Mediunidade intuitiva

CAPÍTULO 10

O médium anímico-mediúnico e o intuitivo (mediunidade intuitiva)

PERGUNTA: — Qual o tipo de médium cujo espírito se afasta do corpo físico e o deixa em completo transe mediúni­co? É o sonambúlico?

RAMATÍS: — Conforme já vos temos esclarecido, difi­cilmente existe absoluta similaridade de técnica ou a mesma exatidão no exercício da mediunidade, entre um médium e outro, quer seja ele intuitivo, incorporativo ou de efeitos físi­cos. O fato de o espírito abandonar o corpo carnal do médium não implica em classificá-lo, de imediato, como um sonâmbulo, na acepção da palavra com que se costuma denominar o intermediário inconsciente entre os desencar­nados e os encarnados. Assim, existe o médium de incorpo­ração, sonâmbulo e inconsciente, cujo espírito se afasta do seu organismo físico, enquanto outro desencarnado fala ou escreve diretamente por ele, senhor absoluto da casa alheia. Há, também, o medianeiro que abandona o seu corpo e não o cede a ninguém. Ele mesmo é quem toma conhecimento dos fenômenos do mundo astral e depois os relata convicto de que esteve sob a incorporação ou influências de um desencarnado.

Daí existir o médium que ao mesmo tempo é anímico e mediúnico, cujo espírito se afasta do seu organismo material e, em liberdade, participa dos fenômenos do mundo oculto, entrando em relação com os espíritos desencarnados e mesmo os encarnados. Trata-se de faculdade facilmente con­fundível com a do médium sonâmbulo ou de incorporação total, em que o espírito e o perispírito também deixam o seu corpo físico durante o transe mediúnico, enquanto os desen­carnados podem se manifestar por ele revelando todas as suas características pessoais e cuja comunicação se processa sem o conhecimento do seu intermediário.

 

PERGUNTA: — Poderíeis nos esclarecer melhor sobre esse tipo de médium, que ao mesmo tempo é anímico e mediúnico, conforme no-lo dissestes?

RAMATÍS: — Trata-se de um médium cujo espírito e perispírito, tal como no caso do incorporativo, também se afastam do corpo carnal durante o sono hipnótico ou por qualquer acontecimento emocional incomum, ficando preso unicamente pelo cordão fluídico ou ectoplásmico da termi­nologia espírita, mais conhecido como o “cordão prateado” dos esoteristas, rosa-cruzes e yogas.

Embora sem as características do incorporativo, esse tipo de médium, enquanto dorme, pode ausentar-se facil­mente do seu organismo físico e até manifestar-se a longa distância, em cuja liberdade astral às vezes emerge a sua memória etérica do passado, e ele passa a descrever cenas e fatos de suas vidas precedentes, embora os confunda por vezes com acontecimentos próprios de sua atual existência. Atuado pela influência regressiva da memória sideral, o médium anímico-mediúnico pode reassumir nas sessões espíritas a sua própria personalidade vivida na existência anterior, crente de que é agora um espírito desencarnado em comunicação.

Em geral, é criatura facilmente hipnotizável; cede tam­bém às sugestões alheias e às vontades mais fortes, entrando rapidamente no transe sonambúlico natural. Durante o transe revela sonhos premonitórios, descreve paisagens dis­tantes e reflete com clareza os acontecimentos submersos ou estratificados na sua memória sideral-etérica. Quando hip­notizado, divulga os mínimos detalhes de suas existências passadas e impregna os seus relatos de fortes emoções que impressionam pelo aspecto comovente.

 

 

PERGUNTA: — Que quereis dizer, em essência, por médium “anímico-mediúnico”? Não entendemos ainda como pode ser o médium anímico e, ao mesmo tempo, mediúnico.

RAMATÍS: — Assim o denominamos porque não pre­tendemos situá-lo com exclusividade em qualquer extremo antagônico do mediunismo. Bem sabemos que o anímico puro é um pseudo médium, que não participa de fenômenos psíquicos, mas apenas os imagina, dominado pela auto-sugestão, histeria, automatismo psicológico ou fantasia da mente deseducada, isto é, ele mesmo é o autor exclusivo da comunicação que atribui a um espírito desencarnado. Então preferimos designar o nosso exemplo de anímico-mediúnico porque, embora o indivíduo seja anímico, pois vê e capta no astral os fatos e as idéias que depois reproduz e relata como sendo transmitidos por espíritos desencarnados, é também um tipo mediúnico, uma vez que ele “comunica” pelo seu próprio organismo em “transe”, tal como fazem os espíritos pela incorporação no médium sonambúlico.

Essa sensibilidade e, ao mesmo tempo, a destreza com que opera fora do seu corpo, faz do médium anímico-mediú­nico um bom “sujet” para a hipnose, porque os seus relatos são vivos, nítidos e impressionantes. Mas como não é sensi­tivo facilmente encontrável para servir de “sujet” nas expe­riências hipnóticas, também são raras as hipnoses que ofere­cem os excelentes aspectos e as comprovações indiscutíveis da regressão da memória perispiritual.

 

PERGUNTA: — Poderíamos denominá-lo de médium de transporte?

RAMATÍS: — Essa denominação não se ajusta ao caso, pois o médium de transporte, ou o médium motor e de translação, citado na terminologia de Allan Kardec, é mais um auxiliar dos espíritos desencarnados para o transporte de objetos, flores, jóias, moedas, tecidos etc. O médium de transporte aproxima-se melhor da categoria dos de fenôme­nos físicos, pois ele sempre fornece um tanto de ectoplasma para os espíritos operarem a desintegração dos objetos, que depois transportam apenas em seu molde etérico, devendo ser preenchidos novamente com a energia que depois se constitui na matéria. O médium anímico-mediúnico situa-se melhor na categoria dos médiuns de desdobramento ou de bi-locação, que podem exteriorizar o seu “duplo-etérico” a consideráveis distancias e que, em certos casos oportunos, chegam a ser vistos e ouvidos como se estivessem no seu próprio corpo físico.

 

PERGUNTA: Gostaríamos que nos apontásseis alguns exemplos de pessoas com esse tipo de mediunidade anímica­mediúnica. É possível?

RAMATÍS: — Antônio de Pádua, o estimado frade por­tuguês, é um exemplo típico dessa faculdade anímica­mediúnica pois, conforme vos conta a tradição religiosa, ao mesmo tempo em que ele fazia sua prédica na Itália, tam­bém fez o seu aparecimento no templo de Lisboa, compro­vando a sua faculdade de bi-locação e a capacidade de pro­jetar o seu duplo-etérico a tão longa distancia. Felipe, o apóstolo, conforme relata a Bíblia (1) transladou-se para Azot; Dom João Bosco sentia-se deslocado para regiões distantes, e depois relatava suas visões anímico-mediúnicas; Santo Afonso de Liguori mostrava-se simultaneamente em dois lugares diferentes.

1 — Nota do Médium: – Atos dos Apóstolos: 8: 39, 40.

 

PERGUNTA. — E no caso de o médium ser intuitivo, como se processa o fenômeno anímico?

RAMATÍS: — A mediunidade intuitiva, cuja manifesta­ção não é mensurável ou palpável à luz dos sentidos físicos, é mais espiritual e menos fisiológica, conforme já dissemos, pois permite ao homem abranger panoramicamente os fenô­menos de que o seu espírito participa em todos os sentidos de vida física, mental e espiritual. No entanto, quando nos referimos ao médium intuitivo, como geralmente é classifica­do pela generalidade dos espíritas, e não ao homem espiri­tual em essência e senhor absoluto da percepção angélica que o põe em contato constante com o mundo divino, aludi­mos ao médium que ouve, sente ou recebe o pensamento dos desencarnados, mas o faz de modo consciente.

O espírito desencarnado age diretamente no cérebro perispiritual do médium intuitivo que, depois, transmite as idéias do seu comunicante para o mundo material, servindo-se do seu próprio vocabulário familiar e vestindo-as com suas expressões peculiares. E assim o médium intuitivo tem pleno conhecimento do que diz ou escreve, sendo esse tipo de mediunidade o mais comum e generalizado entre os homens. Por isso exige a melhor interpretação possível do que é enviado do Além, e não se presta satisfatoriamente para determinação correta da identidade dos espíritos comunicantes, tão exigida pelos pesquisadores de provas, sempre tão desconfiados da realidade imortal. Ela não serve para oferecer os detalhes minuciosos que a família, em seu ceticismo comum, exige do parente desencarnado em comu­nicação pelo médium de boa-vontade.

Quando o médium intuitivo é ainda inseguro e deficien­te, então as comunicações dos desencarnados podem ser redu­zidas, deturpadas ou confusas, pois devem passar primeira­mente pelo cérebro físico dele, que assim as fiscaliza e as expõe conforme suas posses intelectuais e temperamento psi­cológico. Em conseqüência, se o médium intuitivo é excessiva­mente anímico, as idéias recebidas dos desencarnados fun­dem-se com as suas idéias próprias ou preconcebidas, influin­do também a bagagem do seu subconsciente, que pode ser tomada como sendo uma entidade desencarnada.

Assim, os pensamentos amplos, ou os conceitos filosófi­cos incondicionais, da vida espiritual, sofrem as restrições acanhadas do médium que os recepciona. Devido ao seu condicionamento particular, ele enquadra tudo o que os espíritos transmitem na moldura do seu intelecto, que é limitado pelas chapas ou lugares comuns da vida humana. Se se tratar de criatura avessa ao estudo e ainda ingenuamente convicta de que basta a “boa intenção” para garantir o êxito de sua tarefa ainda incipiente, não há dúvida de que muitas vezes ela comunicará coisas tolas e ridículas, à conta de mensagens de alto teor espiritual.

 

PERGUNTA: — Como poderíamos compreender mais claramente esse condicionamento mediúnico, capaz até de modificar o teor das mensagens dos espíritos comunicantes?

RAMATIS: — O médium, em verdade, também é uma personalidade destacada no tempo e no espaço, e não passa de criatura humana restrita ao campo de provas da Terra, que ainda é um planeta de ordem inferior. Desde a infância ele se condiciona ao ambiente em que vive e é educado; sofre então a influência dos seus parentes, amigos, professores, filó­sofos, cientistas e lideres religiosos, com os quais mantém contato no seu roteiro educativo e que por isso também nele influem psicologicamente. Durante a eclosão e o desenvolvi­mento da mediunidade, esse médium ainda fica circunscrito à influência dos seus confrades espíritas, que o assistem e o orientam na caminhada vacilante para o seu ajuste sensato aos postulados do Espiritismo.

No intercâmbio mediúnico, ele ainda se vê obrigado a cingir-se à psicologia dos desencarnados com os quais se relaciona mais freqüentemente e que, por isso, impõem-lhe um certo cunho pessoal. Conseqüentemente, o intelecto desenvolvido ou tardo do médium intuitivo e as suas con­cepções amplas ou as premeditações acanhadas, sobre a natureza da vida imortal, hão de influir fortemente nas comunicações dos desencarnados, quer restringindo-lhes, quer ampliando-lhes o curso das idéias projetadas do Além. Não resta dúvida de que o médium consciente sempre emol­dura com sua índole psicológica e sua bagagem intelectual o conteúdo do que lhe é comunicado do outro mundo.

 

PERGUNTA — Como poderíamos entender melhor essa questão de o médium intuitivo emoldurar o pensamento dos espíritos que se comunicam através dele?

RAMATÍS: — Ele estigmatiza os comunicados do Além, porque lhes inculca as suas peculiaridades e interpretações pessoais, tomando-os um prolongamento de sua própria per­sonalidade humana. Quando o médium é criatura sentencio­sa e sisuda, costuma restringir, nas suas comunicações com os desencarnados, os gracejos ou qualquer laivo de humorismo. Nesse caso, todos os espíritos que baixam por ele são graves, sisudos e conselheiros, malgrado depois de desincorporados sejam criaturas louçãs, espirituosas e alegres.

Na verdade, é o próprio médium que lhes impõe na filtra­gem mediúnica esse aspecto seu, todo pessoal, fazendo com que os espíritos comunicantes fiquem limitados a um cunho pesado, severo e tumular, embora sejam portadores doutro temperamento psicológico. Em sentido oposto, quando o médium consciente é criatura otimista e jovial, avessa aos dogmatismos filosóficos ou religiosos, é possível inverter-se o caso acima, pois os mesmos espíritos que, pelo medianeiro sisudo e pesado se mostram exageradamente circunspectos, tomam-se então de bom humor, sem formalismos ou precon­ceitos doutrinários do mundo material.

 

PERGUNTA: — Em face do nosso grande interesse na melhor compreensão da mediunidade intuitiva, ser-vos-ia possível apontar-nos alguns exemplos dessas peculiaridades pessoais que o médium intuitivo termina impondo nas suas comunicações com os espíritos desencarnados?

RAMATÍS: — Em face de o médium intuitivo, durante as comunicações dos espíritos desencarnados, ser completa­mente senhor do seu comando mental, acontece que as suas convicções intelectivas, premeditações psicológicas e o seu temperamento emotivo também estigmatizam o que lhe é transmitido do Além. Isso só não acontece quando se trata de elemento muitíssimo disciplinado no fenômeno mediúni­co da intuição e que então é capaz de não interferir mental­mente no pensamento dos seus comunicantes.

 

PERGUNTA: — Poderíeis nos apontar algum exemplo mais concreto, a esse respeito?

RAMATÍS: — Precisamos vos explicar que em muitos casos as convicções, os preconceitos e as restrições do médium passam a influir nos seus comunicantes. Supondo-se, por exemplo, que determinado médium intuitivo é sistematica­mente adverso ou contrário às comunicações de pretos-velhos, caboclos ou silvícolas, convicto absolutamente de que não merece confiança qualquer outra manifestação mediúni­ca além da dos cânones de sua crença ortodoxa, não resta dúvida de que os seus guias e demais espíritos que por ele se comunicam, embora intimamente pensem o contrário, terão que se ajustar ao paredão granítico de tal condicionamento pessoal. E, por isso, eles também se manifestarão radicalmen­te contrários às comunicações dessas entidades tão comuns nos terreiros de Umbanda, embora algumas delas sejam acei­tas junto à mesa espírita, quando guardam as diretrizes dos princípios codificados por Allan Kardec.

No entanto, se o médium é pessoa sem quaisquer precon­ceitos doutrinários ou religiosos, simpatizante para com todos os esforços espiritualistas que buscam a Verdade tanto quanto ele, não há dúvida de que as mensagens mediunicas que ele transmitir serão tecidas pelos desencarnados na mesma faixa de sua tolerância e compreensibilidade. Tais médiuns não se mostrarão antagônicos às pitorescas comuni­cações dos silvícolas, caboclos ou pretos-velhos, mas respeitá-las-ão em seu nível de entendimento e progresso espiritual.

Daí, também, as contradições que surgem flagrantes e comumente na personalidade de um mesmo espírito quando ele passa a se comunicar por intermédio de outros médiuns intuitivos de índole ou cultura diferentes das do seu media­neiro predileto, o que muito surpreende os seus simpatizan­tes pela multiplicidade de aspectos psicológicos novos que apresenta. Aqui, um espírito que é tolerante, inimigo figadal de quizilias ou questiúnculas religiosas, habituado a comu­nicar-se através de médium também tolerante, quando se serve de um sensitivo intransigente revela-se ferrenho defensor da ortodoxia espírita, e só lisonjeia os postulados que lhe são simpáticos; ali, o guia jovial, destro no jogo de palavras e sempre afeito ao humorismo sadio, quando se comunica por um outro médium tradicionalmente carrancudo e con­ceituoso, trai o seu costumeiro cunho pessoal de sã alegria, para se manifestar severo e rígido; acolá, o espírito reconhe­cidamente fraterno, cortês e serviçal, assim que expõe o seu pensamento por outro intérprete intuitivo e rude, manifesta-se arrogante e seco, censurando gravemente os pecadilhos humanos dos seus ouvintes.

Não é difícil verificar-se que, de conformidade com a estrutura psicológica de muitos médiuns intuitivos, assim também se apresentam habitualmente os espíritos comuni­cantes. E quando algum desses espíritos consegue comuni­car-se por algum médium incorporativo inconsciente ou por um intuitivo absolutamente neutro a qualquer interferência anímica, só então pode ser identificado fielmente na sua ver­dadeira individualidade, revelando-se, por vezes, de tempe­ramento emotivo e formação mental até oposta à habitual­mente revelada por outro médium.

 

PERGUNTA: — Desde que nas comunicações intuitivas sempre predomina a bagagem ou o condicionamento inte­lectual e psicológico dos médiuns, sobrepondo-se à própria individualidade do espírito manifestante, não seria bem melhor dispensarmos as sessões mediúnicas e tratarmos diretamente com o médium intuitivo em vigília? Assim poderíamos identificar suas convicções pessoais e capacida­de espiritual, para só depois aceitarmos suas orientações ou conclusões doutrinárias. Será mais sensato suportá-lo à mesa espírita, em travesti mediúnico, embora não possa transmitir integralmente o que lhe revela o seu comunican­te e só nos ofereça o que é exclusivo de sua lavra pessoal? Devemos acatá-lo só porque no término de sua preleção ele pronuncia o nome de um espírito desencarnado?

RAMATÍS: — Há no mundo um bom provérbio que assim reza: “Nem tanto à terra, nem tanto ao mar”. Aliás, é o que também vos recomendamos no caso das comunicações espirituais pelos médiuns intuitivos. Em nossas considera­ções mediúnicas endereçadas aos encarnados, adeptos ou médiuns do Espiritismo, temos sempre por principal objeti­vo aconselhar-lhes o estudo da doutrina espírita e o aprimo­ramento moral. Entretanto, acima de tudo o médium intui­tivo, sonâmbulo ou fenomênico deve desenvolver o seu sen­timento universalista, para extinguir todas as premeditações e restrições com que desfavorece o trabalho dos outros cre­dos e experimentações mediúnicas dos demais seres. Só então poderá lograr o mais sadio aproveitamento de sua faculdade, atraindo para junto de si as entidades completa­mente libertas de preconceitos ou premeditações tão ao gosto dos homens ortodoxos.

Se o médium consciente e excessivamente anímico no intercâmbio com o Além ainda for rígido em sua crença, indi­ferente ou avesso à cultura espiritualista e aos experimentos psíquicos superiores alheios, não há dúvida de que os espíri­tos comunicastes sentir-se-ão tolhidos em transmitir-lhe idéias mais amplas ou expor por ele qualquer assunto de importância. E, por isso, apenas poderão “lembrar” ao médium ou sugerir-lhe um tema que possa expor em público com os seus próprios recursos acanhados. Assim sendo, ele nada mais poderá oferecer ao público espírita do que uma peça de sua própria lavra, cujo conteúdo será tão valioso quanto sejam a sua capacidade intelectiva e conhecimentos espirituais. Nestes casos o guia mal consegue intuir o médium sobre o assunto que deve ser tratado na manifestação mediú­nica, e dificilmente consegue interferir para ajustar ou tirar conclusões lógicas do que ele diz. A imaginação exaltada, o animismo em demasia ou a bagagem psíquica medíocre, acu­mulada preguiçosamente no decurso da vida material, tor nam o médium um elemento quase nulo para elevar o quo­ciente mental e espiritual dos seus ouvintes.

Mas se o médium anímico amplia a sua bagagem intelec­tual e se dedica ao estudo incessante das obras mestras da espiritualidade, buscando o seu afinamento moral e espiritual em todos os ensejos educativos da vida e das relações huma­nas, ele não demora em se sobrepor ao seu automatismo psi­cológico e a governar os excessos de imaginação que pertur­bam a fidelidade das mensagens mediúnicas. E caso ele ainda seja de propensão amorosa e universalista, a sua mente, qual tela panorâmica, há de abranger paisagens mais amplas e libertar as comunicações dos desencarnados dos condiciona­mentos particulares.

Sabeis que os espíritos benfeitores não impõem a sua vontade nem violam o sagrado direito do comando mental dos encarnados, pois respeitam-lhes até a teimosia de resistir aos impulsos do Bem. Em conseqüência, eles também supor­tam os condicionamentos prejudiciais ou sectaristas dos seus médiuns, embora perseverem em dar-lhes conselhos inces­santes para que se aperfeiçoem e investiguem na intimidade da alma os preconceitos e as barreiras que impedem a fluên­cia exata das comunicações dos desencarnados.

 

 

PERGUNTA: — Considerando que as idéias dos desencar­nados tanto divergem na sua transmissão mediúnica para a matéria, como também variam de conformidade com o grau intelectual ou o temperamento psicológico do médium recep­tor, poderíeis nos apontar algum exemplo comparativo sobre esse assunto? Gostaríamos que nos exemplificásseis o caso de um só espírito expondo os mesmos pensamentos através de médiuns diversos, diferentes entre si pela cultura, tempera­mento, sentimentos, ou capacidade intelectual. Como seria transmitida a mesma idéia fundamental pelo mesmo espírito desencarnado, embora o fizesse através de vários médiuns com vocabulário, cultura e temperamento até opostos?

RAMATÍS: — Supondo-se que algum espírito venha comunicar o mesmo assunto ou a mesma idéia fundamental por intermédio de quatro médiuns intuitivos diferentes em temperamento, cultura, inteligência ou condicionamento psicológico, veremos que cada uma das comunicações mediúnicas também apresentará um cunho pessoal diferen­te entre si e próprio de cada médium que a transmitir, embora ainda continue prevalecendo o seu tema essencial.

Apresentando-vos um exemplo mais claro, considere­mos que certo espírito deseja transmitir por intermédio de quatro médiuns distintos entre si a seguinte idéia-mater: “uma casa branca situada à margem da estrada deserta e cercada por um jardim com muitas flores”. Suponhamos que, para transmitir essa idéia-base, o espírito comunicante disponha dos seguintes médiuns intuitivos, de cultura e con­dicionamento diversos em suas vidas, ou seja, um engenhei­ro, um poeta, um filósofo e, por último, um simples sertane­jo, incapaz de qualquer exposição científica ou literária nos seus comunicados mediúnicos.

Sem qualquer dúvida, o assunto a ser ventilado através desses quatro médiuns tão diversos entre si, tanto na cultura como em sua formação psicológica, também há de variar em sua exposição conforme sejam o intelecto e emotividade, o conhecimento e o temperamento particular de cada um dos médiuns convocados, não obstante permanecer na sua intimi­dade a idéia fundamental de uma “casa branca situada à mar­gem da estrada deserta e cercada por um jardim de flores”.

O médium engenheiro, disciplinado pela precisão matemá­tica das coisas do seu estudo, há de comunicar a mensagem mediúnica em linguagem mais técnica, parcimoniosa e acadê­mica. Provavelmente diria assim: “Uma edificação decorada em branco, localizada à margem direita da estrada e ladeada por um jardim”. Entretanto, o médium poeta, embora medianeiro do mesmo assunto, haveria de descrevê-la com o seu estro ins­pirado e na seguinte forma: “Era uma vivenda lirial, orlando faceiramente a estrada tranqüila sob a doce quietude da tarde serena, qual pomba gárrula pousada no seio de verdejante ninho atapetado de flores”.

 

O médium filósofo, por sua vez, sob a atuação da mesma idéia comunicada pelo espírito desencarnado, graças ao seu treino especulativo e à facilidade de elucubração mental, deveria se expressar assim: “Era uma residência pintada de branco, junto à estrada empoeirada, à semelhança de pensa­tiva e solitária criatura meditando sobre o destino das coisas e dos seres; em tomo, florido jardim, sob a orgia das cores, era dadivosa compensação àquele destino ignorado”. Finalmente, esse mesmo assunto, já ventilado pelos três médiuns intuitivos anteriores, cada um impregnando-o pes­soalmente com a sua cultura, temperamento e individuali­dade, ao ser transmitido pelo quarto médium, o modesto sertanejo, provavelmente seria expresso da seguinte forma: “Era uma casa caiada de branco, fincada na beira da estra­da e rodeada de um jardim plantado de flores”. A sua expo­sição, portanto, seria destituída da feição acadêmica da do engenheiro, sem a literatice do poeta e a conjectura do filó­sofo, em linguagem simples e até empobrecendo a idéia fun­damental do espírito desencarnado.

No exemplo que vos expusemos, cada médium transmite a mesma idéia-mater, vestindo-a conforme a sua capacidade intelectual, o seu gosto pessoal e talento, embora evidenciando sempre que o assunto básico é a descrição de uma”casa bran­ca junto à estrada e cercada por um jardim de flores”. Eis, por­que, então, variam as diversas manifestações da mediunidade intuitiva, cujo êxito depende muitíssimo do conhecimento, da fluência da linguagem, da pureza lexicológica e do talento lite­rário ou acadêmico que o médium já tiver consolidado.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico