Mediunidade natural e de prova

CAPÍTULO 7

Considerações sobre a mediunidade natural e de prova

 

PERGUNTA: — Gostaríamos que nos dissésseis algo sobre os médiuns que já gozam de sensibilidade psíquica avançada, cuja mediunidade, como nos tendes dito, é fruto exclusivo do seu aprimoramento espiritual.

RAMATIS: Os espíritos que já atingiram um alto nível moral e que, portanto, integraram-se à vida psíquica superior, quando encarnados são mais sensíveis aos fenômenos do mundo oculto, embora isto não aconteça de modo ostensivo, mas apenas através da intuição pura. A sua faculdade mediúnica, então, é o sagrado corolário do seu próprio aprimoramento espiritual, em vez de uma “concessão” extemporânea. Eles transformam-se em centros receptivos das manifestações incomuns que transcendem os sentidos físicos. Sua alta sensibilidade, fruto de avançado grau espiritual, afina-se incessantemente com os valores psíquicos do melhor quilate, facultando-lhes não só o conhecimento instantâneo dos acontecimentos presentes, como ainda as revelações mais importantes do futuro. O abençoado dom da Intuição Pura, e que em alto grau o possuíam Antúlio, Hermes, Rama, Crisna, Pitágoras, Buda, Ramacrisna e Jesus, além de outros seres que passaram anonimamente pelo mundo terreno, foi a faculdade iniciática que serviu para esses grandes espíritos liderarem as transformações admiráveis do espírito do homem. Eles tanto aferiram os fenômenos imediatos do mundo invisível, como ainda descortinavam amplamente a síntese dos acontecimentos futuros mais importantes, da Terra.

Há grande diferença entre o médium cuja faculdade é aquisição natural, decorrente de sua maturidade espiritual, e o médium de “prova”, que é agraciado imaturamente com a faculdade mediúnica destinada a proporcionar-lhe o resgate de suas próprias dívidas cármicas. Através de processos magnéticos, que ainda vos são desconhecidos, os técnicos do Astral hipersensibilizam o perispírito daqueles que precisam encarnar-se com a obrigação de trabalhar, pelo serviço da mediunidade, a favor do próximo, e também empreender a sua própria recuperação espiritual.

No Além existem departamentos técnicos especializados, que ajudam os espíritos a acelerar determinados centros energéticos e vitais do seu perispírito, despertando-lhes provisoriamente a sensibilidade psíquica para a maior receptividade dos fenômenos do mundo oculto, enquanto se encontram encarnados. Esse é o mandato mediúnico ou a transitória faculdade concedida a título de “empréstimo” pelo Banco Divino. Mas é também a arma de dois gumes, que exige severa postura moral no mundo, pois ela tanto situa o seu portador em contato com os espíritos benfeitores como também o coloca facilmente na faixa vibratória som- bria das entidades do astral inferior.

Embora a faculdade mediúnica pareça a alguns um privilégio extemporâneo, contrariando o conceito de Justiça e Sabedoria de Deus, essa “concessão” prematura ao espírito faltoso implica justamente em sua maior responsabilidade e trabalho laborioso espiritual. Não

é, pois, a graça “fora de tempo”, que exime a alma de preocupações e dos obstáculos futuros na sua evolução espiritual; é somente o “empréstimo” que lhe permite ressarcir-se de suas tolices e inânias cometidas no passado, compensando o tempo perdido com um serviço extraordinário. Os Mentores Siderais, apiedados dos espíritos demasiadamente onerados em seu fardo cármico para o futuro, lhes oferecem assim a oportunidade do reajuste mais breve para alcançarem a ventura mais cedo.

Então o médium é o espírito que renasce na matéria já comprometido com a obrigação de exercer um trabalho constante a favor da idéia da imortalidade da alma, inclusive o dever de melhorar a sua própria graduação espiritual. Embora seja agraciado prematuramente com um sentido psíquico mais avançado e ao qual ainda não fazia jus, o médium sinceramente devotado à sua definitiva recuperação espiritual no serviço sacrificial mediúnico poderá transformar em uma faculdade “natural” aquilo que lhe era somente uma faculdade de “prova”. Evidentemente, isso é difícil, mas não impossível, pois alguns raros médiuns lograram alcançar a graça da faculdade mediúnica natural, pela graça da faculdade de prova.

Malgrado a mediunidade fenomênica impressione profundamente os sentidos físicos dos encarnados, na profundidade da estrutura espiritual do médium de “prova” quase sempre ainda não se consolidam o caráter moral superior, a renúncia angélica, o desapego às ilusões da vida física ou a capacidade heróica para o cumprimento do mandato redentor. Ele é apenas o instrumento convocado para o serviço compulsório de favorecimento ao próximo ou o transmissor da realidade imortal; mas acima de tudo é o devedor interessado em reduzir o seu débito cármico para com o planeta que o serviu desinteressadamente.

No entanto, o médium espontâneo e natural, em conseqüência do grau moral e superior do seu espírito, dispensa qualquer treinamento ou intervenção técnica para relacio- nar-se com o mundo oculto, pois o consegue unicamente através de sua alta sensibilidade intuitiva. Embora a maior parte desses médiuns não guarde a consciência nítida e completa de grande parte dos acontecimentos sublimes de que são intermediários, eles se constituem nas antenas vivas avançadas, que sob a inspiração dos espíritos angélicos fluem para a superfície da matéria as mais confortadoras esperanças e as mais importantes revelações. Instrumentos exclusivos do Bem, eles distribuem orientações benfeitoras, advertências justas e incentivam todos os bons propósitos da vida. No âmago de suas almas a “Voz Silenciosa” do Senhor os anima, orienta e revela Sua Obra, tal como o faz a todos os seres. No entanto, só os puros intuitivos é que realmente o sentem em sua plenitude divina.

Embora esses seres não precisem participar obrigatoriamente e a horas certas dos serviços mediúnicos tradicionais e oficializados na matéria, pois a sua natureza elevada os dis- pensa do peculiar desenvolvimento torturado da maioria dos médiuns em prova e sob a atuação dos espíritos imperfeitos, eles são sempre os melhores intérpretes da verdadeira vida imortal. Todas as manifestações gloriosas e concernentes à Criação, eles as focalizam numa visão global e fecunda, que restitui à humanidade as parcelas de fé destruídas pelos maus escritores, filósofos ou líderes religiosos ignorantes.

 

PERGUNTA: — Mas o médium de ‘prova” não poderia alcançar o mesmo êxito do médium “natural”, se depois de desenvolvido viesse a enquadrar-se sob os princípios elevados do Evangelho do Cristo?

RAMATÍS: O que o médium natural alcança por via intuitiva, como decorrência espontânea de sua própria sutilidade psíquica e sem necessidade de quaisquer esforços ou adaptação fora do tempo, o médium em prova, e sem a linhagem superior para se situar espontaneamente nas faixas vibratórias das esferas crísticas, vê-se obrigado ao desenvolvimento espinhoso, graduando-se através de treino exaustivo com os desencarnados imperfeitos, enfrentando as mais desanimadoras decepções psíquicas.

O aguçamento imaturo muitas vezes leva o espírito em prova a desenganos, malogros e rebeldias, tal qual o jogador de xadrez que, após muitos lances frustrados, vacila em mover no tabuleiro a peça de menor importância.

Tratando-se de faculdade prematura e ainda provisória, que exige árduo e sacrificial exercício no seio das atividades terrenas, o médium sem a acuidade espiritual espontânea, que orienta facilmente o indivíduo entre os problemas confusos da vida, quase sempre só conclui o seu programa mediúnico depois de muitos tropeços verificados nos atalhos falsos, que são trilhados à guisa de caminho certo. Só a perseverança, o bom ânimo, a tenacidade, o estudo incessante, o combate impiedoso contra as paixões da animalidade inferior e a integração definitiva ao Evangelho do Cristo é que, realmen- te, podem assegurar o êxito mediúnico.

Servindo-nos de uma comparação, diríamos que o médium natural assemelha-se ao músico ou pintor já nascido com o “dom” espontâneo para exercer sua arte, à qual ele se entrega com facilidade e prazer. O médium de prova, no entanto, é o aluno que está sendo obrigado a estudar uma ciência ou arte para a qual ainda não apresenta qualidades espontâneas. Então precisa esforçar-se heroicamente para consegui-las sob um longo treino exercido entre vacilações, malogros e decepções.

Entretanto, não é impossível que o médium de prova, integrado absolutamente no serviço mediúnico sob a égide de Jesus, venha a depurar-se de tal modo que, ao desencarnar, já esteja gozando, em grande parte, da sublime mediunidade natural, que é na realidade a verdadeira mediunidade espiritual. No entanto, é necessário compreenderdes que não existe uma linha demarcativa específica entre a mediu- nidade de prova e a mediunidade natural pois, sendo o médium um espírito encarnado, há momentos em que, por força de-alguma virtude já bastante desenvolvida, ele também logra ser o instrumento excelso da revelação superior, do mesmo modo como alguns homens experimentam, parcialmente e de modo fugaz, o inefável estado de espírito que é o êxtase.

Quando distinguimos o médium natural do médium de prova, desejamos apenas destacar aquele que é um instrumento espontâneo e superior da realidade espiritual, daquele que renasce na Terra onerado por uma obrigação de ordem cármica.

 

PERGUNTA: — A nosso ver, ainda é grande a porcentagem dos médiuns que fracassam no exercício da mediunidade, após terem gozado o prestígio de faculdade mediúnica incomum. Que dizeis?

RAMATIS: — Quando Jesus enunciava que “muito se pedirá àquele a quem muito se houver dado e maiores contas serão tomadas àqueles a quem mais coisas se haja confiado”, (Lucas, 12: 47,48), provavelmente o seu augusto pensamento referia-se também ao exercício da mediunidade. Sem dúvida, o médium natural, o intuitivo puro, que já possui o tesouro espiritual da intuição angélica, é aquele que mais recebe por mérito de sua maturidade e a “quem muito se pedirá”. Mas ao médium de prova, embora seja pobre espiritualmente,”maiores contas lhe serão tomadas”, pois também “mais coisas lhe são conferidas” no serviço mediúnico, para ressarcir os seus pecados pregressos.

Mas não é propriamente a posse prematura da faculdade mediúnica o motivo responsável pelo fracasso muito comum de alguns médiuns em prova na matéria. Isso é mais conseqüente de sua imperfeição ou contradição espiritual, pois o médium, em geral, é espírito que decaiu das posições privilegiadas do passado, sendo ainda muito apegado à sua personalidade humana transitória. Deste modo, ele subestima a transcendência dos fenômenos que se processam por seu intermédio e os considera mais como produto exclusivo de sua vontade e capacidade mental.

Embora muitos médiuns sejam inteligentes e mentalmente desenvolvidos, o orgulho, a vaidade, a ambição, a prepotência, a cupidez ou a leviandade ainda os fazem tombar de seus pedestais frágeis, porque se crêem magos excepcionais ou indivíduos de poderes extraordinários para a produção de fenômenos extemporâneos ou revelações incomuns. A Terra ainda é pródiga de magos de feira, curandeiros mercenários ou iniciados sentenciosos que, através de rituais extravagantes, atraem e exploram as multidões ignorantes. São verdadeiros “camelôs” da espiritualidade que, beneficiados pela graça mediúnica concedida pelos espíritos benfeitores, exploram-na sob o disfarce da magia ou dos poderes esotéricos, mas sempre evitando a disciplina do Espiritismo que, sem dúvida, lhes exigiria conduta ilibada e o absoluto desinteresse no trato das coisas espirituais.

Entretanto, chega o momento em que eles são atingidos em cheio pela Lei Sideral, que lhes estanca a exploração do veio aurífero da mediunidade a serviço do comércio indigno e dos interesses pessoais. E assim terminam os seus dias sob terrível humilhação espiritual e sofrendo as agruras do mau emprego dos favores concedidos pelo Alto.

Aliás, muitas lendas terráqueas são verdadeiros simbolismos e alusões ao mau uso dos dons mediúnicos, quando certos médiuns traem a confiança dos seus mentores siderais. A tradição lendária narra o caso de criaturas que, depois de favorecidas com os poderes excepcionais concedidos por anjos, fadas ou gênios benfazejos, terminam perdendo-os lastimavelmente pela avareza, cupidez, vaidade, des- leixo ou interesse mercenário.

Diz a lenda que certo avarento foi transformado em abutre porque não distribuiu o dinheiro que lhe havia concedido a fada do bosque. Depois conta a história do homem ambicioso que, tendo recebido do gênio bom um poder excepcional, preferiu usá-lo para transformar em ouro tudo aquilo em que tocassem suas mãos, terminando por morrer de fome e sede, porque até a água e os alimentos se transformavam no dourado metal quando ele os tocava! Há, ainda, a conhecida lenda do homem que se prontificou a entregar sua alma a Lúficer, caso não gastasse diariamente todo o dinheiro que por ele lhe fosse fornecido. Infelizmente, perdeu a aposta, pois, tendo esgotado todos os recursos para malbaratar a imensa fortuna que o Diabo lhe carreava incessantemente, faliu antes do prazo, porque se esquecera de praticar a caridade! …

Sem dúvida, tais narrativas não passam de lendas e contos fantásticos mas, em sua profundidade, permanece o ensinamento espiritual do fracasso daqueles que fazem mau uso dos talentos proporcionados pelo Senhor da Vida. A mediunidade, realmente, é um desses talentos que os gênios do Bem concedem aos espíritos endividados e que necessitam urgente de sua própria reabilitação espiritual. No entanto, ela pode desaparecer a qualquer momento, desde que o seu portador a conspurque na Terra para satisfazer sua vaidade ou obter proventos ilícitos. A nenhum médium é facultado servir-se da mediunidade para o seu uso exclusivo ou aproveitamento egocêntrico, nem expô-la em público na feição de tabu de negócios. É também um dos talentos concedidos por Deus a seus filhos, tal como ensinou Jesus na sua parábola de admirável ensinamento espiritual (Mateus, 25: 14-30).

As forças psíquicas tanto se degradam na manifestação espetacular que só exalta a personalidade humana transitória, como se deturpam quando são transformadas em mercadoria destinada a criar todas as facilidades ou atender aos caprichos da vida física. Os valores legítimos da faculdade mediúnica, quando são desenvolvidos e praticados com o Cristo, não produzem as quedas e as humilhações que abalam a vida tumultuosa dos médiuns imprudentes.

O médium, como instrumento fiel da vontade do Senhor, revelada no mundo de formas, elabora um dos piores destinos para o futuro quando, pela sua negligência ou má-fé, subverte o programa espiritual que prometeu divulgar à superfície da Terra. Há sempre atenuante para aquele que peca por ignorância, mas é indigno da tolerância quem o faz deliberadamente, depois de haver-se comprometido para a efetivação de um serviço que diz respeito ao bem de muitas outras criaturas

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico