Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 14

 Mediunidade sonambúlica.

PERGUNTA: — Podemos considerar que a mediunida de sonambúlica é mais favorável do que a intuitiva?

RAMATÍS: — A faculdade mediúnica, embora sendo de “prova”, deve ser como a flor que se entreabre espontaneamen­te, sem o calor artificial da estufa. É tarefa ou responsabilida­de espiritual determinada para o espírito endividado ressarcir-se dos seus débitos cármicos, e eclode no momento certo e pre­visto pelos mentores siderais que beneficiaram o médium antes de ele renascer na Terra. No entanto, achamos que é de pouca importância saber-se qual a mediunidade mais favorável, e sim qual delas permite ao médium redimir-se mais cedo do seu pretérito delituoso. O médium sonâmbulo não é mais agracia­do espiritualmente do que o médium intuitivo, pois ambos enfrentam a responsabilidade mediúnica de conformidade com sua necessidade cármica e entendimento psíquico.

A administração sideral oferece-lhes o ensejo mediúnico de acordo com sua contextura espiritual e a possibilidade de melhor aproveitamento no serviço redentor. Aliás, o médium não deve preferir a condição passiva de simples “muleta” dos espíritos desencarnados, mas convém-lhe participar tanto quanto possível da comunicação mediúnica, a fim de incor­porar à sua mente a bagagem superior que os guias movi­mentarem através de sua faculdade mediúnica. Depois de certo tempo de contato superior, o cérebro perispiritual do médium habitua-se às advertências e aos ensinamentos ele­vados, que os espíritos benfeitores transmitem para os encar­nados, e assim fica mais treinado para orientar a sua própria existência física. Mesmo as comunicações tormentosas dos espíritos sofredores ou rebeldes, de quero médium participa por força do seu desenvolvimento mediúnico, servem de exemplos vivos para ajudá-lo a modificar a sua conduta moral e livrar-se de muitos padecimentos no Além-Túmulo.

Embora o desempenho da mediunidade semeie certas desilusões e dúvidas no médium ainda incipiente, pouco a pouco ela se transforma num dos melhores ensejos de refle­xões para o melhoramento espiritual do seu portador. De acordo com o conceito de que “a função faz o órgão”, à medida que o médium se renova em espírito e afeiçoa-se ao estudo superior, ele também se torna o medianeiro das enti­dades cada vez mais elevadas, de cujo intercâmbio lhe resul­ta desde a preferência pelos pensamentos construtivos e ati­tudes benfeitoras, até à modificação louvável de sua lingua­gem grosseira para um nível respeitoso e sadio.

O serviço mediúnico sob o comando superior converte o seu medianeiro no instrumento útil, dócil e valioso, que por lei de assimilação o torna o arauto das idéias sublimes. Enquanto o médium sonambúlico se entrega ao sono pesa­do, em que mergulha a consciência para ceder o corpo físi­co ao espírito comunicante, o intuitivo não só transmite conscientemente as mensagens que os desencarnados lhe comunicam pelo perispírito, como ainda imprime na própria mente a essência educativa daquilo de que é portador.

 

PERGUNTA: — Os médiuns intuitivos comumente alegam que prefeririam a mediunidade sonambúlica, porque assim eles se livrariam do animismo improdutivo, que os leva a cometer certas incongruências mediúnicas. Que dizeis?

RAMATÍS: — O sonâmbulo absoluto é raríssimo, embo­ra ocorra a inconsciência transitória no médium incorporativo, pois só os infelizes inquilinos dos asilos de psicopatas, destituídos completamente da razão, é que, realmente, podem apresentar-vos um padrão de sonambulismo indiscu­tível. Aliás, consideramos de pouca valia para o médium a faculdade que o torna semelhante ao carteiro terrestre, um simples entregador mecânico de recados do Além, enquanto nada usufrui vantajosamente de sua própria tarefa.

Os espíritos elevados não alimentam a preocupação exclusiva de só enviarem recados mediúnicos para a Terra pois, acima de tudo, eles também estão sumamente interessa­dos em melhorar as condições morais e intelectivas dos seus próprios médiuns. Buscam fazê-los participarem pessoal­mente das mensagens de que são portadores. Ainda quando o serviço mediúnico é exercido por médium sonâmbulo e de confiança, assim mesmo ele guarda na sua mente a lembran­ça parcial daquilo que os espíritos desencarnados transferem por seu intermédio para o mundo carnal.

 

PERGUNTA: — No entanto, alguns médiuns com os quais temos tido contato afirmam resolutamente que nada se recordam do conteúdo espiritual que recebem dos desen­carnados, deixando-nos convictos de que todos eles são absolutamente sonâmbulos.

RAMATIS: — Repetimos: o médium sonâmbulo que for incapaz de avaliar de imediato ou posteriormente ao menos um só pensamento dos comunicantes desencarnados, além de muito raro é um dos tipos mais apropriados para atender às pesquisas científicas e identificar os espíritos dos “falecidos”, cumprindo a finalidade de provar experimentalmente aos céti­cos a imortalidade da alma. No sonambulismo perfeito enqua­dra-se melhor o médium de fenômenos físicos, que, em geral, só depois do transe completo é que fornece o ectoplasma para a consecução de trabalhos mediúnicos desse gênero. Ele preci­sa submeter-se passivamente aos técnicos do Além, para lograr o melhor êxito possível na fenomenologia de materializações, voz direta, transportes ou levitações, que se produzem pela manipulação da força ectoplásmica que se exsuda pela contex­tura perispiritual e pelo sistema nervoso do médium.

Conforme já vo-lo dissemos, os desencarnados comuni­cam-se pelo cérebro perispiritual dos médiuns intuitivos. Nos sonâmbulos acionam-lhes diretamente o cérebro físico e no médium mecânico movimentam-lhe a mão na psicogra­fia inconsciente. Entretanto, sempre o médium terá um conhecimento parcial daquilo de que é intermediário, pois nos casos de obsessão completa, em que as entidades malévolas, depois de tenaz ação diabólica, conseguem asse­nhorear-se completamente do comando mental do obsidia­do, é que então se poderia aceitar o sonambulismo absoluto e sem qualquer lampejo de razão.

É certo que muitos médiuns, embora sejam sinceros e bem intencionados, alegam que são sonâmbulos e que de nada se recordam do transe mediúnico, temerosos de não inspirarem a devida confiança aos seus ouvintes. Nem sem­pre o fazem por vaidade ou má intenção, pois é evidente que o público fica mais convicto das comunicações do Além quando crê no completo alheamento do médium naquilo que transmite mediunicamente.

 

PERGUNTA: — É verídico que os médiuns intuitivos ou sonambúlicos sofrem bastante quando, após o transe mediúnico, retornam a si? Temos participado de trabalhos mediúnicos em que os médiuns demonstram grande aflição para retomar o corpo físico. Que dizeis?

RAMATÍS: — É óbvio que o medianeiro entre vós e nós, seja ele sonâmbulo ou intuitivo, há de sofrer no transe, de con­formidade com a natureza dos fluidos dos comunicantes que os atuarem. Não podemos porém endossar certas encenações por parte dos médiuns ignorantes do mecanismo da mediuni­dade, e que, ao se comunicarem espíritos elevados, demons­tram grandes sofrimentos e dispnéias impressionantes. É razoável a angústia e a desarmonia respiratória dos médiuns, ao se desligarem de espíritos sofredores ou agressivos. No entanto, guardamos nossas reservas quando eles repetem o mesmo fenômeno angustioso em intercâmbio com espíritos superiores, cujos fluidos são fundamentalmente sedativos.

PERGUNTA: — E que poderíamos deduzir, em tal caso?

RAMATÍS: — Evidentemente, isso é fruto da ignorância do médium, que ainda não conhece os preceitos diretivos e as instruções fundamentais do “Livro dos Médiuns”, ou que então deseja impressionar a assistência do centro espírita onde opera. É possível também que tais médiuns acreditem que as convulsões ou estertores, durante a retirada dos espí­ritos comunicantes, melhor convençam os presentes da rea­lidade da incorporação mediúnica. O médium esclarecido não executa movimentos estranhos nem produz esgares cir­censes quando retoma ao estado de vigília, pois compreen­de que as alterações orgânicas nada têm a ver com o ajuste de sua mente aos acontecimentos comuns da vida física.

O próprio espírito sofredor deixa o médium mais calmo quando se afasta dele, pois retira-se com seus fluidos coerci­vos. Isto posto, não podemos justificar os espasmos ou as convulsões demoradas de alguns médiuns que apresentam quadros de grande aflição, malgrado incorporarem os seus guias ou espíritos benfeitores.

 

PERGUNTA: — Insistimos em vos dizer que estamos fami­liarizados com alguns médiuns de boa envergadura mediú­nica, os quais, após a desincoiporação dos seus guias e espí­ritos de ordem superior, tombam sobre as mesas e retornam

vigília sob movimentos espasmódicos e arfantes. Isso não poderia provir de alguma particularidade orgânica, que real­mente lhes cause dificuldades no transe, independentemente de sua vontade?

RAMATÍS: — Repisamos que só o desconhecimento da realidade mediúnica é que provoca tais fatos incoerentes, pois é de lei sideral que, quanto mais elevado for o espírito comu­nicante, tanto mais a sua manifestação é imperceptível, devido aos seus fluidos sedativos e temos.

Quando os espíritos benfeitores se comunicam pelos médiuns sensatos e experimentados, eles se manifestam com tal naturalidade, que às vezes é dificílimo distingui-los da persona­lidade do próprio médium que os recebe serenamente.

Não opomos dúvida quanto à veracidade desse sofrimento e perturbação nos médiuns, quando realmente se trata de espí­ritos malfazejos ou zombeteiros, que se fazem passar por guias ou entidades superiores; mas na desincorporação eles afligem os bus medianeiros, traindo-se pelos seus fluidos contundentes e coercivos. Além de tudo isso, ainda é possível que, em certos Casos, se trate apenas de recursos pirotécnicos do médium que Ingenuamente deseja atrair a atenção do público. Alguns deles acreditam que a quantidade de espasmos na comunicação mediúnica também há de comprovar melhor o potencial de sua mediunidade, pois em sua ignorância espiritual ainda confun­dem a comunicação mediúnica com ginástica física.

 

PERGUNTA: — Em algumas manifestações mediúnicas, fel ouvimos a entidade comunicante, e de alta estirpe espi­ritual, solicitar preces aos assistentes para que o seu médium pudesse retornar do transe sem qualquer sofrimen­to. Algumas vezes decorreram longos minutos de expectati­va apreensiva, enquanto os circunstantes apelavam para o espírito do médium retornar ao seu corpo. Que dizeis disso?

RAMATÍS: — A contradição é flagrante, pois um espí­rito de natureza elevada não faria tal solicitação absurda, porque ele possui fluidos sedativos e prazenteiros, que só beneficiam os médiuns. Provavelmente, o próprio sensitivo consciente ou inconsciente dos seus automatismos psicológi­cos exagera na sua tarefa mediúnica. Em certos casos pode tratar-se de entidade mistificadora que, tentando disfarçar a sua natureza maquiavélica, desvia a atenção do público com o pedido de prece, enquanto se afasta de modo sorrateiro.

Na realidade, todos esses ridículos poderiam ser facil­mente eliminados com a simples leitura do “Livro dos Médiuns”, no qual Allan Kardec, depois de criterioso estu­do, anotou todas as incoerências e atitudes esdrúxulas no desempenho da mediunidade. Desde que certos adeptos espíritas endossam tais anomalias, é evidente que eles tam­bém necessitam consultar mais assiduamente as obras fun­damentais do codificador do Espiritismo.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico