Mediuns de terreiro

CAPÍTULO 6

O médium de “mesa” e o de “terreiro”

 

PERGUNTA: — Em face de vossas considerações no capítulo anterior, concluímos que o único desenvolvimento mediúnico sensato e aconselhado ainda é o que se processa no ambiente espírita da codificação de Allan Kardec; não é assim?

RAMATÍS: — Não vos apresseis em considerações extremistas, pois é bem fácil distinguir o médium de “mesa”, que se desenvolve sob a égide da doutrina espírita, e o médium de “terreiro”, que prefere o seu desenvolvimento pela técnica de Umbanda. No primeiro caso, trata-se de Espiritismo, e no segundo apenas de Mediunismo. Não nos cabe julgar esta ou aquela predileção mediúnica, nem temos o direito de carrear com exclusividade para a esfera espírita os acontecimentos e os fenômenos que ocorrem desde o início da humanidade, sob a égide da manifestação mediúnica. O que mais importa na efetivação do serviço mediúnico, seja na seara espírita ou no ambiente umbandista, é saber se ele se efetua pelo amor ao Cristo e inspirado pelo seu divino Evangelho. Sob qualquer hipótese, sempre apreciamos mais o médium de terreiro que se integra completamente num trabalho guiado pelos preceitos evangélicos, do que o médium de “mesa” que se torna mercenário e corrompido.

Em ambos os casos, a distinção que nos parece mais plausível ainda é quanto à natureza interpretativa na manifestação mediúnica, pois, enquanto o médium de mesa se preocupa mais propriamente com a espécie de idéias dos seus comunicantes, num intercâmbio acentuadamente de ordem mental, o médium de terreiro cuida principalmente de reconhecer a identidade do espírito que o incorpora. Na disciplina de Umbanda existem códigos, pontos cantados e riscados, cruzamentos de linhas e demanda de falanges que operam sob a base da magia prática, caracterizando cada grupo ou individualidade que dela participe. Assim, conforme sejam determinados pontos, sinais, toques ou códigos, o médium e os freqüentadores de Umbanda deduzem das intenções, da capacidade ou da natureza e especialidade de serviço que podem ser tratados com os comunicantes.

Junto à mesa espírita, em que ainda se nota um certo individualismo de trabalho nas relações com os encarnados, uma preleção de natureza elevada e de conteúdo sensato dispensa mesmo a assinatura ou a identidade do comunicante, que tanto pode ser um apóstolo, como um “joão-ninguém”. No entanto, a Umbanda, que ainda não cimentou sua unidade doutrinária definitiva nem firmou o seu sistema único de trabalho em todas as latitudes do orbe, através do seu sincretismo afro-católico transforma-se num trampolim favorável aos católicos, protestantes e outros religiosos dogmáticos para se familiarizarem com os ensinamentos da Reencarnação e a disciplina da Lei do Carma. As imagens, os cânticos, o incenso, as velas e as oferendas dos rituais de Umbanda, algo parecidos aos usos da Igreja Católica, atenuam o medo provinciano dos católicos pelas manifestações mediúnicas, e pouco a pouco incutem-lhes o gosto pelo conhecimento da imortalidade do espírito pregada por todas as filosofias reencarnacionistas.

Os chefes, as falanges e as linhas de Umbanda, com seus caboclos e pretos-velhos, apesar da multiplicidade de costumes, temperamentos e propósitos diferentes do serviço que executam junto à matéria, entrelaçam-se por severos compromissos, deveres hierárquicos e obrigações espirituais, que ainda não puderam ser compreendidos satisfatoriamente pelos seus próprios profitentes. No vasto panorama de relações entre o plano material e o mundo oculto, alicerçados pelo processo da magia, no âmbito de Umbanda, ainda repontam combinações confusas e tolices condenáveis, à conta de elevado cometimento espiritual. Ainda lutam os umbandistas para alcançar a sua constituição doutrinária e escoimarem-na das excrescências ridículas que deformam a sua base esotérica.

Nesse terreno foi mais feliz o Espiritismo, que partiu de uma unidade concreta e alicerçada em investigações incessantes, com “testes” mediúnicos que exauriram Kardec, mas o ajudaram a extirpar com êxito as contradições, os exotismos e as encenações ridículas da prática mediúnica desorientada. A Umbanda, portanto, ainda é o vasilhame fervente em que todos mexem, mas raros conhecem o seu verdadeiro tempero.

Servindo-nos de um exemplo corriqueiro, diríamos que a prática mediúnica do Espiritismo é semelhante a uma agência de informações civis, em que é bem mais importante o assunto do seu “fichário”, do que mesmo as pessoas que o informam. A Umbanda, no entanto, é como uma agência de informações sobre assuntos militares, onde antes de tudo convém conhecer a “graduação” do informante, pois, assim como acontece realmente no mundo físico, é muito grande a diferença e a responsabilidade entre aquilo que diz o cabo e o que informa o general…

O melhor processo para desenvolver o médium que prefere atuar sob o paraninfo da doutrina espírita ainda é aquele que Allan Kardec indicou no “Livro dos Médiuns”. No entanto, quem por simpatia, índole espiritual, temperamento psicológico ou serviço comprometido no Espaço escolhe o mediunismo de Umbanda, sem dúvida deverá seguir os métodos prescritos pelos”pais de cabeça”, submeter-se à técnica dos “caboclos desenvolvedores” e enquadrar-se sob os preceitos ritualisticos das linhas de Ogum, Xangô, Ori do Oriente, Oxóssi, Oxalá,Yemanjá ou Yori-Yori-ná.

 

PERGUNTA: — Quando em nossas indagações e pesquisas de ordem espiritualista temos solicitado a opinião de alguns próceres espíritas sobre Umbanda, notamos, de sua parte, duas atitudes únicas e às vezes até hostis. Enquanto uma parte condena “ex-abrupto” a Umbanda, a outra silencia e parece que teme enfrentar o problema ou opinar desfavoravelmente. Embora o pedido vos pareça extemporâneo, nesta obra, ser-vos-ia possível considerar algo e responder-nos em síntese: “Quais os melhores trabalhos mediúnicos: os de “mesa” ou os de “terreiro’?

RAMATIS: — Não encontramos razões para qualquer mistério ou”tabu”nesse assunto, pois, devidamente certos de que Deus é onipresente em toda sua obra, indiscutivelmente Ele tanto assiste os seus filhos no seio da Igreja Católica, no Templo Protestante ou na Sinagoga Judaica, assim como também os alenta na experimentação do Espiritismo, e igualmente assiste ao esforço ascensional daqueles que pre- ferem a seara de Umbanda.

Da mesma forma como são condenáveis as investidas agressivas do Clero contra a doutrina Espírita, também devem ser severamente censurados os espíritas que julgam maldosamente o trabalho dos umbandistas. Não aconselhamos a mistura de ambos, isto é, Espiritismo e Umbandismo, pois todo sincretismo religioso ou doutrinário sacrifica a qualidade iniciática de cada um em particular e então apre- senta inferior proveito. No entanto, o respeito espiritual de índole crística exige que tanto os espíritas louvem o esforço que a Umbanda exerce com a prática mediúnica em favor do Bem, como os umbandistas acatem o labor de “mesa” dos cardecistas.

Na Verdade, o denominador comum que aproxima ambas as doutrinas ainda é a busca da mesma Verdade, o serviço caritativo ao próximo e o movimento no sentido de o homem atual entender e assumir conscientemente a sua responsabilidade cármica gerada nas existências anteriores. Não endossamos o serviço mediúnico mercenário, nem a magia degradante, a superstição que algema o progresso mental, a prática primitiva que degrada o espírito ou a negociata censurável dos despachos de encruzilhadas, com que alguns astuciosos “cavalos” de Umbanda exploram os incautos e os ignorantes. Mas também não louvamos o médium espírita que comercia com os bens da espiritualidade ou então vive desmentindo, na vida profana, os mesmos preceitos morais que tenta impor aos freqüentadores do centro espírita.

É evidente que, devido ao grau espiritual ainda inferior, que é próprio dos habitantes da Terra, em todo local onde vive o homem ali também cresce a erva daninha e se podem deturpar as mais santificadas realizações do Alto! Mas, assim como afirmou elevada entidade espiritual por criterioso médium, que”os homens passam e as instituições ficam”‘, à medida que o material humano inferior é substituído por outro melhor, também os trabalhos mediúnicos higienizam-se e aumentam os proveitos espirituais.

No entanto, considerando a vossa pergunta pitoresca sobre se o trabalho mediúnico de “mesa” é superior ao trabalho mediúnico de “terreiro”, ou vice-versa, devemos dizer que o mais importante, em ambos os casos, ainda é a qualidade espiritual daqueles que operam neste ou naquele setor de intercâmbio com os desencarnados. Como singela comparação, suponde que certo homem tem o pé infeccionado por maligna ferida e que, por isso, atrai as moscas, que o atormentam incessantemente. No entanto, alguém aconselha-o a cobrir o pé com uma meia de algodão, pois assim evitará a afluência das moscas.

Infelizmente, o enfermo verifica que as moscas ainda continuam a pousar-lhe molestamente no pé ferido e contaminado, o que o leva então a aceitar outra sugestão amiga, para que use meias de seda. Essa providência, no entanto, também fracassa. Mas, por feliz acaso, ele consegue curar a ferida do pé com o uso de determinada erva medicinal, alegrando-se por ver que as moscas também sumiram, assim que se curou definitivamente. Na realidade, elas molestavam-no devido à ferida, pouco se importando com que ele usasse meias de algodão ou meias de seda.

Da mesma forma, cremos que o mais importante, para vós, não é provar se o trabalho mediúnico de mesa é superior ao de terreiro, pois, em ambos os casos, o primeiro significa a meia de seda e o segundo a meia de algodão. Desde que desapareçam de vossas almas as “feridas morais”, que atraem as moscas do astral inferior, sem dúvida podeis prescindir de ambos os trabalhos, porque então já estareis curados espiritualmente, tal como no exemplo citado, em que, depois de curada a ferida, o enfermo também dispensou a meia de seda ou de algodão!…

1 — N. do médium: Conceito de Emmanuel, por intermédio de Chico Xavier.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico