O espírita e o bom humor

CAPÍTULO 23

O espírita e o bom humor

 

PERGUNTA: — Que dizeis dessas comunicações sotur­nas, algo fúnebres, de espíritos guias ou benfeitores, que deixam o público espírita algo constrangido pelo aspecto lúgubre com que se manifestam? Dever-se-ia atribuir tal comportamento habitual aos próprios comunicantes que, depois de desencarnados, modificam completamente o seu temperamento psicológico devido à responsabilidade da vida espiritual? Alguns espíritos chegam a pronunciar suas palavras de modo quase espasmódico, entre frases que mais parecem soluços e gemidos.

RAMATíS: — Em geral, os médiuns novatos e ainda ignorantes da realidade da vida do espírito pressupõem que a morte é um ato de magia ou passe miraculoso, que modifi­ca instantaneamente o conteúdo psicológico e o estado moral dos desencarnados. Embora comprovem que por eles se comunicam almas felizes e libertas de preconceitos terrenos, ainda nos configuram de modo lúgubre, pois acima de tudo somos almas dos “mortos”! Em face da idéia fúnebre que ainda se tem na Terra, com relação à vida além da sepultura, os desencarnados são transformados em figuras empertiga­das e sentenciosas, que se movem num céu dominado por profundo silêncio sepulcral. Os “vivos” julgam-nos situados em dois extremos opostos; somos anjos estáticos em eterna contemplação da obra do Senhor, ou então fantasmas melodramáticos, gélidos e tétricos. Depois da morte do corpo físi­co, dizem eles, os espíritos devem ser sisudos, graves e com­pungidos, cujos lábios só se entreabrem para censurar as volubilidades e os pecados dos homens.

Dificilmente os encarnados podem imaginar que, além do túmulo e nas regiões felizes, ainda permanecem o riso farto, a jovialidade e a despreocupação das almas angélicas libertas dos complexos e recalques humanos, cujo sentimen­to puro e inocência de intenções justificam a divina máxima de Jesus, quando exclamava: “Vinde a mim as criancinhas, porque delas é o reino dos céus”.

Os pessimistas da moradia terrena não podem admitir que os “mortos” possam desempenhar atividades laboriosas e a tudo contagiar com sua alegria, seu trabalho e otimismo. Mas a verdade é que as colônias espirituais venturosas que circundam o orbe terráqueo, conforme já vos tem sido noti­ficado, são colméias de almas afeitas ao humorismo sadio, à graça e à jovialidade dos intercâmbios afetivos ligados ao bem e à utilidade espiritual. Se a morte não transforma as almas em arcanjos liriais purificados à última hora, ela tam­bém não extingue as preferências boas ou más’ que tenham sido esposadas na Terra.

É certo que nas camadas densas do astral inferior verifi­ca-se situação oposta. Ali, os calcetas das sombras transitam ululando seus remorsos ou enlouquecidos pelos sofrimentos atrozes, enquanto os mais revoltados ainda estrugem ameaças contra os seus comparsas do passado. O gemido lúgubre, a dor insana, a gargalhada sinistra e os brados de desespero e terror são a antítese da alegria e da ventura que domina as almas habitantes das esferas superiores. Mas essas almas infe­lizes, quando se comunicam com a Terra, nada podem fazer além dos apelos angustiosos ou das revoltas indomáveis, por­que assim elas são no submundo onde habitam.

Mas os guias que vos visitam das regiões de paz e de luz não devem ser levados à conta de fantasmas suspirosos ou almas carrancudas, tristes e severas, cuja presença nas ses­sões espíritas, em vez de desanuviar o ambiente, torna – o ainda mais tristonho e soturno.

 

PERGUNTA: — Mas já ouvimos críticas severas contra certos espíritos que, entre um ensinamento e outro, nas suas comunicações, interpunham um dito ou uma graça que des­pertava o humorismo e desafogava a tensão dos presentes. Disseram-nos alguns confrades que a sessão espírita não é palco de humorismo ou picadeiro de circo! Que dizeis?

RAMATÍS: — Todo extremismo é sempre passível de censura; e o será também na prática mediúnica ou na sessão espírita. Não louvamos a sessão mediúnica onde pontifique a trivialidade, o interesse mercenário, a galhofa, a ironia, a graça fescenina ou o linguajar sarcástico, a qual termina transformando-se em fonte de atração para os espíritos cap­ciosos, galhofeiros ou libertinos. Mas também não lisonjea­mos a reunião espírita à base de comunicações compungi­das, que lembram mais propriamente o velório de adoração fúnebre. Em geral, os amantes dessas sessões são criaturas recém-vindas das tertúlias alegres, participantes das pales­tras chistosas ou do anedotário hilariante de rua. No entan­to, acham que devem “fechar” com toda urgência a fisiono­mia e se pôr carrancudos, assim que se defrontam no inte­rior do centro espírita com o médium ou o doutrinador de olhar compungido. É de bom senso que pouco adianta ao homem modificar o seu aspecto fisionômico exterior, se den­tro de si ainda vibram as lembranças dos assuntos que o fizeram rir à vontade, ou se ele malbarata os demais dias da semana entre o riso descontrolado do anedotário malicioso, que fornecem o rádio, o cinema ou a revista humorística.

A verdade é que os espíritos felizes são alegres e absolu­tamente despreocupados das convenções e dos preconceitos humanos, e seu maior desejo é incentivar-vos o ânimo, deso­pilar-vos o fígado e preencher a vossa alma com o otimismo e a esperança num futuro feliz. E o Espiritismo, como dou­trina de socorro e esclarecimento para os “vivos”, também nutre o salutar objetivo de confortar e orientar o homem vítima de angustioso pessimismo que lhe marca a vida física, pois só lhe resta a graça de um céu melancólico, dificíli­mo de alcançar, ou então a eternidade do inferno, quase impossível de evitar.

Em conseqüência, como doutrina de otimismo e liberta­ção espiritual, o Espiritismo não pode paraninfar as sessões lúgubres e carrancudas, ou os velórios mediúnicos, em que os seus adeptos se submetem convencionalmente a uma falsa tensão de gravidade apostolar sob as vozes lacrimosas da lei­tura do Evangelho, para depois retornarem às suas atividades cotidianas novamente agitados pelas emoções descontroladas e perturbados pelos sentimentos mais contraditórios. Não admitimos a palhaçada ou a irreverência no ambiente espíri­ta, mas acreditamos que, ao codificar o Espiritismo, Allan Kardec objetivava mais uma transfusão de sangue novo na crença triste e nos sofrimentos dos homens, do que mesmo estabelecer um intercâmbio convencional, em que as almas felizes são apenas os “mortos” carrancudos e lastimosos!

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico