimilar as qualidades dos veteranos, mal­grado no futuro poderem até superá-los vantajosamente. No entanto, desde que os candidatos a médiuns olvidem o estudo, a pesquisa incessante, e receiem enfrentar os “tabus” supersti­ciosos, preferindo a cômoda posição do misticismo suspiroso improdutivo, não há dúvida de que se cristalizarão como ruins imitadores dos bons ou maus médiuns em que se inspi­rarem. E assim viciar-se-ão também aos chavões sentenciosos, às senhas sibilinas e às metáforas ridículas que são proferidas sob a eloqüência imitativa dos velhos tribunos romanos.

Só o conhecimento profundo da bibliografia espírita, quer quanto à parte doutrinária, quer quanto à prática mediúnica, é que realmente poderá reduzir a interferência anímica do médium nas comunicações mediúnicas, ajudan­do-o a eliminar gradativamente os datismos, as imitações, as redundâncias e a prolixidade indesejável no intercâmbio sensato com os desencarnados. Em alguns trabalhos espíri­tas de nível intelectual muito pobre, em que os seus compo­nentes se limitam a uma interpretação tristonha e lacrimosa do Evangelho, chega-se a exaltar o “tabu” do médium anal­fabeto, o qual compensa a sua ignorância apenas pela sua boa intenção.

É de senso comum que só a boa intenção não basta para o êxito completo no comando da vida, pois muitos aconteci­mentos indesejáveis e trágicos do mundo são frutos da igno­rância daqueles mesmos que os dirigem, embora sejam bem intencionados. E o médium, que é um intermediário dos ensi­namentos e roteiros do mundo espiritual para os encarnados, não pode eximir-se do estudo doutrinário, da pesquisa mediú­nica e da cultura do mundo em que vive, malgrado alegue que também age com boa intenção, pois esta deve estribar-se em conhecimentos seguros e sensatos, para não se produzirem prejuízos irreparáveis à fé e à confiança do próximo.

 

PERGUNTA: — Essa falta de instrução, que leva os médiuns incipientes a copiar o modo de falar, a voz, a maneira e o estilo do médium principal, pode prejudicar os trabalhos do próprio centro onde militam?

RAMATIS: — Ainda são poucos os trabalhos mediúnicos que estão livres de certas práticas contraproducentes e que satisfazem integralmente aos espíritos comunicantes. Os médiuns, em grande parte, conforme já vo-lo dissemos, devo­tam-se forçadamente à pratica mediúnica, porque vivem aci­catados pela necessidade de se desenvolverem, com o fito de recuperar a saúde ou livrar-se de incômoda opressão psíqui­ca, que os atuca comumente. Falta-lhes, de início, o sentido heróico de renúncia aos seus interesses pessoais, o prazer de servir ao próximo ou o ideal de divulgar a doutrina espírita.

Então -claudicam por muitos anos, mudam incessante­mente de centro espírita para centro espírita, sempre insatis­feitos e à procura de “correntes afins”, de “bons trabalhos” ou “reuniões elevadas”, onde possam obter o máximo rendi­mento pelo mínimo esforço. No entanto, muitos desses médiuns incultos e inquietos esquecem-se de que, ao partici­parem das “melhores correntes” e dos melhores trabalhos espíritas, algumas vezes eles também terminam por desar­monizar os labores mediúnicos alheios. A solução, portanto, não se cinge à exclusividade de se procurarem grupos espí­ritas mais simpáticos ou mais eficientes para o êxito do desenvolvimento mediúnico, pois o médium deve promover a renovação íntima do seu espírito no próprio ambiente onde a bondade dos presentes lhes tolera a bagagem ainda bastante defeituosa.

Eis por que, na falta de outros recursos, os benfeitores desencarnados já se dão por muito satisfeitos quando conse­guem operar através dos médiuns de boa vontade, laborio­sos e sem complicações, embora ainda não sejam donos de grande preparo. Por isso eles são pacientes e tolerantes com a insipiência dos seus medianeiros encarnados, suportando-lhes o animismo, a histeria, o automatismo psicológico, a imaginação indisciplinada, os longos circunlóquios, as frases pomposas e vazias, a exacerbação neurótica ou os caprichos levados à conta de qualidades mediúnicas. Quando encon­tram alguma docilidade nos seus intérpretes, tudo fazem para afastá-los dos ambientes perniciosos, das companhias prejudiciais, dos vícios e das paixões degradantes, encami­nhando-os para as palestras elevadas, leituras proveitosas que os ajustem gradativamente ao imperativo superior do trabalho mediúnico junto à mesa espírita.

No entanto, como já vo-lo citamos, é muito mais impor­tante para o guia a reabilitação espiritual do seu médium, bem antes que ele se tome um genial intérprete das revelações do Espaço. Desde que ele firme sua conduta espiritual e se decida por um rumo proveitoso, toma-se o candidato que se gradua para as mensagens dos espíritos de melhor estirpe espiritual. Os médiuns, em grande parte, ainda ignoram que os espíritos responsáveis e conscientes de sua tarefa são con­cisos, sensatos e parcimoniosos nas suas comunicações para a matéria, despreocupados da veleidade de impressionar os encarnados pela oratória recheada de prosopopéias.

O animismo coletivo, que generaliza num mesmo padrão anímico o modo dos médiuns comunicarem, ainda é mais resultante da displicência daqueles que se pressupõem com­pletamente desenvolvidos mas, por comodismo, preferem auferir os conhecimentos e as orientações espirituais da fonte mais próxima e favorável que, nesse caso, ainda é o médium principal do trabalho onde se desenvolvem e de que partici­pam. Se o médium modelo escolhido é também outro aními­co esposando manias, prevenções e superficialidades à conta de “estilo” mediúnico, então os seus imitadores tomam-se outros multiplicadores das mesmas incongruências em novas cópias carbono, ao atuarem noutros centros espíritas. Deste modo, ficam viciadas as mais singelas comunicações do “lado de cá”, devido à excessiva logorréia, repetição de chapas bati­díssimas, longas aberturas crivadas de frases pomposas e ocas, enquanto o guia aguarda pacientemente, junto ao médium indisciplinado, o ensejo de saudar os presentes com um fraternal boa noite!

 

PERGUNTA: — Há pouco vos referistes às “longas aber­turas” dos trabalhos mediúnicos, o que nos faz perguntar se é razoável o costume adotado em certas reuniões espíritas, onde todos os médiuns, um por um, devem receber seu “pro­tetor” para também fazer a abertura dos trabalhos e saudar os presentes. Isso parte dos chamados “protetores” ou se trata da interferência anímica dos médiuns?

RAMATiS: — O bom senso recomenda que nos traba­lhos doutrinários ou de desenvolvimento mediúnico os seus realizadores aproveitem o máximo possível todos os minu­tos disponíveis, para só tratar de assuntos importantes e de esclarecimento público. Convém evitar-se essa improdutiva prática de todos os médiuns, um por um, invocarem o protestor no trabalho mediúnico, imitando os soldados que res­pondem à chamada na revista do quartel. Gasta-se grande parte da hora valiosa e milimetrada do trabalho espírita em saudações sem proveito, num “tête-à-tête” que de modo algum compensa o sacrifício dos guias em abandonarem Mas tarefas espirituais e ficarem esperando para atuar na matéria.

Os dirigentes sensatos dos trabalhos espíritas, e que se destinam principalmente ao público, devem traçar um pro­grama orientado pelo guia da casa ou mesmo pela diretoria responsável da instituição, graduando as comunicações de cada médium conforme o seu progresso e o seu proveito. Considerando-se que as sessões mediúnicas limitam-se ape­nas a uma hora de trabalho controlada rigorosamente pelo pêndulo do relógio, é evidente que os seus freqüentadores semanais mais assíduos terão participado de 48 horas de tra­balhos mediúnicos durante o ano. Sem dúvida, se os médiuns anímicos ainda gastam metade dessas horas valiosas em sau­dações e cumprimentos formalísticos, sobejam apenas 24 horas de serviço efetivo e proveitoso nesse ano, o que nos parece bem pouco como oportunidade para esclarecimento espiritual. Há que se considerar ainda que muitos freqüenta­dores dormem durante as sessões, outros palestram ou se desinteressam das preleções dos espíritos porque muitas vezes estas são enfadonhas, prolixas e cansativas, sob a inter­ferência improdutiva e muito anímica dos seus médiuns.

Em conseqüência, é aconselhável eliminarem-se dos labores mediúnicos todas as manifestações que roubem o tempo precioso destinado aos assuntos mais úteis, assim como os espíritos sensatos dispensam as etiquetas e os pre­conceitos do mundo físico, evitando qualquer competição ou destaque pessoal em abertura de trabalho mediúnico. Nas sessões mediúnicas disciplinadas pelos ensinamentos de Allan Kardec, a regra geral é permitir-se que a entidade res­ponsável pela casa trace o programa de serviço para a noite, exponha o assunto essencial de benefício coletivo, para depois se efetivarem as comunicações dos demais espíritos, no aproveitamento sensato de tempo, sem as longas perora­ções ou demoradas saudações pessoais. Enquanto certos médiuns muito verbosos esgotam grande porcentagem de tempo nos trabalhos espíritas, usando de interminável frasea­do atravancado pelos lugares comuns, esses minutos pode­riam servir proveitosamente ao serviço de irradiação aos enfermos ou para esclarecimento do Evangelho ao público.

 

PERGUNTA: — Como se explica melhor essa aflição de quase todos os médiuns novos, quanto à sua insistência e preocupação de “abrir” os trabalhos mediúnicos com a palavra dos seus guias, que geralmente denominam de “protetores”?

RAMATÍS: — Os médiuns novatos crêem que o seu desenvolvimento mediúnico depende mais propriamente da maior “quantidade” de comunicações de espíritos desencar­nados, do que da “qualidade” do estudo do espiritualismo e de sua urgente renovação moral. Então afobam-se em apro­veitar todo o ensejo favorável, que se fizer nos trabalhos espíritas, para transmitir a sua comunicação mediúnica, pois sentem-se profundamente malogrados quando não podem concretizar tal desejo. Basta lembrar-vos que nos tra­balhos mediúnicos onde a direção da mesa é inexperiente ou de excessiva condescendência, há momentos em que várias comunicações se atropelam simultaneamente, ou alguém ainda comunica após o encerramento, tal a febre dos nova­tos em transmitir a palavra dos seus guias, embora estes não sejam tão afoitos.

Se o êxito da mediunidade dependesse do maior núme­ro de comunicações de espíritos desencarnados, é evidente que os tipos populares, obsidiados de ruas, e os infelizes segregados nos manicômios deveriam ser considerados “excelentes” médiuns completamente desenvolvidos, pois comunicam fielmente a todo instante a palavra e os desejos dos seus obsessores.

Em conseqüência evitem-se os excessos das saudações dispendiosas nas aberturas de trabalhos mediúnicos, as preleções triviais, as longas perorações e os comunicados excêntri­cos que fatigam o público, como frutos do animismo exacer­bado dos médiuns novatos. Que se aproveite ao máximo pos­sível o tempo disponível para o esclarecimento dos “vivos”, em vez de se estimular o estéril convencionalismo dos “mortos”!

 

PERGUNTA: — Essa preocupação anímica e febril de alguns médiuns em “abrir” os trabalhos mediúnicos, assim como os chavões e as frases obsoletas com que eles prelu­diam as comunicações dos desencarnados, devem ser alvo da nossa censura na seara espírita?

RAMATÍS: — Desejamos esclarecer-vos que o nosso principal intuito nesta obra é o de enfrentar o problema aní­mico em sua essência, sem receio de qualquer “tabu” ou mis­ticismo lacrimoso que favoreça a instituição de dogmas no seio do Espiritismo. Muitos fatores indesejáveis e que rebai­xam o nível das comunicações espíritas podem muito bem ser corrigidos em tempo, e assim desimpedirem o progresso medianímico. Não podemos censurar os médiuns anímicos, porque o animismo é fruto natural e lógico do seu desenvol­vimento mediúnico, embora muitos deles continuem estacio­nados nessa improdutividade, depois de já se considerarem completamente desenvolvidos. O médium em desenvolvi­mento é um desarvorado, engatinhando dificultosamente e copiando os cacoetes, as veleidades e as contradições daque­les que ele julga mais competentes. Na verdade: o médium evolui ou cristaliza-se; ele estaciona entre as excrescências anímicas copiadas do “modelo” veterano em que se inspirou, ou então estuda, pesquisa e desenvolve o senso de autocríti­ca suficiente para entender melhor o seu próprio tempera­mento e caráter, a fim de se livrar o mais cedo possível das anomalias do animismo improdutivo.

Não importam os tropeços dos primeiros passos, embora dominem os chavões anímicos, as comunicações tolas, pom­posas ou improdutivas, que significam para o candidato a médium tanto quanto o “abc” para o analfabeto ou o solfejo musical para o aprendiz de música. A base do mediunismo ainda é o animismo; sem este não existe aquele. Os rasgos de oratória genial, com que certos médiuns experimentados mais tarde deslumbram os seus ouvintes, também firmaram suas bases nos cacoetes, nas dúvidas, nos ridículos e tropeços das manifestações mediúnicas incipientes dos primeiros dias.

 

PERGUNTA: — O vosso médium, que nos parece desem­baraçado e desprovido de convenções, chapas ou prosopo­péias mediúnicas, porventura também atravessou essa fase anímica e contraditória, transmitindo o pensamento dos encarnados através de comunicações ridículas, ingênuas e superficiais?

RAMATÍS: — Sem dúvida, na fase primária do seu desenvolvimento ele também comunicou as idéias dos espí­ritos através de frases empoladas, dos dísticos supersticiosos ou redundâncias sem proveito doutrinário. Durante longo tempo mantivemo-nos na expectativa, aguardando paciente­mente que ele atravessasse o período das longas perorações, dos datismos próprios dos intelectos desenvolvidos, porém indisciplinados, das narrativas fatigantes e intermináveis, fruto natural do seu animismo e inexperiência. Ele também proferia longas saudações de abertura em trabalhos espíri­tas, copiou os gestos, as exclamações e o tom da voz dos médiuns aos quais atribuía o melhor quilate. Muitas vezes exagerou nos floreios provincianos, tentando impressionar o público pela exposição de conceitos triviais, que julgava de alta filosofia espiritual. No entanto, quando temíamos que ele se cristalizasse num mediunismo improdutivo e conven­cional, mostrou-se inconformado com a situação e desejoso de novos conhecimentos e atirou-se incondicionalmente ao estudo de tudo aquilo que lhe pudesse dar um conceito supe­rior da vida criada por Deus. Vimo-lo romper as fronteiras ortodoxas de sua crença e pesquisar os esforços alheios dos demais homens que sinceramente buscam a Verdade, cimen­tando-os com os ensinamentos da ciência e da psicologia do mundo material. Na sua investigação incondicional sobre a imortalidade do espírito, o nosso médium terminou por compreender que Deus é íntegro à sua Obra, por cujo motivo a própria matéria é também uma criação divina, como condi­ção provisória para a alma despertar a sua consciência. Sem qualquer constrangimento ele examinou cuidadosamente as suas próprias incongruências e estigmas anímicos, que inter­feriam nas comunicações com os desencarnados; pesquisou o subconsciente sob o método freudiano e terminou por iden­tificar inúmeras anomalias que se interpunham durante o seu transe mediúnico. Investigando o fenômeno da mediuni­dade sem a mística religiosa que dogmatiza, pouco a pouco eliminou inúmeras intervenções anímicas que obscureciam o nosso intercâmbio espiritual, passando a facilitar-nos as comunicações por seu intermédio.

 

PERGUNTA: — Não desejamos censurar o trabalho dos médiuns novatos que são sinceros e entusiastas, mas às vezes observamos certa competição de oratória mediúnica junto à mesa espírita, o que nos parece contrariar algumas recomendações feitas por Allan Kardec no “Livro dos Médiuns”! Que dizeis?

RAMATÍS: — Obviamente, a solução do animismo, que se manifesta nos seus mais variados aspectos, não será con­seguida através de censuras; mas é necessário enfrentar esse problema sem receio dos “tabus” ou de ferir susceptibilida­des presas ao misticismo improdutivo. O Espiritismo é dou­trina sensata e evolutiva, e não pode endossar as anomalias que no exercício mediúnico podem situá-lo sob a crítica maldosa dos adversários. O médium, que é um dos elemen­tos de maior importância na propaganda do Espiritismo prático, deve impor-se pela sua modéstia, conduta moral superior e um serviço mediúnico isento de quaisquer excres­cências ridículas.

Os médiuns são homens e, por isso, imperfeitos. No entanto, desde que estudem conscienciosamente as obras codificadas por Allan Kardec, ficam esclarecidos desde o iní­cio do seu labor mediúnico quanto às incongruências que precisam evitar em nome da doutrina espírita, quais os percalços da mediunidade imperfeita e o desajuste dos médiuns no tocante às suas qualidades morais, conforme é exposto no “Livro dos Médiuns” (1) .

Os médiuns novos são tímidos, cuidadosos e temem o ridí­culo. No entanto, em princípio, mal dissimulam a ansiedade de sobrepujar os companheiros mais experimentados, o que não perdem oportunidade de fazer. Alguns sobrevivem com êxito nos ambientes mais confusos; outros perturbam-se nos traba­lhos mediúnicos mais harmônicos. Obviamente, eles graduam-se pelos mais variados matizes e de acordo com a maior ou menor influência anímica; nuns predomina a linguagem eleva­da, o potencial intelectivo superior ou o sentimento de tolerân­cia evangélica; noutros a trivialidade, o primarismo mental ou a franqueza rude de “dizer a verdade” aos outros. No entanto, conforme cita Allan Kardec, no “Livro dos Médiuns”, ainda é o médium exibicionista o que mais se preocupa em competir e impor-se sobre os seus companheiros de trabalhos mediúnicos, e assim não perde vaza para atrair a atenção pública e teatra­lizar as mais singelas comunicações. Ele faz do ambiente espí­rita a moldura que lhe enfeita as atitudes rebuscadas, os efei­tos pirotécnicos ou as exclamações dramáticas.

 

PERGUNTA: — Em alguns trabalhos espíritas ouvimos comunicações de boa índole e de algum sentido construti­vo. Porém, estranhamos certos “chavões” muito repetidos pelos comunicantes, em linguagem exótica e típica de outras raças. Aliás, alguns confrades explicaram-nos que certos espíritos usam siglas ou saudações particulares, que assim os identificam mais facilmente no início de sua manifestação. Que dizeis?

RAMATÍS: — A saudação tradicional, com que alguns desencarnados iniciam suas preleções, é mais própria de sua índole peculiar, e não representa qualquer senha ou código, que seria rematada tolice aceitar como prova de identifica­ção espiritual. Nós também vos saudamos, às vezes, com as palavras “Paz e Amor”, no limiar de nossas mensagens espi­rituais, sem que por isso estejamos presos a qualquer código de identificação ou signo esotérico. Embora não se trate de quaisquer palavras sagradas ou mantrânicas, certas frases peculiares aos desencarnados, ao se manifestarem nas ses­sões espíritas, já predispõem o público para vibrar-lhes em simpatia no reconhecimento de sua presença.

 

PERGUNTA: — E no caso dessas chaves ou saudações repe­lidas dos desencarnados serem proferidas em sânscrito, hebrai­co, bantu, guarani, árabe ou qualquer outro dialeto estranho, como já temos observado, que deveremos compreender?

RAMATÍS: — Sabeis que um “louvado seja Deus”, pro­nunciado com ânimo e convicção sincera, em qualquer dia­leto ou idioma estranho à vossa raça, sempre há de possuir a necessária força espiritual emotiva, independentemente da língua em que é falado. Mas não passa de excêntrico o médium intuitivo que usa de saudações em idioma estranho à sua própria raça, e depois não consegue transmitir o res­tante da mensagem na mesma língua. Quando se trata de médium poliglota ou xenoglóssico, é evidente que ele pode comunicar toda a mensagem do desencarnado na linguagem que ele usava em vida física, quer seja o francês, o bantu, o turco ou o chinês.

Às vezes é apenas encenação propositada por parte do médium intuitivo, que em vigília conhece o fraseado em lín­gua estranha e o usa como chave no início da comunicação. Cremos que vos seria bastante estranho se, através deste médium intuitivo, ditássemos a nossa costumeira saudação de “Paz e Amor” em indu-chinês, isto é, no idioma pátrio que cultuamos na última existência terrena e, no entanto, depois não pudéssemos transferir-vos na mesma língua o resto da comunicação.

Não censuramos tais fatos, quando eles ocorrem tradi­cionalmente nos trabalhos mediúnicos dos terreiros de Umbanda, nos quais os silvícolas, os pretos-velhos de Ango­la, Nagô ou Bantu, chegam a arrancar dos seus “cavalos” alguns vocábulos do idioma natal que usavam na vida físi­ca. Mas isso já não se justifica nas sessões espíritas discipli­nadas pela codificação de Allan Kardec, em que a manifes­tação mediúnica deve ser escoimada de qualquer superficia­lidade ou teatralização extravagante.

Quanto à suposição de que certos espíritos superiores usam “chaves” esotéricas previamente combinadas com os encarnados, para garantir-lhes a identificação nos trabalhos mediúnicos, cremos que essa segurança moral ou benfeitora dos desencarnados não depende propriamente do seu nome, de chaves sibilinas ou dos sinais cabalísticos da preliminar mediúnica, mas das suas intenções e do tratamento espiri­tual com que se portem nas suas comunicações. Em qual­quer circunstância, é bem mais louvável e segura a presença anônima de Francisco de Assis nos trabalhos espíritas, sem qualquer chave ou saudação cabalística, do que a de algum espírito diabólico prelecionando através de frases lacrimosas e senhas enigmáticas.

1 — NOTA DO MÉDIUM: – “Livro dos Médiuns” – Cap. XVI – 185 a 199.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico