O problema da mistificação

CAPÍTULO 25

O problema da mistificação

 

PERGUNTA: — Todos os médiuns podem ser mistificados?

RAMATÍS: — A mistificação mediúnica ainda é proble­ma que requer minucioso estudo e análise isentos de qual­quer premeditação pessoal, porquanto nela intervém inúme­ros fatores desconhecidos aos próprios médiuns que são víti­mas desse fenômeno. A Terra ainda é um planeta em fase de ajuste geológico e de consolidação física; a sua instabilidade material é profundamente correlata à própria instabilidade espiritual de sua humanidade. Em conseqüência, ainda não podeis exigir o êxito absoluto no intercâmbio mediúnico entre os “vivos” e os “mortos”, pois que depende muitíssimo do melhor entendimento evangélico que se puder manter nessas relações espirituais. Só os médiuns absolutamente credenciados no serviço do Bem, e assim garantidos pela sua sintonia à faixa vibratória espiritual de Jesus, é que real­mente poderão superar qualquer tentativa de mistificação partida do Além-Túmulo. Na verdade, os agentes das som­bras não conseguem interferir entre aqueles que não se des­cuidam de sua conduta espiritual e se ligam às tarefas de socorro e libertação dos seus irmãos encarnados.

 

PERGUNTA: — A mistificação que pode dar-se com o médium significa porventura descuido ou indiferença dos seus guias espirituais?

RAMATÍS: — Ela é fruto de circunstâncias naturais cria­das pelo medianeiro, ou do descuido daqueles que ainda ima­ginam a sessão espírita como um espetáculo para impressionar o público. O Espírito mistificador sempre aproveita o estado de alma, a ingenuidade ou a vaidade do médium para então mis­tificar. No entanto, podemos vos assegurar que a mistificação não acontece à revelia dos mentores do médium, embora eles não possam ou não devam intervir, tudo fazendo para que os seus intérpretes redobrem a vigilância e acuidade psíquica, a fim de se fortalecerem para o futuro.

Na verdade, a maioria das mistificações deve-se mais ao amor próprio exagerado, à preguiça mental, e também ao excesso de confiança dos médiuns no intercâmbio tão com­plexo e manhoso com o plano invisível, em que se abando­nam displicentemente à prática de sua faculdade mediúnica.

 

PERGUNTA: — Baseando-nos em vossas palavras, pres­supomos que a maioria dos médiuns pode ser mistificada; não é assim? Alguns confrades espiritas explicam-nos que a mistificação, em certos casos, tem por objetivo principal extinguir a vaidade do próprio médium. Há fundamento em tal afirmação?

RAMATÍS: — Os mentores de alta estirpe espiritual nunca promovem qualquer acontecimento deliberado de mis­tificação mediúnica; e não o fariam mesmo que pudesse servir de advertência educativa para o médium vaidoso. O próprio médium é que oferece ensejo para a perturbação ou a presen­ça indesejável no seu trabalho. Algumas vezes a base da misti­ficação é cármica, e por isso o médium não consegue livrar-se dos adversários pregressos, que o importunam a todo momen­to, procurando mistificá-lo de qualquer modo e dificultar-lhe a recuperação espiritual na tarefa árdua da mediunidade.

Não cremos que a vaidade dos médiuns desapareça só porque sejam vítimas da mistificação conetiva. Em geral, quando eles comprovam que foram iludidos pelos desencarna­dos, sentem-se profundamente feridos no seu amor-próprio e então se revoltam contra a sua própria faculdade mediúnica. E assim, em muitos casos, o médium mistificado e revoltado pela decepção de ter sido humilhado na mistificação, mais rapida­mente desiste da tarefa mediúnica que o ajudava a amortizar a dívida cármica, terminando por corresponder exatamente aos propósitos maquiavélicos dos seus perseguidores do Além. Alguns médiuns já abandonaram a prática mediúnica, alegan­do que foram traídos na sua boa intenção e não receberam o devido adjutório do Alto, o que lhes seria justo esperar.

São raros os que admitem, sem quaisquer susceptibili­dades, que dia mais ou dia menos podem ser mistificados, não por culpa dos seus mentores, mas pela imprudência, pelo descaso, vaidade ou interesse utilitarista com que às vezes são dominados, oferecendo ensejos para a infiltração de espíritos levianos, irresponsáveis e malévolos no exercício de sua mediunidade. Os desocupados do Além-Túmulo espreitam astutamente qualquer brecha vulnerável que se faça no caráter do médium ou perturbação no seu trato com a família amiga ou ambiente de trabalho, para assim inter­ferirem durante a queda na freqüência vibratória espiritual e lograrem a mistificação que depois desanima, decepciona ou enfraquece a confiança. A mistificação ainda significa determinada cota de sacrifício na prática mediúnica, assim como acontece em certas profissões humanas, seja a enge­nharia, a advocacia ou a medicina, em que os seus profissio­nais, com o decorrer do tempo, vão eliminando gradativa-mente os equívocos dos primeiros dias, até se firmarem defi­nitivamente na sua tarefa profissional.

 

PERGUNTA: — Qual o meio mais eficiente para o médium livrar-se das mistificações dos desencarnados?

RAMATÍS: — Sem dúvida é a sua conduta moral e inte­gração incondicional aos preceitos sublimes da vida espiri­tual superior. Se o médium pautar todos os seus atos e subor­dinar seus pensamentos à diretriz doutrinária do Cristo-Jesus, ele há de se ligar definitivamente às entidades superio­res responsáveis pelo desenvolvimento da humanidade terre­na, que o imunizarão contra os espíritos maquiavélicos. A paciência, a bondade, o desinteresse, a renúncia, a humilda­de e o amor são as virtudes que atraem os espíritos bons e sinceros, absolutamente incapazes de agir de modo capcioso ou com intenções subversivas.

As intromissões de. espíritos indesejáveis no exercício mediúnico comprovam a distração do médium, que impru­dentemente abre sua residência psíco-física aos irresponsáveis do mundo invisível. A desculpa de certos médiuns de que, apesar de sua boa intenção no serviço mediúnico, foram mis­tificados, não é suficiente para os livrar dos espíritos maquia­vélicos, galhofeiros e inescrupulosos, que operam contra todas as criaturas interessadas na libertação do homem. Muitos médiuns, apesar de bem intencionados, são no entanto vaido­sos, ingênuos, ignorantes, fanáticos ou excessivamente perso­nalistas, oferecendo ensejo para os desencarnados perversos os perturbarem no intercâmbio mediúnico. Os espíritos saga­zes, maus e pervertidos pouco se importam com a boa inten­ção dos encarnados; interessa-lhes unicamente descobrir o defeito moral, a ingenuidade mental ou a confiança tola daqueles que se entregam ao serviço superior. Não é bastante ao médium visualizar um objetivo bom, para então livrar-se de qualquer mistificação do Além. É preciso que ele com­preenda que os espíritos astutos, capciosos e cruéis ainda gozam da regalia de ser invisíveis.

Aliás, Allan Kardec tratou cuidadosamente do assunto das mistificações no “Livro dos Médiuns” quando, após ter indagado aos espíritos sobre esse problema, recebeu a seguin­te resposta: “Parece-me que podeis achar resposta em tudo quanto vos tem sido ensinado. Certamente que há para isso um meio simples; o de não pedirdes ao Espiritismo senão o que ele vos possa dar. Seu fim é o melhoramento moral da humanidade; se vos não afastardes desse objetivo, jamais sereis enganados, porquanto não há duas maneiras de se com­preender a verdadeira moral, a que todo homem de bom senso pode admitir. Os espíritos vos vêm instruir e guiar no caminho do bem e não no das honras e das riquezas, nem vêm para atender às vossas paixões mesquinhas. Se nunca lhes pedissem nada de fútil, ou que esteja fora de suas atribuições, nenhum ascendente encontrariam jamais os enganadores; donde deveis concluir que aquele que é mistificado só o é por­que merece (Cap. XXVII, Tópico 303: “Das Mistificações”).

 

PERGUNTA: — Porventura o guia deixa de intervir a favor do seu médium, no caso da mistificação?

RAMATÍS: — O principal objetivo da pedagogia espiri­tual é conduzir o homem ao seu aperfeiçoamento angélico, pois em sua intimidade permanece indestrutível a centelha espiritual, que é emanação do próprio Criador. A função do mundo físico, astral e mental, é proporcionar às almas a oportunidade de se tomarem conscientes de si mesmas, pois, embora elas existam aparentemente separadas, todas são oriundas da mesma fonte criadora.

Os caprichos, as teimosias, a preguiça, a negligência e os descasos espirituais, que significam os pecados dos seres, Deus os tolera porque representam as fases do processo evo­lutivo, em, cuja luta heróica eles vão tomando conhecimento de si mesmos e desfazendo-se dos prejuízos e equívocos que retardam a ascese angélica. O homem deve decidir conscien­temente sobre aquilo que já o satura na vida transitória material, pois a sua libertação das ilusões da carne deve ser efetuada sem violências ou imposições draconianas, que somente o empurram para a frente, mas não o esclarecem.

Os pecados, que são combatidos e esconjurados por todos os instrutores religiosos, são apenas os equívocos da alma titubeando na sua marcha pelas estradas planetárias. Assim como o jovem estudante reconhece mais tarde e lamenta os erros cometidos nas provas do seu exame cole­gial, apontados pelo professor, o espírito do homem lastima depois o tempo perdido nos seus equívocos espirituais, tudo fazendo para recuperar-se dos deslizes condenáveis.

Assim como não vos é possível cultivar flores formosas sem que primeiramente sepulteis suas raízes no solo adubado com detritos repugnantes, o espírito do homem também só desenvolve os seus poderes e alcança sua glória angélica depois de fixar-se no seio da matéria inferior dos mundos planetários. Os equívocos, as mistificações e as contradições espirituais de muitos médiuns ainda são frutos dos seus deslizes e imprudên­cias cometidas no passado, quando feriram as mesmas almas que hoje os mistificam e se desforram do Além-Túmulo. A mis­tificação, nesse caso, é apenas o efeito da Lei do Carma, em que, embora a “semeadura seja livre, a colheita é obrigatória”.

 

PERGUNTA: — O médium poderia livrar-se da mistifi­cação com o afastamento dos espíritos mistificadores?

RAMATÍS: — Trata-se de um problema que não será solucionado com o simples afastamento dos espíritos mistifi­cadores de junto dos médiuns, de vez que esse afastamento depende da renovação moral dos médiuns e do seu sincero perdão àqueles que lhes atuam prejudicialmente. Conforme já vos temos lembrado, as moscas se afastam devido à cura das feridas e não pelo seu incessante enxotamento. Geralmente o médium é mistificado pelos seus velhos comparsas, vítimas ou algozes do passado. Por isso, deve demonstrar a sua sincera humildade e o seu amor àqueles que o ferem, tanto quanto ele os feriu outrora.

Os espíritos adversos, do passado, obtêm maior êxito na sua empreitada malfeitora quando suas vítimas estão onera­das pela mediunidade de “prova”, o que lhes toma o perispí­rito mais devassado para o “lado de cá” e facilita a infiltração obsessiva. Eles procuram incentivar a vaidade, o amor pró­prio, o capricho, o orgulho, a falsa modéstia e demais defeitos que possam exaltar a personalidade do médium, o qual, mui­tas vezes, valoriza demais a sua faculdade, deixando-se vencer pelo delírio da auto-suficiência e impermeabilizando-se às intuições benfeitoras do seu guia. Alguns médiuns impruden­tes e vaidosos rejeitam quaisquer advertências alheias, assim como confundem a humildade com a sua própria ignorância. Assim tomam-se petulantes e se deixam dominar pelo “puro animismo”, pela auto exaltação e não escondem o despeito contra aqueles que ousam duvidar de sua mediunidade.

Não tardam em perturbar a harmonia do ambiente que freqüentam e o tomam um clima de constrangimento e ansiedade, facilitando a divisão entre os menos conhecedo­res da doutrina espírita. Quando não recebem a lisonja de que se julgam merecedores, ou os demais companheiros subestimam-lhes o prestígio e o teor das mensagens do Além-Túmulo, eles então se mudam com armas e bagagens para outro ambiente espiritista, a fim de encontrar a com­pensação desejada.

Com essa mudança insatisfeita, que é fruto da inconfor­mação e do anonimato, a faculdade mediúnica perde então a sua fluência natural e domina o animismo incontrolável ou a fascinação sorrateira das sombras. A impaciência, a indis­ciplina e a desforra terminam por desencorajar os próprios guias do médium, que não podem consumir o seu precioso tempo junto de quem só se preocupa com o seu prestígio pessoal em detrimento do serviço benfeitor ao próximo.

 

PERGUNTA: — O médium que neste momento recebe o vosso pensamento também poderia ser mistificado?

RAMATíS: — E por que não? Não o consideramos mais privilegiado do que os outros médiuns, pois também não passa de um espírito onerado com a mediunidade de “prova”, para ressarcir suas dívidas cármicas do passado. Desde que ele negligencie em sua conduta moral e falseie as suas inten­ções espirituais, é certo que também será alvo dos espíritos maquiavélicos e mistificadores, que tudo fazem no Além para neutralizar o serviço mediunico benfeitor na Terra. O inter­câmbio que o sensitivo efetua conosco é apenas o “acréscimo” que o Alto lhe concedeu para a sua própria recuperação espi­ritual. Mas nem por isso ele está isento dos experimentos e das retificações cármicas junto de sua família, dos seus amigos, de sua raça e na sociedade de que participa.

Evidentemente, a sua primeira obrigação é sustentar o conjunto doméstico e cumprir os seus deveres sociais. Em seguida, atender aos deveres da mediunidade junto ao pró­ximo. No entanto, semelhantemente a qualquer outro médium, cumpre-lhe exercer contínua vigilância sobre os seus próprios pensamentos e exercitar as virtudes superiores no seu coração. Há de viver corretamente e acima de quais­quer pruridos da vaidade personalística, caso deseje garan­tir os princípios espirituais das mensagens que lhe enviamos daqui e impedir que as entidades subversivas deformem os nossos pensamentos.

A faculdade mediúnica é o meio que faculta aos desen­carnados a realização do serviço útil ao próximo. Mas para isso o médium que intercambia os princípios elevados do Alto precisa viver em absoluta harmonia com aquilo que flui para os encarnados, se não quiser tornar-se o repasso dos espíritos levianos, irresponsáveis e mal intencionados. Qual­quer médium distraído de suas obrigações comuns e ligado às aventuras menos dignas não passa de candidato eletivo à mistificação do Invisível.

 

PERGUNTA: — Não seria possível que o vosso médium, apesar de sua boa vontade, da conduta regular e do esfor­ço sincero que dispende para a filtragem dos vossos pensa­mentos, também pudesse ser iludido por alguma entidade experimentada no campo científico, filosófico e de intelecto avançado, que viesse a mistificar pela interposição de idéias corruptoras ou capciosas em vossas mensagens?

RAMATIS: — Esse é um dos motivos principais por que preferimos fluir os nossos pensamentos por um médium intui­tivo que seja estudioso, arguto, bem intencionado e operoso, em vez de o fazer por um médium sonambúlico que não seja mais do que simples máquina sem vontade própria no inter­câmbio mediúnico. As nossas mensagens só foram ditadas através deste sensitivo depois que pudemos comprovar a sua capacidade para recebê-las. Sempre procuramos guiá-lo no desempenho de sua missão. No entanto, apesar de toda nossa vigilância, carinho e assistência, ele não se livrará da mistifi­cação, caso deixe tudo a nosso cargo e se desvie da rota pro­gramada no Espaço antes de sua atual encarnação.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico