A prova da obsessão espiritual

CAPÍTULO 4

A “prova” da obsessão

 

PERGUNTA: — Podeis nos explicar melhor o caso de espíritos que devem reencarnar com o destino fatalista de ser obsidiados, a fim de despertarem os membros de sua família para os postulados da vida e que depois são curados pelo Espiritismo? Estranhamos essa condição de a criatura ser fatalmente vítima da obsessão, quando temos aprendido que ninguém renasce na Terra com a determinação de sofrer qualquer castigo ou penalidade propositadamente, sob a imposição dos espíritos superiores.

RAMATÍS: — Os Mentores Espirituais nunca determinam que certos espíritos devam reencarnar-se sob o estigma implacável de serem obsidiados, vítimas de homicídios ou de acidentes fatais, o que seria uma punição deliberada e incompatível com a Bondade do Criador. Os espíritos faltosos são encaminhados para a vida física sob o comando de suas próprias faltas e dos efeitos do desregramento cometido nas existências passadas; eles são situados carmicamente no seio das influências mórbidas ou maléficas semelhantes às que também alimentaram ou produziram no pretérito.

A nova existência física transforma-se-lhes numa “probabilidade” favorável ou desfavorável, dependendo fundamentalmente do modo como eles passam a agir na matéria entre os seus velhos comparsas, vítimas ou algozes pregressos, pois ficam na dependência de suas próprias paixões vícios ou virtudes. Desde que se mantenham de modo digno, vivendo amorosamente em favor do próximo, também poderão sobreviver sem conflitos ou tragédias, fazendo jus ao socorro espiritual dos seus mentores, que de modo algum desejam castigá-los, mas apenas recuperá-los espiritualmente. Sem dúvida, o espírito que, embora renascendo no meio de malfeitores, ou mesmo sendo alvo de qualquer obsessor cruel, se devote heroicamente ao bem alheio, exercite a sua ternura, o seu amor e magnanimidade para com todas as criaturas, sem distinção de crença, raça ou casta, também logra maiores probabilidades de sobreviver na matéria à distância de qualquer violência ou fim trágico.

 

PERGUNTA: — Como poderíamos avaliar a natureza dos delitos desses espíritos que renascem na Terra com essa `probabilidade” de sofrer a prova da obsessão, porque no passado semearam a perturbação mental, praticaram o suicídio ou se entregaram à prática do mal?

RAMATÍS: — É evidente que a revolta, o ateísmo, a sensualidade ou o pessimismo são bastante estimulados nas criaturas pelos maus escritores, oradores subversivos e líderes intelectuais maquiavélicos que, influenciados pelo existencialismo apocalíptico da época, usam de sua inteligência e agudeza mental para cavar fundo na alma dos seus leitores e admiradores invigilantes. Certas filosofias crônicas e doutrinações modernas induzem o homem a confundir e tomar os raciocínios e os malabarismos brilhantes da mente terrena como se fossem bens supremos do espírito imortal.

Elas aconselham aos seus discípulos o epicurismo da “fuga interior”, liberando-os de quaisquer obrigações para com alguma autoridade espiritual ou ente supremo, e tentam convencê-los de que serão humilhados pelo fato de concordarem ou se curvarem à idéia de um Deus, que reina acima dos valores do intelecto humano. Esses espíritos demasiadamente intelectivos, que empregam o seu talento para semear a descrença, a inconformação, a rebeldia e a ociosidade espiritual, que vivem preocupados excessivamente em fundar escolas filosóficas exóticas, que isentam o homem de sua responsabilidade espiritual e o incentivam a uma existência puramente sensual, dificultam a perfeita aplicação da Lei de Evolução na marcha progressiva das criaturas de menor acuidade mental.

E de conformidade com essa mesma lei sideral, de que a “colheita é sempre de acordo com a sementeira”, tais filósofos aniquilantes terão de corrigir em vidas futuras os desvios que provocaram nos seus tolos discípulos, saneando-lhes os raciocínios insensatos e fazendo-os reconquistar o respeito perdido. Desde que semearam confusões mentais e psíquicas em outros cérebros invigilantes, eles devem encarnar no seio de famílias cuja crença obsoleta ou infantil também os retarde na senda do progresso espiritual. Então cumpre- lhes ajudá-las a se libertar do negativismo secular ou do dogmatismo asfixiante, a fim de compensarem os prejuízos causados pelos postulados contraditórios que pregaram no passado.

Nascem, pois, no futuro, com esse implacável dever de despertar seus velhos familiares ou comparsas, ainda atrofiados pelo culto aos dogmas aguilhoantes ou completamente apáticos à vida imortal. Graças ao seu sacrifício e à conseqüente cura pela doutrina espírita, esses espíritos perturbadores pregressos terminam reajustando-se numa posição heróica, junto daqueles de cuja confiança, candidez ou vul- nerabilidade mental abusar

 

PERGUNTA: — Então poderíamos supor que, muitas vezes, são os próprios mestres e líderes de filosofias ou doutrinas perturbadoras que depois devem imolar-se em futuras existências físicas, para despertar os seus próprios discípulos ou seguidores iludidos no passado?

RAMATÍS: — Sem dúvida; aqueles que hipnotizaram algumas almas para o culto de suas doutrinas subversivas, aniquilantes, negativistas ou fesceninas renascem posteriormente com a obrigação de se tomarem os”alvos”principais e responsáveis pela reforma e recuperação espiritual dos seus antigos seguidores, ainda confusos na senda da espiritualidade.

Sob a disciplina férrea, mas justa, da Lei Sideral, que retifica mas não castiga, eles retomam ao cenário do mundo físico e se situam no seio das familias terrenas, comprometidos em despertar da ilusão intelectiva, da hipnose dos sentidos passionais ou da escravidão do ateísmo infeliz aqueles mesmos que os seguiram tolamente no passado. Mas nessa tarefa sacrificial nada lhes é imposto arbitrariamente; é a sua razão esclarecida e a certeza de reduzir o seu débito cármico o que os faz aceitar conscientemente o serviço doloroso a favor do próximo, e também em seu próprio benefício.

É certo que a família ignora a razão dos acontecimentos dolorosos que eclodem, constituindo as desventuras no roteiro evolutivo em comum. E assim se formam os quadros de sofrimento redentor; aqui, é o filho que nasce com a enfermidade congênita e arrasta-se torturadamente, provocando angústias nos seus consangüíneos; ali, é o chefe da família que, arrasado por cruel enfermidade e resistente a todos os esforços da Medicina oficial, marcha tristemente para a cova terrena, lacerando os corações familiares; acolá, estranha enfermidade agride a filha querida, fazendo-a palmilhar a “via-crucis” de todos os consultórios e instituições psicopáticas, enquanto faz estrugirem gritos estranhos e mágoa a todos com palavras de baixo calão.

Mas a Lei está vigilante, e quando o desespero já se instalou no seio da família acabrunhada, eis que se opera então o milagre: sob fortuita coincidência, surge o médium curador, que faculta ao filho recuperar os movimentos físicos atrofiados desde o berço, ou restitui a saúde ao chefe da casa já desenganado pela Medicina, ou ainda, graças à dedicação de alguns adeptos da doutrina espírita, esclarece-se o espírito obsessor que torturava a filha querida. Deste modo, o Espiritismo é aceito no lar, que se faz venturoso, e os postulados da imortalidade do espírito penetram na alma daqueles que viviam escravizados cegamente aos dogmas infantis ou à absoluta descrença.

Abalam-se as velhas convicções ateístas e os sectarismos condenáveis esposados no seio da parentela, graças à cura milagrosa de alguns dos seus familiares através da singeleza da água fluida, do receituário mediúnico ou do passe espírita. E o Alto, através daqueles mesmos que, muitas vezes, no passado, abusaram do mando e do intelecto em desfavor do próximo, ministra-lhes novos conceitos de vida superior, servindo-se de suas carnes maceradas ou dos seus nervos atrofiados. Os conceitos errôneos ou negativos de ontem são compensados pelo sacrifício da dor física ou psíquica do presente.

PERGUNTA: — No caso do filho doente ou da filha obsidiada que, depois de curados miraculosamente pelo Espiritismo, convertem a família descrente, não poderá tratar-se de espíritos bons, que aceitam o sofrimento sacrificial com o intuito magnânimo de ajudar os seus afetos encarnados para mais breve ascensão espiritual?

RAMATÍS: — Já vos dissemos que, mesmo no Espaço, não há regra sem exceção, pois Jesus, espírito excelso e justo, não hesitou em mergulhar nas sombras do vosso mundo, para salvar os homens ignorantes de sua realidade espiritual. Sem dúvida, espíritos boníssimos também descem à carne e se ajustam à família consangüínea terrena, com o fito único de despertar espiritualmente os seus velhos afetos milenários. Em alguns casos, eles se sacrificam heroicamente a fim de socorrer, os próprios adversários pregressos e que ainda se demoram hipnotizados pelas filosofias destrutivas ou doutrinas enfermiças do mundo material.

Muitas vezes, quando essas almas sublimes comprovam a inutilidade dos seus esforços para inspirarem do Além os seus pupilos negligentes e conduzi-los ao Bem e à Sabedoria Espiritual, decidem-se a habitar o mundo físico por amor a eles. Assim como foi o excessivo amor de Jesus que, apiedado do sofrimento humano, o conduziu para a Terra, e não alguma culpa cármica de crucificação, muitas almas angélicas também abandonam o plano paradisíaco sob o penoso -sacrifício de se encarnarem no seio da família terrestre para despertar-lhe os sentimentos crísticos.

Muitas delas, quando renascem junto de adversários empedernidos, enfrentam as situações mais cruciantes para- atenuar a fereza, o ódio e a violência que ainda vicejam entre eles. Movidas pela compáixão do anjo, envidam todos os esforços para subtraí-los às tragédias odiosas, que no futuro engrenaram os carmas torturados. Algumas vezes, são sacrificadas pelas próprias almas delinqüentes, às quais tentam salvar dos padecimentos inenarráveis que as esperam nos charcos do astral inferior. Mas ainda sentem-se felizes quando conseguem atear-lhes o fogo do remorso ou do arrependimento, provocando-lhes os primeiros impulsos de redenção espiritual.

Repetimo-vos, no entanto, que Deus não é vingativo, nem sádico, e assim não cria a obsessão incurável, a doença fatal, o aleijamento deformante ou qualquer outra desventura destinada ao ser humano. Ele só objetiva a recuperação venturosa de todos os seus filhos eternos. Tais acontecimentos trágicos ou mórbidos são apenas frutos exclusivos da debilidade moral e da ignorância do homem que mal balbucia as primeiras letras do alfabeto da vida imortal.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico