A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPÍTULO 22

A sugestão e a imaginação nas
comunicações mediúnicas.

 

PERGUNTA: — Gostaríamos que nos explicásseis o caso de certas comunicações transmitidas até por médiuns bem desembaraçados, de espíritos desencarnados em homicí­dios, acidentes trágicos ou suicídios, cujas mortes mais tarde são desmentidas. Certo amigo nosso foi dado por morto em acidente rodoviário ocorrido num Estado vizinho e, na mesma noite, no centro espírita de nossa freqüência, ele comunicou-se aflito e perturbado, queixando-se de mui­tas dores. Entretanto, para decepção e espanto geral, dias depois ele retornou ao lar, pois a vítima do acidente fora um seu homônimo. Que dizeis sobre isso?

RAMATÍS: — O animismo explica-vos muito bem esses casos contraditórios e decepcionantes, principalmente se o médium é muito sugestionável em sua vida profana, a ponto de estigmatizar com facilidade, na sua mente indisciplinada, a notícia trágica do jornal do dia sem cogitar se ela pode ser verídica ou duvidosa. Quando não se trata de algum diverti­mento de espíritos levianos ou maquiavélicos, que tudo fazem para ridicularizar o trabalho mediúnico, é a imaginação exal­tada do médium, que trabalha completamente desgovernado e tece os quadros dramáticos do que ele supõe tenha ocorrido à vítima. Então, à noite, na sessão mediúnica, as imagens nutridas pela sugestão dominam a mente do médium, fazen­do-o descrevê-las à guisa de acontecimentos verídicos.

 

PERGUNTA: — Deveríamos censurar ou afastar o médium que se deixa sugestionar tão facilmente, de modo a causar prejuízos à contextura doutrinária do Espiritismo?

RAMATÍS: — Em qualquer situação da vida, ainda é a recomendação de Jesus, “Não julgueis para não serdes julga­dos”, que deve orientar nossas apreciações sobre os atos do próximo. É evidente que, se o médium demasiadamente sugestionável tivesse certeza do fato desastroso que ocorre consigo, não o contaria, semeando o seu próprio ridículo. Não existindo dolo, por não haver propósitos censuráveis, o dever dos espíritas esclarecidos é nortear o médium desgovernado para exercer o serviço mediúnico com o máximo de critério, evitando causar o desânimo e a decepção aos que o ouvem.

O êxito das comunicações intuitivas mediúnicas depen­de principalmente da maior passividade do médium intuiti­vo. No entanto, nesse estado neutro o seu psiquismo tende muitíssimo ao estado de auto-hipnose, em cuja fase é bem fácil a sugestão e o domínio das idéias que foram alimenta das durante o dia. Há casos em que sensitivos de pouco con­trole mental chegam a transmitir, à conta de mensagens de espíritos desencarnados, as idéias e os pensamentos de algum freqüentador do trabalho mentalmente desenvolvido. Outros são facilmente dominados pela “empatia”, ou seja a capaci­dade da criatura em colocar-se no lugar de outrem e viver-lhe as dores ou vicissitudes. E os mais sugestionáveis passam então a materializar, à noite, no centro espírita, aquilo que durante o dia mais os impressionou.

Raros médiuns sabem controlar os avançados recursos de sua imaginação, de modo a aproveitá-los para dinamizar as idéias que os espíritos lhes transmitem, pois, em geral, confun­dem as imagens virtuais do seu pensamento, supondo-as como de entidades concretas e fora do corpo físico. A ausên­cia de estudo e a falta de autocrítica leva grande número de medianeiros a confundir a realidade com a fantasia.

 

PERGUNTA: — Quais são os recursos ou as providên­cias mais aconselháveis para ajudar esses tipos de médiuns tão imaginativos a se tornarem eficientes e menos aními­cos, mais reais e menos fantasiosos, evitando-se os casos de falsas comunicações mediúnicas inspiradas pelas notícias trágicas dos jornais? Embora não pretendamos julgar os médiuns vítimas dessas incongruências, cremos que tais acontecimentos sempre abalam a crença espírita dos neófi­tos e dão azo a muita crítica mordaz; não é assim?

RAMATÍS: — Ante a vossa indagação, só podemos insistir fastidiosamente na tecla batidíssima de que só há um caminho para qualquer médium lograr o melhor êxito no seu trabalho mediúnico é o estudo incessante aliado à disci­plina moral superior. O Espiritismo explica que não existem privilégios por parte de Deus para qualquer de seus filhos; em seu seio é inaceitável o milagre ou a magia, que contra­riam a disciplina das leis siderais. Deste modo, nenhum médium ignorante, fantasioso ou anímico transformar-se-á em um instrumento sensato, inteligente e arguto, se não o fizer pelo estudo ou próprio esforço de ascensão espiritual.

Não contrariamos a tese de que é preferível o médium analfabeto, ingênuo e imaginativo, mas dotado de virtudes cristãs sublimes, ao médium intelectivo, culto e desembaraça­do, porém vaidoso, mal intencionado ou interesseiro. Mas é evidente que ainda é melhor o médium humilde, bom e desin­teressado, mas estudioso das obras espíritas e dos bons com­pêndios profanos, que se imuniza contra os automatismos psi­cológicos, as sugestões alheias e as interferências anímicas.

Atualmente o homem não precisa nascer em berço privi­legiado para ser culto, pois as facilidades modernas do livro, da revista e dos métodos pedagógicos através de cursos radio­fônicos ou de correspondência, desmentem os que por displi­cência alegam dificuldade para se educar. Aliás, já nem é pre­ciso enxergar para ler, pois até os cegos já dispõem de vasta biblioteca em “braille”. Alguns médiuns avessos à leitura abandonam-se à fama voluptuosa e cômoda de que são exce­lentes medianeiros, embora analfabetos. No entanto, o certo é que o fazem mais por preguiça e desinteresse do seu progres­so intelectivo e espiritual. Todo ser convocado para contribuir mediunicamente junto à mesa espírita deve se reconhecer uma criatura endividada procedendo à colheita dos frutos espinhosos da sementeira imprudente do passado. Sob tal condição, ela assume graves compromissos para com os seus benfeitores desencarnados, assim como é responsável pela própria renovação moral, intelectiva e espiritual.

O primeiro dever do médium analfabeto ou inculto é justamente o de alfabetizar-se e procurar adquirir cultura, lembrando-se de que o sacrifício inicial, para isso, pode ser uma imposição do seu próprio carma muito gravoso. Não se justifica no seio do Espiritismo o velho e cômodo sistema, muito de gosto de alguns médiuns ou doutrinadores displi­centes, de justificarem a sua ociosidade mental com a esfar­rapada desculpa de possuírem a inata intuição, sensata e certa, de todas as coisas, sem qualquer conhecimento das obras espíritas. Os mais ingênuos ainda acrescentam que o seu vasto conhecimento intuitivo os dispensa atualmente de qualquer novo aprendizado doutrinário, pois é fruto do seu contato com o Espiritismo em vidas anteriores.

Sem dúvida, todos os homens nascem analfabetos, mas todos precisam aprender a ler. Uma vez que as próprias crianças conseguem alfabetizar-se, é evidente que isso ainda será bem mais fácil para os adultos, que já possuem maior desenvolvimento e acuidade mental. Inconscientes do seu ridículo, aqueles que se blasonam de ser iletrados, mas ina­tamente cultos, sentam-se às mesas espíritas e lançam tor­rentes de sandices e exortações prenhes de lugares comuns à conta de brilhante tese filosófica sobre a doutrina espírita.

 

PERGUNTA: — E quais os livros que esses médiuns inci­pientes deveriam compulsar para dominarem a interferência anímica e progredirem no trato das relações com o Além?

RAMATIS: — Não preconizamos que seja necessário ao médium iletrado ou muito anímico tomar-se um gênio ou irrepreensível autodidata, para só então corresponder aos objetivos e à responsabilidade de sua tarefa mediúnica. Mas a verdade inconteste é que boa porcentagem dos médiuns é displicente e cristaliza-se durante vários anos hipnotizada à ala própria ignorância, enquanto confunde os seus concei­tos vulgares com os elevados e inteligentes postulados de savação do próximo. O médium sinceramente devotado à causa espírita procura elevar o seu nível intelectual pelo estudo das obras da doutrina, mas também ausculta-se con­tinuamente para identificar na própria alma as paixões e tri­vialidades que lhe emolduram prejudicialmente as comuni­cações mediúnicas. Só depois de conhecer-se a si mesmo é que ele está em condições de corrigir o próximo.

Certos médiuns justificam a sua alergia à leitura alegan­do a impossibilidade de aquisição de livros de esclarecimen­to científico ou filosófico, porque são excessivamente pobres e trabalham exaustivamente para o sustento da família. Acon­tece, porém, que eles devoram o conteúdo de milhares de revistas improdutivas, folhetins aventurescos, contos policiais ou jornais de esporte. As horas que lhes sobejam nos dias de descanso ou férias eles gastam colados aos rádios ouvindo novelas xaroposas e sentimentalistas, por vezes inconvenien­tes. Os médiuns masculinos perdem longas horas no cafezi­nho da esquina, alimentando a palestra inútil; os médiuns femininos consomem longo tempo em demorados “tête-à­tête” com a vizinha mais próxima, no comentário das histó­rias dramáticas das vizinhas mais distantes.

Como não há regra sem exceção, alguns médiuns, se bem que iletrados e ignorantes dos recursos de sua própria mente, alcançam admiráveis resultados no seu intercâmbio medianímico com o Além. Alguns deles são bastante sensa­tos e servem satisfatoriamente aos desencarnados, pois ele­vam o nível mental dos companheiros pelas transmissões de excelentes roteiros espirituais.

Mas o fenômeno explica-se com facilidade, porque nesse caso trata-se de espíritos experimentados e donos de eleva­do conhecimento filosófico e salutar entendimento psicoló­gico, o que lhes permite transmitir o pensamento dos desen­carnados em nível de compreensão superior. Embora sejam anímicos, são tão utilíssimos para os freqüentadores neófitos como se realmente comunicassem espíritos desencarnados, pois sua memória pregressa é rica de conhecimentos espiri­tuais e aviva-se sob o clima espírita. Mas ainda são poucos os médiuns intuitivos que podem distinguir onde termina a fronteira do seu subconsciente e principia a área da fenome­nologia mediúnica.

Os médiuns, que são criaturas imperfeitas, por vezes caem em contradições flagrantes e desmoralizam o conceito público da mediunidade, principalmente quando copiam, no ambiente espírita, algo das competições do mundo profano. Alguns precipitam-se em dar o furo mediúnico, como acon­tece na competição jornalística, mas o fazem de modo impru­dente, como no caso que citastes em vossa primeira pergun­ta de hoje. Inconscientemente eles carreiam os apodos e as críticas contra a codificação de Allan Kardec, o qual, com muito bom senso, advertiu “que seria melhor rejeitar 99 ver­dades a aceitar uma só mentira na doutrina espírita”.

Através dos recursos do hipnotismo, pode-se implantar uma idéia fixa ou uma ordem incondicional no “sujet” hip­notizado, à qual ele obedece depois de acordado, tal como lhe tenha sido ordenado. Este fato é muito conhecido entre os hipnotizadores pelo “signo sinal”. Do mesmo modo, os que são médiuns, mas facilmente sugestionáveis, também se transformam no “sujet” capaz de viver no transe mediúnico todas as idéias e fantasias que o tenham impressionado for­temente no estado de vigília. Na verdade, eles também são comandados por um “signo sinal” que lhes é imposto pelo próprio subconsciente.

 

PERGUNTA: — Quais os fatores mais responsáveis pela comunicação fantasista, no caso do médium que o faz com boa intenção, certo de que foi intuído ou incorporado por algum espírito desencarnado?

RAMATÍS: — Já vos temos falado do automatismo psi­cológico ou do domínio da personalidade alheia sobre a mente do médium. No entanto, há outro fator de forte influên­cia, que é o histerismo. São as mulheres, principalmente, as maiores vítimas de tal distorção individual, uma vez que podem levar com facilidade o seu estado anormal de excitação ou frustração à conta de faculdade mediúnica em flores­cimento. Os sonhos inalcançados, a excessiva introspecção, as neuroses, as perturbações intelectuais, as convulsões, as manias de grandeza, os exageros e as simulações muito fami­liares na esfera psiquiátrica e na terminologia freudiana, podem ser responsáveis por falsas suposições de mediunida­de. O histerismo, em particular, pode atacar a mulher frustra­da no casamento ou celibatária, acicatando-lhe o psiquismo pela angústia da solidão, fruto da ausência do companheiro predestinado pelas leis biológicas da vida humana.

A conseqüência nevropata, o traumatismo psíquico ou a exaltação incontrolável facilmente confundem-se com as manifestações mediúnicas. Algumas criaturas tentam o tran­se mediúnico sem possuir a sensibilidade exigida para o mesmo. Desse esforço incomum resulta a emersão da baga­gem oculta do subconsciente, capaz de ser confundida tam­bém com a comunicação dos espíritos desencarnados.

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Índice de MEDIUNISMO DE RAMATIS

Ramatis. No campo da mediunidade. Algumas palavras do médium. Preâmbulo. Sobre Hercílio Maes.

CAPÍTULO 1 – Considerações sobre o”Livro dos Médiuns”

CAPITULO 2 – A Mediunidade e o”Consolador” prometido

CAPITULO 3 – Todas as criaturas são médiuns?

CAPITULO 4 – A”prova” da obsessão

CAPITULO 5 – Os trabalhadores ativos no serviço mediúnico

CAPÍTULO 6 – O médium de “mesa” e o de”terreiro”

CAPITULO 7 – Considerações sobre a mediunidade natural e a de prova

CAPITULO 8 – As dificuldades nas comunicações mediúnicas com o Alto

CAPITULO 9 – A extensão e profundidade das comunicações mediúnicas

CAPITULO 10 – O médium anímico-mediúnico e o Intuitivo

CAPITULO 11 – Uma observação individual

CAPITULO 12 – A mediunidade mecânica

CAPITULO 13 – A mediunidade intuitiva e a de incorporação

CAPÍTULO 14 – Mediunidade sonambúlica

CAPITULO 15 – Trabalhos de tiptologia

CAPITULO 16 – As comunicações perversivas pela tiptologia

CAPÍTULO 17 – Considerações sobre a vidência

CAPITULO 18 – Vidência ideoplástica

CAPITULO 19 – Algumas observações sobre o animismo

CAPITULO 20 – O aproveitamento anímico nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 21 – A influência anímica na abertura dos trabalhos mediúnicos

CAPÍTULO 22 – A sugestão e a imaginação nas comunicações mediúnicas

CAPITULO 23 – O espírita e o bom humor

CAPITULO 24 – A telepatia e as comunicações mediúnicas

CAPITULO 25 – O problema da mistificação

CAPITULO 26 – As comunicações dos espíritos sobre tesouros enterrados

CAPITULO 27 – Considerações sobre a castidade por parte dos médiuns

CAPITULO 28 – Aspectos psicológicos das encarnações de apóstolos e líderes do cristianismo

CAPITULO 29 – A função dos guias e as obrigações dos médiuns

CAPITULO 30 – O peditório aos amigos do espaço

CAPITULO 31 – As influências obsessivas sobre os médiuns e suas consequências

CAPÍTULO 32 – Considerações sobre o desenvolvimento mediúnico