Influências obsessivas

CAPÍTULO 31

As influências obsessivas sobre
os médiuns e suas consequências.

 

PERGUNTA: — Certos candidatos a médium e adeptos do Espiritismo queixam-se de que não podem dominar o seu torpor visual assim que procuram estudar ou ler as obras espíritas. Acreditam mesmo que são espíritos atrasa­dos ou malévolos que procuram impedi-los no seu desenvol­vimento mediúnico e no seu progresso espiritual. Há funda­mento em tais alegações?

RAMATIS: — Achamos algo estranho que essas criatu­ras sintam as pálpebras pesadas quando lêem obras espíri­tas e, em geral, nada lhes suceda de incômodo ou inoportu­no assim que se devotam à leitura de novelas fúteis, roman­ces quilométricos, revistas tolas ou dramalhões lamuriosos. Se elas manifestassem o mesmo interesse, prazer e devota-mento para com as obras de esclarecimento espiritual, cre­mos que nenhuma força oculta ou sugestão inferior seria capaz de cansar-lhes os olhos ou entorpecer-lhes o cérebro. Supondo-se, no entanto, que elas não possam realmente ven­cer de qualquer modo essa má influência que as perturba durante a leitura espiritual construtiva, é aconselhável que se submetam a um tratamento urgente psíquico, porquanto se trata então de criaturas obsidiadas e que abdicaram de sua vontade.

Em muitos casos elas não têm interesse pela valiosidade dos ensinamentos da vida imortal, principalmente quando são criaturas que já se condicionaram às leituras fúteis, às histórias de quadrinhos e às novelas melodramáticas, que são verdadeiros desestímulos para a leitura de obras de pro­fundidade espiritual. São devotos das verborragias senti­mentalistas que lhes dispensam o esforço do raciocino e ser­vem de “mata-tempo”. Assim, evitam o livro sério, útil e sen­sato, em que a pessoa quando lê também deve pensar. Dis­plicentes para consigo mesmas, algumas delas lançam a culpa de sua preguiça mental sobre espíritos desencarnados que, sem dúvida, devem perturbá-las mesmo, assim que se devotam à leitura superior.

Deste modo, o médium fica aguardando o dia miraculo­so em que provavelmente há de eclodir a jato a sua mediu­nidade, enquanto o adepto espírita aguarda a sua angeliza­ção instantânea, sem necessidade de manusear qualquer obra espiritualista ou devotar-se a leituras mais edificantes.

 

PERGUNTA: — Algumas pessoas que costumam dormir nas sessões espíritas, por não resistirem em vigília ao tempo normal do trabalho mediúnico ou da oratória, alegam que por mais que se esforcem não conseguem manter-se despertas. Que dizeis sobre isso?

RAMATÍS: — Embora reconheçamos que no transe sonambúlico o corpo físico adormece profundamente, enquanto o espírito do médium pode distanciar-se bastante para exercer algum serviço espiritual, isso não é tão comum naqueles que ressonam à larga durante os trabalhos espíritas. Em verdade, o que mantém a criatura desperta durante con­ferências, leituras, trabalhos mediúnicos ou doutrinários nos centros espíritas é sempre o interesse espontâneo causado pelo desejo sincero de aperfeiçoamento espiritual. Em geral, os que dormem facilmente nas sessões mediúnicas e se can­sam nas reuniões evangélicas muito raramente adormecem durante o futebol, o turfe, a irradiação da novela xaroposa e mesmo no cinema, malgrado projetar-se péssimo filme.

Há criaturas que dormem nas igrejas católicas, no tem­plo protestante e nas instituições culturais, assim que o sacerdote empunha o Evangelho para a leitura de praxe, o pastor abre a Bíblia para o comentário do dia ou o conferen­cista aborda o tema instrutivo de sua palestra. É evidente que só dormem nos ambientes religiosos ou espíritas as cria­turas muito cansadas por um labor excessivo durante o dia e os que realmente não se preocupam nem se interessam por aquilo que ouvem ou de que participam. Os freqüentadores dorminhocos dos ambientes espíritas, ou os que adormecem durante as leituras espiritualistas, comprovam obviamente que não estão se interessando pelo assunto em foco, pois se se interessassem ficariam despertos.

 

PERGUNTA: — Alguns confrades explicam que, duran­te esse sono intempestivo, os dorminhocos costumam doar fluidos em favor dos enfermos situados à distância. É assim mesmo?

RAMATÍS: — Trata-se de acontecimento muito raro. Cremos que só em casos excepcionais os espíritos de respon­sabilidade extraem fluidos de pessoas sonolentas nas sessões espíritas para atender enfermos à distância, pois eles não costumam violentar ou vampirizar as criaturas que dormem displicentemente e que não estão participando em vigília dos fenômenos caritativos. Não agrada a tais espíritos fazer a caridade sem o consentimento do dono dos fluidos, que é o menos interessado no caso. O motor que produz fluidos benfeitores ao próximo deve ser movido pela vontade daquele que deseja servir. A caridade só é plausível quando o seu agente também oferta algo de si, consciente e esponta­neamente, impregnando a sua ação com o calor do seu cora­ção, porquanto o céu não se conquista através de procura­ção alheia e nem comodamente adormecido. Sem dúvida, a extração indébita de fluidos daqueles que dormem nos ambientes espiríticos, na verdade, não passaria de censurá­vel vampirismo, embora praticada pelos espíritos benfeitores e destinada a fins úteis.

 

PERGUNTA: — Conhecemos alguns trabalhos de intercâmbio mediúnico especializado, em que os espíritos obses­sores são afastados compulsoriamente de junto dos seus obsidiados e impedidos de agir malignamente. Certos espi­ritualistas afirmam que é de salutar eficiência esse tipo de trabalho de terreiro, em que os espíritos atormentadores são tolhidos em sua ação nefasta sobre suas vítimas encarna­das. Que dizeis?

RAMATíS: — Inúmeras vezes os instrutores espirituais têm vos advertido de que a singela providência de afastar as moscas das feridas não é suficiente para estas serem cura­das. Da mesma forma, o afastamento forçado do obsessor de junto de sua vítima obsidiada também não soluciona certos problemas psíquicos dolorosos, que há muitos séculos se enraízam devido à crueldade e vingança de ambas as partes. Essa providência draconiana é bem semelhante ao efeito da injeção violenta — enquanto persiste a sua ação no organis­mo físico, há cura aparente e contemporiza-se o sintoma doloroso, — mas isso não é a remoção da causa oculta da enfermidade. O obsessor afastado violentamente de junto do obsidiado apenas aguarda o ensejo oportuno para retomar ainda mais enfurecido sobre a vítima e continuar a sua vin­gança odiosa.

Certos espíritos vingativos, astutos e maquiavélicos, fin­gem aderir às imposições violentas que os forçam a deixar suas vítimas cármicas, mas depois vigiam-nas incessantemente, espreitando o momento de feri-las de modo a as aniquilarem sem qualquer probabilidade de recuperação. Muitas vezes já se manifesta entre os encarnados o júbilo decorrente da conver­são e do arrependimento lacrimoso do obsessor que foi afasta­do pelo caboclo de Ogun ou de Oxóssi, quando ele então faz desabar o seu derradeiro ataque e logra a sua vingança homi­cida. Aqui, lança o velho desafeto sob as rodas do veículo pesa­do; ali, invalida a vítima para o resto da existência no aciden­te inevitável; acolá, fere-a fundamente no afeto mais querido ou destrói-lhe os bens terfenos.

Não se soluciona o problema da obsessão pelo simples afastamento dos espíritos obsessores, nem impedindo-os de se aproximarem de suas vítimas. Esse recurso intempestivo não liquida a responsabilidade cármica e recíproca, em que ambos, vítima e algoz, encontram-se enleados na rede de ódios e desforras cruéis. Esse recurso apenas resolve tempo­rariamente o problema, mas não o soluciona. Persistindo o ódio, como a causa da enfermidade espiritual, sem dúvida retoma o perseguidor, assim como as moscas regressam sobre a ferida mal cheirosa.

Só a conversão simultânea do obsessor e do obsidiado é que realmente proporciona a solução espiritual que a violên­cia e a força nunca poderão resolver.

 

PERGUNTA: — Temos defrontado casos tão impiedosos por parte de espíritos obsessores tão cruéis, sobre suas víti­mas, que achamos algo razoável o emprego da força e da disciplina férrea com que os silvícolas dominam violenta­mente essas vontades maldosas e tão destrutivas.

RAMATÍS: — Não nos consta que Buda, Crisna, Rama­crisna, Maharishi, Ghandhi, Vicente de Paula, Francisco de Assis e principalmente Jesus, espíritos que renunciaram as gloríolas terrenas para se devotar ao bem do próximo, tenham sido vítimas das entidades obsessoras sediadas no mundo oculto. Allan Kardec, a nosso ver, foi uma das cria­turas que mais lidaram com os espíritos de todos os matizes e graus espirituais, enquanto também enfrentava a campa­nha difamante do Clero e dos pseudos cientistas da época. No entanto, nenhum espírito desencarnado malévolo e cruel conseguiu atacar o codificador do Espiritismo, ou firmar as bases para quaisquer empreendimentos obsessivos.

De acordo com os princípios justos da Lei do Carma, a interferência de espíritos cruéis e enfurecidos tentando obsi­diar os encarnados não é acontecimento acidental ou proce­der injusto, mas apenas o efeito de alguma causa infeliz ou trágica do passado. Foi o próprio obsidiado que engendrou as conseqüências dolorosas que depois vem a sofrer. Ele também feriu ou traiu aquele que o persegue, A lei retificadora de tais casos, Jesus a enunciou claramente, quando advertia que “quem com ferro fere com ferro será ferido”, ou seja, o equi­valente ao próprio adágio terrícola, de “quem semeia ventos colhe tempestades”.

Não há injustiças no mecanismo ordeiro da evolução espiritual criada por Deus; ninguém será perseguido, maltra­tado ou enganado, salvo por sua própria imprudência ou culpa pregressa.

 

PERGUNTA: — Como dominar esse tigre furioso e rebel­de a qualquer providência amorosa?

RAMATÍS: — Malgrado compareis o obsessor cruel ao tigre feroz e refratário à linguagem amorosa, não tenhais dúvida de que sua vítima é a principal culpada de atraí-lo à sua presença, em face dos prejuízos que também o fez sofrer no passado.

Mesmo as feras pressentem a criatura inofensiva e amo­rosa, pois, enquanto alguns homens têm sido sacrificados entre os animais, outros há que nunca foram picados por abelhas, répteis ou insetos venenosos, nem mordidos por cães, escoiceados por cavalos ou feridos por outros animais. Francisco de Assis, no seu imenso amor, exortava as aves e as feras, fazendo imorredoura amizade com o lobo feroz. Jesus estendia suas mãos sobre as serpentes e elas se enrodilhavam enlanguecidas pelo seu magnetismo sublime. Ramana Maharishi, quando jovem, entregava-se aos seus êxtases, enquanto aranhas subiam-lhe pelo rosto e as feras lambiam-lhe as mãos, participando também de suas refeições.

O castigo ou a prisão não apagam as chamas do ódio que alimentam os espíritos em mútuo processo obsessivo, onde um deles leva a vantagem de operar do Invisível. Só há um recurso ou solução — o amor pregado pelo Cristo, e que con­verte até as feras. O espírito perseguidor e cruel é apenas o credor que regressa para cobrar suas dívidas, exigindo os juros escorchantes da chantagem de que foi vítima no passa­do. Infelizmente, mesmo entre alguns espíritas estudiosos da doutrina, ainda se alimenta odiosa animosidade para com o obsessor sediado no Além, enquanto se procura ignorar o ódio, a irascibilidade e a blasfêmia da própria vítima, que assim tenta ignorar suas culpas pregressas.

A família do obsidiado tenta liquidar o problema afliti­vo e incômodo a qualquer preço e modo. Para isso, move terra e céus com o fito de afastar o obsessor ou, se possível, liquidá-lo. Raramente os prejudicados reconhecem os gritos de ódio, os propósitos de vingança e o desespero espiritual que vai na alma daquele que foi a vítima de ontem. Poucos se dispõem a conquistar o coração daquele que o persegue, pois tentam ignorar suas culpas pregressas e fugir á respon­sabilidade cármica.

Até que os laços atados pelo ódio sejam desatados pelos sentimentos sublimes do amor e da ternura crística, o pro­blema obsessivo continuará insolúvel, prolongando-se reci­procamente por outras existências futuras e na erraticidade do Espaço, sob a condenável perda de tempo, em que se retarda tanto a ventura espiritual do obsessor como a do obsidiado. É inútil afastar com violência os obsessores, caso suas vítimas ainda não passem de ímãs vivos, cuja vibração odiosa insiste em atrair os seus perseguidores.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico